sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 31 de julho de 2011

Boas Férias!

Boas férias!
Parece que toda a gente está a ir de férias numa alegre debandada… Parece que as ruas vão ficar vazias de pessoas, os serviços todos vão fechar as portas, tudo vai parar no tempo e no espaço durante um mês inteirinho. Todos os anos é a mesma coisa. Em Agosto, o mundo pára.
Também queria ir de férias! Pelo menos este ano. Também queria fazer parte da alegre comitiva que parte em busca de sossego, longe noutras paragens. Queria dizer adeus a tudo o que ficasse para trás, a todos os que ficassem para trás, fazer as malas, e partir.
Não sei muito bem para onde. Para quê saber aonde ir? Gosto muito mais de ir à aventura, sem mapa, sem carta de estradas, sem GPS. Se me perder, tanto melhor. No fim de perdida, posso parar de me preocupar em saber se ainda estou na estrada certa, ou se já me desviei do caminho, no fim de perdida posso ir para onde me apetecer, sem noção, sem culpa, afinal uma pessoa perdida não sabe o que faz, pode andar em círculos horas a fio, que não faz mal, está perdida. Não sei quanto tempo ia querer ficar longe, de quanto tempo precisaria para descansar os olhos, repousar a mente. Nem sei se quereria um dia voltar. É sempre um perigo ir para sítios muito melhores, podemos gostar tanto, que já não queiramos voltar mais. Talvez seja por isso que os carcereiros não abrem as portas das celas muitas vezes, as saídas são precárias, controladas ao minuto. Mas é um perigo tão bom de sentir! Tão delicioso! E apetecia-me muito ir de férias.
Não precisava de ser para um lugar muito elaborado, nem muito distante, nem muito conhecido. Só me apetecia descansar um bocadinho, antes de continuar a seguir em frente como sempre faço. Apetecia-me só respirar um pouco de ar novo, diferente. Ver outros céus, outros mares, outros mundos sem tantas fronteiras, sem tantas complicações, sem tantas cobranças, sem tantas imposições. Mesmo que fossem os céus daqui, mesmo que fossem os mares daqui, mas poder olhá-los de forma diferente, doutro lugar, com outra perspectiva. O lugar de onde se vêem as coisas pode mudar muito aquilo que se vê, não pode? Já vi fotografias lindas em que isso acontece. Acredito que sim. Estou a precisar de dirigir um novo olhar às coisas da minha vida. Fugir delas se realmente forem tão tristes como parecem cada vez mais ser. Fugir para longe e não ter que voltar jamais.
Se fosse de férias levava a minha mochila, ainda tenho uma grande, iguais ás da tropa, de lona, do tempo em que sonhava sair pelas estradas fora. Tive um amigo que fazia muito isso, apanhei esse sonho com ele, do mundo dos sonhos dele. Chamava-se Jacob. Infelizmente o meu amigo resolveu que viver não valia a pena, e desistiu das suas caminhadas, de todas as caminhadas do mundo, definitiva e absolutamente. Deixou-me muito boas recordações, e muita alegria no coração, sempre que me lembro dele! Nunca conheci ninguém como o Jacob! Enfiava os pertences obrigatórios na mochila, metia-se à estrada, e ia de boleia pelo mundo. Quando ele me contava por onde tinha andado, as pessoas que tinha conhecido, o que tinha visto, eu ficava de boca aberta! Parecia tudo tão bom, tão fácil, tão bonito! Sem dinheiro, sem planos, sem dia de voltar. “-Para a próxima, levo-te comigo. Pomos o pé na estrada, ninguém nos agarra mais. É tudo nosso. Queres?” Claro que queria, e como queria! Quem não ia querer de certeza, era o meu pai… Mas depois ele contava-me por onde tinha andado. Costumava trazer-me uma lembrança dos sítios, das passagens. Nada de caixinhas, de pratinhos, ou de bonequinhos. Trazia-me papéis de embrulhar rebuçados, capas de revistas, caixas de fósforos, folhas de jornais. E eu gostava tanto! Testemunhos da vida noutros lugares, noutros sítios… Foi uma pena que tenha resolvido viajar para um sítio aonde eu não o pude acompanhar, e foi uma pena que não se tenha despedido de mim. Mas também se se tivesse despedido, eu não o deixava ir. Agarrava-me a ele como uma lapa ao rochedo e sempre queria ver como é que ele fazia para se atirar para baixo do comboio. Jacob… fica em paz amigo. Bolas, desde que o meu amigo hippie se foi, nunca mais ninguém me convidou para ir pela estrada fora, de mochila às costas, sem planos, sem dinheiro, livre de obrigações e de calendários! Há muito e muito tempo aliás, ninguém me faz uma proposta daquelas irrecusáveis, indecentes de tão tentadoras… O mundo está a ficar um lugar um bocadinho menos interessante do que costumava ser. Perderam-se os aventureiros, os caminhantes solitários, os cavaleiros errantes, ou ainda estão por aí e eu não tenho tido a sorte de me deparar com nenhum? A minha irmã costuma dizer que apesar da minha falta de juízo, eu tenho tanta sorte, que até as tentações passam longe de mim, se não tudo seria bem pior. Bem, ela também não precisa de saber de todas as outras tentações, que passam bem mais perto, e que fazem com que tudo seja bem melhor... Ninguém precisa de saber mais de mim, do que aquilo que eu esteja disposta a contar.
Se fosse de férias pegava ma minha mochila velhinha, enfiava lá para dentro meia dúzia de coisas indispensáveis, e lá ia eu. Sem relógio, sem nada que me prendesse ao que ficava cá. Escolhia um caminho bonito, que me parecesse convidativo e deixava-me levar pelo que me apetecesse. Seguia pelas curvas do caminho, subia e descia todas as encostas que aparecessem, parava de vez em quando para descansar e seguia em frente.
Á noite podia parar e ver as estrelas todas do céu. Sem ninguém para me mandar entrar, para me dizer que está frio, para me fazer ver que só as crianças olham de noite para as estrelas e pedem um desejo. Podia mesmo fazer isso, pedir um desejo à primeira estrela que aparecesse no céu! Há que tempo não faço, tão simples, tão bonito! Quem sabe se não é por ter parado de pedir desejos à primeira estrela, que o meu mundo começou a ficar mais sem encanto, sem magia? Podia ficar sentada, apenas sentada a ver o céu. A lua tão linda, cheia de mistérios e de segredos pálidos! Os pássaros sombrios e esquivos da noite a piarem as suas melodias diferentes das dos pássaros do dia, mas tão especiais, tão encantadoras! Quem precisa da varanda de um hotel, da esplanada de um restaurante? Quem precisa de pagar para poder ver a noite? A noite, profunda, sedosa e impenetrável, vê-se muito melhor, sente-se muito melhor, abraça-nos com muito mais intimidade, quando se está sentado no chão, encostado a uma árvore, com todo o espaço do mundo só para nós. A noite, como todas as coisas verdadeiramente bonitas do nosso mundo, dá-se de graça. E de graça as devemos tomar. Pagar para poder apreciar a beleza de uma linda noite de Verão, por detrás da bancada luxuosa de algum pavilhão da moda, tira a beleza e a poesia. Pelo menos para mim.
Se fosse de férias podia dormir aonde muito bem me apetecesse. Por debaixo da primeira árvore mais desviada da estrada, mais acolhedora, com raízes fortes para me encaixar entre elas, com flores silvestres para me fazerem de almofada. Não tenho medo nenhum de aranhas, nem de formigas, nem de nenhum bichinho desses que andam pelo campo e pelas terras fora. Eles não me fazem mal, e eu não lhes faço mal a eles. Temos esse pacto desde Moçambique, aonde as aranhas eram do tamanho da palma da mão do meu pai, as formigas eram muito maiores e mais vorazes do que as de cá, e eu era a única lá de casa que não tinha medo de nenhuma delas. A minha mãe e a minha irmã fugiam aos gritos para cima dos sofás, ao primeiro insecto grande que vissem dentro de casa. Eu nunca tive medo deles. Para quê? Se realmente nos quisessem fazer mal, faziam-no muito antes de darmos pela sua presença. Acho que nenhuma criatura animal, sem ser o homem, faz mal gratuitamente, só pelo prazer de fazer. Então, se não me meter com as aranhas, as formigas, e outra bicharada parecida, acredito que eles me deixassem dormir sossegada no meu cantinho, confortavelmente aninhada em baixo da árvore das minhas férias. Podia dormir cada noite num lugar diferente, conforme me fosse apetecendo andar, ou não. Podia até nem dormir! Olha que maravilha! Não ter que dormir, só porque são horas de dormir. Não ter que dormir porque está programado que se durma! Que beleza! Isso mesmo, podia até nem dormir! Passar a noite inteira a sonhar, a ouvir os ruídos da natureza à minha volta, sem medo, sem culpa, sem sono. Livre para fazer o que muito bem me apetecesse. Pois é, começo a perceber melhor porque é que tanta gente tem assim tanta pressa em ir de férias. Fugir às obrigações, deve ser muito bom! A começar pela obrigação de ter que dormir todas as noites, mesmo quando não se tem sono.
De dia podia ver o sol a nascer. Podia ver o céu a ficar vermelho, dourado, rosado, as trevas a irem embora devagarinho, com preguiça, e o astro rei a acordar. Adoro o sol! Adoro o céu e as diferentes cores que toma, as nuvens que nunca são iguais e que se desmancham mais depressa do que o vento que sopra no ar! Adoro ver coisas bonitas, cores, terra, flores! A beleza selvagem da vida, é muito mais afrodisíaca do que muitos dos beijos que já recebi, do que muitos dos abraços que já me deram. Já consegui sentir muito mais prazer vendo um nascer de sol, um por de sol, num daqueles dias em que o céu ganha vida e cor própria, do que senti muitas vezes noutras situações mais propícias a sentir prazer. Claro que estas coisas não se podem dizer, muito menos a quem divide a nossa cama. Mas eu funciono um pouco diferentemente das outras mulheres, acho eu. Pela estranheza com que sempre têm encarado as minhas fantasias, diria mesmo que funciono de forma diferente de praticamente toda a gente. Um beijo, um abraço, uma carícia para serem verdadeiramente excitantes para mim, têm que ser muito mais do que apenas gestos, melhor ou pior ensaiados. Têm que ter a mesma beleza do sol a nascer, têm que ter a mesma suavidade do vento a soprar nos campos de trigo, têm que ter a mesma magia das estrelas a piscarem no céu da noite. É pedir de mais de um homem, não é? Claro que é! Por isso é que ainda não encontrei o tal homem que seja homem e natureza num só, carne e estrelas, abraço e vento, beijo e sol escaldante de um dia de Verão. E não é que eu seja como a poetiza, que queria o amor de um deus e por isso não se contentava com o amor de um homem. Eu quero o amor de um homem, com toda a magia da obra de Deus. Não quero beijar apenas uma boca e sentir apenas uma boca, quero beijar e ser beijada por toda uma correnteza de beleza, de vida, de alegria. Tudo o que há por aí, sem ser preciso procurar muito, em cada floresta, em cada jardim, em cada recanto de montanha. Magia, serenidade, encanto, calor, energia. Prazer em estar viva, um prazer muito maior, muito mais forte, muito mais duradouro do que o prazer que já experimentei nos braços de qualquer dos homens com quem já estive.
