sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 21 de junho de 2011

"Vamos aquecer o sol"

Há muito tempo, devia eu ter os meus dezasseis, dezassete anos, li “Vamos aquecer o sol”, de José Mauro de Vasconcelos. Já tinha lido a primeira parte, “O meu pé de laranja lima”, e apaixonei-me irremediavelmente pelo personagem  Zézé. O Zézé era um menino amoroso, carinhoso, brincalhão e muito sensível, que via tudo com olhos diferentes do resto das pessoas, que tinha um coração do tamanho do mundo e que, por isso mesmo, sofria demais…
Na segunda parte da história, no “Vamos aquecer o sol”, o Zézé transporta do mundo do cinema para a realidade dos seus sonhos, um pai substituto, que vive dentro da sua imaginação. É ao mesmo tempo pai, amigo, confidente, companheiro inseparável. Este pai imaginário é o seu actor de cinema preferido. Quase poderia jurar que o actor era Maurice Chevalier, mas já se passaram tantos anos desde que li o livro, que não posso garantir que fosse esse mesmo o actor... De qualquer forma, existia mesmo na realidade, a muitos e muitos quilómetros de distância, num outro país, a pessoa que o Zézé, na sua imensa solidão, transformou em seu pai do coração. Passam-se muitos anos, e o menino sonhador transforma-se em homem adulto, já na meia-idade, já muito vivido e cheio de calos da vida. Então, um dia, chega à cidade aonde ele vive, o actor que na infância tinha sido o seu companheiro imaginário. O antigo Zézé, agora um homem feito, agora José, vai a uma entrevista concedida aos jornalistas, pelo seu ídolo da meninice. Aproxima-se dele, aperta-lhe a mão, ao que o actor corresponde naturalmente. E é então que vem a parte mais linda de toda a história: aquele homem, que já tinha vivido e sofrido, lutado, perdido sonhos e esperanças, sentiu, ainda assim, uma enorme tristeza ao aperceber-se que o seu grande amigo, o seu companheiro inseparável, o único amparo que tinha tido em criança, o olhava com indiferença e nem sequer sabia que tinha sido, um dia, seu pai!
Tão, mas tão absolutamente lindo! Ainda hoje me emociono quando penso nesta história! Acontece-me sempre chorar quando penso que, por vezes, construímos uma imagem de certas pessoas, que nada tem a ver com o que elas são na realidade. Mas o nosso querer é tanto, a nossa ilusão é tão poderosa, ou talvez seja a nossa solidão que é tão imensa, que dentro do nosso coração começamos a acreditar que a pessoa é de facto como a sonhamos. E, se um dia, temos a oportunidade, como o Zézé teve, de encontrar a tal pessoa cara a cara, damos por nós desiludidos, tristes, espantados de a realidade não corresponder ao que sonhámos. Magoados por aquela pessoa tão especial, tão querida, não nos dar a mínima importância e não nos distinguir do resto de todos os outros comuns mortais. E, mais espantoso ainda, contra todas as leis da lógica e do bom senso, temos a esperança secreta, embora não o consigamos admitir, de que a pessoa em questão olhe para nós e nos reconheça!
Já há muito tempo que não me envolvia numa situação parecida. Claro, quando era criança tive, como se calhar quase todas as miúdas têm, os meus amigos invisíveis, os heróis de banda desenhada, os cantores, os artistas que eu encarnava nas minhas brincadeiras, com quem sonhava á noite, com quem conversava, a quem fazia perguntas… mas, em adulta, isso não me tinha voltado a acontecer. Comecei a tratar dos meus afectos, e das minhas relações sentimentais, numa base que nada tinha a ver com idealismos, nem utopias. Pensava que estava já imune a essa magia de associação de ideias, de transferência de realidades, de abracadabras das mil e uma noites de encantar. Considerava-me crescida demais para me voltar a perder numa história de faz-de-conta. Tinha a certeza absoluta de que as fantasias, as ilusões que adoçaram a minha triste meninice, eram já parte definitiva do passado.
Mas, porém, de há uns tempos para cá, comecei, sem dar conta a princípio, sem atribuir muita credibilidade, sem querer dar demasiada importância, a perder-me no mundo dos sonhos, de novo. Muito provavelmente, a fantasia aos quarenta e quatro anos, já não merece tanta desculpa, nem se justifica tão facilmente, como aos dez anos. Mas, ainda assim, é a fantasia que me tem impelido a ter esperança, nestes últimos dias. É essa ideia, essa ilusão, que tem feito com que a vida valha a pena de novo. Como se tivesse encontrado um pedacinho de mim, há muito tempo perdido e por isso, agora mais apreciado.
Há uma parte de mim, a parte mais lúcida e racional, aquela que me fala com voz grossa, que me faz ver melhor as coisas quando a vista se me turva, que diz claramente para parar com as maluquices, para pôr os pés no chão, para não me iludir, nem fantasiar. Mas também há a outra parte, aquela que sou mais eu, aquela parte de mim de que eu mais gosto, com quem mais me identifico, a que me tem acompanhado sempre desde menininha, que me segreda ao ouvido que um sonho tolo, infundado e infantil é, ainda assim, melhor do que não ter sonho nenhum.
Que mal faz se um dia acordar? Que importância tem se vier a descobrir que o meu tal sonho não passa de um castelo de areia, sem fundamento, nem alicerces para se levantar e sustentar? Mesmo que isso aconteça, como é o mais certo que venha a acontecer, pelo menos já terei passado algum tempo mais feliz! Pelo menos, os meus dias terão ganho mais cor, mais beleza e alegria! E ainda que doa, ainda que sinta o peito estalar de tristeza depois, vai sempre valer a pena ter voltado a voar de novo!

