sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Sorria sempre

“Aconteça o que acontecer na sua vida, nunca deixe de sorrir. A menina tem um sorriso lindo!” Foi o primeiro elogio que um homem me fez. Eu devia ter uns onze anos, e a minha mãe tinha-me mandado ir á papelaria, comprar um caderno para a escola.
Nunca ninguém me tinha feito uma observação tão bonita e tão sincera. O senhor da papelaria, tinha uma cabeça linda, cheia de cabelos brancos como a neve, e uns olhos azuis simpáticos e bondosos, que faiscavam atentos, por detrás de uns óculos de lentes espessas. Os outros elogios que recebi depois do dele, não eram tão delicados, nem as palavras vinham acompanhadas de uma entoação tão calma e tão pacífica. Mas, esteja aquele senhor aonde estiver, se ainda por cá estiver, gostava muito que ele soubesse que, e embora me tenham acontecido muitas coisas na vida, fiz exactamente como ele me aconselhou. Não parei de sorrir.
Sou uma sorridente por natureza. Sorrio e choro com a mesma facilidade. Mas gosto mais de um bom sorriso! Não é preciso muita coisa para me fazer sorrir. Uma flor mais bonita e delicada, uma paisagem mais encantadora e comovente, o sol cor-de-laranja do meu coração, o mar azul e esverdeado, as montanhas com os seus picos inacessíveis e desafiadores, as brincadeiras inocentes dos animais, uma cor mais alegre e apaixonante, músicas de que gosto, enfim… Coisas que passam despercebidas a quem está comigo, mas que ficam impressas nos olhos, no corpo e na alma, e, que me fazem sorrir, mesmo quando mais ninguém percebe porque estou a sorrir.
Às vezes o meu sorriso é um sorrir de circunstância. Também não faz mal, porque a maioria das pessoas não é capaz de notar qualquer diferença. Há muito tempo que ninguém é capaz de distinguir quando sorrio com vontade de estar contente, ou quando estou a sorrir num convite para me deixarem em paz. E quando sorrio, tudo fica bem. O resto da humanidade, aliviado, deixa-se com agrado convencer de que estou óptima, de que todas as coisas estão exactamente como deveriam estar, e fico sossegada no meu cantinho. Sim, porque, como dizia a minha mãe, “não serve de nada andarmos por aí a contar as nossas mágoas ao mundo”.
Sorrio até quando estou triste. Sorrio porque sorrir me faz bem, me dá força e ânimo. Porque assim consigo acreditar que tudo vai passar, que amanhã tudo vai estar melhor, que depois deste há-de vir um novo dia. Gosto mais de mim quando estou a sorrir. Como se o sorriso fosse uma entidade com vida própria que desce não sei de onde, para me fazer companhia.
Sorrio sozinha muitas vezes. Sorrio, canto e choro sozinha muitas vezes. Se uma aragem mais morna desliza sobre o meu rosto, se uma brisa suave e refrescante se insinua por entre os meus cabelos, se o sol me aquece a pele como um abraço tentador, pronto, lá estou eu a sorrir. Se ouço uma palavra mais querida, se leio um livro que me emociona, se vejo uma fotografia que me faça sonhar de olhos abertos, se escrevo algo de que gosto, mesmo sem saber se a pessoa que eu mais queria vai ler, nessas alturas todas e em muitas outras, sorrio com gosto, com vontade e com prazer.
“Vilbro, essa tua filha vai-te arranjar problemas! Olha só a maneira como ela sorri! Derrete o coração a um homem!”, era um colega do meu pai. Desde pequenita que o meu pai me levava, de vez em quando com ele para o trabalho, para a “Fazenda”, como dizíamos em Moçambique Os colegas dele gostavam muito de mim. Naquele tempo, as pessoas gostavam de mim de graça, sem ser preciso que eu merecesse ou tivesse que fazer por isso… Como é bom ser pequenino... Mas, voltemos á questão do sorriso. “- Não te preocupes. Estou a pensar comprar um cinturão com duas pistolas, daqui a uns anos. Vou tomar bem conta dela. Dou um tiro ao primeiro malandro que se aproximar!”, respondia o meu pai, na brincadeira, porque ás vezes, quando ele era um homem entre homens, gostava de brincar. Mas não tomou. Não tomou conta de mim, nem me protegeu dos malandros que se aproximaram. E, naquela altura, quando ele dizia que ia tomar conta de mim, eu acreditava. Por isso doeu mais. A desilusão dói sempre mais quando é provocada por alguém a quem amamos. E naquela altura, o meu pai era o meu herói mais querido! Tudo isto para explicar que desde pequenita, o sorriso está presente na minha vida, e faz parte intrínseca de mim
Já houve uma ocasião em que chorei e sorri ao mesmo tempo. “- Nunca vi ninguém fazer isto! Mas estás a chorar, ou estás a rir?” Tinha dezoito anos. Estava no hospital. O meu pai tinha descoberto finalmente, ou tinha finalmente desistido de fingir que não sabia, que eu namorava. O meu namorado foi-me visitar ao hospital, descuidado das horas e sem se certificar primeiro se eu estava sozinha, e pronto… fomos desmascarados. As enfermeiras não perceberam a raiva do meu pai, os berros, as ameaças de processar o hospital, os médicos, o mundo inteiro, a saída intempestiva. Eu só chorava, de vergonha, de tristeza, de medo. Chorava, mas sorria. Sabia que aquela era a desculpa de que estava à espera, para arranjar a coragem necessária para me ir embora. Eu sou assim, cobarde e fraca! Aguento até não mais poder. Aguento até quase rebentar de dor. Só se for empurrada, é que me decido a agir. E era aquele “empurrão” que me fazia sorrir, no meio das lágrimas, porque apesar de tudo, sabia que tinha atingido o tal ponto sem retorno.
E assim tenho vindo a atravessar a vida sempre com um sorriso. Um sorriso substitui palavras, desarma os corações, apazigua os conflitos, derrete o gelo da indiferença. Ou, muito mais simplesmente, um sorriso faz-me sentir quase feliz. Então, além de agradecer a alguém o fazer-me sonhar, agradeço-lhe também o fazer-me sorrir. Porque ultimamente tenho sorrido ainda mais do que era habitual, e com mais vontade, e com mais prazer.
É preciso muito pouco para me fazer sorrir. Às vezes basta uma ilusão. E essa ilusão pode encher todo o meu mundo

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