sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Raparigas crescidas não choram...

Raparigas crescidas não choram. Já antes da canção, ouvia dizer isso. Não me parece que seja verdade. Tenho chorado bastante. Não é que eu seja muito crescida, mas também não me parece que vá crescer muito mais.
Quando se chora muito, daquele choro em que parece que a alma foge do corpo e se evapora para além de onde a podemos encontrar, quando se chora assim, vem o cansaço, e eu cansei.
Como se costuma dizer, cansei de fazer as festas, deitar os foguetes e ir a correr para apanhar as canas.
Foram muitos anos a amar e cuidar de todos, menos de mim! Muitos e muitos anos a planear almoços diferentes, jantares especiais, festas-surpresa nos aniversários, comemorações obrigatórias do calendário… Perdi a conta aos dias em que me esfalfei a limpar uma casa que ninguém sentia necessidade de ver bonita… Perdi a conta aos momentos que passei a preparar bolos e sobremesas que ninguém queria comer, a embrulhar presentes de anos, de Natal, com papel bonito e fitas de laçarotes, que ninguém estava interessado em desembrulhar…
Foram tantos e tantos anos de esperas intermináveis, de desilusões e contratempos, de planos feitos e desfeitos logo a seguir, de muita mágoa profunda, de chorada tristeza e de uma tão imensa solidão! Inúmeros os dias que começavam e acabavam da mesma forma, sem eu ter conseguido falar com ninguém do mundo de fora, sem ter ao menos visto para lá dos dois palmos do meu quintal! Tantas as alturas em que resumi todo o universo à dimensão da minha casa, e em que guardei todos os sonhos no quarto secreto do meu coração, bem fechados à chave, bem trancados para não saírem cá para fora, nalguma situação inconveniente!
Foram demais as ocasiões em que esperei, angustiada a princípio, conformada depois, olhando para o relógio que não abrandava o ritmo do seu andar. Vendo o passar impiedoso das horas, sozinha no meio do silêncio escuro, sem ninguém a quem telefonar, com quem falar, a quem pedir consolo! Com a horrível sensação de estar abandonada e ignorada por toda a gente! Sozinha sem as cores bonitas do meu sol cor-de-laranja, sem os azuis cristalinos das águas do mar! Sozinha, amarrotada e perdida num cantinho apertado, como um farrapo imprestável na eterna mendicidade de um dia melhor!
Cansei-me de sentir o cheiro enjoativo e repugnante a álcool, o pior, mais odioso e  mais invasivo de todos os cheiros! Cansei-me do toque peganhento dos cigarros, das noitadas sem fim, de todos os outros odores estranhos e desconhecidos… Cansei-me de fingir que tudo estava bem, que no dia seguinte tudo teria passado, cansei-me de aceitar e desculpar, de sofrer e esperar. Sempre em nome de um bem maior, sempre para evitar males piores, sempre com a minha ridícula e estúpida esperança de que tudo se fosse ajeitar! Sempre convencida de que os momentos menos maus, compensavam os momentos piores. Sempre agradecida por ter o que tinha, quando o que estava previsto era não ter tido coisa nenhuma.
E, no entanto, nunca exigi, e nem nunca esperei, nada de muito extraordinário, nada de muito difícil de alcançar… Só queria uma vida normal e sem agitações, contentava-me com o passar dos dias, desde que fosse um passar harmonioso e sossegado. Abdiquei de todos os meus sonhos, de todas as minhas ilusões, de todos os desejos de voar livre. Sufoquei no peito tudo o que me pudesse desviar do comportamento exemplar que estava disposta a adoptar para o resto da minha vida. Dei tudo de graça, sem pensar, nem calcular, como eu sempre tenho a mania terrível de fazer, e joguei alto, muito alto, numa aposta que achava que ia ser capaz de ganhar. E é essa mesma certeza de ter tentado tudo o que havia para tentar, de ter pedido sempre tão pouco, de ter feito sempre e em cada ocasião o melhor que me foi possível fazer, que me enche ainda mais a alma de mágoa e desolação!
Quantas vezes, no silêncio pesado da escuridão da noite, no fim de pagas as contas do dia, engoli o choro e sufoquei os soluços… Quantas noites passei revendo mentalmente o tempo que se tinha passado, buscando aonde tinha errado, qual a altura em que devia ter feito alguma coisa, qual a coisa que tinha feito e não devia, imaginando qual a estratégia a empregar para tentar salvar o novelo emaranhado em que estava a minha vida! Ansiando por respostas, por companhia, por um abraço apertado,  por um ombro aonde chorar, pelo meu amigo do passado, o meu amigo de infância, que nem sequer se deve lembrar mais que eu existo… Dilacerada de angústia, de desespero, perdida na solidão das quatro paredes, com a noção bem nítida, e bem triste, de que lá fora, para mim, tudo o que havia era só mais quantidade de escuro e de vazio.
Estou cada vez mais frente a frente com os fantasmas do passado! A cada dia parece que consigo vislumbrar com muito maior nitidez o vulto familiar da minha mãe gritando, praguejando, e chorando sem parar. A sombra do meu pai, com os seus berros tresloucados, as suas palavras desconexas e sem sentido. A conhecida, familiar e antiga sensação de vergonha. Estou cada vez mais de volta às proibições e limitações das quais pensava que tinha conseguido fugir! Cada vez mais de volta ao mesmo lugar, ao mesmo ponto de partida. Como se a vida fosse um grande circulo, que acaba sempre por se completar, e que nos encerra lá dentro para sempre, por mais tentativas que façamos para fugir, por muito que esperneemos para sair do seu domínio apertado!
E agora que está a chegar aquela altura do ano que é a mais complicada e a mais difícil de aguentar… a altura em que se sente no ar a promessa do Verão, o mesmo Verão que eu tanto amava, e que traz agora a chegada dos meses de clausura obrigatória… Logo agora é que descubro, cada dia mais, que ainda estou viva e que ainda estou por cá! Logo agora é que volto a encontrar prazer nas coisas simples e bonitas, que reaprendo a gostar de sentir o sol na pele e o vento nos cabelos! Agora é que, de uma certa maneira, desvairada e sem sentido nem justificação, começo a ver um pouco para além dos muros e das fronteiras que me têm guardado estes anos todos!
Talvez, e porque não, também eu tenha ainda o direito de sonhar… Quem sabe se as minhas contas com as divindades enfurecidas que me têm regido a vida, não estarão já quitadas? Quem sabe se elas não se esqueceram de mim, ou até se me perderam de vista? É que ainda existem tantas coisas que eu gostava de fazer, tantos sítios aonde gostava de ir, tantas estradas por onde gostava de caminhar! Ainda há tantas viagens que gostava de fazer, e que não fazem sentido nenhum quando se está, assim como eu tenho estado, sozinha!
Talvez na próxima curva do meu caminho… enquanto ainda tenho pernas para caminhar, enquanto ainda tenho sonhos para sonhar… enquanto ainda brilha uma chama pequenina de esperança! Talvez eu salte em andamento na próxima curva, se a velocidade abrandar um pouco, se tiver coragem para saltar, se tiver algum sonho que me faça querer sonhar…

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