sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 19 de julho de 2011

De comboio, a espreitar pela vidraça

Olhei de lado, de forma disfarçada e não, ninguém parecia estar a reparar. O comboio estava cheio dos passageiros habituais de princípio de dia. Ainda bem cheirosos, as roupas ainda bem engomadas e direitinhas, os cabelos ainda cuidadosamente arrumados no lugar.
Eu era mais uma passageira. Estava sentada, nesse dia, junto à janela e nada me distinguia de todas as outras pessoas. Calma, concentrada num ponto qualquer do horizonte. Só que eu não estava ali.
Faço isso tantas e tantas vezes! Estou lá, mas não estou. E ninguém parece desconfiar de nada. Delicioso! A arte de iludir sempre me pareceu fascinante. Não iludir com o intuito de prejudicar ou lesar, claro que não, nada a ver com isso. Iludir apenas no sentido de disfarçar a minha realidade apresentando outras realidades mais convenientes, e garantir assim total liberdade para as minhas fantasias. Iludir porque a minha presença física está garantida, estou mesmo ali, é incontestável, indesmentível. Se é o que querem, estou para todos os efeitos presente. Só o meu coração e o meu espírito é que andam por onde muito bem lhes apetece. Uma vez ensinaram-me um ditado popular cabo-verdiano, que dizia: “O corpo que é cativo, fica. A alma que é livre, vai.” E na minha alma, é difícil que alguém ponha grilhões. Então, quando não posso fugir de mais nenhuma outra maneira, fujo em pensamento, e ninguém se apercebe de que não estou lá. É um bom negócio para ambas as partes, para quem me quer presente nem que seja só em imagem, e para mim, que posso escapar sempre que precisar de respirar um pouco de ar puro, só para garantir que ainda estou viva.
Quem reparasse em mim, naquele comboio, podia concluir que eu olhava pelo vidro da janela, como é de praxe fazer-se nos comboios, mais ainda quando se tem a sorte de arranjar lugar sentado, perdida na contemplação sempre aborrecida das mesmas ruas e dos mesmos lugares. Mas não. Estava tão longe…
Às vezes vou até sítios aonde já estive, e que ficaram gravados na minha memória e na minha saudade, vou até lá para espreitar que tal vão passando, se ainda estão no mesmo lugar aonde eu os deixei. Faço uma visita surpresa para saber como se têm vindo a aguentar desde que estão longe dos meus olhos, embora continuem sempre perto do meu coração. Eu sei que estar sempre no coração de alguém é muito bom, e saber disso, enche a minha vida de felicidade, mas às vezes dá-me uma vontade tão grande de sair um bocadinho do coração, só um bocadinho, muito tempo não, porque não quero perder o meu lugar bonito e quentinho, e poder tocar ao de leve no resto todo que envolve o coração, só para conferir que é mesmo real, só para sentir como é, se é quente, se é bom, se é como eu imagino que seja… Estou-me a desviar do assunto, estava já noutro lado, a pensar noutra coisa diferente. É do hábito. Viajar de olhos abertos por muitos lados, torna-se um vício difícil de combater…
Outras vezes, vou a sítios aonde ainda não estive, mas aonde ainda quero vir a estar, um dia, quem sabe… a vida dá tantas voltas. Vou a lugares bonitos, agradáveis, perfumados, cheios de cor, de movimento, cheios de alegria, de vendedores no passeio. Subo e desço por ruas sem nome, sem fim nem princípio, enfeitadas de casas lindas de mil cores com floreiras à janela, com cercas brancas e trepadeiras nas paredes, visito monumentos, contemplo estátuas, procuro em todos os jardins da vida as flores mais maravilhosas, perco os olhos em todos os pores-do-sol do mundo inteiro, sempre em busca do tom colorido, quente, bonito e gostoso que o sol empresta à terra e a todos nós, antes de ir dormir..
