sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 31 de julho de 2011

Boas Férias!

Boas férias!
Parece que toda a gente está a ir de férias numa alegre debandada… Parece que as ruas vão ficar vazias de pessoas, os serviços todos vão fechar as portas, tudo vai parar no tempo e no espaço durante um mês inteirinho. Todos os anos é a mesma coisa. Em Agosto, o mundo pára.
Também queria ir de férias! Pelo menos este ano. Também queria fazer parte da alegre comitiva que parte em busca de sossego, longe noutras paragens. Queria dizer adeus a tudo o que ficasse para trás, a todos os que ficassem para trás, fazer as malas, e partir.
Não sei muito bem para onde. Para quê saber aonde ir? Gosto muito mais de ir à aventura, sem mapa, sem carta de estradas, sem GPS. Se me perder, tanto melhor. No fim de perdida, posso parar de me preocupar em saber se ainda estou na estrada certa, ou se já me desviei do caminho, no fim de perdida posso ir para onde me apetecer, sem noção, sem culpa, afinal uma pessoa perdida não sabe o que faz, pode andar em círculos horas a fio, que não faz mal, está perdida. Não sei quanto tempo ia querer ficar longe, de quanto tempo precisaria para descansar os olhos, repousar a mente. Nem sei se quereria um dia voltar. É sempre um perigo ir para sítios muito melhores, podemos gostar tanto, que já não queiramos voltar mais. Talvez seja por isso que os carcereiros não abrem as portas das celas muitas vezes, as saídas são precárias, controladas ao minuto. Mas é um perigo tão bom de sentir! Tão delicioso! E apetecia-me muito ir de férias.
Não precisava de ser para um lugar muito elaborado, nem muito distante, nem muito conhecido. Só me apetecia descansar um bocadinho, antes de continuar a seguir em frente como sempre faço. Apetecia-me só respirar um pouco de ar novo, diferente. Ver outros céus, outros mares, outros mundos sem tantas fronteiras, sem tantas complicações, sem tantas cobranças, sem tantas imposições. Mesmo que fossem os céus daqui, mesmo que fossem os mares daqui, mas poder olhá-los de forma diferente, doutro lugar, com outra perspectiva. O lugar de onde se vêem as coisas pode mudar muito aquilo que se vê, não pode? Já vi fotografias lindas em que isso acontece. Acredito que sim. Estou a precisar de dirigir um novo olhar às coisas da minha vida. Fugir delas se realmente forem tão tristes como parecem cada vez mais ser. Fugir para longe e não ter que voltar jamais.
Se fosse de férias levava a minha mochila, ainda tenho uma grande, iguais ás da tropa, de lona, do tempo em que sonhava sair pelas estradas fora. Tive um amigo que fazia muito isso, apanhei esse sonho com ele, do mundo dos sonhos dele. Chamava-se Jacob. Infelizmente o meu amigo resolveu que viver não valia a pena, e desistiu das suas caminhadas, de todas as caminhadas do mundo, definitiva e absolutamente. Deixou-me muito boas recordações, e muita alegria no coração, sempre que me lembro dele! Nunca conheci ninguém como o Jacob! Enfiava os pertences obrigatórios na mochila, metia-se à estrada, e ia de boleia pelo mundo. Quando ele me contava por onde tinha andado, as pessoas que tinha conhecido, o que tinha visto, eu ficava de boca aberta! Parecia tudo tão bom, tão fácil, tão bonito! Sem dinheiro, sem planos, sem dia de voltar. “-Para a próxima, levo-te comigo. Pomos o pé na estrada, ninguém nos agarra mais. É tudo nosso. Queres?” Claro que queria, e como queria! Quem não ia querer de certeza, era o meu pai… Mas depois ele contava-me por onde tinha andado. Costumava trazer-me uma lembrança dos sítios, das passagens. Nada de caixinhas, de pratinhos, ou de bonequinhos. Trazia-me papéis de embrulhar rebuçados, capas de revistas, caixas de fósforos, folhas de jornais. E eu gostava tanto! Testemunhos da vida noutros lugares, noutros sítios… Foi uma pena que tenha resolvido viajar para um sítio aonde eu não o pude acompanhar, e foi uma pena que não se tenha despedido de mim. Mas também se se tivesse despedido, eu não o deixava ir. Agarrava-me a ele como uma lapa ao rochedo e sempre queria ver como é que ele fazia para se atirar para baixo do comboio. Jacob… fica em paz amigo. Bolas, desde que o meu amigo hippie se foi, nunca mais ninguém me convidou para ir pela estrada fora, de mochila às costas, sem planos, sem dinheiro, livre de obrigações e de calendários! Há muito e muito tempo aliás, ninguém me faz uma proposta daquelas irrecusáveis, indecentes de tão tentadoras… O mundo está a ficar um lugar um bocadinho menos interessante do que costumava ser. Perderam-se os aventureiros, os caminhantes solitários, os cavaleiros errantes, ou ainda estão por aí e eu não tenho tido a sorte de me deparar com nenhum? A minha irmã costuma dizer que apesar da minha falta de juízo, eu tenho tanta sorte, que até as tentações passam longe de mim, se não tudo seria bem pior. Bem, ela também não precisa de saber de todas as outras tentações, que passam bem mais perto, e que fazem com que tudo seja bem melhor... Ninguém precisa de saber mais de mim, do que aquilo que eu esteja disposta a contar.
