sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Apenas formas diferentes

Lembro-me muito bem de quando casei. A cabeça cheia de esperanças, de ilusões, de sonhos de felicidade por vir num dia que nunca chegou a ser…
Prometi a mim mesma que ia ser a melhor, a mais carinhosa, a mais amorosa, e a mais compreensiva das mulheres. Ia-me esforçar sempre ao máximo para que tudo corresse bem, e o nosso casamento, no que de mim dependesse, ia ser uma felicidade constante. Não queria de maneira nenhuma cometer os mesmos erros que tinha visto a minha mãe cometer. Não ia provocar discussões por qualquer motivo sem importância, não ia contrariar todos os argumentos só por contrariar, nem me ia pôr sempre na posição de ataque só para não ser atacada primeiro. Jurei solenemente sufocar o meu mau génio de menina mimada que às vezes amua e gosta de fugir para um canto, controlar a minha teimosia, parar de fazer birra a cada vez que o mundo não sorrisse para mim, da forma que eu queria que sorrisse.
Deixei tudo para trás. Larguei os meus amigos queridos, os lugares aonde costumava viver as melhores partes da minha vida, os amores do passado, mesmo aqueles que de vez em quando lutam tanto para serem lembrados, as recordações que me faziam sonhar, as músicas que gostava de ouvir.
Até alterei a forma de me vestir. Pus de lado as minissaias, as saias travadas, os vestidos justos, os calções de ganga, as Tshirts decotadas, as botas de cano até ao joelho, porque entendi que não era a forma adequada para uma senhora casada desfilar pela rua. Deixei mesmo de desfilar pela rua, passei a apenas andar pela rua. Calmamente, devagar, sem compasso, sem ritmo, honesta e virtuosamente.
Parei de responder com gracinhas aos comentários que me faziam. Parei de sorrir para todos os que falavam comigo, mesmo quando lhes achava imensa graça e morria de vontade de dar uma boa gargalhada. Coloquei os olhos no chão, as mãos nos bolsos, vesti calças largas para ninguém reparar mais do que devia em mim.
Fiz tudo o que estava ao meu alcance fazer para não ser surpreendida por uma daquelas tempestades de Verão, que de vez em quando entravam na minha vida e levavam tudo atrás. Finquei-me como uma lapa no meu rochedo e resisti teimosamente ao passar dos anos e ao passar dos sonhos.
Mudei até de cidade. Vim morar para tão longe quanto possível dos meus sítios queridos. Pela segunda vez na minha vida, fiquei sem referências, sem chão, sem nada conhecido em volta a que pudesse chamar meu. Deixei o meu bairro, a minha mata, os meus centros comerciais, os cafés, as ruas, as esquinas, os muros, os lugares aonde tinha sido feliz e aonde haviam recordações demais à solta, e pessoas tentadoras demais a circular. Desterrei-me bem escondida para trás das montanhas, perdida de tudo o que um dia tinha amado e afastada de todos os que me tinham sido queridos.
Tornei-me numa pessoa honesta, cumpridora, respeitada. Boa esposa, boa mãe, cumpridora pontual de todas as minhas obrigações, sem dívidas, sem contas a descoberto, sem pedidos de fiado. Passei a andar pela rua sem ter ninguém a quem cumprimentar com dois beijinhos na cara, só bons dias e boas tardes, educados e polidos, distantes e convenientes. Ganhei a estima e consideração de todas as pessoas que me rodeiam, alcancei uma reputação imaculada e tornei-me numa mulher de respeito.
E esqueci-me de rir, de cantar, de ver o sol nascer, de sentir o vento, de ouvir o mar. Queria tanto que tudo corresse da melhor forma, queria tanto ser feliz, queria fazer o melhor possível para ter uma vida normal e sossegada no meu cantinho, com tudo aquilo que a maioria das mulheres quer ter, uma casa com cerca à volta, um marido, filhos, cão, gato e canário! Queria tanto que comigo desse bem, desse certo. Devia-o àquela menina pequenina que chorava sempre que os pais discutiam, que se encolhia de medo com os gritos, os berros, as pragas e os vexames. Devia-o à recordação triste da minha mãe sempre a chorar, do meu pai sempre a reclamar. Comigo tinha que dar tudo certo, e mais nada interessava sem ser isso. Se para o conseguir, tivesse que morrer em vida, então que viesse de lá a morte em vida, mas nunca uma vida de infernos e gritarias como tinha tido na minha infância.
Um dia destes, no fim de tantos anos, de tanto esforço e empenho dei por mim, sem sonhos, sem esperanças, sem desejos, sem nada para além das coisas que estão em volta e se podem agarrar, e que para mim não têm mais valor do que um punhado de areia solta ao vento. Quis saber por onde andaria aquela menina atrevida que gostava de rir, que gostava de conversar, que fazia amigos com mais facilidade do que respirava. Apeteceu-me comprovar se o sol a pôr-se ainda era tão bonito quanto eu me lembrava que era, se o vento a soprar no cabelo ainda conseguia acelerar a respiração, se ainda gostava de apanhar chuva no rosto até encharcar os cabelos de água, se o verde dos campos continuava com o mesmo aspecto convidativo de colchão do tamanho do mundo, e se as flores ainda tinham o mesmo perfume que costumavam ter quando eu as recebia.