Ia seguindo pelos caminhos bonitos que fossem surgindo. Desviava-me dos perigos dos quais me apetecesse desviar, aceitava os riscos que me apetecessem aceitar. Bebia água dos rios e das fontes que aparecessem no meu andar. Se eu fosse de férias com a minha mochila às costas, havia de me divertir bastante! Como há muito não me divirto! Podia rir quando tivesse vontade, cantar quando me desse na real gana. Sem ninguém para controlar o volume do meu som, sem ninguém para me lembrar das boas maneiras, das conveniências, dos bons costumes. Podia esquecer a hora do almoço! Ah, que bom não ter que fazer almoço! Nem ter que fazer jantar! Nem ter que me preocupar em fazer compras, em lavar a louça, em arrumar a cozinha! Tão bom! Que maravilha! Esquecer os horários, as obrigações, o relógio, a televisão, a casa toda com os seus muros à volta, as suas janelas e as suas portas. Esquecer que o cão tem que comer, que as flores têm que ser regadas, que o carro tem que ir á oficina, esquecer a altura de entregar os impostos, o dinheiro para pagar as contas… Esquecer tudo e todos, que bom! Férias, quem me dera poder ter! Quem me dera poder ir também! Como todas as pessoas que estão agora a fazer as malas, a fechar as portas, a entrar nos carros…
Não era preciso marcações de hotel, reserva de bilhetes, plano de férias, dinheiro, não era preciso nada de nada. Bastava a minha mochila velhinha de lona, algumas coisas indispensáveis, e fome de liberdade no coração. Depois, todas as ruas eram minhas e todos os destinos podiam ser o meu destino. Quem precisa de dinheiro para fazer isso? Quem precisa de mais alguma coisa que não seja o mundo lindo lá fora, uma promessa de aventura no ar e todo o tempo da vida para si?
Eu não preciso de mais nada. Por mim, podia ir já hoje. Como todas as pessoas estão a ir agora.
Para todos os que vão: Boas Férias! Para os que ficam, como eu: Paciência, talvez para o ano… E o mundo também não acaba em Agosto! Ás vezes quem vai de férias, fora do mês principal do Verão, até tem direito a alguns dias extras para gozar noutra altura que lhe apeteça…

sábado, 30 de julho de 2011

Saudades... só se for daquelas que fazem sorrir

Saudades…
Há quem viva cheio de saudades, de recordações, com o espírito, e os olhos, perdidos no que já ficou lá para trás no tempo. Há quem se consuma na nostalgia do que já foi, do que já passou. Há quem esteja tão acostumado a ter saudades, que não saiba já viver de outra maneira, e confunda saudades com a única possibilidade de voltar a ser feliz.
Eu não. Não sou dada a saudades dessas que fazem doer, que aprisionam, que escravizam, que fazem chorar, que embaçam a alegria que o presente sempre pode ter, como se fossem um véu espesso de nevoeiro a encobrir a luz do sol.
Não sou diferente das outras pessoas. Também sinto de vez em quando, de quando em vez, nostalgia de alguma coisa em especial, de alguém, de alguma situação. Afinal já foram tantas as coisas, as pessoas e as situações que passaram pela minha vida e saíram e se perderam ou transformaram, umas para não mais voltarem, outras apenas por uns tempos, outras simplesmente que já não existem mais. Não tenho coração de ferro, nem sou insensível, antes pelo contrário, sou bastante emotiva e sentimental, só não sou muito saudosista. Nem deixo que o passado mexa muito com a minha vida. De forma nenhuma permito ao que já se foi, que continue a comandar as minhas acções, como se tivesse ainda algum poder sobre o que decido ou faço. Não gosto de fantasmas, nem da sua convivência, nem mesmo quando são fantasmas bonzinhos e pacíficos.
Gostava, claro que gostava, de voltar a certos lugares, aonde fui feliz! Como por exemplo, voltar á minha terra linda das acácias vermelhas em flor, subir outra vez no elevador castanho do meu prédio antigo, o barra de sabão, entrar de novo no meu 4º andar esquerdo, ver as salas grandes e arejadas, os quartos cheios de luz, as varandas aonde a minha mãe tinha vasos de flores e aonde nós, as miúdas, tínhamos os triciclos e os carrinhos de pedais arrumados, a cozinha de todos os banquetes, de todas as patuscadas, até a casa de banho para aonde o meu pai nos mandava fugir quando começavam os tiroteios e que tinha azulejos pequeninos azuis da cor do mar, nunca mais vi azulejos como aqueles!… Adorava poder voltar a passar perto da Fazenda, aonde o meu pai trabalhou durante décadas e aonde estavam os meus primeiros admiradores, que me davam rebuçados, caramelos, bolinhas doces, que me pegavam ao colo e me sentavam nas secretárias deles, por entre montes de papeis por preencher e no meio do ruído tão querido e tão familiar das máquinas de escrever. Devo de ter aprendido a gostar de ser mimada, cortejada e admirada ali, com eles, sentindo-me a princesinha do coração de todos aqueles homens importantes que eu conhecia desde sempre e que satisfaziam todas as minhas vontades infantis. Os amigos lá de casa, os colegas do meu pai, todos de fato e gravata, todos corteses, simpáticos… todos desaparecidos no furacão da vida. Tantos que eram! Para onde terão ido? O que terá sido feito deles? Gostava de subir de novo aquelas escadarias enormes, claras e brilhantes da Fazenda, atravessar, como quando era pequenina e era dia de ir “trabalhar” com o meu pai, aqueles corredores espaçosos, de tecto alto, que faziam eco quando nós caminhávamos, cheios de portas de ambos os lados, cheios de rostos conhecidos, sorridentes e amigos!… Também era tão bom entrar de novo no Scala, ou no Continental, pedir como dantes um gelado de chocolate na taça, um bolo com muito creme escolhido do balcão e beber uma Coca-Cola para acompanhar! Ou ir passear no Jardim Vasco da Gama, que já não se chama assim mas não faz mal nenhum que tenha mudado de nome, porque um nome é só uma palavra, e o que importa é que ele está lá na mesma. Ir ver como está o lago grande dos patinhos, a estufa das plantas e das flores, as árvores frondosas, toda aquela beleza sem fim… Então não gostava? Claro que sim. Mas não vivo obcecada com isso. Não choro, nem fico triste de cada vez que me lembro de lá. Não me enfureço porque as coisas mudaram, têm outros nomes, outros aspectos, não acho mal terem havido mudanças, alterações, modificações. Cada um faz da sua terra o que bem lhe apetece, não é verdade? E nós viemos embora, perdemos o direito de opinar. É o progresso, é a vida a acontecer todos os dias. E as coisas não têm que ficar sempre paradas no tempo, para quem se lembra delas poder recordá-las quando quiser. Tive tantas vezes estas discussões com o meu pai! Ele nunca se recompôs de ter saído de Moçambique, de ter passado os últimos anos de vida dele longe de casa. Deixou-se consumir pelas saudades e pela tristeza, pelo ressentimento e pela mágoa. Eu não sou nada assim. Só quero sentir saudades que me façam bem à alma, que me alegrem e me deixem feliz. Saudades que fazem chorar, não são de forma nenhuma, as minhas preferidas, não as evoco nem as desejo. E acho um desperdício estragar recordações de passagens da vida, que foram tão bonitas e tão cheias de encanto, misturando-lhes lágrimas, e tristezas.
Saudades de pessoas, também tenho algumas. Saudades naturais de quem já se foi, do meu pai, da minha mãe, tios, tias, enfim… saudades das coisas boas que vivi com cada um deles, dos momentos bons, bonitos, alegres. Saudades que deixam um rasto de felicidade ao lembrar. Lembranças que não fazem chorar, que não magoam. Saudades escolhidas entre as recordações. Recordações que não são para lembrar, podem continuar aonde estão, a ganhar pó, bem arrumadas e muito bem empacotadas no canto do grande salão que é a minha memória. Cá para fora, só têm autorização de sair as boas partes da vida. Como diz a canção “já foram lágrimas demais”, e não vou desperdiçar o meu tempo a carpir mágoas que não se podem remediar, nem tão pouco alterar.
Vontade de rever outras pessoas, com certeza que tenho. Não sei se sé saudade, ou se é apenas vontade de ver outra vez. Amigas e amigos antigos, colegas do tempo da escola, da rua aonde vivia em miúda, antigos colegas dos lugares aonde trabalhei, antigos namorados, antigos amores, antigos pedaços de vida que ficaram espalhados em tantos lugares, em tantos sítios diferentes! Mais do que rever, vontade de falar com, de estar ao pé, de olhar bem nos rostos, de poder levar recordações comigo. Os olhos de um, o sorriso de outro, a maneira de falar divertida daquele, a postura desembaraçada daquele outro. O beijo, o abraço, o toque de todos os que me fizeram feliz, durante um certo tempo, e que hoje me continuam a fazer feliz sempre que me lembro deles e da sorte que tive em os encontrar. Não sei porque é que certas pessoas quando terminam um namoro, uma relação, um casamento, seja lá o que for, acham impossível continuarem a ser amigos da outra pessoa. Desde que tudo tenha terminado dentro do que é normal acontecer, porque não? Acho muito estranho ficar indiferente a uma pessoa a quem já amei. Fiquei amiga de quase todos os meus namorados mais importantes. Perdi-me, ou fiz por me perder de alguns, não porque estivesse zangada com eles, ou porque tivessem deixado de me fazer falta , mas porque foi melhor assim para prevenir males maiores. Existem tentações tão fortes, que quanto mais longe estivermos delas, melhor. Mas da maioria deles, dos meus amores antigos, continuei amiga. Se os encontrar na rua, seja aonde for, falo-lhes com o mesmo à-vontade de dantes, com a mesma alegria. Se me telefonam, atendo-lhes o telefone com a mesma naturalidade com que o faço a qualquer uma das minhas amigas. Saudades do tempo que passei com eles, da juventude que repartimos, da liberdade sem fim que marcou os nossos anos juntos, tenho claro. Mas são saudades boas, daquelas que parecem uma aragem de Verão a passar sobre a pele, que fazem sorrir, que fazem sonhar. Nem me imagino a ter saudades de alguém que me pusesse triste, ou a ficar triste por me lembrar de alguém que me fez sentir feliz.
São saudades assim que gosto de sentir, que gosto de ter. Saudades que arrepiam de prazer, que parecem um contacto físico, e que fazem passar sobre a alma uma luz de poesia, de beleza. Saudades que fazem sorrir. Boas demais! Lindas demais! Gosto muito de as sentir!
Saudades do tempo em que o céu era mesmo azul. O sol era todos os dias cor-de-laranja. O Verão era sempre uma promessa a descobrir em cada dia. As ruas eram convites doces para percorrer. Mas sem choros, sem lágrimas. Para quê chorar? Foram tempos tão maravilhosos, tão mágicos! Porque já não voltam? Quem disse que não voltam? Não voltam os mesmos dias exactamente iguais aos que já passaram, nem voltam as mesmas pessoas da mesma forma como as conheci, mas isso não quer dizer que não volte a sentir todas as coisas bonitas que sentia naquela altura. E isso é que é importante! O que se sente, o que nos faz felizes! Não as ruas, não as cidades, não os países, nem sequer as pessoas com quem estivemos. O conjunto de tudo, é que foi bom, o que sentimos é que foi bom! Os países mudam de nome, de governo, de políticas, as ruas são alteradas, acrescentadas, desfiguradas, as casas são demolidas, restauradas, os jardins são deitados abaixo, ampliados, reformulados, as pessoas ganham novos interesses e mudam junto com eles, as pessoas podem esquecer-nos ou trocar-nos por novos amores, novas amizades. Tudo passa e se transforma, para quê sofrer com saudades de coisas que não estiveram nunca na nossa mão conservar? Não temos culpa nenhuma de que as coisas mudem, se alterem, desapareçam. É assim que tem que ser. É assim que é desde os princípios dos tempos, e é assim que será até ao fim dos mesmos.
