sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Criaturas de uma espécie diferente também amam

Existem criaturas diferentes que vivem nos submundos da vida. Seres que rastejam entre lodo e pedras soltas. Raramente sobem à superfície. Procuram sempre a luz do sol, mas nas zonas das profundezas aonde habitam, o sol não consegue penetrar. É muito raro que duas criaturas dessas se encontrem. Nas poucas vezes em que isso sucede, tudo pode acontecer.
Há pessoas que pensam e sentem de forma muito diferente de todas as outras. Pessoas que pertencem a subgrupos da humanidade. Vivem num mundo à parte, embora as possamos encontrar em qualquer lugar. Pode ser a pessoa que come pacatamente na mesa ao nosso lado. Pode ser a vendedora simpática que nos deseja bom dia quando entramos. Pode ser até o velhinho no banco de jardim que lê o seu jornal na maior paz do mundo. Pode ser o desconhecido sedutor e bem-falante que invade as nossas vidas de uma forma tão intempestiva, que nada mais volta ser como dantes. E, quem sabe, pode até ser a rapariga de sorriso bonito e provocante, que olha para nós da tela de qualquer computador.
Esses seres passam a maior parte do seu tempo, mergulhados em tristeza, em recriminações, em solidão profunda. Não entendem o que fizeram de mal, não compreendem o porquê dos sofrimentos, tentam sempre compensar a infelicidade que sentem, com atitudes intempestivas e deslocadas. O seu principal objectivo é parar de sofrer. Tentar perceber qual o melhor remédio para pôr fim à sua agonia. Experimentam várias alternativas. Desafiam vários riscos. Inventam e reinventam histórias novas sem fim. Sempre na esperança impossível de que aquela seja a história que os vai resgatar do sofrimento e da miséria da solidão. Acreditam sempre que daquela vez vai ser possível. Que aquela é a pessoa certa para desfazer as dores do seu passado.
Quem se cruza com eles, não os identifica. São simpáticos, afáveis, interessantes. Destacam-se das outras pessoas de forma positiva, quer seja pela maneira de falar diferente, mais pausada, mais ponderada, mais aberta, pela maneira original e criativa como abordam assuntos complicados, ou pelo sorriso mais sedutor, pelas respostas mais atrevidas, pelo ar picante e descarado que promete o mundo sem fim, enquanto que do mundo só querem um pouquinho de amor.
Não são muitas, essas pessoas. São uma minoria. Passam desapercebidas, a não ser por aqueles que se encontram por momentos dentro do furacão que são as suas vidas. Uma criatura assim, é capaz de amar com paixão, com desinteresse, de corpo e alma. Mas não é capaz de sair da fase romântica e seguir em frente para a vida normal. Não é capaz de ser generosa com as necessidades do outro, nem com os seus problemas. Só lhe interessa satisfazer a necessidade imperiosa, absurda e faminta de alcançar um pouco de carinho de alguém. Uma criatura assim, é capaz das mais belas frases de amor, das maiores delicadezas, dos estratagemas mais subtis e maravilhosos para conseguir levar alguém a apaixonar-se perdidamente por si. Uma pessoa dessas vai querer sempre mais do que só paixão, vai querer a alma, o coração, o espírito da outra. Vai infiltrar-se de tal forma na sua vida que, quando a outra pessoa se dá conta, já não é nada mais do que um saco vazio, um depósito sugado em vida por um vampiro brilhante e bem treinado.
Eles são poucos, felizmente para eles, e felizmente também para o resto da humanidade. No entanto, muito de vez em quando, dois deles cruzam-se, cheiram-se, reconhecem-se. E demoram-se um pouco um com o outro.
É como o encontro do sol e da lua, do fogo e da água, da fome com a vontade de comer. É terrível, enorme, grandioso, e ao mesmo tempo, triste, infeliz e condenado ao fracasso. É como assistir a um combate entre dois grandes felinos. É autodestrutivo, e é absurdamente bom de sentir!
Quando o conheci, fiquei surpresa de alguém tão mais culto, tão mais inteligente, tão diferente de mim em todas as coisas se podesse interessar em querer conhecer-me melhor. Sei que pareço engraçada, que digo coisas divertidas, reconheço que me consigo desenvencilhar relativamente bem no mundo complicado dos homens. Mas normalmente, as pessoas que se chegam a mim, são mais parecidas comigo, mais ligadas ao mundo do dia-a-dia. Ele foi um presente dos céus na minha vida. Desde o primeiro dia em que nos começámos a falar, até ao último.