Para meu espanto, tudo estava ainda na mesma, como se estivesse tudo estado à minha espera. A vida continuava tão bonita como sempre tinha sido e as cores, os sons, os movimentos, o vento, o sol, a chuva, estavam ainda todos lá para mim, imutáveis, amigos e expectantes. Incrivelmente eu continuava a gostar de fazer amigos, de rir, de conversar, de dizer gracinhas, de sonhar acordada, de fugir para um canto quando faço birra. Continuava a querer abrir os braços ao sol num abraço gostoso de saudades por matar, continuava a adorar molhar o rosto e o cabelo sem me importar se a chuva estava fria ou quente. Continuava a ser aquela que sempre fui e de quem me tinha esquecido, a que estremece com uma aragem, que suspira com um toque, que perde a noção do espaço e do tempo com uma carícia mais suave, ou uma palavra mais gostosa.
E mais incrivelmente ainda, todas as minhas apostas tinham sido em vão, fui derrotada em quase todas as frentes da batalha. Apesar de eu não responder agressivamente como a minha mãe respondia, de eu não contrariar como ela sempre fazia, de não atacar nem provocar, de nem sequer respirar para lá do que era devido, mesmo assim as coisas não aconteceram como estava previsto acontecerem. Descobri que não era tão fácil como eu pensava. Que não basta a boa vontade, o empenho, o ser respeitadora, cooperante, amiga. Comecei a pensar que se calhar mesmo que a minha mãe se tivesse calado mais, submetido mais, consentido mais, mesmo assim talvez as coisas não tivessem corrido bem. Comecei a pensar que talvez a culpa nem tivesse sido assim tanto dela, nem tanto dele, talvez um pouco dos dois, ou quem sabe de ninguém.
É possível que existam pessoas que não combinam bem juntas, simplesmente porque não. Simplesmente porque o que para mim é uma manhã linda, encantadora, cheia de mil promessas por desabrochar, com o sol a brilhar encantador e pendurado no céu azul, é para outras pessoas, apenas mais um dia aborrecido que vai começar. O que para mim é uma paisagem deslumbrante, cheia de cor, de alegria, que faz o coração bater mais depressa só em olhar, é para outras pessoas apenas um campo cheio de formigas, moscas e terra peganhenta por todo o lado. Enquanto eu acho encantador ficar à noite, apenas sentada, a conversar, a ver as estrelas a piscar, no meio do silêncio e da quietude de tudo, outras pessoas acham isso tudo uma seca enorme e preferem entrar para ver o telejornal. Ao passo que eu olho para uma estrada desconhecida, ladeada de árvores frondosas, com uma promessa de mistério no fim e me apetece logo ir por ali, só porque o caminho é bonito demais, outras pessoas pensam que é uma estupidez meter-se por um caminho desconhecido quando há tantos outros conhecidos e de confiança. Enquanto eu gosto de um beijo bom, demorado, prolongado, de toques suaves, meigos, de abraços gostosos, de carinho, de romance, antes, depois, durante, outras pessoas preferem a técnica do pronto e já está e agora vamos lá dormir que amanhã tenho que levantar cedo.
Não é que alguém esteja certo, ou que alguém esteja errado. No fundo, é tudo uma questão de opiniões, de formas diferentes de olhar para a mesma coisa. Eu procuro, mesmo sem intenção de procurar, o mais bonito, o mais enternecedor, o que faz sonhar, o que sabe bem, e há pessoas que procuram o mais prático, o mais funcional, o mais realista, o que serve as suas necessidades. Nada está bem, nada está mal. Só formas diferentes de ver a vida.
O mesmo se deve ter passado com os meus pais, fogo e gelo, Verão e Inverno, paixão e sonolência. Não admira que fossem tão infelizes. Não porque algum estivesse errado, mas porque eram os dois muito diferentes.
De maneira que desde que descobri esta grande verdade que tudo redime e que quase tudo justifica, acho que comecei de novo a conquistar o meu direito de ser como eu sou, e como gosto de ser. Comecei de novo a lutar pelo meu bocadinho de felicidade, pelo meu pedacinho de paraíso na terra. Desisti de me anular, de me sufocar, de fazer todos os possíveis para que tudo dê certo, a toda a hora, a todo o instante. Não deu certo, não está a dar certo, possivelmente nunca vai chegar a dar certo. Há que encarar e aceitar.
Agora é seguir em frente e fazer o resto do meu caminho de forma mais agradável e mais saborosa. Procurar a beleza nas coisas que me fazem bem à alma, procurar sentir de novo a sensação divina de estar viva e de estar em paz comigo e com o universo lindo que me rodeia. Parar de me contentar com metade de tudo o que eu acho que devo ter por inteiro. Parar de abanar a cauda como um rafeiro submisso á espera de uma festa fugitiva na cabeça ou pronto a fugir de uma paulada certeira no lombo. Encontrar de novo o meu rasto por entre as folhas secas, e as ervas crescidas que taparam o caminho, ou quem sabe, e porque não, ir à aventura e descobrir um novo caminho. Desviar as silvas, desviar os espinhos, escolher aonde colocar os pés sem me picar, e aonde pôr as mãos sem me arranhar. Escolher, ou deixar que o coração escolha, qual dos sonhos sonhar, qual dos amores amar, e qual dos prazeres saborear.
Porque, já aprendi, não vale a pena desistirmos de quem somos, deixarmos de ser quem queremos ser, só para manter alguma coisa, alguma pessoa, alguma relação. O preço é alto demais, e o negócio assim não vale a pena. É melhor desistir e prosseguir viagem, noutro porto, noutro local, noutro tempo, haverá o que precisamos, pelo preço que estamos dispostos a pagar. Ou melhor ainda, não será negócio nenhum e não teremos que pagar nada. Podemos sempre fazer uma troca directa, e dar tanto quanto recebemos, em igual medida, sem meu, nem teu, nem nosso.
Apenas o simples prazer de ser o que se é, com alguém que é também como nós.

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