Se fosse de férias pegava ma minha mochila velhinha, enfiava lá para dentro meia dúzia de coisas indispensáveis, e lá ia eu. Sem relógio, sem nada que me prendesse ao que ficava cá. Escolhia um caminho bonito, que me parecesse convidativo e deixava-me levar pelo que me apetecesse. Seguia pelas curvas do caminho, subia e descia todas as encostas que aparecessem, parava de vez em quando para descansar e seguia em frente.
Á noite podia parar e ver as estrelas todas do céu. Sem ninguém para me mandar entrar, para me dizer que está frio, para me fazer ver que só as crianças olham de noite para as estrelas e pedem um desejo. Podia mesmo fazer isso, pedir um desejo à primeira estrela que aparecesse no céu! Há que tempo não faço, tão simples, tão bonito! Quem sabe se não é por ter parado de pedir desejos à primeira estrela, que o meu mundo começou a ficar mais sem encanto, sem magia? Podia ficar sentada, apenas sentada a ver o céu. A lua tão linda, cheia de mistérios e de segredos pálidos! Os pássaros sombrios e esquivos da noite a piarem as suas melodias diferentes das dos pássaros do dia, mas tão especiais, tão encantadoras! Quem precisa da varanda de um hotel, da esplanada de um restaurante? Quem precisa de pagar para poder ver a noite? A noite, profunda, sedosa e impenetrável, vê-se muito melhor, sente-se muito melhor, abraça-nos com muito mais intimidade, quando se está sentado no chão, encostado a uma árvore, com todo o espaço do mundo só para nós. A noite, como todas as coisas verdadeiramente bonitas do nosso mundo, dá-se de graça. E de graça as devemos tomar. Pagar para poder apreciar a beleza de uma linda noite de Verão, por detrás da bancada luxuosa de algum pavilhão da moda, tira a beleza e a poesia. Pelo menos para mim.
Se fosse de férias podia dormir aonde muito bem me apetecesse. Por debaixo da primeira árvore mais desviada da estrada, mais acolhedora, com raízes fortes para me encaixar entre elas, com flores silvestres para me fazerem de almofada. Não tenho medo nenhum de aranhas, nem de formigas, nem de nenhum bichinho desses que andam pelo campo e pelas terras fora. Eles não me fazem mal, e eu não lhes faço mal a eles. Temos esse pacto desde Moçambique, aonde as aranhas eram do tamanho da palma da mão do meu pai, as formigas eram muito maiores e mais vorazes do que as de cá, e eu era a única lá de casa que não tinha medo de nenhuma delas. A minha mãe e a minha irmã fugiam aos gritos para cima dos sofás, ao primeiro insecto grande que vissem dentro de casa. Eu nunca tive medo deles. Para quê? Se realmente nos quisessem fazer mal, faziam-no muito antes de darmos pela sua presença. Acho que nenhuma criatura animal, sem ser o homem, faz mal gratuitamente, só pelo prazer de fazer. Então, se não me meter com as aranhas, as formigas, e outra bicharada parecida, acredito que eles me deixassem dormir sossegada no meu cantinho, confortavelmente aninhada em baixo da árvore das minhas férias. Podia dormir cada noite num lugar diferente, conforme me fosse apetecendo andar, ou não. Podia até nem dormir! Olha que maravilha! Não ter que dormir, só porque são horas de dormir. Não ter que dormir porque está programado que se durma! Que beleza! Isso mesmo, podia até nem dormir! Passar a noite inteira a sonhar, a ouvir os ruídos da natureza à minha volta, sem medo, sem culpa, sem sono. Livre para fazer o que muito bem me apetecesse. Pois é, começo a perceber melhor porque é que tanta gente tem assim tanta pressa em ir de férias. Fugir às obrigações, deve ser muito bom! A começar pela obrigação de ter que dormir todas as noites, mesmo quando não se tem sono.
