sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 28 de junho de 2011

Um sitio parecido com o Paraíso...

Hoje estou triste.
Triste daquela maneira elegante e sossegada, como costumo ficar triste. Triste nos olhos, no corpo, triste no coração. Triste sem incomodar ninguém, sem fazer barulho. Triste sem pedir nada, sem esperança de nada, sem nenhum lugar bonito aonde descansar a alma. Triste sem precisar de parar para chorar, porque se consegue chorar de olhos enxutos, e sem baixar a cabeça porque preciso de continuar a ver o caminho em frente, apesar de não saber aonde esse caminho me leva.
Apesar do sol que brilha radiante lá fora, dos pássaros que cantam por todo o lado nesta tarde tão quente, do céu azul imaculado, da aragem suave que agita as flores do quintal. Apesar de todas as ofertas bonitas que a natureza pôs hoje em frente ao altar dos meus olhos, talvez para me alegrar, talvez para me consolar, ou talvez mesmo sem querer saber que existo. Apesar de tudo estou triste, tão triste!
É em dias assim, que me vem uma vontade louca e quase incontrolável de fugir porta fora. Uma vontade maior do que o universo das minhas obrigações, uma vontade que me manda lutar por ar, que me ordena que não pare de espernear, que trate de me levantar. Uma ânsia selvagem de correr, apanhar o comboio, descer na paragem antiga da minha vida de dantes. Procurar nas mesmas ruas daquela altura, bater as mesmas esquinas, entrar nos mesmos cafés, sentar-me nos mesmos jardins, encostar-me nas mesmas paredes aonde nós parávamos. Vem-me uma vontade louca de sentir os mesmos cheiros, aspirar os mesmos odores. Perguntar pelos fantasmas que ficaram perdidos de mim durante tantos anos. Perguntar aonde estão, para aonde foram, que destino a vida lhes deu. Todos eles, meus companheiros de há tantos anos… Que tinham sempre remédio pronto para todas as minhas tristezas, que tinham sempre uma palavra amiga para me consolar, um ombro amigo aonde eu podia chorar, perto de quem encontrava sempre colo, carinho… Uma vontade doida de cobrar as promessas antigas, de conferir os afectos esquecidos, de me perder entre a loucura desenfreada dum mundo que podia não ter acabado. Como se fosse possível emendar a corda da vida, aonde ela se partiu, dar-lhe um nó sólido e partir daí de novo…
Que fariam eles, amigos antigos, namorados antigos, se eu voltasse como uma Fénix renascida das cinzas, tantos anos depois? Que diriam, como reagiriam, quanto tempo demorariam até alargar a roda para me arranjar espaço, até me abraçarem, até me beijarem, até me fazerem esquecer de tudo no meio de uma orgia de carinho e de loucura? Ou será que já me esqueceram, que já nem se lembram de mim? Pior ainda, que será feito deles? Sei que alguns foram desaparecendo, uns pelo mundo, outros do mundo. As más noticias nunca deixaram de me encontrar, apesar da distância. Sei que muitos dos meus amores antigos daquela altura já não são possíveis de encontrar em lugar nenhum, por muito que eu os queira procurar. Tenho uma mágoa enorme de não me ter despedido, de não ter dito adeus, de não ter guardado pela última vez o olhar de cada um deles, o sorriso malandro de cada um deles... Vim-me embora simplesmente. Num dia estava lá, no mesmo lugar aonde estava todos os dias, e no dia seguinte já não estava. E não voltei mais, nunca mais… Mas, de vez em quando, vem-me uma vontade tão grande, tão avassaladora, tão primitiva de voltar, nem que seja só por um bocadinho… Hoje queria tanto, mas tanto, mas tanto, ouvir de novo as vozes, os risos, até as palavras menos elegantes, as discussões inconsequentes! Sentir de novo aquela sensação de plenitude, de pertencer a algum lugar. Sentir as carícias, os abraços, sentir simplesmente, com o corpo, com o coração, como não sinto há tanto tempo que quase já me esqueci que um dia cheguei a sentir.
Hoje estou triste, tão triste! Tão sozinha e perdida! Queria adormecer e não precisar de acordar mais. Ou então queria fechar os olhos e já não estar aqui, encolhida, miseravelmente sozinha no canto do meu sofá. Queria fechar os olhos e aparecer depois num lugar bonito, calmo, saudável. Um lugar cheio de luz, de cor, de alegria. Com aroma de mil flores a perfumarem o ar, com um oceano imenso de águas cristalinas, com um sol escarlate a aquecer o céu num festival de prazer para os olhos e para os sentidos. Queria não chorar mais, queria parar de sofrer. Queria não continuar assim, sempre a lutar, sempre a tentar, sempre a cair, sempre a ter que me levantar, como um pobre touro espetado até á morte e a quem nem dão a dignidade suprema de parar para morrer em paz.
Será que quando eu morrer, o Paraíso será parecido com o lugar que eu sonho? Ou será que o Paraíso já está perdido para mim? Será que ficou lá atrás, estará lá mais para a frente, ou é simplesmente uma história que contam às criancinhas para que durmam melhor de noite?

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