sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Com o homem dos meus sonhos

Pensei em imaginar como seria o dia em que eu me encontrasse, a sós, com o homem dos meus sonhos. E imaginei.
No meu sonho, dentro do recanto secreto que existe na minha imaginação, consigo sonhar-me a chegar. Chego, e vejo o carro dele parado, à minha espera. Sim, porque acho bonito o homem ser o primeiro a chegar. Demonstra interesse, preocupação, consideração, vontade de impressionar bem. Impossível eu colocar no meu sonho, um homem que fosse menos do que um cavalheiro e que me deixasse à espera… Não imaginei o carro, essa parte não me interessa muito. Se for parecido com o meu próprio carro, deve ter por volta de vinte anos e estar sempre a precisar urgentemente de pintura, ou de qualquer um conserto mecânico. Mas imagino-o a ele, à espera cá fora, parado, encostado ao carro.
Eu chego perto dele e sorrimos um para o outro. Sem precisar de falar mais, sem precisar de confirmação. Eu sei que é ele. E ele também me reconhece. Aproximo-me devagarinho, fico muito perto dele, olho-o nos olhos. Ele passa-me a mão pelos cabelos, com meiguice, com ternura, com carinho, daquela forma que sempre me enlouqueceu. A mão dele passeia por dentro dos meus cabelos, a afagar, a tomar posse com calma. Eu cerro os olhos e entreabro os lábios, deixo que seja ele a avançar, a tomar a iniciativa. Gosto mais assim, prefiro que seja ele a começar. Ele percebe o que eu quero e beija-me. Não logo na boca, o sonho é meu, prefiro sonhar com calma. No rosto, perto da orelha, no pescoço. Uma mão na minha cintura, a puxar-me bem de encontro a ele, a outra, perdida nos meus cabelos. Por fim, beija-me na boca. Da maneira como eu gosto, como eu já quase me tinha esquecido que gosto… Devagarinho, com tempo, sem pressa nenhuma de nada. Como se aquele beijo fosse realmente a coisa mais importante do mundo. Um beijo molhado, húmido, um beijo ardente! Um beijo bem dado sempre fez maravilhas comigo. Muito mais do que as outras coisas todas juntas. Eu gosto de beijar e ser beijada. Mas nem por isso gosto de todos os beijos. Não daqueles beijos rápidos, mecânicos, despachados, parecidos com uma maratona de ginástica de línguas, sem paixão, nem desejo. Gosto de beijos com alma e com coração, aqueles que fazem esquecer o lugar, a hora, que fazem sonhar, que fazem o coração bater mais depressa. Quem já teve o prazer de beijar, ou de ser beijado assim, sabe do que eu estou a falar. Quem ainda não teve, bem…, pode sempre imaginar. É muito bom, recomendo vivamente (beijar e imaginar também, mas beijar é, sem dúvida, infinitamente melhor!...)
Depois, e ainda dentro do sonho que eu imagino, damo-nos conta que continuamos na rua, perante os olhares invejosos de toda a gente, e entramos para o carro. Ele conduz, claro. O carro é dele, e além disso, eu gosto de ser conduzida, não de conduzir. Gosto de seguir o homem para onde ele me quiser levar, gosto de confiar, sobretudo gosto da sensação boa de poder confiar, gosto de me sentir protegida, amada, aconchegada. Gosto de não ter que me preocupar com o aonde, com o quando, com o e depois. Tão melhor quando é só saborear e ter quem decida por mim! Tão mais fácil, tão mais saboroso!... Eu sei que não é muito moderno, nem muito feminista, mas eu gosto das coisas assim. Gosto de ter um homem a meu lado que tome bem conta de mim.
No meu sonho, não nos imagino a ir para nenhum hotel. Não gosto de hotéis, nem de motéis, nem de nada dessas coisas que custam dinheiro e tiram a poesia aos momentos. O que eu amo de paixão é a magia, o encanto, o sublime de estar acima da realidade, do palpável e do concreto, o estar fora do calendário, fora do relógio, fora do mundo do costume, que é muito pequenino, muito igual a si próprio, muito triste e sempre frustrantemente desapontador. Misturar todos os sentimentos e sensações extraordinárias da paixão, do amor, do desejo, com pagamentos de hotéis na recepção, esperas pelo troco, reservas de quartos, parece que quebra a beleza do momento. Reduz as coisas a meras formalidades a serem cumpridas, a transacções que se podem comerciar, discutir, regatear, e basta uma pequena coisinha, insignificante que seja, para quebrar o meu encanto e parar com a minha magia. Uma vez quebrada a magia, pelo menos comigo acontece assim, demora tempo demais a voltar. E às vezes, quando volta já não é a mesma coisa, nem brilha da mesma maneira bonita… Já não consegue fazer acender a mesma chama de antes e acaba por se esfumar, sem mesmo chegar a ver a luz do dia.
