sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Bad Boys

A única vez em que uma coisa realmente má, esteve bem perto de me acontecer, foi quando o meu caminho se cruzou com o caminho do Luca. 
O Luca era o melhor amigo, o braço-direito do meu namorado da altura, aquele a quem eu chamo X. Conheci o Luca, no mesmo dia em que conheci o X. Mas enquanto que o X veio falar comigo, de peito aberto como sempre fazia, de sorriso bonito no rosto, de capacete da moto debaixo do braço e me conquistou logo na altura com duas cantigas, o Luca manteve-se sempre de parte, calado e reservado, numa atitude que me pareceu ser de respeito e de deixar o caminho livre para o amigo, mas que vim a descobrir depois ser apenas a sua maneira camuflada e dissimulada de ser.
O Luca era muito diferente dos rapazes do meu meio. Era filho único e mimado de pais ricos e abastados. Vivia cheio de dinheiro, com roupas boas, caras e bonitas. Tinha um carro novo vermelho lindo, com o qual desfilava pelas ruas como um pavão vaidoso. Não estudava, não precisava de trabalhar, não fazia nada na vida a não ser passear a sua bonita e cuidada figura de um lado para o outro. Quando hoje me lembro do Luca, o que me vem logo à ideia é o perfume que ele usava e não era igual ao de mais ninguém. Tinha realmente um cheiro intenso! Um perfume doce, quente, estranho… Também me lembro bem dos cabelos, louros, compridos, lisos, ah… e os olhos (a quantidade de coisas que a gente se lembra quando começa a puxar pela cabeça, não é?), os olhos eram muito azuis, claros, sem vida. E olhos sem vida, são sinal de alma sem chama. Faziam um contraste engraçado, o X e o Luca. Um era a personificação da alegria, da energia, da fúria de viver, ao passo que o outro era frio, distante, impávido…
O X tinha o Luca em alta estima, acho que no fundo se sentia orgulhoso de que um rapaz tão rico, com outros modos, outras maneiras de falar, quisesse ser amigo dele. Andavam quase sempre juntos por todo o lado. Por isso, quando o X vinha ter comigo, rara era a ocasião em que não viesse junto com o Luca. Comecei a notar algo diferente na maneira do Luca falar comigo, logo nos primeiros dias. Na presença do amigo, mal me falava, desviava a olhar, não parecia sequer dar pela minha presença, ao ponto do X ter chegado a estranhar as suas atitudes. ”- Qual é o teu problema? Não gostas da minha garina, ou quê? Olha que se andas comigo, tens que andar com ela. Eu e ela estamos juntos.” “-Não sejas parvo! Não tenho nada contra a tua miúda.” Porém, mal o X desviava o olhar, mal se afastava um pouco, o Luca olhava-me directamente e sem rodeios, com aquele olhar de olhos azuis claros, sem vida, os cabelos louros colados ao rosto, um sorriso intrigante no canto da boca.
Achei estranho, mas ignorei. Afinal eles eram os dois muito amigos, os melhores amigos. O X era poderoso e temido no seu meio, imaginem se o melhor amigo dele ia querer alguma coisa comigo, sabendo que eu o namorava… No entanto, com o tempo, o Luca foi-se tornando mais próximo, mais útil, mais chegado. Trazia-me recados do X, quando ele se atrasava ou não podia vir por estar ocupado com alguma das suas mil e uma tarefas estranhas que não me diziam respeito. Acompanhava-me para a escola, para casa, porque o X tinha pedido, para eu não ir sozinha. Deu-me muitas vezes boleia no carro dele para me “poupar o trabalho de ir a pé”, como ele dizia. Bebemos muitos cafés juntos, rimos às vezes, pode-se dizer que acabámos por nos tornar senão amigos, pelo menos conhecidos que se toleravam bem um ao outro. Afinal tínhamos um elo forte que nos unia, o X, meu namorado e melhor amigo do Luca, e estávamos por isso, de certa forma, condenados a termos que nos aturar um pouco um ao outro.
Na altura, lembro-me de que ninguém se atrevia a chegar perto de mim, era a miúda do X, ele estendia o seu braço poderoso pelas ruas do bairro e tinha sempre amigos por perto para afugentar os mais atrevidos. Só o Luca tinha livre acesso a mim. Só nele o X tinha confiança para me acompanhar quando eu estava sozinha, só ele me podia vir buscar á escola, só ele me podia convidar para beber qualquer coisa fresca nas tardes quentes em que eu não tinha que fazer.