O que podemos é sentir de novo os mesmos sentimentos que sentíamos nas alturas mais felizes das nossas vidas. Noutros lugares, noutras idades, noutras situações, com outras pessoas. Não preciso chorar de saudades quando me lembro como era bonita a minha casa em Moçambique, nem em como parecíamos todos tão mais felizes lá do que cá, nem como tudo o que era julgávamos nosso e para sempre desapareceu de um dia para o outro. Posso antes e é muito melhor e mais saboroso, empenhar-me para conseguir ter aqui, que é a minha casa agora, e casa, para mim, é o sítio aonde penduro o chapéu, uma vida alegre, feliz, rodeada de pessoas amigas. Sem tantos bens materiais como lá, até porque aprendi que as coisas de que nos rodeamos não têm nenhum valor, desaparecem, são-nos tiradas, partem-se, ficam pelo caminho, mas cheia de sentimentos bonitos, cheia de amizade e de amor. Não é muito melhor assim, do que chorar e sofrer com saudades? Eu acho que sim!
Não preciso sentir saudades das que fazem doer, de cada vez que me lembrar de como era bom beijar, abraçar, estar com algum dos meus amores, daqueles que me faziam sentir nas nuvens, muito mais do que os outros. Para quê? Claro que foi bom, claro que é muito agradável recordar, claro que continua a saber bem lembrar, imaginar. Mas eu acho muito melhor, muito mais delicioso ter um amor novo que me faça sentir toda aquela magia outra vez. Ter alguém que me queira, que me deseje, que me faça estremecer de paixão agora, não trazer uma sombra de outros tempos embrulhado em saudades. As saudades não me consolam, não me beijam, não me fazem enlouquecer, não se deitam ao meu lado na cama. Não têm mãos, não têm braços, não têm corpo. Não posso abraçar uma saudade, não me posso deixar levar devagarinho e com carinho por uma saudade. Mas posso sentir as mãos de alguém presente agora, posso vibrar de prazer agora, e é muito melhor do que lembrar como foi o prazer do passado. Claro, se o agora não for tão inconsistente difuso com o são as saudades. Se o agora for mesmo de verdade, e não uma ilusão momentânea dos sentidos. Se o amor que tenho agora, me achar tão importante e tão querida como eu o acho a ele. Caso isso aconteça, então não é muito melhor o amor que se tem, do que aquele que já se teve?
Não sou mulher de muitas saudades. Não me dou muito bem com a tristeza que as saudades provocam. Não me seduz, nem me atrai a ideia de que o passado foi maravilhoso e que por isso se tem que viver nele a toda a hora. Gosto muito mais das coisas bonitas que vou descobrindo a cada dia que passa. Cada dia é uma novidade. Sei sempre como começa, mas nunca sei que coisas boas me vão acontecer durante todo o tempo em que vai demorar a acabar. Espero sempre alegria, felicidade, de forma simples, sem grandes complicações, sem grandes dramas. Aproveito o melhor que posso e o melhor que sei as coisas lindas que a vida tem a gentileza de continuar a colocar no meu caminho.
Saudades… deixo-as para os poetas. Eu sou só uma romântica sonhadora de sonhos sem fim. E sonhar, posso fazê-lo sempre que tenha vontade. Os sonhos do passado, já estão muito distantes pata me preocupar com eles. Se os sonhos que tenho agora não forem bons de sonhar por muito tempo, nem sequer vão figurar na minha lista de recordações bonitas. Vão ficar empacotados, a ganhar pó, junto das outras lembranças mais tristes e mais sombrias. Outros melhores virão. 

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sou assim, amo a ideia de haver amor

Eu sou assim! Complicada, difícil de aturar, rabugenta às vezes. Exigente, teimosa, insegura, birrenta, instável. Assusto-me com facilidade, choro muitas vezes, fico triste, confusa, preciso de colo, de conforto, de carinho. Sinto-me muitas vezes perdida, sem rumo, sem norte. Encosto-me à parede e vou descendo devagarinho, para ficar encolhida no meu canto e desejar que ninguém me veja antes de a dor passar.
Eu sou assim. Falo e digo coisas muitas vezes sem pensar bem, sem reflectir tanto quanto devia. Não faço por mal, não faço para magoar ninguém, às vezes faço pensando que estou a fazer o melhor possível, da forma mais acertada. Por vezes desaponto as pessoas, mesmo aquelas de quem mais gosto, e não o faço de propósito. Comento coisas que não devia comentar, uso expressões que não devia usar, irrito quem não merecia ser irritado. Sou um quase desastre completo, bem sei...
Eu sou assim. Mas não sou má pessoa. Não guardo mágoas, ressentimentos, tento sempre resolver as situações todas com um sorriso, com um beijo, com uma carícia. Sou alegre, divertida, confio em quem gosto, sou amiga dos meus amigos, sempre me disseram que sou uma pessoa em quem se pode confiar, e que quem não se der bem comigo, também não se dá bem com ninguém. Gosto muito de pessoas, de falar, de conversar, de sonhar, de voar sem sair do lugar. Gosto da vida, do sabor da vida, das cores bonitas que a vida tem. Gosto de abrir a janela de manhã e apaixonar-me pelo dia que está a nascer, adoro mais do que tudo a sensação gostosa de que nada é impossível, e que no fim sempre tudo se resolve pelo melhor.
Eu sou assim. É muito fácil magoar-me, é muito fácil deixar-me triste. Qualquer palavra mais ríspida, qualquer gesto mais brusco, qualquer expressão mais sisuda me faz subir as lágrimas aos olhos. Qualquer falta de cuidado, de atenção, de carinho, me faz sentir pequenina, indefesa e sozinha. Esforço-me sempre para parecer forte, decidida, desembaraçada. Ninguém sabe por vezes, o quanto atrapalhada fico, o quanto desorientada me sinto, o quanto gostava de estender a mão e poder tocar noutra mão que fosse minha e estivesse ali para mim. Também ninguém precisa de saber que apesar de eu ser uma pessoa muito alegre, por natureza e por feitio, algumas vezes enquanto rio, choro por dentro, enquanto pareço divertida e espirituosa, me sinto tão sozinha, tão infeliz, que chego a achar estranho que ninguém se dê conta. E de que serviria se alguém se desse conta? Também ninguém pode entrar dentro da minha alma, lavá-la com sabão forte, esfregá-la bem, passá-la por água, torcê-la e pô-la a corar ao sol, e deixá-la a tinir de brancura e frescura. Por isso, é bem melhor que não se preocupem comigo e vivam descansados. Num instante bem rápido a tristeza passa e leva consigo todo o seu séquito de lágrimas e solidão, e tenho de volta todas as coisas lindas do mundo, para me alegrarem, e sem precisar de ter tido que incomodar ninguém.
Eu sou assim. E morro muitas vezes por um beijo, por uma carícia, por um afago. Não sou lá muito forte no que diz respeito a assuntos de paixão e de amor. Separo as duas coisas, isso consigo fazer. Nem todas as minhas paixões se transformam em amor, nem todos os meus amores começam por ser paixão. Mas deixo-me impressionar facilmente, confesso. Gosto da sensação boa de ter alguém interessado em mim. Faz-me bem, faz-me sentir viva. Uma professora querida da minha juventude, dizia que a isso se chama “carência”. Quando ela me via no portão da escola, cada dia com alguém diferente à minha espera, dizia-me muitas vezes, depois, na sala de aula:”- Não vai resolver a sua carência de afecto, trocando de namorado todos os dias. Goste de si pelo que é, não por aquilo que os outros lhe fazem acreditar que possa ser.” Professora querida de francês e de português! Por onde andará ela agora? Tantos anos se passaram, e continuo a vê-la como se fosse hoje, com o seu aspecto exótico e diferente das outras professoras todas da escola, pequenina, baixinha, sempre vestida com roupas exuberantes e garridas, muito pintada, muito maquilhada, despachada, decidida, bem resolvida… Que falta me fizeram os comentários dela pela vida fora! Embora que, na altura, tudo o que ela me dissesse, me entrasse por um ouvido a cem, e saísse pelo outro a duzentos. Mas mesmo assim eu gostava muito de a ouvir, de a saber por perto. Muito mais do que uma professora que cumpre exemplarmente o seu dever, ela foi uma boa amiga, do coração. Ajudou-me muito no meu começo de vida adulta, quando acabei a secundária, saí de casa do meu pai e casei. Querida professora La Sallette, caso se dê a muito pouco provável hipótese de ler o que estou a escrever, muito e muito obrigada por tudo! Vai ter sempre um lugar no meu coração, sentada na primeira fila da zona dos camarotes. Gosto muito de si! Saiba que esta sua antiga aluna de português, continua a escrever como dantes, disparates como dantes, carente como dantes, mas talvez tenha aprendido alguma coisa consigo. Pelo menos aprendi a nunca mais deixar sair um amigo da minha vida, a não ser que ele queira mesmo sair, e mesmo assim, não sem antes lhe deixar saber que pode voltar sempre, quando quiser. Nunca devia ter perdido o contacto consigo, setôra. Desculpe. Fui ingrata, egoísta, irreflectida. Muitas vezes, ainda sou assim. Só que agora arrependo-me logo a seguir, procuro a pessoa e peço desculpa. Logo, antes que o tempo passe e a mágoa aumente. As mágoas, quando crescem descontroladas, são muito perigosas…
Eu sou assim. Gosto que gostem de mim. Gosto que me digam coisas bonitas, que me façam sentir querida, cortejada, desejada. Não fico nada ofendida com os comentários engraçados na rua, nem com as tentativas desajeitadas que os homens costumam fazer para serem notados. Acho tudo isso uma parte bem gostosa e deliciosa de ser mulher! Um privilégio que nós mulheres temos, o de conseguir pôr a cabeça a andar á roda aos homens, puxar-lhes um pouco pelos neurónios preguiçosos, quanto mais não seja, a pensarem como chegar até nós. Quero lá saber se isso é ser leviana e desmiolada. Gosto e pronto, diverte-me, faz-me sentir viva, faz com que os dias fiquem mais bonitos, faz com que o sangue circule melhor, e o coração bata sempre num ritmo um pouquinho mais acelerado, mas sem correr. Não passo daí, da fase engraçada e fascinante da conquista, do ritual divertido do conhecer melhor, conversar, falar, a fase de “namoriscar”, como diz uma amiga minha. Só pessoas muito especiais passam á fase seguinte. Só pessoas ainda mais especiais passam da fase seguinte para a outra. E há muito tempo, nenhuma dessas pessoas, mesmo entre as mais especiais das mais especiais, passou de todas essas fases para a minha cama.
Eu sou assim. Acredito em fadas madrinhas com vestidos rodados e varinhas de condão, em duendes brincalhões que vivem escondidos por trás das flores do jardim, em príncipes valentes e destemidos e em princesas bonitas e apaixonadas. Acredito em amores eternos. Acredito na magia das coisas bonitas, na maravilha do que não se consegue tocar, nem agarrar, nem guardar no bolso, mas que mesmo assim está por toda a parte, em tudo o que vemos ou sentimos. Uma espécie de magia, de pó dourado, que preenche todos os intervalos, que dá vida a todos os espaços mortos, que empresta um toque de poesia e de cor a tudo aquilo em que toca. Acho que o nome dessa coisa mágica é amor. Acredito no amor. Amor entre duas pessoas que se querem e se desejam, amor entre pais, filhos, irmãos, amor pelos animais, pelas plantas, pelo mundo todo, que é tão lindo e aonde cabe tanta coisa e tantas pessoas diferentes e sem igual! Amor pelas palavras, que permitem dizer e escrever o que de outra forma ficaria por saber. Amor pela música, pelas cantigas bonitas que fazem sonhar. Amor pelas fotografias encantadoras que nos levam para lugares diferentes, para sítios distantes, ou nem tão distantes assim, mas sempre cheios de aventuras por descobrir. Amor enfim, por tudo o que enche o coração de alegria, seja lá aquilo que for, venha de onde muito bem vier, seja recebido das mãos que quem quer que seja, e entre em nós da forma que quiser entrar!