Por isso, mexo os meus cordelinhos imaginários e faço com que ele pare o carro numa estrada de floresta. Imagino-o a encontrar um sítio mais resguardado, para dentro da vegetação e a estacionar ali. No meu sonho não existem ladrões de automóveis, tarados que espreitam os namorados, nem guardas florestais que gostam de empatar o amor dos outros. Ninguém nos consegue ver da estrada. Também não vimos ninguém. Estamos só os dois. Em segurança, em paz. Sozinhos com o mundo inteiro de coisas bonitas que estão do outro lado do vidro da janela, os pássaros que cantam por entre as árvores, as ramagens que se mexem devagarinho. Está sol, é um dia muito bonito! Tinha que ser um dia muito bonito, com sol, céu azul. Só num dia assim podia acontecer comigo uma coisa maravilhosa como aquela que está para acontecer dentro da minha imaginação. Nos dias tristes, é difícil que aconteça uma coisa realmente boa… Nos dias tristes, fico triste também, e quando o sol dorme no céu, tapado pelo cobertor das nuvens, também qualquer coisa adormece no meu peito e não sou capaz de distinguir muito bem o brilho luminoso da vida. Tem que ser num dia bonito, num sítio bonito, como os das fotografias lindas que gosto de ver e que me fazem sonhar com paraísos distantes, com árvores, com montanhas, com as cores todas do mundo prontas para mim, prontas para pintarem a minha paixão de cores mais quentes e mais gostosas. E como a imaginação é minha, e sou eu quem está no controlo do meu sonho, ponho tudo a acontecer num dia lindo de Verão. O Verão é a minha estação, sempre foi, sempre será, por definição, por nascença, por defeito, e por excesso também.
Ele começa a falar. Fala dele, de coisas de que gosta, de coisas que pensa, atrapalha-se, hesita. Eu gosto assim. Gosto quando um homem se atrapalha um pouco comigo. Quando não sabe muito bem como começar, quando tem receio de fazer algo errado, quando me trata como se eu fosse preciosa e delicada. Sabe tão bem ser tratada com consideração, com cuidado, como se o estar ali com ele, dentro de um carro parado, à espera do que vai acontecer, não fizesse de mim menos respeitável, menos digna de atenção, menos desejável, porque agora já menos distante. Gosto quando um homem se revela de vez em quando, e se deixa ver não tão destemido como sempre pareceu ser. Gosto de descobrir a parte mais humana, aquela que me faz vibrar de emoção, aquela parte mais querida que me faz escolher aquele homem entre todos os outros homens do mundo. E que faz com que eu queira aquele homem para me fazer sentir sua mulher.
Eu sorrio-lhe com doçura, pego-lhe na mão, coloco-a sobre o meu seio. Ele pára de falar, abraça-me, afaga-me, levanta-me a blusa, toma os meus seios entre as suas mãos, beija-me, agarra-me, sempre com amor, sempre com tempo, com carinho. Eu arqueio o corpo para a frente, ao encontro dele. É tão bom! Tão maravilhoso! Sinto-me tão bem! Mais nada importa agora. É como se todo o mundo tivesse parado lá fora e só existíssemos nós dois, dentro do carro, a boca dele em mim e eu, a rodeá-lo com os braços, a deixar que me ponha louca, a deixar que me descontrole e me faça sonhar.
Está na hora de parar! O sonho está a ir depressa demais, assim perde a graça… Ele pára, recompõe-se, sorri. Convida-me para sair um pouco, ir conhecer a vizinhança, ver como é o lugar aonde estamos. E eu fico feliz por ele ter parado quando podia ter continuado até ao fim. Consigo apanhar no ar, como se fosse palpável, a impressão subtil de que fazer amor comigo, não é só o que lhe interessa. Fico com a ideia de que temos tempo, de que ele não vai desaparecer, que quer que eu me sinta bem, descontraída, tranquila.
Quando saímos do carro, ele põe-me o braço por cima dos ombros, rodeia-me com firmeza, faz-me sentir sua, aconchegada, confortável no amplexo do seu abraço, segura e protegida dos fantasmas do mundo, das sombras escuras que me costumam atacar quando estou mais triste e mais sozinha. Andamos pelo campo dentro. Por todo o lado vemos árvores frondosas e amigáveis, pequeninas e mimosas flores campestres com as suas cores delicadas ou garridas, o verde luxuriante da vegetação a cobrir tudo, a envolver tudo, os raios de sol a infiltrarem-se bem devagarinho pela sombra dos ramos e a fazerem nascer corredores de luz brilhante e dourada mesmo em frente aos nossos olhos.