Aquela tarde, não começou diferente das outras tardes quentes. Acabei de almoçar, e como sempre, saí para a rua. Fui ter ao nosso ponto de encontro, quando digo nosso, digo de todos nós, os que andávamos juntos para cima e para baixo por ali. Com os meus amigos o X não levantava problemas. Afinal, além de serem meus amigos já antes de ele entrar na minha vida, todos tinham tanto medo dele, que a nenhum passaria pela cabeça meter-se comigo. Cheguei mais cedo e ainda não havia ninguém, ou cheguei mais tarde e todos já tinham ido embora, não sei. Sei que o único que estava no nosso muro sentado, com o cabelo louro a tapar-lhe meio rosto, com aquele cheiro estranho e quente, os olhos azuis claros sem vida a olharem para mim, era o Luca.
Existem certas alturas na vida, em que sentimos como que uma campainha de alarme a tocar dentro do nosso cérebro, num recanto escondido e primitivo. De vez em quando ouço essa campainha, e ela tem-me ajudado algumas vezes. Nunca mais deixei de a atender desde aquela tarde. Dizem que quando temos um pressentimento, uma premonição, ou o que lhe queiram chamar, devemos prestar atenção. Mas, naquela tarde não fiz caso nenhum da minha campainha de alarme particular que tocava aos berros, dentro da minha pobre cabeça, e fui-me juntar ao Luca. “-Então, sozinho? Não veio mais ninguém?” Ele arranjou-me espaço, olhou-me com o seu sorriso parado, e disse que o X “pediu para te levar até lá abaixo. Ele vai estar toda a tarde no centro, se quiseres ir ter com ele, embora aí, eu levo-te. O carro está já ali em baixo.” Claro que queria! Naquela altura adorava o X, de corpo, alma e coração. Ele protegia-me, amava-me, dava-me uma sensação de segurança, amor e carinho que não me lembrava nunca de ter sentido. É verdade que estou a falar de um marginal, de um homem muito mais velho do que eu era, de um delinquente, como diziam. Um homem que tinha complicações em todos os lugares possíveis, que impunha respeito aos seus seguidores com mão de ferro, mas que me fazia sentir a mais especial e a mais amada das mulheres…
Assim sendo, e porque que já não seria a primeira vez que eu apanhava boleia com o Luca, lá fomos os dois, ao encontro do X, como eu pensava. “- Ouve lá, que caminho é este? Não estás enganado?” Claro que o caminho não era aquele, claro que ele não estava enganado. Muito pelo contrário. Sabia muito bem o que estava a fazer. Olhou-me de lado, com os seus olhos sem vida “- O que é que estavas à espera, princesa? Julgavas que ias ter com o namorado? Hoje a volta é outra. Hoje quem te leva a passear sou eu.”
Nessa altura já eu estava mais do que aflita. No nosso grupo ouvíamos contar muitas vezes histórias de raparigas da zona que eram apanhadas e levadas para “caldinhos”, como lhe chamavam. Outros grupos faziam-no. Os meus amigos eram pacíficos, calmos, não se metiam em trapalhadas dessas, só andavam com as raparigas que queriam andar com eles. Á sua maneira trapalhona eram cavalheiros, e digamos a verdade, nenhum deles precisava de obrigar rapariga nenhuma a fazer coisa alguma, as que os acompanhavam, faziam-no de bom gosto e porque tinham vontade de o fazer. Mas, o Luca, rapaz mimado e rico, tinha outros hábitos, vinha de outro meio diferente, estava habituado a ter o que queria, mesmo que passasse por cima dos amigos, e passar por cima dos amigos era coisa que nenhum de nós fazia, era quebrar o código de honra que nos unia. “- Encosta um dedo em mim, que o X dá cabo de ti!” “- Claro princesa, se vier a saber… Vais-lhe contar? Em quem é que ele vai acreditar? Será em ti? Será em mim?”
O Luca parou o carro no que nós chamávamos a “mata dos tarados”, e que não tinha nada a ver com a nossa. Era uma mata enorme, cheia de caminhos escuros e atalhos misteriosos dos quais eu só conhecia alguns. Dizia-se que por ali costumavam andar sempre grupos de tarados que perseguiam, roubavam e atacavam os namorados. Eu já tinha visto alguns deles das poucas vezes que o X tinha lá estado comigo. Escondiam-se atrás das árvores, camuflavam-se e ficavam horas a espreitar, sem se mexerem sequer. Quando os namorados se levantavam, eles seguiam atrás, sempre calados, sempre escondidos. O X tinha-me dito que entrando mais para dentro da floresta era realmente perigoso, mas na parte de fora, eles não se atreviam a fazer nada. Tinham medo de sair da penumbra das árvores. Moviam-se como sombras, eram os tarados da mata.
“- Pára com isto! Estás doido ou quê? Qual é a tua ideia?” Ele ainda nem tinha saído do carro. Desligou o motor, olhou para mim e fez-me uma carícia no rosto “- Qual é que achas que é a minha ideia? Há muito tempo que reparei em ti. Mas és a miúda do X. Não estás acessível. Pelo menos por bem. Eu vi-te primeiro, mas quem ficou contigo foi ele. As mulheres gostam sempre mais dele, não sei porquê… Qual é que é o problema? Sou bonito, tenho montes de dinheiro… Podia-te dar muito mais coisas do que o X te dá… O que é que ele tem que eu não tenha?”