Eu sou assim. Adoro quando me beijam com paixão, quando me abraçam bem apertado, quando me envolvem com carinho nos braços, quando me fazem sonhar. Adoro quando chega a altura em que já não sei muito bem o que estou a pensar, o que estou a fazer. Quando abandono as minhas defesas e me entrego de uma só vez, de corpo e alma, sem querer saber do ontem, do amanhã, do que está para vir. Gosto de ouvir palavras sussurradas ao ouvido, gosto do som que faz a respiração mais quente de encontro ao meu pescoço, gosto do deslizar intimo das mãos e dos lábios húmidos no meu corpo, gosto de sentir o bater acelerado do coração da outra pessoa, bem juntinho ao meu. Gosto de gemer de prazer, gosto de ouvir a outra pessoa gemer de prazer. Gosto do antes, do durante que dure o mais possível, e do que vem quando o durante acaba, e que é tão bom, tão delicioso, que o mundo todo podia acabar junto que já não tinha importância nenhuma! Adoro quando não fico sozinha, quando sinto que está tudo bem, que posso dormir descansada e bem agarradinha, bem protegida e bem amada, porque ele não vai embora mais.
Eu sou assim. Um desastre quase completo em muitas situações, mas não sou má pessoa. Acredito em fadas, em príncipes e princesas. Choro e rio com facilidade. E adoro o simples prazer de estar apaixonada pela vida, e de amar o amor.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Um universo inteiro entre nós

Sempre ouvi dizer que existem universos paralelos.
Será? Às vezes parece mesmo que sim.
Não é fascinante pensar que duas pessoas podem olhar para o mesmo objecto, para a mesma pessoa, falar do mesmo conceito, e cada uma delas estar a ver e a falar de uma coisa diferente? Como ter a certeza de que ambas vêem a mesma coisa? Como garantir?
Ou é defeito dos meus olhos em particular, ou então já me tem acontecido muitas vezes não conseguir ver as mesmas coisas que as outras pessoas vêem.
O que para mim parece ser simples, claro, bonito, é muitas vezes complicado, escuso e feio para outra pessoa. Diferenças de interpretação, diferenças de opinião, diferenças de pontos de vista… talvez. Mas porque será que quase nunca a minha opinião, a minha interpretação ou o meu ponto de vista coincide com o dos outros?
Ainda no outro dia, uma amiga minha se fartou de me ralhar porque entendia que eu devia valorizar mais as oportunidades de ganhar dinheiro, e não devia ser tão sentimental e inocente. Adoro esta minha amiga, amiga a sério e já há um bom tempo, mas ela vê uma coisa, e eu vejo outra, embora estejamos ambas a falar da mesma coisa. Dinheiro para mim, não tem mais importância do que a que tem uma aspirina quando me dói a cabeça. É precisa, faz falta, mas não se admira verdadeiramente. A minha relação com o dinheiro nunca foi de grande intimidade. Sei que ele se perde de um dia para o outro, sei que ele muda de mãos e de dono num ápice. Não preciso de mais do que o necessário para viver sem fome, sem dívidas, mais ou menos tranquila. A minha amiga não, entende que é preciso amealhar, poupar, procurar novas formas de lucrar mais, investir o que já se tem… enfim, uma complicação enorme e confusa de números, acções e transacções que fazem dela uma tão bem sucedida mulher de negócios. Ficou escandalizada comigo quando lhe disse que considero muito mais importante ser feliz do que ter uma boa conta bancária. Para ela, de nada serve ser feliz se não se tiver dinheiro para gastar, e não há felicidade possível quando se é pobre… Universos paralelos, o dela e o meu. Ela vive no mundo das finanças, do dinheiro, do lucro, do capital, eu vivo no meu mundinho de cores, de sol, de vento, de flores bonitas, de sonhos sem fim. Qual está certo? Qual é o verdadeiro? Qual das nossas visões corresponde à realidade? Fascinante! No entanto a nossa diferença de opiniões, neste, como em outros assuntos, não obsta a que sejamos muito amigas. É a minha companheira querida para beber um cafezinho, para conversar, para arejar um bocadinho a cabeça, sempre que passo lá para os lados dela. E aparte o lado materialista exacerbado dela que me assusta e me confunde, é realmente uma pessoa muito boa!
Quando digo a alguém “gosto de ti”, estou a falar a sério. Senão, porque haveria de dizê-lo? Quando gosto de alguém, gosto a sério. Não conheço outra maneira de gostar. Não sei fazer de outra forma. No entanto, conheço muitas pessoas que afirmam que gostam, amam e adoram e isso não corresponde à verdade. Sentimentos, para mim, são coisas sagradas. Não servem para brincar, não servem como moeda de troca, não se podem falsear, disfarçar ou deformar. Para outras pessoas, os sentimentos são instrumentos como quaisqueres outros que permitem alcançar objectivos, auxiliar em dificuldades, vencer competições. E não são pessoas más. Claro que não, conheço bem e sou amiga de pessoas que pensam assim. Pessoas que vêem o conceito de sentimento, de uma forma diferente da minha. Como se pode definir o que é um sentimento e qual a sua real importância? Qual das formas de ver é a correcta? Qual delas é exactamente a correspondente ao significado de sentimento? Até aonde podemos ir sem magoar, sem fazer sofrer o outro, sem nos perdermos na nossa própria confusão? Se estamos a falar do mesmo conceito, como é possível que eu pense de uma forma e oriente as minhas acções de acordo com o que penso, e outras pessoas referindo-se exactamente ao mesmo, façam tudo ao contrário? E como é possível que possa ser amiga de alguém, e interagir com alguém que conduz a sua vida de forma tão diferente da minha? Mas é possível sim, nalgum ponto desconhecido, as nossas diferenças perdem a sua importância e o que temos em comum acaba por ser maior. Esse deve talvez ser o ponto em que os nossos universos paralelos se cruzam, por um bocadinho.
Eu gosto de sonhar, de construir castelos de areia, de voar por cima dos problemas, das contrariedades. Vejo histórias bonitas por todo o lado, encontro sempre alguma coisa linda que mais ninguém vê, em que mais ninguém repara. Sou capaz de fazer de um sapo, príncipe, e acreditar tanto na minha própria criação que dê por mim apaixonada por uma fantasia que eu própria inventei. Vivo com a cabeça no mundo da lua, aonde tudo é mais bonito, aonde as cores têm mais cor, o vento é mais doce, o sol mais laranja, o céu de um azul muito mais lindo! Nos momentos mais tristes, mais solitários, fecho os olhos, vou para onde quiser ir, fujo para a companhia de quem quiser fugir. É a minha maneira de sofrer menos, de seguir o meu caminho sem tomar o freio nos dentes e largar a correr à desfilada, sem sair da estrada e meter por algum atalho desconhecido que possa ir dar a um precipício sombrio e definitivo. Se bem que de vez em quando, uma escapadela a algum desses atalhos misteriosos possa ser um convite bom demais para ser recusado. Até agora, todos os atalhos, mesmo os mais bonitos e promissores, se têm revelado apenas o que são, atalhos com mais ou menos graça, que não vão ter a lado nenhum, becos sem saída. Mas pelo menos, nenhum dele me levou para o precipício. Talvez algum seja capaz de me conduzir de volta à estrada bonita da qual me perdi, e que ainda deve de estar algures, num cantinho qualquer do mundo, com saudades dos meus passos e de braços abertos, como estrada que se preze, para me deixar entrar. Ou talvez não… Eu sou assim. Cheia de imperfeições e de defeitos, mas é como sou. A minha irmã é o contrário de mim. Se eu sonho, ela chama-me para a realidade dela, mais fria, mais cinzenta, mais dura. Ela não faz castelos de areia, assenta os seus tijolos sobre cimento bem rijo, e ainda lhes põe bastante reboco por cima, para não se separarem. Ela não se perde, não segue por atalhos, avança teimosamente na estrada que escolheu, sem sequer se interessar em desviar o rosto para os caminhos que aparecem de lado. Ela não precisa de voltar a nenhum sítio bonito, porque na opinião dela, sítio bonito é aquele que mais nos convém, e que menos complicação nos trouxer. No entanto, eu adoro a minha irmã. A minha maninha querida, que tem sido a minha estrela guia desde que nem me lembro mais. Ela vê toda a vida de uma forma, eu vejo de outra completamente diferente. Muito raramente os nossos dois mundos coincidem, estamos quase sempre em rota de colisão, mas de qualquer forma, em certas alturas, chegamos uma à outra, através de algum portal desconhecido, de alguma saída encantada oculta no nevoeiro da estrada. Sei que apesar de vivermos em mundos opostos, somos muito amigas. Mais do que amigas, irmãs. Filhas únicas de uma história triste, inseparáveis desde nascença por destino e por herança. Habitantes de universos paralelos, seguindo cada uma teimosamente, o caminho que traz impresso dentro do coração.
Parto sempre do principio que quem me beija, quem me abraça, sente nisso o mesmo prazer do que eu. Senão porque beijaria, porque abraçaria? Confio sempre quando gosto de alguém. Quando não gosto, claro, não chega a haver beijos nem abraços. Mas a partir da altura em que dou por mim a gostar de uma pessoa, a querer-lhe bem, a sentir por ela o que não sinto por mais ninguém, a querer passar todos os meus dias, todas as minhas noites com essa pessoa, então confio e acredito. Embora às vezes, as minhas campainhas de alarme, soem alto dentro da minha mente, e me peçam para ter cuidado, para ir mais devagar, para não arriscar tudo, para me manter com um pé pelo menos em terra firme, mesmo assim costumo mergulhar de cabeça e de coração. Não perco o meu tempo a tentar ler nas entrelinhas, a tentar extrair segredos de onde não existem, a procurar fingimentos em todas as coisas menos claras. Não faço grandes planos, não tenho grandes ilusões. Vivo apenas e aproveito enquanto for bom, depois logo se vê. Simples, directa, franca, é como sou, mesmo quando amo. Mas já me tem acontecido gostar de alguém que não goste de mim da mesma maneira, que tenha uma forma de gostar e de amar menos comum, mais radical, mais desafiadora. Alguém que espere de mim coisas que não faço, porque simplesmente não faço, atitudes que não tenho, porque não estão nas minhas formas de agir, e prazeres que não me seduzem porque sou mulher de prazeres mais claros, mais imediatos, mais objectivos. Alguém mais complicado do que eu, mais sofisticado, mais difícil de decifrar. No entanto, vivemos ambos a mesma história. Falamos ambos sobre as mesmas coisas, beijamo-nos, abraçamo-nos e acarinhamo-nos ao mesmo tempo. Como é possível? Como posso gostar de estar com um homem que não consigo compreender, de quem não consigo perceber os segredos, a alma, a essência? Logo eu que sou toda transparente, às vezes até demais, que sou toda confiante, crédula, simples, que me deixo encantar e seduzir por qualquer coisa bonita que me acelere o coração de uma forma especial! Em princípio os nossos dois universos paralelos não se deviam sequer cruzar. Eu devia procurar pessoas mais de acordo com a minha forma de ver o mundo, e ele devia naturalmente fazer a mesma coisa. Eu devia querer a meu lado um homem sem complicações, sem mistérios, sem gostos difíceis e diferentes dos meus. Um homem que visse as coisas da minha forma bonita, que amasse o sol, o vento, a beleza toda que está á nossa volta e que nos pode fazer tão felizes! Eu devia de procurar um homem que se contentasse com o calor do meu corpo, com a paixão dos meus abraços, com o sabor dos meus beijos e de mim toda junto com os beijos, que achasse óptimo ver as estrelas, passear de mão dada, comer gelado nas tardes de Verão, ficar bem juntinhos nas noites de Inverno. E ele, ele devia procurar uma outra mulher, mais sofisticada, mais culta, mais inteligente, com gostos e prazeres mais refinados e mais fora do comum, com uma personalidade mais sombria, mais sedutora, mais madura, mais versátil, mais poderosa do que eu. Ou seja, nem devíamos olhar um para o outro de tão diferentes que somos. Os nossos dois mundos de gostos, de preferências, de formas de encarar o amor, são tão, mas tão diferentes que os pontos de contacto entre eles são quase inexistentes. Como é então possível que consigamos ficar juntos? Estaremos mesmo juntos? Ele não será apenas uma imagem que veio de outro universo, um holograma inventado pela minha solidão? E eu, estarei mesmo ao lado dele, ou o que ele vê será também só uma imagem, um reflexo de outro mundo? Estaremos de facto a olhar um para o outro, ou para outras duas personagens que nem existem de verdade, e que só têm hipótese de se reunirem por escassos momentos, quando os dois universos se encontram?