Aqui? Ainda não. Mais um pouco de romance… É tão bom o romance! Para quê ter pressa de chegar? Ele dá-me a mão, prende a minha mão na dele com amor, com doçura. Segue em frente, conversamos, rimos, falamos de mil coisas sem importância, mas que têm toda a importância do mundo. Coisas que dizem, sem dizer, que está tudo bem, que está tudo a correr como deve correr, que ele está ali e está a gostar de estar comigo. Quando paramos de caminhar, estamos ainda mais para dentro da floresta encantada dos meus sonhos. Nem a estrada se vê já. Tudo é paz, beleza selvagem, como selvagem é a vontade que sinto de que ele me toque. Ele tira o casaco, estende-o no chão. Convida-me a sentar perto dele, por cima do casaco para não me arranhar nas agulhas de pinheiro que estão por todo o lado, para não me sujar de terra, de areia. Claro, o homem dos meus sonhos tem que ser um cavaleiro andante, sempre pronto a salvar-me de todos os perigos. Começar por me proteger das agulhas dos pinheiros, da terra e das folhas secas, é um bom começo.
Acho que agora é boa altura… Também fica difícil aguentar muito mais! Até nos sonhos há um limite para o que se consegue adiar e protelar. Ele encosta devagarinho a boca à minha, e beija-me com paixão. E abraça-me com desejo. E respira forte junto ao meu pescoço, mas mesmo assim é com delicadeza que me deita e é com carinho que me pergunta se pode, se eu quero, se tenho a certeza. Esta parte é importantíssima! Sendo fruto da minha imaginação, não podia faltar. Eu sinto, sem hipótese nenhuma de estar enganada, que se eu dissesse que não, ele não ficava zangado, não fazia cara feia, não me fazia correr para o apanhar e não me deixava no mesmo lugar aonde me tinha apanhado, sem um beijo, sem uma despedida, sem um olhar. E essas certezas todas, que enchem a minha alma de confiança e de segurança, misturadas com o desejo quente e insistente que me abrasa por dentro, são tudo o que preciso para lhe dizer que sim, que tenho a certeza e que quero muito.
Nesse momento, mesmo enquanto estou em pleno acto de criar o meu sonho, devo confessar, passam pela minha imaginação, imagens antigas, passagens de vida que já se foram, recordações de pessoas que já não estão, de outras que eram para ter ficado para sempre, beijos diferentes, cheiros diferentes, abraços que dei e recebi com outros amores, alturas em que estive como agora, com o céu azul por cima e o sol a brilhar por entre as folhas dos pinheiros. De repente quase consigo ouvir outras vozes, outras palavras sussurradas com paixão, quase consigo sentir outros afagos antigos e saudosos no corpo, quase estremeço quando alguma recordação mais forte luta para se soltar do mundo das memórias perdidas e se insinuar de novo na minha realidade de sonho. Mas não quero, nem vou, mudar o rumo ao meu sonho. Não vou sonhar outra vez sonhos antigos que já acabaram e dos quais custou tanto acordar.
Está na hora de ele dizer alguma coisa verdadeiramente significativa…Alguma coisa que tenha o poder de espantar os espíritos intrusos e desvanecer as sombras… Ah, já sei! Só pode ser isso, não vai falhar! Ele diz-me ao ouvido que me ama, que me adora, que me quer como nunca quis ninguém antes de mim, que me quer não só para agora, para este momento bonito, mas para sempre, enquanto o sempre durar e estiver na nossa mão sermos senhores do seu existir. E logo naquele instante tenho a certeza de que estou no agora e não num portal qualquer esquecido do meu passado. Porque só no agora, alguém me podia dizer coisas tão bonitas, de uma forma tão bonita! Só no agora, alguém podia tocar o meu corpo daquela forma delicada, quente, amorosa. Porque só no agora o encontrei a ele, e ele é a minha alegria, a minha vontade de ser feliz, a minha paixão pelas coisas lindas do universo. Tudo junto, tudo misturado em doses iguais e na mesma pessoa.
Então na minha imaginação, no meu sonho, no lugar preferido do meu coração, deixo que ele me dispa a roupa devagarinho e passe as mãos pelo meu corpo todo, deixando incêndios acesos por onde passa. E como não aguento mais, sussurro-lhe alguma coisa ao ouvido, que não interessa saber o que foi, porque às vezes os sonhos perdem o som e não conseguimos perceber bem o que neles se diz. No instante seguinte sinto-o dentro de mim e não sou capaz de controlar mais nada. O sonho fugiu da minha mão e ganhou vida própria. Saiu do seu rumo de sonho bem disciplinado e obediente e perdeu-se entre gemidos e suspiros, entre beijos e palavras entrecortadas.
Quando acaba a magia, ele nota que tenho duas lágrimas presas nos olhos. E pergunta se me magoou, se está tudo bem. Não, não me magoou, ensinou-me que até os sonhos mais lindos ganham o direito de serem sonhados como bem querem, e que na hora suprema do amor, a razão perde sempre em favor do coração. Ensinou-me como é tão simplesmente bom ser feliz.
Para a próxima vez, vou querer sem estar a sonhar. Só para conferir se é tão bom na realidade, como foi no sonho… Quero ver como se sai o homem dos meus sonhos, se eu não estiver por trás, a dar uma pequenina ajuda no caminho do meu sonhar…

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