sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 19 de junho de 2011

Um colega da escola

Quando eu era rapariguinha, estive apaixonada durante quase quatro anos por um colega meu da escola.
Ele era da minha idade, até fazíamos anos no mesmo dia! Aos meus olhos, ele era lindo de encantar! Tinha um feitio calmo e concentrado, um aspecto romântico e reservado que me deixava completamente maravilhada. Fomos da mesma turma nos dois anos do ciclo preparatório, e passámos juntos, se bem que em turmas separadas, para a escola secundária. Sempre nos demos bem, conversávamos bastante, sentávamo-nos juntos muitas vezes na mesma carteira, fazíamos em conjunto comentários engraçados, tínhamos muitos gostos  em comum. Éramos “colegas e amigos”, como se costuma dizer. Talvez ele se interessasse pelo meu ar tímido, sempre mais calada, mais afastada das outras raparigas que viviam em pequenas multidões rindo, gritando, fazendo mil disparates tão próprios das adolescentes. Eu gostava de ficar à parte, não me envolvia em muitas confusões, não me sentia bem no meio de toda aquela agitação desordenada que era o pátio da escola na hora dos recreios. Ele era como eu. Lembro-me que era o único rapaz da turma que não jogava futebol, que não andava ao soco com os outros, que não se interessava pelas listas que elegiam a miúda mais bonita da turma. Muitas vezes ficávamos a olhar para o resto do recreio, que era o nosso mundo na altura, com olhares embasbacados perante aquela efusão em bruto de energia, gritaria, pressa e vontade de viver. Ficávamos sentados juntos, ombro com ombro, aconchegados e acompanhados, exilados num mundo estranho, únicos passageiros da pequenina viagem que era a nossa vida.
Eu nunca lhe disse que gostava dele. Ele também nunca me disse se gostava de mim, ou se me via só como a única amiga possível, dada a situação. A minha mãe ainda era viva na altura, e trazia-me mais vigiada do que é humanamente possível imaginar! Vinha-me pôr e buscar à escola, trazia-me o almoço e esperava comigo que eu almoçasse... Enfim, todo o tipo de “humilhações sociais” que só quem já andou na escola sabe como são difíceis de aguentar! Para cúmulo, até o meu pai costumava aparecer, de vez em quando para me vir buscar, nos dias em que saíamos mais tarde. Ou seja, não tínhamos muito tempo livre para pensar em namoros. Ele ia e vinha para a escola e para casa, sempre sozinho, com os livros debaixo do braço, longe dos outros rapazes da turma, calmo e digno, como se fosse um adulto em tamanho mais pequeno, e isso fazia com que o adorasse mais do que ao próprio ar que respirava.
Na secundária, continuei a gostar dele. Ainda calma e tímida, sempre com uma ou duas “melhores amigas”, como chamávamos na altura. Ele continuou também reservado, isolado no cantinho dele, sem se misturar, sem aderir à nova fase de juventude enlouquecida que atingia todos à nossa volta. Continuávamos a falar, a conversar, a perdermo-nos em olhares longos e silenciosos, que talvez significassem tudo, ou talvez não significassem nada. Olhares meigos e profundos, que mesmo sem saber ao certo o que queriam dizer, eram tudo o que eu tinha na altura. Tudo o que me fazia continuar a querer acordar a cada dia, que me dava a coragem necessária para entrar pelo portão da escola e mergulhar na desorientação ruidosa de um mundo em transformação constante.
Quando a minha mãe morreu, quando ganhei um pouco mais de dolorosa mas bem vinda independência, quando comecei a ser a rainha incontestada das ruas, quando comecei a trazer um namorado novo a cada semana pendurado ao ombro, ele ainda estava por lá, mas eu já o via com outros olhos. Acho que ele também se começou a afastar, a procurar-me menos. Talvez lhe desagradasse a minha nova forma de estar, as minhas novas roupas, talvez receasse algum confronto com os meus namorados da altura, talvez eu tivesse simplesmente perdido o meu lugar de intocável e me mostrasse agora como uma rapariga quase normal, não sei... Sei que aquela magia bonita que tínhamos, aquele amor calmo, silencioso e sossegado, começou a evaporar-se como água exposta ao sol.
Hoje, quando me lembro de nós dois e do nosso tempo juntos, arrependo-me muito de nunca lhe ter dito o quanto gostava dele! Tenho muita pena de não lhe ter explicado claramente, o quanto ele era tudo para mim, numa altura em que não tinha mais ninguém, mais nenhum sonho! Numa altura em que não tinha mais nada a que me agarrar para não afundar na tristeza de uma adolescência desoladora. Aquele amor inocente, puro e tranquilo iluminou-me o caminho durante quase quatro anos. Depois, a partir daí, os outros amores que vieram, nunca se lhe assemelharam. De amor tinham sempre muito pouco, de companheirismo e camaradagem não tinham quase nada. Todos ficaram a perder por comparação, porque nada é mais sublimado do que aquilo que não chegou a acontecer.
Quem sabe se eu lhe tivesse dito simplesmente que o amava… quem sabe se ele realmente também tivesse dito o mesmo, quem sabe se poderiam ter sido diferentes as nossas vidas? Ou talvez não… Mas agora nunca saberei, e essa dúvida do que poderia ter sido, morde-me a alma de vez em quando, como uma pedrinha incómoda dentro do sapato.
De maneira que resolvi que agora, aconteça o que acontecer, prefiro ter a coragem de dizer e enfrentar. Seja a situação em que estiver, se pensar que vale a pena, não vou ter medo de arriscar. Não quero passar mais anos da minha vida a pensar no que deixei de fazer, e a arrepender-me do que poderia ter feito. Até porque já não tenho doze anos, e já não disponho de tanto tempo assim. As oportunidades que agora a vida me dá, têm que ser melhor apreciadas, melhor saboreadas. Aquele “todo o tempo do mundo” que eu tinha, já se encurtou bastante, e eu já estou muito cansada de perder e de deixar passar.

P.S. A propósito, ou talvez não seja a propósito, bem, não interessa… gosto muito de flores, mesmo que sejam em fotografia!

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