Mas se assim for, se os momentos em que estou com ele, são só ilusões da vista, do olfacto, do tacto, se ele todo pode não ser mais do que uma visão, um fruto do contacto entre os nossos dois universos paralelos, então como é que me apetece tanto ficar com ele? Como é que é tão bom beijá-lo, como é que é tão gostoso sentir as mãos dele em mim, como é que pode ser tão delicioso sentir-me envolvida nos seus braços? Como é que a simples lembrança de que ele existe já possa ser suficiente para me deixar húmida de desejo, para me fazer bater o coração mais depressa, para me acelerar a respiração?
Tão fascinante a ideia de que possam existir mesmo universos paralelos, coexistindo mais ou menos pacificamente uns com os outros! Tocando-se de vez em quando, aqui e ali, como aves que executam uma qualquer dança amorosa. Universos aonde existimos de outras formas, noutros lugares, noutras personalidades que se buscam mesmo assim, que se pertencem e se querem juntar numa só. Se conseguíssemos juntar todas as realidades numa só, o que aconteceria? A felicidade completa e absoluta ou o caos? Amor ou ódio? Tudo tão complicado, tão estranho...
Melhor ir aceitando o que aparece e da forma como se apresenta. Deste universo, ou de outro paralelo, se for bom, se souber bem, pode vir. Depois se cataloga e se vê aonde pertence. Primeiro tem que passar pelo filtro do coração.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Quando o amor não dá certo

Como é que sabemos que o amor chegou ao fim?
Como é que damos conta que aquele sentimento bonito que existia, desapareceu?
Como explicamos aos outros que acabou, como justificamos, como damos a perceber?
Não é fácil, não é bonito. Custa muito admitir. Custa muito superar.
Quando existem razões daquelas fortes, daquelas que não se podem questionar, nem pôr em dúvida, tudo fica mais fácil. “ Batia-lhe, era mau para as crianças, não trabalhava, era mulherengo, etc, etc”. São razões que ninguém contesta. Justificam por si só qualquer fim de amor, qualquer fim de casamento. Absolvem de culpa quem desiste. Inocentam e limpam. Desistiu por tinha que desistir. Não aguentou mais porque não podia aguentar. E teve razões, boas razões. É muito mais fácil explicar assim o fim de um casamento. Não nego que às vezes sinto a tentação de explicar tudo servindo-me dessa causa mais simples, mais comum, mais bem aceite por todos. Facilitava-me muito a vida, tornava tudo mais simples.
Mas, e quando não existem as tais razões óbvias que tudo justificam, que tudo absolvem? Nessas alturas, como se explica, como se dá a conhecer, como se admite que o amor acabou? Como se pode esperar que alguém compreenda, mesmo as pessoas que nos são mais queridas?
Nunca homem nenhum me levantou a mão. Nem o meu pai, muito menos namorados ou marido. Se algum o tivesse feito, fazia-o apenas uma vez. Acho inadmissível, uma cobardia enorme. Homens crescidos que batem em mulheres, em crianças, em pessoas mais pequenas e mais fracas, são criaturas abjectas. Aliás, qualquer pessoa, homem ou mulher, que seja mais forte fisicamente, ou que se coloque numa posição de força através do emprego de qualquer artifício, e que use a sua força para maltratar outro ser, é, na minha maneira de ver as coisas, uma pessoa repugnante. Nunca fui vítima desse género de violência, nem está no meu feitio ser. Preferia sair de casa com a roupa do corpo e dormir em baixo da primeira ponte que encontrasse, do que sujeitar-me a uma barbaridade dessas!
Mas existem outros géneros de violência, que não deixam marcas no corpo, que não saltam aos olhos, que se passam entre quatro paredes e que não deixam sinais nem testemunhos. Violências dessas também fazem com que o amor acabe. Mas nem sempre são tão bem aceites, nem tão bem compreendidas pelo resto da humanidade. Na maioria das vezes as pessoas pensam que “não haviam motivos, era questão de ter um pouco mais de paciência, há casos bem piores e as mulheres não se separam, ele não lhe batia, era trabalhador, trazia dinheiro para casa, beber é próprio dos homens…” A minha própria irmã me disse que se não fosse o meu feitio péssimo e a minha mania de fantasiar e complicar as coisas, tudo se podia ainda ter composto e arranjado.
Perdi a conta às vezes em que tinha a mesa bonita, posta especialmente por alguma razão, Natal, passagem de ano, dia de anos, celebrações cá de casa. Perdi a conta às vezes em que a mesa foi levantada sem sequer ter sido encetada. Em que o bolo de anos foi recolhido ao frigorífico, o jantar diferente ficou a esfriar dentro do forno, as prendas ficaram por abrir, as velas ficaram por acender. Os dias em que devíamos ter ir ver as luzinhas de Natal acesas na rua, os dias em que devíamos ir fazer o piquenique à praia, o jantar no quintal, as castanhas assadas que nunca se chegaram a assar… porque ele não aparecia, não vinha, ou pior ainda, vinha tão bêbado que era bem melhor que nem tivesse aparecido Tantos e tantos desapontamentos! Pequenos, talvez. Sem importância de maior, talvez. Insignificantes, talvez. Nunca me bateu, nunca partiu nada em casa, nunca foi mau para as crianças. Mas nada disso faz com que tenha doído menos. E foram muitos anos de dores pequeninas a sobreporem-se umas às outras! Muitos anos de desapontamentos, de perder o interesse pelas coisas bonitas da vida, de esquecer como é bom sonhar com momentos divertidos, como é bom festejar, cantar, rir, tudo coisas simples, fáceis, pequeninas. Talvez sem grande valor, talvez sem grande importância, mas coisas de que eu preciso para viver, como as flores precisam de sol para se manterem.
Eu gosto de inventar festas, celebrações, coisas engraçadas, para fazer dos dias normais e sem graça, dias diferentes. Não me importo que não haja dinheiro para ir jantar fora, levo a mesa para o quintal à noite, e pronto, jantamos fora. Não me importo que não possamos ir á praia de dia, vamos à noite, levamos um farnel, e pronto, estamos na praia. Não me importo que não possamos ir às montanhas fazer um piquenique a sério, estendo uma toalha no chão da sala, faço umas sandes, um bolo, frito uns pastéis, e pronto, temos um piquenique. Não me importo que não possamos ir passear à noite pelas ruas, quem precisa de ruas quando tem um mundo enorme de estrelas no céu para olhar, quem precisa de sair se pode ficar sentado simplesmente a conversar, a olhar as estrelas e a lua, a sonhar? Não desanimo nem desarmo facilmente. Tento sempre dar a volta por cima, tento sempre encontrar uma alternativa. Não perco muito tempo a chorar, nem a lamentar-me. Mas fica sempre muito difícil ter que fazer tudo sozinha, perde muita da graça que era suposto ter quando não posso contar com a ajuda, o interesse e o apoio de quem devia estar para me ajudar. Não é grave, talvez. Não é sério, talvez. Não tem importância, talvez. Mas dói muito, dói de cada vez como se fosse a primeira, e deixa uma tristeza muito grande no coração. E faz com que as coisas boas da vida, que para mim sempre foram as mais simples e as mais inocentes, percam o seu brilho e vão deixando de serem estrelinhas mágicas a piscarem e passem a ser só fósforos de cozinha sem magia nenhuma e quase apagados.
Foram tantas as vezes em que fiquei à noite na cama, atenta ao barulho da chave na fechadura, a escutar o ruído dos bancos na cozinha a serem empurrados, os passos trôpegos no corredor. Tantas as vezes em que imaginava a distância entre a cozinha e a sala “já tinha tido tempo de aqui chegar, talvez fique no sofá, talvez não venha para cá”. E depois ele vinha, a porta abria, e todo o quarto ficava cheio do bafo horroroso a vinho, a cerveja, a não sei que mais bebida horrorosa, dessas todas que eu detesto e que repugnam só de pensar nelas. Sempre tive problemas com gente bêbada. Provocam-me um asco instintivo, uma repulsa sem explicação. É um vício como outro qualquer, nunca tive problemas com drogados, nem me fez qualquer impressão lidar com pessoas debaixo do efeito de drogas, quase todos os meus amigos de juventude tinham alguma coisa a ver com esses produtos tentadores e proibidos, mas álcool, não consigo nem cheirar. Um querida amiga minha, muito ligada ao espiritismo, diz que noutra encarnação devo ter tido algum desgosto grande relacionado com bebidas, talvez… Prefiro antes pensar que nesta encarnação, que é a única de que me lembro, e é a única que me interessa, o álcool me causa uma aversão tão forte por motivos que não sei explicar, mas que existem e estão lá. E foram mais de vinte anos a encarar os mesmos cheiros horrorosos, quase dia após dia. Ele entrava eu deixava-me ficar bem quietinha no canto da cama, bem encolhida “talvez adormeça, talvez caia na cama e não dê por mim”. Mas dava. E cheirava tão mal. E dava vontade de vomitar, de fugir, de gritar, de desaparecer. Mas não podia. Chorar, gritar, ralhar, fazer barulho não serviria de nada. O marido pode, o marido tem direitos protegidos por lei. O marido pode agarrar, pode apertar, pode mexer, pode forçar. Forçar não, o marido nunca força, apenas exerce o seu direito. E eu aguentava, quieta, parada, as lágrimas a descerem silenciosamente pelo rosto, no meio do escuro “alguém que me ajude, alguém que ajude, alguém que me tire deste inferno”. Mas claro que ninguém apareceu nunca, ninguém me ajudou nunca. Nem havia o que ajudar. Um casal normal, num quarto normal, um homem que bebe uns copinhos a mais, como tantos outros homens, mas que volta para a sua casa, que se deita na sua cama e procura amor nos braços da sua mulher. Então, qual é o problema? 
Não gosta? Não casasse. Quem disse que o casamento é o fim feliz das histórias de amor, e que depois todos são felizes para sempre? Eu disse. Eu acreditava que fosse assim. Eu lutei e esforcei-me muito para que pudesse ter sido assim. Mesmo quando tudo já estava perdido, continuei a insistir, continuei a tentar. Eu sempre acreditei em contos de fadas. Mas eu sou tonta, parvinha e acriançada. Demoro séculos a perceber o que as outras pessoas percebem em instantes, demoro séculos a desmontar um sonho, uma ilusão. Só desisto de vez, quando não há mais nada para salvar.
