sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 2 de julho de 2011

Cartas de amor

Houve uma altura em que namorei por correspondência. Uma coisa tão impossível de acontecer nos meus tempos loucos de rapariga, como impossível de me acontecer a mim.
Primeiro do que tudo, porque a minha mãe conheceu o meu pai por carta, namorou por carta e casou com ele, baseada no que lhe conhecia através das cartas que trocavam. Bastava isso, e  ter visto o inferno na terra que foi a vida dos dois, para eu não querer nunca sequer, considerar a hipótese de ter qualquer tipo de relacionamento através de cartas. Depois, namorar por correspondência retira muita da beleza picante do namoro. Pelo menos no que diz respeito à parte de falar olhos nos olhos, caminhar de mão na mão, beijar, abraçar, e enfim… outras coisas mais, que só são possíveis de fazer, sentir, ou viver quando estamos perto da outra pessoa, como ver um bom filme, sentar numa esplanada, ver o pôr-do-sol numa praia…
Mas, mesmo assim, namorei por carta durante algum tempo. Lembro-me muito bem dele, desse meu namorado. Lembro-me melhor agora porque encontrei uma das cartas, antiga de mais de vinte anos, misturada entre alguns papéis que guardo, e que fazem parte das recordações que se guardam. As outras, as recordações que apenas se sentem e não precisam de caixa para serem guardadas, estão sempre comigo, apertadinhas de encontro ao coração. 
Conheci-o numa manhã cinzenta, no sítio aonde era habitual eu estar, quando não estava na escola, na mata do bairro aonde morava. Eu estava com uma amiga da escola, das férias, uma amiga de quase todos os momentos. Ele estava também com um amigo. Meteram-se connosco, disseram uma daquelas gracinhas engraçadas que os rapazes dizem às raparigas, e sentaram-se num banco perto do nosso. Lembro-me que nos fartámos de rir por eles não terem sequer coragem para se aproximarem, e no fim de trocarmos as duas um sorriso de conspiração, resolvemos levá-los a passear.
Coitados deles! Seguiram-nos por quase tudo que era rua! Nós as duas andávamos que nem maratonistas profissionais. Ainda hoje adoro andar, não me canso, nem me farto. Gosto de percorrer ruas, montras, jardins, campos, o que seja. Gosto de sentir o ar a passar enquanto ando. Gosto de ter a sensação boa de que dirijo o meu caminho e de que escolho por onde quero caminhar. Quanto à minha amiga, não sei se ainda mantém a mesma capacidade bem-disposta para as longas caminhadas. Já não a vejo há mais de dez anos. Faz parte do número de pessoas que deixei sair da minha vida e que gostava bastante de reencontrar, mas naquela altura ela acompanhava-me muito bem. Andar a pé, é a melhor forma que conheço de passear. O automóvel, rouba um pouco da beleza de ver as coisas, coloca tudo por detrás do vidro, a deslizar depressa, como se não fosse real…
Mas bem, andámos durante muito tempo, e eles lá vinham atrás, valentemente, sempre no nosso encalço! Ainda por cima, nós as duas, estávamos muito acostumadas àquelas ruas, claro era o nosso bairro! Sabíamos de cor todos os becos, todas as ruelas, todos os atalhos, estávamos em casa. E, pelo menos a mim, a minha amiga era muito mais tímida, todos me conheciam e cumprimentavam. Estávamos sempre a parar para dar beijinhos aos amigos, e eles, que deviam estar convencidos que éramos alguma espécie de celebridades locais, lá aproveitavam para respirar um pouco e descansar as pernas. Foi tão engraçado!!
Até que parámos finalmente, em frente a um café que conhecíamos, e aonde costumávamos ir de vez em quando. Ainda hoje me farto de rir, quando penso nessa manhã! Mas é um riso sem ironia, e sem vontade de achincalhar, porque eu não me sei rir dessa forma má. É um riso gostoso e repassado de saudades misturadas com ternura, um riso que pedi emprestado ao tempo da minha juventude despreocupada, ao tempo em que conseguia quase sempre fugir dos meus problemas, metendo-me em trapalhadas, mas sempre com alguém ao meu lado para gostar de mim.
Eles vieram ter connosco, apresentaram-se, deram-nos dois beijinhos, como mandavam os bons costumes, e um deles, tive sorte, o que eu achava mais bonito, deixou-se logo ficar comigo O outro, mais resmungão e mais cansado, foi andando atrás com a minha amiga. Conversámos, falámos, rimo-nos, bebemos Coca-Colas, comemos batatas fritas, andámos mais e marcámos encontro para o dia seguinte. Quando nos despedimos, o amigo dele foi logo avisando que “Amanhã vens sozinho! Ainda me doem as pernas! Estás parvo, ou quê?”
