sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Conselhos de mãe

Sempre ouvi dizer, desde pequenita, que os homens gostam de ser mal tratados. A minha mãe sempre justificou a desgraça que era o casamento dela, com o facto de não se ter sabido impor desde o princípio, de ter sido inocente, de ter sido tolerante, de ter confiado demais, e de ter deixado que o meu pai assumisse pleno controlo de todas as situações. Segundo a minha mãe, se nos mostrarmos fracas e desarmadas em frente a um homem, se lhe dermos a entender que ele nos faz falta, se demonstrarmos que nos importamos verdadeiramente com o que ele pensa ou sente, então pronto, temos a porta aberta para o pior que possa acontecer. A partir daí, e de acordo com o que ela dizia, começam as faltas de consideração, as más palavras, os desrespeitos. “Nenhum homem merece sorrisos, atenções, carinhos a toda a hora. Eles gostam das mulheres que os tratam mal, que não lhes dão importância, que os sabem pôr no seu lugar e que lhes mostram que eles não são nada de especial.”
A mim, sempre me pareceu uma teoria um pouco estranha. Sempre me pareceu impossível que alguém, no seu perfeito juízo e gozando de boa saúde mental, goste de, e prefira, ser mal tratado. Quem é que não gosta de ouvir uma palavra bonita, de sentir um carinho, de receber um agrado? Quem é que não gosta de se sentir amado, cuidado, acarinhado? Mas na opinião da minha mãe a verdade era simples e era só uma: “os homens não são como as mulheres, a cabeça deles funciona de forma diferente e é preciso saber levá-los com mão de ferro.”
Sempre fui, desde pequena, um pouco rebelde e sempre gostei de ter as minhas próprias opiniões sobre todos os assuntos, principalmente sobre os assuntos que me dizem respeito. Nunca me deixei influenciar muito pelo que me dizem, ou pelo que me aconselham, independentemente de quem for que o faz. Se me dão um conselho, é certo que escuto, polida e educadamente, porque me prezo de ser uma mulher bem-educada, mas depois, a sós comigo própria, e na altura de decidir, faço, resolvo e decido como muito bem me apetece. Sou muito senhora do meu nariz, muito voluntariosa, e esse aspecto desafiador e teimoso, acho que nunca vou conseguir corrigir em mim, e muito honestamente, até gosto de ser assim como sou. Um pouco rebelde sem causa, um pouco idealista, um pouco selvagem, sempre a fugir às rédeas e às esporas, correndo à desfilada com o freio nos dentes. Apesar da relutância inicial em aceitar os conselhos da minha mãe, fui vendo, com o passar dos anos como decorria a vida das mulheres que me rodeavam, e mesmo sem querer, fui sendo tentada a começar a dar alguma razão aos aparentes disparates que ela dizia. Fui vendo como mulheres amigas, leais, carinhosas, dedicadas, sempre com comportamentos correctíssimos, eram brutalizadas, mal tratadas e desconsideradas por namorados, maridos, companheiros Na minha própria família isso aconteceu, e a pessoas muito próximas e queridas, que não mereciam de forma alguma, nem tinham dado azo de nenhuma maneira aos horrores que sofriam nas manápulas grotescas dos seus “homens”. De maneira que, mesmo a contragosto, principiei a ver os representantes do género “bicho homem” como criaturas acéfalas, irracionais e bem merecedoras do tal “mau tratamento” de que sempre ouvira falar.
De de cada vez que eu terminava um namoro, de cada vez que o ex-namorado me olhava com cara desolada, eu pensava para comigo “-Fica triste à vontade. Antes tu do que eu!” De cada vez que eu marcava um encontro com um rapaz e depois não me apetecia aparecer, de cada vez que recebia um recado e o atirava para o caixote sem mesmo abrir, de cada vez que tinha um namorado no portão de cima à minha espera e eu estava no portão de baixo com outro pretendente qualquer, se a sombra de um remorso começava a insinuar-se no meu espírito, justificava logo as minhas acções quase cruéis com o desempenho correcto do meu papel de “pôr os homens no seu lugar, e nunca, mas nunca demonstrar que eles são importantes para nós.” E realmente, quanto mais eu desprezava um rapaz, quanto mais me ria dele, quanto mais lhe dava a entender que não me agradava, mais ele se interessava por mim. Não é que eu fosse mais bonita do que as outras, nem mais bem-falante, nem mais esperta, mas um facto é que à minha volta os rapazes esvoaçavam como abelhas em volta do mel. Se era de facto uma consequência da forma altiva e desdenhosa como eu os tratava, não sei. Se eles gostavam realmente de serem usados como lenços descartáveis, e se lidavam muito bem com as brincadeiras patetas que eu fazia com eles, não sei. Mas sei que fosse o que fosse, resultava na perfeição… Protegia-me no que eu não queria que se magoasse, o meu coração e o meu eu inacessível, e não me impedia de me divertir como muito bem entendesse.
A minha forma de viver os relacionamentos no campo sentimental sempre foi simples e linear: muita novidade, muita animação, muita fantasia, mas nada de grandes amores, nem de grandes sentimentos. Nada de me expor muito nem de dar a homem nenhum o poder de ver claramente no meu coração. Mais facilmente um homem sabia qual a melhor forma de me beijar, de me abraçar, do que sabia o que eu realmente pensava dele. Nunca me dei mal com isso, nunca me magoei por amor, nunca ninguém me deixou o coração despedaçado. Não dei a ninguém a permissão para entrar na minha alma, e se instalar como senhor no reino secreto das minhas emoções. Preservei os mistérios dos meus sentimentos, ocultei sempre o que me podia deixar vulnerável, o que podia deixar desprotegidas as muralhas intransponíveis do meu castelo. Mesmo quando algum deles acreditava que me conhecia, que sabia o que eu pensava, o que eu sentia, ainda assim sabia apenas o que eu lhe deixava saber, e conhecia apenas o que eu achava imprescindível ele conhecer, e mesmo isso, no fim de bem filtrado pela minha censura interior.