De dia podia ver o sol a nascer. Podia ver o céu a ficar vermelho, dourado, rosado, as trevas a irem embora devagarinho, com preguiça, e o astro rei a acordar. Adoro o sol! Adoro o céu e as diferentes cores que toma, as nuvens que nunca são iguais e que se desmancham mais depressa do que o vento que sopra no ar! Adoro ver coisas bonitas, cores, terra, flores! A beleza selvagem da vida, é muito mais afrodisíaca do que muitos dos beijos que já recebi, do que muitos dos abraços que já me deram. Já consegui sentir muito mais prazer vendo um nascer de sol, um por de sol, num daqueles dias em que o céu ganha vida e cor própria, do que senti muitas vezes noutras situações mais propícias a sentir prazer. Claro que estas coisas não se podem dizer, muito menos a quem divide a nossa cama. Mas eu funciono um pouco diferentemente das outras mulheres, acho eu. Pela estranheza com que sempre têm encarado as minhas fantasias, diria mesmo que funciono de forma diferente de praticamente toda a gente. Um beijo, um abraço, uma carícia para serem verdadeiramente excitantes para mim, têm que ser muito mais do que apenas gestos, melhor ou pior ensaiados. Têm que ter a mesma beleza do sol a nascer, têm que ter a mesma suavidade do vento a soprar nos campos de trigo, têm que ter a mesma magia das estrelas a piscarem no céu da noite. É pedir de mais de um homem, não é? Claro que é! Por isso é que ainda não encontrei o tal homem que seja homem e natureza num só, carne e estrelas, abraço e vento, beijo e sol escaldante de um dia de Verão. E não é que eu seja como a poetiza, que queria o amor de um deus e por isso não se contentava com o amor de um homem. Eu quero o amor de um homem, com toda a magia da obra de Deus. Não quero beijar apenas uma boca e sentir apenas uma boca, quero beijar e ser beijada por toda uma correnteza de beleza, de vida, de alegria. Tudo o que há por aí, sem ser preciso procurar muito, em cada floresta, em cada jardim, em cada recanto de montanha. Magia, serenidade, encanto, calor, energia. Prazer em estar viva, um prazer muito maior, muito mais forte, muito mais duradouro do que o prazer que já experimentei nos braços de qualquer dos homens com quem já estive.
Ia seguindo pelos caminhos bonitos que fossem surgindo. Desviava-me dos perigos dos quais me apetecesse desviar, aceitava os riscos que me apetecessem aceitar. Bebia água dos rios e das fontes que aparecessem no meu andar. Se eu fosse de férias com a minha mochila às costas, havia de me divertir bastante! Como há muito não me divirto! Podia rir quando tivesse vontade, cantar quando me desse na real gana. Sem ninguém para controlar o volume do meu som, sem ninguém para me lembrar das boas maneiras, das conveniências, dos bons costumes. Podia esquecer a hora do almoço! Ah, que bom não ter que fazer almoço! Nem ter que fazer jantar! Nem ter que me preocupar em fazer compras, em lavar a louça, em arrumar a cozinha! Tão bom! Que maravilha! Esquecer os horários, as obrigações, o relógio, a televisão, a casa toda com os seus muros à volta, as suas janelas e as suas portas. Esquecer que o cão tem que comer, que as flores têm que ser regadas, que o carro tem que ir á oficina, esquecer a altura de entregar os impostos, o dinheiro para pagar as contas… Esquecer tudo e todos, que bom! Férias, quem me dera poder ter! Quem me dera poder ir também! Como todas as pessoas que estão agora a fazer as malas, a fechar as portas, a entrar nos carros…
Não era preciso marcações de hotel, reserva de bilhetes, plano de férias, dinheiro, não era preciso nada de nada. Bastava a minha mochila velhinha de lona, algumas coisas indispensáveis, e fome de liberdade no coração. Depois, todas as ruas eram minhas e todos os destinos podiam ser o meu destino. Quem precisa de dinheiro para fazer isso? Quem precisa de mais alguma coisa que não seja o mundo lindo lá fora, uma promessa de aventura no ar e todo o tempo da vida para si?
Eu não preciso de mais nada. Por mim, podia ir já hoje. Como todas as pessoas estão a ir agora.
Para todos os que vão: Boas Férias! Para os que ficam, como eu: Paciência, talvez para o ano… E o mundo também não acaba em Agosto! Ás vezes quem vai de férias, fora do mês principal do Verão, até tem direito a alguns dias extras para gozar noutra altura que lhe apeteça…

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