Vou a praias encantadoras, cheias de palmeiras selvagens e gigantescas, delineadas pelo mar bonito com as suas águas cristalinas e quentes. Tomo banhos de sol durante todo o tempo que me apetecer, sem me preocupar com escaldões, nem com queimaduras, tal como sempre fiz. Morena por natureza, nascida num país moreno e soalheiro, nunca tive medo nenhum do sol. É meu amigo antigo, meu padrinho, meu irmão de caminho, de outras histórias e de outras andanças. Não me conseguia fazer mal, mesmo que quisesse. Deito-me na areia escaldante e fico a sentir o calor a aquecer devagar, devagarinho, por cima, por baixo… Quando o calor fica tão forte que não se aguenta mais, porque já está bom demais, mudo o pensamento, e vou para outro lugar.
E ninguém se dá conta. Ninguém dá pela minha ausência. Ninguém nota que não estou ali. Maravilhoso!
Também me acontece ir ao encontro de pessoas que já não vejo há algum tempo. Acabar conversas que não cheguei a acabar, explicar opções que tive que tomar, reunir de novo à minha volta o círculo de amigos queridos e importantes, que se sentiram abandonados, traídos, trocados. Ainda que só possa juntá-los de novo por uns instantes, instantes mágicos nos quais ainda ninguém se casou, ainda ninguém adoeceu, ainda ninguém morreu, como se ainda fossemos todos tão jovens, tão bonitos, tão cheios de vida e de energia, tão amigos, tão todas as coisas boas do mundo! Costumo também procurar para me despedir, uma ou outra pessoa de quem não me cheguei a despedir como eu tinha vontade e como essa pessoa merecia. Perguntar-lhe se chegou mesmo a esperar-me, pelo menos durante um tempo, dizer-lhe que eu esperei, mesmo sabendo que ele não podia vir, e mesmo sabendo que se ele viesse, eu teria que o mandar embora. Mas mesmo assim esperei… Palermices de cabeças sonhadoras!…
Acontece-me também, durante algumas dessas viagens aos sonhos de olhos abertos, abraçar com força e com amor todos aqueles a quem nunca mais vou poder abraçar e que foram para outros lados, pais, tias, tios, recordar só as coisas boas que me deram, nem passar sequer perto da prateleira das coisas mais tristes. Afinal se é para pensar em coisas tristes, mais vale ficar na realidade, sonhar só é bom, quando nos faz ficar felizes...
Também costumo deixar a minha morada, deixar o meu telefone com outras pessoas, pessoas queridas que eu queria que me encontrassem, que me achassem outra vez, aqui tão longe aonde estou. Às vezes tenho quase a sensação de que estou lá, do outro lado, pertinho de alguns amores de novo. Quase consigo sentir quando ele estende a mão para me tocar, quase consigo encostar o rosto na mão estendida, quase consigo sentir o toque quente e carinhoso dos dedos. Chego a fechar os olhos, chego quase a sentir uma lágrima a querer escorrer, chego a seguir o trajecto da mão pelo cabelo, pelo pescoço, quando chego à parte do pescoço sei que está na hora de mudar a direcção do pensamento, antes que a mão desça mais e saia do controlo do meu sonho. Por muito distraídas que as pessoas sejam, não convém abusar…
Num desses dias, no comboio, quando precisei de mudar a direcção do pensamento e enquanto escolhia um pensamento novo, reparei que o meu companheiro de banco, me olhava divertido. Ele sorriu-me, e eu, claro, sorri-lhe de volta. Eu sou assim, se me sorriem, se falam comigo, se me perguntam alguma coisa, eu sorrio de volta, falo também e respondo o que houver para responder. O meu filho farta-se de reclamar e de me dizer que pare de falar com toda a gente da rua, que pare de sorrir para pessoas que não conheço, que desista de fazer amizades com qualquer um. Não entendo porquê! Nem vejo qual é o mal. Lá está, gosto de pessoas… Tratam-me bem, porque hei-de ser brusca para com elas? Por isso, sorri de volta para o outro passageiro.