Mas sou divertida, alegre por natureza, esqueço, desculpo, tento sempre que as coisas corram pelo melhor possível. Não guardo rancores, nem mágoas. Tudo isso faz um mal imenso à pele e ao coração. Perdoei milhares de vezes as bebedeiras, as noites em que ele não aparecia e dormia não se sabe onde, os telefonemas que ele não atendia quando eu precisava dele para ajudar a resolver alguma coisa, as vezes todas em que tive que ser pai, mãe, tudo ao mesmo tempo e tudo com dupla competência. Tentei não dar demasiada importância a ter que ser sempre eu a tratar de todos os assuntos, até mesmo os chamados “assuntos de homens”, como levar o carro à oficina, à inspecção, pagar impostos, preencher papéis, responder a perguntas pelos dois, em nome dos dois, como se ele se importasse com alguma das respostas que eram precisas dar, marcar consultas, porque ele nunca conseguia fazer nada, nunca sabia fazer nada, nem se queria esforçar para fazer nada. Tentei esquecer sempre as vezes em que combinávamos sair com outras pessoas, casais amigos do meu trabalho, a minha irmã e o meu cunhado, e ele aparecia bêbado, atrasado, desalinhado, dizendo uma correnteza de disparates sem sentido nem nexo. Fingi que não percebia os olhares de pena, de acusação, de “se ela se esforçasse, o homem parava de beber”. Desvalorizei os desapontamentos, as desilusões. Fiz de tudo para ficar até ao fim, para salvar alguma coisa do desastre que foi o meu casamento, para que pelo menos pudéssemos ficar amigos.
Tudo isto são coisas que fazem com que o amor acabe. Não acaba num dia, nem num ano, nem desaparece porque queremos, ou deixamos. Simplesmente vai desaparecendo devagarinho, de mansinho. A alegria de estar com aquela pessoa, vai-se transformando em indiferença, a emoção vai ficando mais pequenina, vai ganhando outros nomes menos apelativos. A paixão morre. Comigo a paixão morre sempre primeiro do que todas as outras coisas. Talvez possam sobrar restos de amizade, lembranças bonitas de quando as coisas eram melhores, bocadinhos de conversas, bocadinhos de vivências, fantasmas dos planos, das ideias, dos objectivos. Afinal foram muitos anos! Talvez mesmo algum sentimento pequenino de simpatia, de compaixão, de pena por aquela pessoa que foi o centro do meu mundo, a pessoa em quem eu confiei cegamente, por quem abandonei tudo, junto de quem quis verdadeiramente passar o resto da minha vida. Mas paixão, desejo, vontade de estar perto, de estar com… nunca mais, desde as primeiras desilusões, desde as primeiras lágrimas.
Não sei se realmente é muito importante o que as outras pessoas possam pensar. Os estranhos, os de fora, os da rua, estou-me nas tintas para o que pensam. Não lhes dou mais importância que dou ao rumor dos trovões nos dias de chuva forte. O que custa mais é a opinião das pessoas que realmente são importantes na minha vida. Os amigos mais amigos, a família mais família. Todos os que podem deixar de gostar de mim da mesma forma como gostavam, na consideração de quem posso descer, todos os que me podem começar a olhar de forma diferente.
Mas se não aceitarem bem, se não entenderem, se não quiserem continuar a estar na minha vida, paciência. Não eram eles que se tinham que deitar com alguém a quem não queriam. Não eram eles que eram agarrados à noite, não eram eles que eram apalpados, invadidos, beijados à força, manietados, lambuzados, tomados e usados como objectos sem nenhuma outra serventia. Não eram eles que choravam no escuro sem fazer barulho e que no dia seguinte se levantavam punham um sorriso triste no rosto e faziam de conta que nada tinha acontecido. Porque o mais importante era continuar seguir em frente, cumprir o dever até ao fim. Não era nenhum deles, era eu. Por isso, se quiserem pensar que sou leviana, imprudente, precipitada, que pensem. Fazer o quê? Embora doa demais, posso viver sem eles. Sem mim, não quero viver nem mais um dia.
Nunca, nunca mais outro homem me terá sem eu querer. Nunca mais ninguém me vai pôr as mãos em cima sem eu desejar que ponha. Daqui para a frente vai ser sem deveres, sem obrigações, sem contratos de papel, sem calendário, sem relógio. Sem para sempre, só até enquanto for bom. “Enlouqueceste de vez”, foi o que me disseram. Talvez tenha enlouquecido, talvez tenha sido sempre louca e tenha conseguido disfarçar estes anos todos. Mas quando alguém se deitar na minha cama, é porque eu quero muito e é para ser bom como eu sei que pode ser. Quando alguém me beijar vou fechar os olhos, vou abrir a boca e responder ao beijo, vou-me deixar invadir, levar, vou saborear o beijo como é tão bom de saborear e de beijar. Quando alguém me abraçar, vou junto com o abraço até aonde for para ir, e vou esquecer as tristezas, os desapontamentos, as mágoas. Quando voltar a ser de alguém, se houver lágrimas vão ser de paixão, se me mexer na cama, se gemer alto, vai ser de prazer. Se arquear o meu corpo de encontro ao dele vai ser porque estou com vontade, e quando chegar ao céu, vai ser porque mereci e tive coragem de lutar.
E nunca mais vou dar a homem nenhum o poder de me fazer chorar, nem de me deixar triste. São coisas como essas que matam o amor. Muitas lágrimas, muitas tristezas. Outras formas de violência. Não tão bem compreendidas, não tão bem aceites…
E quando um amor acaba, é inútil tentar prolongá-lo mais. Isso também aprendi. A vida continua, e a vida é linda demais! Merece muito ser vivida!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Vem ter comigo esta noite

Vem ter comigo esta noite!
Vem e entra devagarinho, sem fazer barulho, sem ir de encontro aos móveis, sem pisar o rabo do gato que deve de andar por aí, sem acordar o periquito que dorme na cozinha, dentro da gaiola, sem fazer o cão ladrar no quintal.
Vem mesmo com a luz apagada. Que importa a falta de luz? Conheces de cor o caminho até mim. Pelo menos devias conhecer, se tiveres prestado atenção aos sinais que te dou. Mas andas sempre muito ocupado para reparar em mim, para falares comigo… Se calhar deixo uma luz fraquinha acesa no corredor, só para te orientares melhor…
Não te demores, não te atrases, nem arranjes nenhum outro compromisso de última hora. Não me deixes muito tempo à espera, que posso ficar com sono e não dar pela tua chegada. Quando estou com sono, fico de péssimo humor. E, se estiver a dormir, bem vês… perdes a viagem.
Cansei-me de esperar, de ouvir desculpas, de aceitar ausências. Não quero ter que te dividir com todo o resto do mundo, a todas as horas, a todos os instantes. Que se dane a compreensão, as boas maneiras, o civismo e a cortesia. Vem ter comigo esta noite.
Talvez de noite estejas menos ocupado, menos atarefado. Talvez de noite arranjes um pouquinho de tempo para mim. Tenho-me sentido muito sozinha, muito abandonada. Porque será que todos os assuntos do mundo são mais importantes para ti do que eu?
Entra sem precisar de bater à porta. Eu deixo a fechadura destrancada para poderes passar. Vem, estou à tua espera.
É o que faço sempre, espero e volto a esperar que apareças, que me fales, que te lembres que eu existo, que me dês um bocadinho da tua atenção. Às vezes pergunto-me para que me queres? Para que te sirvo eu, se nunca dás por mim? O que faço na tua vida, se todos os espaços já estão ocupados por outras pessoas, por outros afazeres?
Queria tanto que me perguntasses o que sinto, o que penso, o que sonho. Queria tanto que te interessasses pelos meus planos, pelas minhas esperanças, pelas minhas dificuldades! Queria tanto que voltasses a ser como eras quando nos conhecemos, quando tinhas sempre um pouquinho do teu tempo para me dedicares!
Vem ter comigo esta noite. Entra de mansinho no meu quarto. Não precisas de chamar o meu nome, não precisas de te anunciar. Não deixaria a minha porta aberta para mais ninguém. Não deixaria entrar mais ninguém. Sei que só podes ser tu. Aproxima-te de mim. Não demores, não me faças esperar.
Ultimamente temos andado muito afastados, muito distantes. Passo tempo demais sozinha. Nunca gostei de solidão. A solidão faz-me triste. Nunca aguentei ficar sozinha durante muito tempo. Se não cuidares melhor de mim, alguém pode passar e ver-me assim, sempre sem companhia, sempre com um assento vazio ao lado. Se não me deres mais atenção, posso ter vontade de emprestar um bocadinho a tua cadeira a quem pedir para me fazer companhia. Depois já sabes, conversa puxa conversa, conversa puxa amizade, amizade puxa sempre algo mais, foi assim connosco, não foi? Provavelmente já nem te lembras, ou nem queres saber. Quem sabe se até nem te importas que outra pessoa me faça companhia? És sempre tão distante, tão liberal, tão moderno na tua maneira de encarar os relacionamentos. Eu sou mais à maneira antiga, quando gosto de alguém quero-o só para mim, e gosto de ser de um homem só, enquanto estivermos juntos. Não me atraem nada relacionamentos abertos, livres, em que cada um faz o que lhe apetece, com quem lhe apetece e regressa depois ao posto principal de abastecimento como se nada fosse, lavado, pronto e limpo como se coisa nenhuma se tivesse passado. É bem possível que nem te interesses em saber que outro homem me diga palavras bonitas, que me sussurre ao ouvido, que me pegue na mão, que me ponha o braço pelos ombros, que se incline sobre o meu rosto e que me beije com doçura. E se a outra pessoa me fizer respirar mais depressa, se me fizer fechar os olhos, se me fizer abrir a boca e responder ao seu beijo? Nem com isso te importas? E se depois de me beijar ainda quiser mais? E se eu também quiser mais? Ainda assim não te vais importar? Isso já não é aceitar os outros como eles são, desculpa que te diga, mas isso é fazer pouco caso, é falta de interesse, é falta de amor. E podes dizer à vontade que tenho mente fechada e que sou imatura e preconceituosa.
Vem ter comigo esta noite, enquanto o lugar ao meu lado ainda é teu. Não percas a hora, não me enganes, não inventes histórias, não me embales com as tuas cantigas, como de costume.
Vem ter comigo, entra na minha cama com jeitinho, chega-te a mim com amor. Beija-me com cuidado, como se eu fosse de cristal e pudesse partir. Pede-me desculpa pela falta de cuidado, pede-me desculpa pelas desatenções, pela falta de tempo, pela falta de interesse. Convence-me de que estás a ser verdadeiro, convence-me de que me amas, de que me queres, de que me adoras. Só te deixo ficar se me conseguires convencer. Só te aceito se acreditar em ti. Vou saber se me estiveres a enganar. Às vezes estou tão sozinha e tão triste que até o amor fraco e mentiroso me parece melhor do que amor nenhum, mas para poderes ficar na minha cama, vais ter que fazer melhor do que enumerar horas, compromissos, agendas.
Fica comigo até a noite acabar. Fica comigo até o sol nascer no céu. Depois podes ir embora. Depois não sei quando te volto a ver, ou a falar, ou a saber de ti. Como sempre. Nunca sei de ti. Nunca queres saber de mim.
Não trabalhes tanto, não passes tanto do teu tempo a tentar ganhar mais dinheiro. Dinheiro não é tudo, dinheiro gasta-se, muda de mão, muda de dono, dinheiro deixa de ser nosso de um dia para o outro, podemos deitarmo-nos ricos e acordarmos pobres, como aconteceu lá em Moçambique. E junto com o dinheiro, podem ir todas as outras coisas que com ele comprámos, tu sabes, como eu também sei, que é assim. Mas eu não, enquanto me quiseres, eu não mudo de dono, não mudo de mãos, não deixo de ser tua, eu não vou a lado nenhum, estou aqui sempre para ti. Dinheiro nenhum do mundo pode ser mais valioso do que um abraço gostoso, um beijo apaixonado, uma carícia escaldante. Nenhuma das coisas que possas comprar com dinheiro, vai fazer o meu coração bater mais depressa, nenhuma delas vai fazer com que te ame mais, nenhuma delas me vai dar o prazer que tu me dás só com uma palavra, só com uma atenção. Para quê trabalhar tanto, para quê querer tanto? Esquece o trabalho por um pouco, esquece as obrigações por momentos, deixa para lá os deveres, os compromissos. Não atendas o telefone, não marques mais horas na tua agenda, não abras a tua porta da frente, sai pelos fundos sem te verem sair, e vem para mim.