Ele era um rapaz de província, mais inocente, mais franco… Tinha vindo a Lisboa, com o amigo, tratar de uns assuntos dos pais, assuntos demorados, e estava sem saber o que fazer até ao dia de voltar para casa Teve a “sorte” de me encontrar, de fazer um passeio turístico por todo o bairro, e ainda arranjou companhia para os dias que tinha que ficar em Lisboa. Eu andava na secundária, tinha escola, mas como era uma aluna razoável, podia de vez em quando fazer aquilo a que chamávamos “baldar às aulas”. Então durante uns diazinhos, baldei-me a algumas das aulas e ia ter com ele. Ficámos namorados sem quase dar por isso. Comigo sempre foi assim. Sempre tive medo que o tempo não me chegasse para viver tudo o que queria viver. Queria viver tudo e queria viver depressa, não queria deixar nada por fazer, nenhum desafio por enfrentar, nenhuma novidade por experimentar. Além disso, simpatizei muito com ele, e com a sua pronúncia engraçada e diferente, gostei da maneira como falava sobre sítios que eu nunca tinha visto, pessoas que eu não conhecia, costumes que eu não dominava. Para se exprimir não usava os calões que usávamos entre nós, tinha a novidade de não fumar, nem sequer cigarros, era calmo, simpático… Achei interessante, por ser novidade, a forma respeitosa como me tratava, com cuidado, com atenção, como se eu me pudesse desmanchar ao ser tocada. O hábito de beijar com cerimónia, com contenção, de abraçar com delicadeza, de nunca avançar além do que achava certo. Os dias passaram, e ele voltou para casa. Propôs-me continuarmos a namorar, mas por carta. Ainda olhei bem, para ver se estaria a brincar comigo, mas não. Estava muito decidido a continuar o namoro por carta e a vir-me ver sempre que pudesse. Na altura, achei uma certa piada. “Porque não? É uma coisa diferente para fazer.”. E ficou assim combinado. Íamos namorar por correspondência.
O nosso namoro fora dos hábitos daquela altura, ainda durou um tempo. Ele veio a Lisboa várias vezes para me ver, como tínhamos combinado. Sempre calmo, sempre controlado, sempre respeitador, sempre muito conveniente nas maneiras, mas sem nunca conseguir acender aquela chama que eu gostava de sentir acesa e a queimar. Os rapazes com quem eu estava habituada a sair, sabiam bem como eram os namoricos comigo, breves, rápidos, com um prazo de validade muito reduzido e que terminava assim que me interessasse por outro qualquer. Ele não. Tinha outros hábitos, outros costumes, outra forma de tratar as raparigas. Tinha ideias sérias sobre casamento. Lembro-me de ele ter dito à minha irmã”- Ainda vais ter uma irmã casada, a viver em B. e com uma dúzia de filhos!” Ela olhou para mim com tristeza, como sempre faz quando me quer desaprovar nalguma coisa, e comentou:”- Pobre de ti. Bem se vê que não conheces a minha irmã…” Mais do que casar, que era uma coisa que nem sequer fazia parte do universo de liberdade que eu fantasiava para mim, ele queria que eu deixasse de me rir, da forma solta e livre como ria com os meus amigos, queria que não usasse saias curtas, que não acompanhasse para cima e para baixo com tanta gente a rondar a minha sombra… Queria muito e queria demais. Faltou-me a paciência, cansei-me da novidade e mandei-o passear.
Ainda me escreveu algumas vezes. Eu, durante uns tempos, ainda respondi a algumas das cartas, até que parei de as ler, e ele parou de escrever.
Por isso quando encontrei o envelope, com a letra redonda dele, a carta bem dobrada lá dentro, foi como se tivesse entreaberto uma passagem para o outro lado da vida, há muitos anos atrás. Pensei logo, porque os meus primeiros pensamentos são sempre disparatados e irreflectidos, em escrever para a mesma morada do envelope. Só para saber como ele está, o que foi feito dele e dos seus sonhos de casar, de continuar a viver em B. e ter uma dúzia de filhos. Depois pensei que, mesmo que ainda se recorde de mim, e é capaz de se recordar, não seria muito agradável ter que explicar à esposa por que razão estava a receber uma carta de tão longe, de um nome de mulher que ela não conhece. Por outro lado, pensei que ele podia ainda viver sozinho, achar graça em saber de mim. Podia-me responder, só para matar saudades, só para conversar, ou telefonar, ou mandar um email…
Que aconteceria se eu lhe escrevesse? De vez em quando lembro-me da carta que está lá, guardada na caixa, dentro da gaveta. De vez em quando também me lembro de como a minha vida podia ter sido diferente, se realmente tivesse casado com ele, ido morar em B. e tivesse tido a tal dúzia de filhos. Mas, assim sem chama, sem entusiasmo nem paixão? Possivelmente a minha vida ia ser praticamente igual à que tenho hoje, só que noutro local diferente. Talvez me tivesse furtado a um ou outro sofrimento, a um ou outro contratempo, mas não sei se teria valido a pena.
Para mim, só vale a pena o que é feito com paixão, com intensidade, com emoção. Só uma grande paixão teria feito com que eu tivesse seguido aquele meu namorado das cartas, até aonde ele me quisesse levar, mesmo sem casamento, mesmo sem promessas, mesmo sem nada que não fosse o desejo avassalador de ficar por uns momentos muito mais perto de ser feliz!
Mas ele era respeitador, educado, calmo, reservado e eu era… assim como sou eu, um mar revolto de sensações e de incertezas. Ele queria paz, estabilidade, respeitabilidade, e eu queria voar livre, solta por cima de todos os céus do mundo. Ele ficou com as suas certezas, eu fiquei com o meu universo sem fim de ilusão. Acho que saí a ganhar...

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