Vou ficar para sempre reconhecida, e humildemente agradecida a quem, mesmo sem o saber, ou sequer imaginar, me deu outra vez a faculdade de cruzar os céus, de ver horizontes sem fim, de me confundir com todas as cores mais lindas do mundo, de mergulhar nas águas mais límpidas e me deitar ao sol na areia das praias mais tentadoras. Porque havia uma parte de mim que estava adormecida, uma parte de mim que eu nem sequer sabia que ainda existia e que agora, de repente, por encanto e por magia, voltou de novo!
Obrigada pois, a quem me faz sonhar.

4 comentários:

  1. Obrigado por mais este bonito texto, Glória.
    Fiquei ainda mais curioso para ler :)

    Só hoje descobri que o "Meu Pé de Laranja Lima" foi o primeiro volume (e "Vamos Aquecer o Sol" o segundo) da autobiografia em 4 volumes de José Mauro de Vasconcelos.

    E sim, a sua memória não falhou, era mesmo Maurice Chevalier :)
    http://pt.scribd.com/doc/108506442/Vamos-aquecer-o-sol-Jose-Mauro-de-Vasconcelos

    Tudo de bom.

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    1. Olá, Ricardo
      Obrigada pelo seu comentário. E obrigada pelo link também! É uma obra que ainda hoje releio com muito prazer. Não sabia que tinham sido escritos mais outros dois volumes desta autobiografia. Se puder, Ricardo, diga-me por aqui os nomes dos dois outros volumes... Ia adorar lê-los. José Mauro de Vasconcelos é uma delicia de escritor.
      Aqui há umas semanas atrás reli o "Vamos aquecer o sol", e sim, verifiquei que não me tinha enganado. Era Maurice Chevalier:) Há histórias assim, a gente guarda-as no coração pelos anos fora.
      Um beijinho para si, tudo de bom, e mais uma vez, obrigada

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  2. Glória, a sequência de 4 volumes é:
    1 - "Meu Pé de Laranja Lima", infância em Bangu
    2 - "Vamos Aquecer o Sol", mudança para Natal
    3 - "O Doidão", adolescência
    4 - "Confissões do Frei Abóbora", vida adulta

    Tudo de bom :)

    Fonte: Fala Bangu / Wikipédia
    http://www.banguonline.com.br/index.php/entretenimento/cultura/item/185-jos%C3%A9-mauro-de-vasconcelos

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    1. Olá, Ricardo. Desculpe a demora na resposta, já lá vai quase um ano. mas só agora dei pelo seu comentário.
      Obrigada pela dica. Não sabia que tinham havido mais dois volumes depois do "Vamos aquecer o sol" e vou tratar de os procurar. Beijinhos!

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