Podia-lhe ter respondido que o X tinha coração, que era amoroso, carinhoso, que nunca faria a rapariga nenhuma o que ele estava a tentar fazer comigo, mas nessa altura já eu chorava, gritava, tentava abrir a porta. Porém o Luca tinha quase duas vezes o meu tamanho e duas vezes mais a minha força. Atirou-me de encontro ao vidro da janela “- Tanta conversa, tanto estilo, tanta pose… Sabes o que tu és? Uma menina pequena a brincar com homens grandes… Não te preocupes, não vais perder nada que não tenhas perdido já. Há quanto tempo andas com o X? E antes dele?” Quando senti a mão enfiar-se por baixo da minha saia curtinha e começar a subir, pensei aterrorizada que já não tinha salvação e que tudo estava perdido.
Mas de repente vi o Luca ser literalmente arrancado do carro para fora, e cair desamparado no chão de terra. Em frente dele estava o X. Enorme, furioso, a espumar de raiva. “- Anda cá, meu grande filho da p. que agora vou-te ensinar como é que se tratam as mulheres! Vou-te ensinar como é que se trata a mulher do teu melhor amigo!” Assentou-lhe um murro com tanta força na cara, que o Luca começou logo a sangrar. O X deixou que ele se levantasse e esmurrou-o de novo. O outro nem se conseguia defender, tentava não cair, tentava falar para se explicar, mas não havia muito o que dizer. O X tinha visto tudo o que havia para ver. “- Se lhe tivesses feito alguma coisa xinava-te já aqui como a um porco!” E eu não duvidava nada de que o tivesse mesmo feito. O X carinhoso e meigo que eu conhecia, tinha muitas outras facetas, bem menos amáveis, bem mais duvidosas, que lhe haviam granjeado o título de rei do bairro, e que escondia o melhor que podia de mim. O Luca caiu e o X avançou para cima dele quando eu me pus à frente e o agarrei pelo braço “- Pára, vais matá-lo! Deixa, já passou. Ele não fez nada. Estou bem. Deixa-o ir!”
O Luca conseguiu levantar-se e a cambalear lá foi capaz de entrar para dentro do seu carro novo vermelho. “- Se te volto a ver a parar por aqui, juro-te, és um homem morto! Baza!” O outro foi e nunca mais o vi, até hoje. Não sei se realmente seguiu o conselho do X e se foi embora de vez, ou se terá voltado e terão tido de o convencer mais definitivamente a desaparecer. Espero que não, espero que não o tenha visto mais, por ele ter percebido que era o melhor a fazer.
“-Como é que me encontraste?” perguntei-lhe enquanto ele me abraçava.
“- Viram passar o carro dele. E viram-te lá dentro. Avisaram-me. Peguei na moto e ainda vos apanhei na estrada. Vim verificar o que é que se passava.”
“-Verificar?”
“- Verificar se tinhas vindo na boa, ou se tinhas vindo forçada. Se estivesses com ele de vontade, partia-lhe o focinho na mesma… a ti não te tocava, carocha. Mas também não te tocava nunca mais, de nenhuma maneira!”
Acabou tudo em bem, tirando o susto. Voltámos para baixo na moto do X, e passei o resto da tarde com ele. Naquele dia o X foi o meu príncipe encantado montado num cavalo branco. Imagino que devam existir outras raparigas a quem infelizmente o príncipe não apareceu a tempo. Não faço ideia de como conseguem aguentar o depois! Nem consigo imaginar o como deve ser triste, frustrante, o quanto deve magoar a alma! As dores que nos ficam na alma, são as piores, as que doem mais. As dores do corpo, essas passam sempre, mais cedo ou mais tarde.
De todo aquele lamentável episódio, uma coisa me ficou gravada no coração. Não parei ainda de ouvir as palavras do Luca “- Não passas de uma menina pequena a brincar com homens grandes.” É exactamente assim que me tenho sentido desde sempre. Uma menina pequena e assustada, que de vez em quando gosta de brincar com coisas maiores do que ela, mais perigosas e desconhecidas. Uma menina pequena a quem de vez em quando alguém atira de encontro ao vidro de um carro da vida, e a quem de vez em quando alguém tenta enfiar a mão por baixo da saia. Uma menina pequena, cheia de pose, de conversa, de estilo, mas que continua a sonhar com príncipes encantados, e a chorar quando a brincadeira acaba mal.
Só assim, uma menina pequena com a mania de que já é crescida, perdida num mundo confuso de homens grandes, que às vezes também são homens maus.

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