Vem ter comigo esta noite. Toma-me nos braços, despenteia-me, beija-me, abraça-me, acarinha-me. Despe-me com urgência, faz-me gemer alto de prazer, faz-me delirar, faz-me quase parar de respirar, beija-me na boca, no pescoço, nos seios, desce até onde quiseres, entra em mim e nos meus sonhos, nas minhas esperanças, toma posse de tudo o que sou eu, leva-me ao céu e não me deixes muito tempo em terra, porque eu adoro voar. Toca-me com paixão, respira de encontro ao meu pescoço, molha-me com o teu suor, beija-me onde te apetecer, mexe-me aonde quiseres, toma-me as vezes todas que te der prazer. Sou toda tua esta noite, aproveita bem. Pode ser a última vez, posso não te receber mais. Posso-me cansar de ficar à espera, sozinha, triste, sem alegria, sem companhia.
Depois deixa-me olhar-te com atenção. Deixa-me mergulhar no fundo dos teus olhos. Quero ver se consigo perceber bem o que queres afinal de mim. Ou se já não queres nada, ou se nunca quiseste nada. Quero que me digas o que sentes, com o que sonhas, o que mais gostas, o que mais temes. Quero saber o quê, ou quem, te fez triste assim. Podes contar-me tudo, podes perguntar-me tudo. Não gosto muito de falar sobre o meu passado, sobre partes menos bonitas do que ficou para trás. Nunca respondo a certas perguntas sobre algumas dessas coisas, mas tu podes. Podes tudo. Pergunta o que quiseres saber. Esclarece o que quiseres esclarecer. Mas importa-te, interessa-te! No fim de saberes sente ciúmes, sente raiva, sente desejo, fica escandalizado, fica surpreso, fica admirado, sente qualquer coisa forte! Trata-me como se trata uma pessoa real, não como a uma bonequinha sorridente na montra de uma loja de doces!
Posso sorrir como se ainda fosse uma garotinha, posso ser alegre e divertida, posso encarar a vida e os problemas da vida de uma forma mais ligeira, é o que sempre faço para não perder o pé, para não me desequilibrar, para não cair e ser levada pela maré, é que apesar de ter nascido numa terra de praias e de mar, não sei nadar lá muito bem. Se for levada pela maré, se não houver um nadador salvador experiente por perto para me ajudar, posso muito facilmente ir dar ao mar gelado aonde se afundou o Titanic, morrer de frio nas águas geladas pendurada nalgum bloco de gelo. Posso ser levada até aos tubarões que rondavam os mares das minhas praias em Moçambique e dos quais eu tinha tanto medo que nunca largava a mão do meu pai quando íamos ao mar. Posso ser raptada por um barco de piratas sanguinários e malvados, daqueles que bebem rum pelo barril e invadem barcos para saquear, que têm uma bandeira negra com uma caveira hasteada a voar ao vento, como o Corsário Negro de Salgari, ou como o Sandokan da minha infância, se bem que ser raptada pelo Sandokan, não se pode propriamente dizer que fosse uma consequência muito má de ser levada pelas ondas... Mas posso também ir acostar a uma praia de tribos desconhecidas e ancestrais de canibais horrendos, e onde vivem lagartos gigantes descendentes dos grandes dragões das histórias ou dos dinossauros dos livros de ciências da natureza. Ou muito simplesmente, posso morrer afogada. Eu sei que posso parecer muitas vezes infantil, imatura, engraçada, leviana até, inconstante, descarada, brincalhona, inconsequente, mas gosto muito de ti. Se tivesses tempo para me conhecer um bocadinho melhor, talvez te surpreendesses comigo. Se tivesses tempo e se te interessasse fazer isso.
Vem ter comigo esta noite. Ama-me e não saias logo. Passa toda a noite comigo. Não fiques distante, não fiques atrapalhado. Não precisas de ser grande comigo. Não precisas de ser o melhor. Nem o mais inteligente, nem o mais entendido sobre todas as coisas do mundo. Não precisas de me impressionar com a tua cultura, com a tua inteligência, com as tuas vivências diferentes das minhas. Já sei disso tudo. Estou a par disso tudo. Admiro muito todas essas qualidades que fazem de ti um homem especial, diferente de todos os que conheci até agora. Mas não é só por isso que te adoro. Antes mesmo de saber o tão brilhante que és, já me tinhas conquistado com as tuas palavras bonitas, com o teu carinho, o teu cuidado, as tuas atenções tão queridas e tão amorosas. Antes de saber todo o resto sobre ti, já te adorava pela forma linda de te relacionares com as pessoas da tua vida e das tuas amizades, a maneira deliciosamente espontânea que tens de te dar a conhecer, numa entrega total e simples, tão desarmada e tão bonita que chega a parecer impossível encontrar alguém assim, maravilhosamente bonito como tu! Estou habituada a outro género de homens. Mais armados, mais formais, mais protegidos nas suas couraças, mais escudados contra a vida, memos francos, menos leais, mais egoístas e interesseiros. Tu és único. Quero-te muito! Vem ter comigo esta noite.
Vou ficar à tua espera. Quando me quiseres, estou por aqui. Podes entrar. Segue a luz do corredor. Mesmo que ouças o cão ladrar, não faz mal, é um gigante bondoso, nunca morde. Mesmo que pises o rabo do gato, não te preocupes, ele foge para algum canto e já se recompõe. Mesmo que acordes o periquito e ele comece a fazer barulho, deixa, já se cala. Vem ter comigo esta noite, deixa o resto do mundo lá fora. Não interessa como vai ser o dia de amanhã. Não interessa como vai ser o resto da nossa história.
Vem ter comigo esta noite. Entra na minha cama e deita-te ao meu lado. Abraça-me, beija-me, faz amor comigo. Para começar já está muito bom. O resto, logo se verá. O depois só interessa depois. Agora és o meu presente. Agora és tudo para mim.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Fui até lá, mas resisti valentemente

Uma amiga antiga, daquelas poucas que vieram comigo desde lá de trás, desde os princípios de tudo, ligou-me há uns dias. “-Deitaram a tua caverna abaixo. Passei por lá ontem. Não sobrou mais nada. Vai ver. Nem vais conhecer aquilo…”
Não sei, nunca hei-de perceber, qual a pressa terrível que as pessoas têm em dar más noticias. É como se lhes queimasse a língua e precisassem de despejar depressa cá para fora. Há que tempos ela não me telefonava!...
Tive que ir ver. “Caverna” era o nome de guerra que tínhamos dado á casa aonde vivíamos desde que chegámos a Portugal. A caverna era a casa do meu pai, de onde eu fugi há bem mais de vinte anos. Jurei não mais lá voltar, e não voltei, a não ser em pesadelos. Mas, por uma qualquer razão desconhecida, senti-me obrigada a ir até lá, conferir se ela já não existia mesmo.
E não estava mais. Agora são só ruas novas, uma rotunda enorme, carros a buzinarem cheios de pressa de um lado para o outro, sinais de trânsito e … nada da caverna. Nem nada das paredes brancas e enormes da quinta que nos rodeava, nem do jardim com flores de sardinheiras, rosas, brincos de princesa, nada do caramanchão cheio de lilases bonitos escondidos no meio das folhas verdes e que deu o nome à quinta, nem vestígios do tanque grande de água, do moinho de vento que fazia sempre tanto barulho à noite, nada do salão de jogos em que tinha tantos amigos, nem sinais do café logo à entrada do portão de ferro, donde me assobiavam e diziam gracinhas parvas sempre que por lá passava… desapareceu mesmo tudo. Para aonde terão ido todas as pessoas, as vizinhas antigas, os amigos do salão, os engraçadinhos do café?
Nunca gostei daquela casa, minúscula, húmida, gelada, escura, sem janelas e sem ar, cheia de fantasmas e de gritos, recheada de lágrimas, de tristeza. Nunca gostei daquela casa que nos caiu em cima como um balde de água suja e fria, depois do sol, do calor, da festa e da alegria que era Moçambique. Odiava as paredes, as portas, o próprio ar que se respirava lá dentro, sempre impregnado de humidade, de bolor. Acho que foi por isso, que agora tenho a mania, que mais ninguém percebe, de abrir todas as portas, todas as janelas, mesmo quando está frio, mesmo quando faz vento. Tenho sempre tudo aberto em casa, aberto ao sol, ao calor, ao vento, ao frio. As cortinas voam para fora da janela, às vezes as portas batem com a corrente de ar, o meu filho reclama com o despropósito, diz que só “te falta tirar as telhas para deixar entrar mais vento”, mas nunca mais quero viver numa casa fechada e sem luz. Nunca mais mesmo!
De qualquer forma, fiquei triste. Desapareceu um pedaço da minha história. Assim como já tinha desaparecido o outro primeiro pedaço antes deste. Paciência, é a ordem natural do progresso. Existem sempre coisas novas a reclamar mais espaço, mais lugar para poderem crescer melhor e mais depressa. Tudo bem, fazer o quê? Com toda a certeza, faz muito mais falta à sociedade, aquela nova rotunda gigantesca, aqueles novos troços de estrada que vão dar a todos os caminhos, do que fazia falta a velha quinta centenária que guardava a caverna e outras poucas casas parecidas. Consigo perceber e lidar bem com isso. Não sou muito agarrada a recordações antigas, nem sofro muito quando os vestígios do passado desaparecem. Tenho sempre comigo bem guardadas as recordações que valem a pena ser recordadas, e essas não precisam de testemunhos materiais para se fazerem lembrar. Valem-se a si próprias e sustentam-se muito bem sozinhas. No fim de uns minutos de contemplação, de nostalgia, de uma coisa estranha que não podiam ser saudades, mas que era qualquer coisa cruelmente parecida, porque a gente habitua-se a tudo, até à dor de dentes, virei costas ao lugar aonde tinha estado a caverna, a quinta, as recordações tristes que me espreitavam como almas penadas, perdidas entre os carros e o barulho da estrada e vim-me embora.
Ao fundo, do lado contrário àquele por onde eu tinha vindo, estava a minha rua. A rua que ia ter a todas as ruas. A rua da minha juventude. A mesma que eu desci tantas vezes, há mais de vinte anos. Apressada, de livros da escola na mão, de minissaia curtinha, de calções justinhos, de botas de salto, cabelo ao vento, andar balançado… Não deu para resistir. Estar ali tão perto e não ir ver como estava o meu bairro querido, era pedir demais ao meu coração.