Encheu os meus dias de amor, de carinho, de atenções simples e amorosas. Desde os telefonemas delicados, às mensagens constantes só para dizer olá, só para mandar um beijinho só para dizer que estava a pensar em mim. Nunca me lembro de ter sido tão bem tratada, tão acarinhada por homem nenhum. Nunca nenhum deles me fez sentir tão importante, tão segura, tão protegida. Os dias que se passaram enquanto tive este romance com ele, foram os melhores dias da minha vida, não tenho vergonha nenhuma de o dizer. Andava feliz, contente, animada, como dantes eu costumava ser. E como já me tinha esquecido que era possível ser. Ele melhorou a minha auto-estima de uma forma incrível, mudou tantas coisas em mim, abriu-me um mundo de perspectivas novas e diferentes. Estive muito, mas muito apaixonada por ele. Podia ter sido muito bom, podia ter sido para sempre.
O único problema é que tanto ele como eu, procuramos a mesma coisa, precisamos da mesma coisa, e o que não temos para nós, é impossível que tenhamos para dar a alguém. Eu preciso de atenção, de carinho, de amor, de protecção, de romance. Preciso de ter alguém comigo para poder ser feliz. Impossível que algum dia venha a ser feliz estando sozinha. Preciso de alguém que tenha paciência com os meus defeitos, com as minhas faltas de senso, de tino. Alguém que me passe o braço pelos ombros, me guarde dentro do seu abraço e me leve para longe de todo o sofrimento e de todo o mal. Ele precisa de alguém que lhe faça esquecer demónios escondidos do passado. Que lhe prove que é um homem bom, integro, competente, confiável. Alguém que seja a explicação para o que está mal, que desfaça as suas trevas com um sopro e que coloque tudo no devido lugar com o poder de um beijo. Ele vive dividido em várias personalidades, perdido em várias pessoas diferentes entre si, opostas, inconciliáveis, encantadoras todas, mas irreais e mal sustentadas. Os nossos dois mundos feitos de fantasias e de ilusões não se conseguem segurar juntos durante muito tempo. Os nossos alicerces são demasiado fracos e instáveis. Parecemos duas paredes quase a ruir, amparadas uma na outra por um qualquer tijolo vagabundo que a qualquer hora vai infalivelmente ceder.
Mas tenho tanta pena que seja assim! Vai-me fazer tanta falta o carinho, a atenção, o amor. Acostumei-me nestes últimos dias, a ser bem tratada, a ter alguém do outro lado interessado em fazer-me sentir feliz. Habituei-me a acordar de noite e a pensar nele, nas palavras, no rosto, no olhar. Habituei-me a gostar dele, do nome dele, da lembrança dele. Comecei a programar a minha vida para bater certa com as horas em que ele me telefonava, me escrevia, me falava. E tudo isso me está já a fazer tanta falta! Tenho tantas saudades! Queria tanto que tivesse dado certo desta vez! Doeu muito, está a doer demais! Mas foi muito bom enquanto durou! Nunca lhe vou guardar raiva, nem ressentimento. Ele vai ficar na minha história como uma lembrança diferente e querida a que vou recorrer muita vez, sempre que me sentir mais por baixo e precisar de recordar as coisas lindas que ele me dizia e que punham sempre tudo de novo no seu lugar. Sim, porque agora voltei a estar sozinha. E se precisar de conforto, vou ter que recorrer de novo às recordações. Ainda bem que não as tinha mandado embora para muito longe…
Sei que fui uma desilusão para ele. Provavelmente mais uma desilusão, no mar imenso de desilusões que ele tem tido na vida. Não consegui afastar as trevas, não consegui trazer-lhe luz, não consegui acalmar os espíritos selvagens que rugem dentro dele a toda a hora. Nem fui capaz de acrescentar nenhuma novidade, nenhuma mudança, nenhuma surpresa. Fui uma conquista fácil, um afecto seguro, um porto de abrigo muito temporário.
De vez em quando a vida junta duas destas criaturas por uns instantes. Seres que vegetam nas profundezas, em busca de amor, de afecto, de carinho. Seres estranhos que tentam sempre encontrar a felicidade. Pessoas diferentes das outras, mais tristes, mais sofridas. Pessoas que não conseguem ver a luz, que procuram ainda assim o sol.
Nós encontrámo-nos, cheirámo-nos, reconhecemo-nos e apesar de sabermos o risco que corríamos, deixámo-nos ficar por uns tempos. Não podia nunca ter dado certo. Era quase como um incesto. Quase como que uma relação amorosa entre primos direitos, irmãos de sangue, criaturas escusas da mesma espécie.
Mas, ainda assim, foi bonito demais! Eu gostei muito, e não me arrependo! Não sei se ele vai ler o que estou a escrever, ou não. Provavelmente não. Mas se por acaso passar por aqui e tiver curiosidade em ler, quero que saiba que à minha maneira diferente e complicada de ser, o amei muito e que ele vai estar sempre comigo, no meu coração, esteja eu aonde estiver. Beijo grande.......

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