sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 14 de junho de 2011

Tinha-me esquecido de mim

Tinha-me esquecido de mim...
Tinha-me esquecido como era gostoso viver, cada dia, cada hora... Andei estes últimos anos, muitos e imensos últimos anos, tão concentrada nos afazeres rotineiros, em programar, prever, calcular, em gerir e poupar, pagar contas dentro do prazo, limpar e arrumar, cozinhar, tratar e cuidar, que me esqueci completamente da pessoa que sou eu.
Há muito, mas mesmo muito tempo, que não me dava conta da maravilha que é sentir o vento no cabelo, o escaldar do sol na face, o arrepiar do frio na pele... Nem dava conta da beleza do céu quando está azul, ou mesmo quando está nublado, cheio de nuvens rosadas, douradas, até as cinzentas, que também têm a sua beleza peculiar. E eu não via nada disso, e todas as coisas foram passando por mim, através de mim, batendo sem entrar, abalando sem parar... Não me lembrava de que ainda gosto de falar, cantar, dançar, correr, comer gelados até me doer a barriga, rir à gargalhada até me faltar o ar. Ainda gosto de ter amigos, ou simples conhecidos, de conviver e viver apenas, um dia de cada vez, uma hora inteira com todos os  seus sessenta segundos.
Tinha desaprendido de sentir o arrepio da vida no fundo, bem no fundo da alma. Tinha deitado para trás das costas as oportunidades únicas e insubstituíveis que cada dia traz consigo, quando acordamos de manhãzinha e nos pomos a caminho de uma jornada sempre nova, sempre virgem. Já não tinha presente a sensação de que cada dia que começa é como uma viagem nova, uma incógnita que pode ser linda, ou nem por isso tão linda assim, mas que  simplesmente é, e dará lugar a outro dia, outra aventura!
Quando pensava nos meus anos de juventude, julgava que a nostalgia e as saudades se deviam ao tempo que tinha passado, á vida que era outra, ás responsabilidades que eram diferentes. Mas não é tão simples assim! Aquele frenesim no espírito, aquele formigueiro de energia na alma, aquele tremor delicioso no corpo, eram sem dúvida, também porque sentia as coisas com o coração e não com a razão. Antes de pensar, apenas sentia, e antes de pôr de lado, apreciava primeiro, e quando punha de lado, já  tinha vivido e vibrado, e trazia o coração limpo e preparado para recomeçar. Não julgava com preconceitos, nem desistia antes de lutar bastante e espernear ainda mais.
Começo a lembrar-me agora, de como é bom sair á rua, andar mesmo que sem destino, vestir uma roupa mais alegre, soltar os cabelos, ouvir palavras bonitas, espreitar as cabeças a virar, caminhar com aquela música a tocar na cabeça, caminhar como que a dançar, levar todo o mundo dentro de cada passada e todos os desejos dentro do caminhar balançado de uma contra-dança! Como é bom descobrir que depois de tanto tempo, ainda cá estou, no mesmo lugar em que me deixei, à espera das mesmas coisas que costumava esperar, gostando de sonhar os mesmos sonhos que faziam todo o meu sonhar, sorrindo ainda com o meu mesmo sorriso. E como é maravilhoso perceber que não há nenhum mal , mesmo nenhum mal, em ainda ser assim!
Tinha-me esquecido de mim, mas lembrei-me outra vez. E gosto, ah como tanto gosto de me sentir assim!

2 comentários:

  1. Querida Glória,
    Fico contente por saber que, embora por vezes se sinta esmorecer, no fundo ainda mantém o sorriso nos lábios e o prazer de viver e sonhar. Por vezes, só temos que saber tirar prazer das coisas simples e banais que nos acontecem na vida.
    Beijinhos e continue a sorrir e sonhar... (e a escrever assim),
    Cristina

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  2. Olá Cristina,
    Obrigada pelo comentário. É verdade, mantenho o sorriso nos lábios, aliás, sorrir foi quase o único hábito que não perdi nunca. Sorrir faz muito bem à alma! E a Cristina tem toda a razão. Temos que tirar prazer das coisas simples, em vez de estarmos sempre á espera de grandes produções melodramáticas. Mas, ás vezes, falta um não sei o quê, que há-de chegar não sei quando, que há-de ser não sei como...Enfim, palermices minhas.
    Beijinhos, e mais uma vez obrigada
    Glória

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