Pelo tempo fora, seguindo o meu caminho pela vida, fui sempre encontrando novos casos de pessoas que pareciam confirmar quase sem dúvida que, quanto mais uma mulher se esforça para agradar, mais desconsiderada é pelos homens. Colegas do meu trabalho, mães de colegas dos meus filhos, vizinhas minhas, por todos os lados casos e mais casos de mulheres queridas, amorosas, dedicadas e abandonadas, traídas, trocadas, maltratadas, largadas em farrapos por algum homem a quem tinham tido a fatalidade de entregar o coração. Sempre tudo corroborando a boa e velhinha tese da minha mãe de que “os homens preferem as mulheres que os maltratam”.
Eu continuei sempre intocável, inacessível no meio da minha aparente acessibilidade, distante apesar dos sorrisos, das brincadeiras, dos ditos mais ou menos apimentados. Reservada e controlada mesmo quando me rio, mesmo quando falo de mim em tom de ligeireza, mesmo quando julgam que estou quase rendida, mesmo quando acreditam que estou quase entregue. Nunca mudei a minha forma de pensar, nem de encarar a minha relação com o género masculino: prefiro de longe a sua companhia à das mulheres, são bons para ter por perto, óptimos e confiáveis enquanto amigos, agradáveis, divertidos, engraçados, fortes, protectores, bons companheiros para um passeio, para um café, para uma conversa despreocupada, para um dia de praia, mas péssimos depositários dos afectos e das paixões.
Se eu não gostava de mudar? Se não gostava de poder mostrar mais um pouquinho de mim, do que penso ou sinto? Não sei… Em equipa que ganha, não se mexe, é o que se costuma dizer. Até agora tem sempre sido mais ou menos fácil furtar-me com elegância a situações mais complicadas, mais profundas. Não me tem sido difícil iludir a curiosidade masculina, sorrindo, dizendo um disparate qualquer mais alegre, dando uma resposta que nada responde, mas que deixa a pensar que respondeu e muito, uma daquelas respostas que não magoam, não esfriam, não terminam nem cortam possibilidades, mas não revelam nada sobre quem as dá. Incrivelmente, o género de respostas de que os homens mais gostam… as que prometem muito e não cobram nada.
Até agora, quase ninguém tocou o meu coração de forma a que me sinta tentada a expor mais um pouco do que penso ou sinto, ou a baixar um milímetro que seja as minhas defesas. É certo que por vezes parece piscar uma luzinha ao fundo do túnel, parece haver alguma esperança a cintilar, parece-me quase possível ver algo mais para lá das aparências e das ilusões, quase que sinto o coração a bater mais forte, mas é preciso bem mais do que uma aparência de luz a piscar ou uma promessa de esperança a cintilar, ou uma simples miragem, por mais bela que pareça ser, para que eu me decida a desmontar o seguro muro de peças de encaixar que levantei em redor de mim, e que tão bem me tem protegido durante todos estes anos.
Era preciso que eu estivesse realmente convencida de ter encontrado uma pessoa muito, muito especial, muito mas muito diferente de todas as que conheci até hoje, e já conheci bastantes, o que me deixa com uma relativa prática e á vontade neste tipo de coisas, para que eu me atrevesse a passar da vontade à acção e mudasse a minha maneira de agir, pensar e de me proteger. Para que eu gostasse realmente de alguém ao ponto de me mostrar por inteiro, por dentro como por fora, sem disfarces, sem medos, sem inseguranças, acho que era preciso que existisse algo que me deixasse não só apaixonada, porque apaixonada já estive inúmeras vezes, de imensas maneiras, por demasiadas pessoas, mas que fosse algo mais do que uma simples paixão. Para que eu me atrevesse a desobedecer ao único dos muitos conselhos que a minha mãe me deu e ao qual não desobedeci, para que entregasse realmente, não só o corpo, mas junto com ele, a alma, era preciso que eu amasse realmente. E amar, amar com aquele amor que eu acho que é possível amar, ainda nunca amei ninguém. Como sou louca, aventureira e sonhadora desde que me conheço, como gosto de caminhar por estradas das quais não conheço o fim nem sei aonde vão dar, desde que sigam por um percurso bonito, gostava de um dia amar, inteiramente, plenamente e de todo o coração. Mesmo sabendo que tudo podia correr mal, que me podia vir a arrepender, mesmo assim, não gostava de fazer a minha passagem por esta vida sem ter amado a sério alguém. Um amor para lá da simples paixão, para lá do mero satisfazer das vontades, um amor que fosse uma mistura gostosa de prazer, de amizade, de novidade e ao qual fosse impossível recusar coisa alguma.
Amar alguém muito especial, alguém diferente, alguém que me conseguisse provar que de facto os homens não precisam de ser mal tratados para continuarem interessados numa mulher. Alguém que me mostrasse que tenho andado enganada todos estes anos, ou então se calhar que até estava a fazer bem, porque ainda não tinha chegado a tal pessoa certa. Há quem lhe chame a procura incessante pela nossa alma gémea, eu chamo-lhe apenas e simplesmente estar à espera do amor. Porque ele pode acontecer, não pode? E há quem diga que é muito bom! Existem algumas pessoas das quais já ouvi falar, embora nenhuma que eu conheça, que dizem que vale bem a pena! Frente a um amor assim, forte, intemporal, irresistível, acho que não há conselho de mãe que resista…

Sem comentários:

Enviar um comentário