“- Você não estava aqui, pois não?” perguntou-me ele “-Eu percebi logo, pelo seu olhar. Ninguém olha dessa maneira para a rua sem graça, que está lá fora.” Tive que admitir que ele tinha razão, estava de facto bem longe da carruagem de comboio. Ele explicou-me que também costumava fazer o mesmo, quase sempre. Era a única forma de chegar bem-disposto ao emprego, dia após dia. Começámos a conversar e durante uns tempos tive companhia para sonhar acordada no comboio, todas as manhãs. Sentávamo-nos sempre nos mesmos lugares. Deixávamos a fila andar até chegarmos quase à porta, para podermos encontrar os "nossos" lugares vazios. “- Então hoje, por aonde é que andou?” perguntávamos um ao outro quando a viagem chegava ao fim. Foi bem divertido! Trocávamos sonhos, recordações, experiências antigas e ainda bebíamos café, antes de ir cada um apressadamente par o respectivo emprego. Depois mudei de emprego, mudei de horário e mudei também de transporte. Perdi-me do meu companheiro de sonhos. Talvez ele ainda continue por aí, nalguma carruagem de comboio, a sonhar de olhos abertos. Espero que tenha encontrado outra parceira para dividir aquilo com que sonhou, os lugares que visitou, as pessoas com quem falou.
Eu continuei a fazer o mesmo, a estar sem estar, a parecer sem ser. Quando a realidade ficava ou pesada ou aborrecida demais, dava um saltinho refrescante até ao mundo dos sonhos, e deixava-me estar quietinha, tranquilamente a sonhar de olhos abertos. E ninguém dava por nada, nem ninguém se apercebia!
Até há bem pouco tempo, pregar partidas à realidade e pôr no lugar dela, sonhos bonitos, era tudo o que podia fazer para me sentir mais feliz. Agora, a vida foi generosa para mim, e permite-me também viver, sem precisar de sonhar, o que eu procurava nos meus sonhos. E quem sabe se a felicidade não veio ter comigo através do portal encantado de algum sonho? Quem sabe se tive que acordar alguma vez, de repente, e me esqueci de fechar a porta entre os dois mundos? Talvez hoje esteja tão feliz porque nunca desisti de sonhar, e nunca deixei de permitir à vida que me encontrasse. Ela sempre soube aonde me procurar, nem que viesse ter comigo filtrada através de uma ilusão, de uma fantasia.
Só espero que este sonho bonito não termine, nem mesmo quando o comboio chegar à última estação e todos os passageiros tiverem que sair, até os sonhadores, que levaram a viagem toda de olhos abertos de encontro à vidraça da janela. Até mesmo na última paragem da linha, podemos sempre esperar de novo pelo próximo comboio, fazer o mesmo percurso outra vez, e voltar a sonhar, de olhos abertos, de olhos fechados, como nos der mais prazer. Esta parte é para si, amiga A., não desista nunca de sonhar, nem de viajar para cima e para baixo, ao sabor das estações de comboio, ao sabor dos balanços do caminho, mas sempre com esperança e alegria. Afinal, se aconteceu comigo, pode acontecer com toda a gente, não é? E nem todos temos os mesmos sonhos, os seus podem ser até bem mais fáceis de alcançar do que os meus… talvez nem precise de tantas estações até lá chegar, como eu precisei!
Quando sonhamos de olhos abertos, sem sair do lugar, ninguém dá por nada e obtemos uma liberdade deliciosa. Quando estamos felizes na realidade, também quase ninguém dá por nada e obtemos também um mar de delícias sem fim. Será que no fundo, não andamos todos a sonhar de olhos abertos? É que tanta alta de percepção, parece-me estranha! Sabe-se lá se quando olhamos para o rosto do passageiro ao lado, e ele nos parece sério, calmo, concentrado, não estará no meio de um qualquer sonho, no desenrolar de uma qualquer fantasia? Ocupado demais consigo próprio para perceber os sonhos dos outros.
E quando sonhamos sozinhos, fica bem mais difícil que dois sonhos parecidos se cruzem e unam num só, os sonhos de duas pessoas. Quando acreditamos no poder delicioso daquilo com que sonhamos, temos que sorrir a quem nos sorri, falar com quem nos fala, e responder ao que houver para responder. Sabe-se lá se aquela pessoa que nos está ali a sorrir, a falar e a fazer perguntas, não estará dentro de um dos nossos sonhos, a pedir para sair cá para fora? Ah, pois é! Comigo foi mais ou menos assim…

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