Logo ao princípio da descida, notei as primeiras diferenças. O Centro Comercial das P.já lá não está. Fechou, tem as vidraças todas tapadas, as portas bem trancadas com uma corrente e cadeado. Ali mais à frente havia um café que eu adorava. Fui lá tantas vezes, sempre acompanhada, sempre misturada num turbilhão de gente, de vozes, de agitação! Encostada cá fora, ficou tantas vezes a moto do X, a moto do A., tantas outras motos da vida aonde eu andei de pendura feliz e despreocupada… o carro do S, o carro do F, e tantos outros que não tinham nem moto nem carro e simplesmente me passavam o braço pelos ombros ou me levavam pela mão. Naquele banco de pedra a toda a volta sentámo-nos tantas vezes todos, em grupo, como sempre, no meio do fumo, de cigarros ou de charros enrolados á pressa e sempre com um olho a vigiar quem passava, com os gravadores de cassetes a gritarem músicas da moda, “I want to break free, selfcontrol,only you, heaven, let’s dance, I’ve should known better…” tantas e tantas músicas lindas que eu ainda hoje ouço com o mesmo prazer de dantes! As pessoas que passavam olhavam-nos desconfiadas do ajuntamento, e escandalizadas com o barulho que fazíamos. Nós lá ficávamos, divertidos, contentes, felizes na nossa provocação inocente, na nossa rebeldia sem causa, tão jovens, tão bonitos, tão loucos, tão livres! Até que alguém se lembrava de que estávamos parados há muito tempo e íamos pelas ruas, pelas estradas, em bando, para pousar noutra esquina qualquer. Adorei viver a juventude nos anos oitenta! Anos doidos, selvagens, sem regras, sem leis, sem nada a não ser viver o mais intensamente que podíamos. A juventude de hoje é muito mais sossegada, muito mais contida, regrada. Não passaria pela cabeça do meu filho, ou dos amigos e amigas dele, fazerem um terço das coisas que eu fiz quando tinha a idade deles. Pior para eles, porque eu diverti-me bastante! “Ninguém tinha juízo nessa altura.”, é o que o meu filho costuma dizer. Talvez, mas é tão bom não ter juízo, esquecer um bocadinho o que é correcto, bem estruturado, bem justificado e simplesmente fechar os olhos, seguir em frente e ser feliz! Nós éramos felizes naqueles anos, muito felizes. Certo que alguns morreram jovens, outros perderam-se por aí nos becos da vida, mas durante aquele tempo da nossa juventude, foi bom demais!... E "se não valer pelos frutos, valeu pela sombra", a sombra foi fresquinha e deliciosa. Valeu, pois!
Continuei a descer a rua até ao fim. Os prédios estão todos lá na mesma. Os pátios nas traseiras dos prédios aonde parávamos ainda hoje têm grupos de jovens encostados, sentados, parados à toa de olhos postos em quem passa. Não reconheci rosto nenhum. Claro, tantos anos depois… Os meus amigos antigos que sobraram vivos, têm a minha idade, ou são bem mais velhos. Estranho seria que ainda parassem nos mesmos sítios, nas mesmas esquinas, nos mesmos lugares que eram nossos na época. Mas, secretamente, era isso mesmo que eu esperava que acontecesse. Esperava que algum deles se levantasse, me chamasse pelo nome, me abraçasse, me rodasse no ar como eles costumavam fazer “- Miúda, por aqui? Que é feito de ti?” Mas não, eram rostos desconhecidos, simpáticos, sorridentes, convidativos, mas desconhecidos.
Na baixa do meu antigo bairro pouca coisa mudou. Lojas abriram, outras fecharam, mas o essencial continua lá. A Igreja, branca e fria, como todas as igrejas, fechada, com hora certa para abrir como um qualquer estabelecimento comercial. Os cafés da minha vida ainda existem, os empregados são outros, os clientes são outros. Os centros comerciais do meu tempo, também estão quase lá todos. Mais vazios, mais silenciosos, cheios de ecos do passado, de rostos do passado. O D., nosso quartel general de Inverno, mais calmo, mais desinteressante, sem os vultos queridos encostados pelas paredes, sem os risos, as musicas, os barulhos dos flippers, das motos paradas a roncar lá fora… A mata, a minha querida mata, dos primeiros piqueniques, o meu mundo das férias de Verão, paraíso, de tantos amores, cantinho abençoado de muitos momentos felizes, está lá, na mesma, como sempre, grande, verde, bonita, linda como me tenho lembrado dela todos estes anos. Fiquei muito feliz por isso!
Mas ninguém conhecido. Ninguém para abraçar, ninguém com quem matar saudades, conversar, ir beber um café, passar um bocado a recordar o que nunca vai desaparecer do meu coração. Até que cheguei muito perto do reino antigo do X. As barracas desapareceram quase todas, as ruas estão arranjadas, os becos foram desmantelados, os passeios estão nivelados, as lojas abertas e tranquilas. Mas encostados nas esquinas pareceu-me reconhecer pela primeira vez rostos familiares. Mais envelhecidos, com cabelos brancos, alguns com rugas. Mas sem dúvida, rostos conhecidos finalmente! Os antigos homens de guarda, os que avisavam, os que passavam sinal quando se aproximava algum perigo, o perigo naquela altura costumava quase sempre usar uma farda. Aproximei-me de um deles. Era o T., claro que era ele. Olhei-o e sorri-lhe “-Não me estás a conhecer T.?” Os olhos dele suavizaram-se, abriu-se num sorriso de alegria, quase me apeteceu beijá-lo ali mesmo, no meio da rua e em frente de toda a gente. “-És mesmo tu miúda? Caramba, estás bonita! Andas perdida ou quê? Nunca mais vieste ver a malta!” Não me contive. Dei-lhe um abraço tão grande, tão cheio de saudades, tão cheio de ternura, de amizade, de remorsos, de tudo o que me passou naquele momento pela cabeça! “- Calma. Vê lá se o X vê- e de repente estávamos outra vez lá atrás, há bem mais de vinte anos, o X a ser o rei do bairro, eu a miúda dele, aquela em quem ninguém podia tocar- não quero problemas com ele.” Mas não se aguentou. Abraçou-me, beijou-me, rodopiou comigo no ar como eu estava á espera que ele fizesse. T., que saudades dele e do seu ar bonacheirão, sempre bem-disposto, sempre contente com a vida, sempre meu amigo querido! “- Ainda páras aqui, como dantes? De sentinela ao quartel?” Ele explicou-me que as coisas mudaram. Está tudo muito mais calmo. A verdadeira acção mudou-se para outros lados, espalhou-se. Muita da malta antiga morreu, outros estão dentro, outros desapareceram, outros atinaram na vida, casaram, foram para muito longe “-…como tu miúda. Casaste, fugiste, nunca mais… que saudades tuas!” Fomos beber um café. Ele pagou. Sempre cavalheiro. Desde aqueles tempos, mesmo que eu convidasse, o T. pagava sempre “-As damas não pagam. Comigo é assim.”
Dá-me sempre uma raiva tão grande quando as pessoas falam dos drogados, dos sem abrigo, dos ciganos, dos que são mais marginais, sem conhecimento de causa, quando os rotulam, quando os rebaixam, quando fogem deles como se tivessem peste! Todos os que conheço são óptimas pessoas! Amigos dos seus amigos, bons companheiros, leais, pacíficos. Se fazem algum mal, é a eles próprios. Se transgridem algumas leis, fazem-no mais como defesa do que como ataque. Posso continuar a ser a mesma menina sonhadora e crédula de outros tempos, mas recuso-me a tratar uma pessoa de forma cruel, só porque tem um estilo de vida diferente. Convivi de perto e durante muito tempo com eles, sei como são, nunca me fizeram mal algum,  não me tornei numa drogada, numa viciada por andar com eles. Nem cigarros dos normais, me deixavam fumar, para desgosto meu na época. Não se injectavam à minha frente, porque sabiam que me fazia impressão ver o sangue a saltar, não deitavam baforadas dos seus fumos para perto de mim, desviavam-se, levantavam-se, pediam desculpa, gostavam de mim, nunca nenhum deles me magoou, me ofendeu, nunca nenhum me fez chorar ou ficar triste. Não sei se terei tido uma sorte especial com o grupo de amigos que arranjei na altura. Não sei se haverá grupos piores, mais duros, mais fechados, menos seguros. Só posso falar do que conheço, e pelo que conheço, nunca tive problema algum com nenhum dos chamados “marginais”. Muito antes pelo contrário. Ainda hoje todos eles ocupam no meu coração o lugar destinado aos melhores amigos. Nunca tive problemas com nenhum deles e continuo a não ter, embora agora os meus conhecimentos duvidosos estejam, bem mais limitados.
Mas voltando ao T. e á nossa conversa, chegou a altura em que tive mesmo que lhe perguntar:”- E ele? O X, que é feito dele? “- Juntou-se com uma garina daqui que tem uma filha pequena, acabou por ficar com a mãe e com a filha. Mas não penses que te esqueceu. Ainda fala boé em ti, carocha, era assim que ele te chamava, não era? Queres ir lá para dentro? Entra aí uma beca… Ele deve lá estar. Ia ser bom vocês falarem-se outra vez. Só para ver se… sabes como é, vocês eram doidos um pelo outro…” E éramos mesmo! Completamente doidos! Como chegar lume á palha seca. O X foi o único de todos os meus namorados que esteve bem perto de conseguir tudo de mim. Tudo, o corpo, o coração, a alma, o prazer supremo. Éramos tão doidos um pelo outro, que o melhor é que não nos voltemos a encontrar. Tão doidos que secalhar estamos bem assim, um vivo na recordação do outro, só na recordação. Lembrei-me dos olhos verdes brincalhões, dos caracóis ruivos, soltos, rebeldes em cima dos olhos, do rosto bonito, das mãos quentes, dos braços que sabiam abraçar tão bem, da boca que sabia beijar tão bem… mas lembrei-me também de outros olhos, azuis, de outros beijos, de outras palavras, de outros abraços, de outras mãos quentes, com um calor muito diferente, muito especial.
“-Não, acho melhor não. Depois custa mais ir embora. Compreendes não compreendes T?” Compreendeu. Foi testemunha dos nossos amores, acompanhou-me muitas vezes á escola, a casa, fez muitas vezes de meu guarda-costas a pedido do X, bebeu muitos cafés comigo, aturou muitas cenas de ciúmes, de desconfiança, entregou muitos recados, presenciou muitos beijos, muitos abraços, muitas reconciliações. “- Vocês deviam ter ficado juntos. Ele nunca mais foi o mesmo.” Nem eu. Deixamos sempre um bocadinho de nós com quem amamos, acho. Um bocadinho bem grande de mim, ainda está lá, com ele. Um bocadinho dele também ficou comigo Uma das tais recordações que não precisam de caixa para serem guardadas, que estão sempre perto do coração.
Ainda conversámos mais um pouquinho, demos mais uns abraços, uns beijos simples de amigos com saudades, ele foi-me pôr ao comboio.”-Cuida-te miúda. Se precisares de alguma coisa, sabes como é. Procura a malta. Como dantes. Ainda és uma das nossas. Queres que diga alguma coisa ao X?” “Como dantes”, soube-me tão bem ouvir aquilo! Como dantes… ainda são meus amigos, ainda são o meu grupinho bonito de há tantos anos atrás. Menos, mais velhos, mais cansados, mas são eles mesmos ainda. Que bom! É sempre tão bom saber que não morremos no coração de quem queremos muito bem! “- Diz ao X que lhe mando um beijo grande. Está tudo bem comigo. Diz-lhe que eu lhe disse para tentar ser feliz com a tal rapariga. E diz-lhe também que eu não me esqueci, se algum dia precisar dele venho procurá-lo como ele prometeu. E é bom que ele ainda se lembre disso.” Ri-me na brincadeira, mas o T estava muito sério “- Ele lembra-se. Podes crer que ele se lembra. Vai ficar fulo da vida comigo por eu te ter deixado ir embora sem lhe ires falar!
E já lá vinha o comboio. Tive que ir. Mais um beijo de despedida, um abraço, um carinho no rosto. Fiquei a vê-lo da janela, a afastar-se, a ficar, a ficar cada vez mais longe. Lá, no mesmo lugar, nas mesmas ruas…
Foi muito bom ter lá ido, ainda que só por um bocadinho, ainda que só para dar uma rápida vista de olhos. Um dia volto com mais tempo. Mas agora, é altura de cuidar de outros assuntos, de outros amores.
Cuidar com carinho do presente que o presente me deu. Porque afinal, o presente é o único momento que conta. Estou a aprender umas coisas, não estou? Mas também tenho um professor brilhante!