sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 12 de julho de 2011

De olhos abertos, ou de olhos fechados?

De olhos fechados passei por momentos importantes da minha vida. De olhos fechados me deixei embalar e levar por tantos caminhos e tantas estradas! De olhos fechados, espero um dia, conseguir ver para lá de tudo o que já vi e já experimentei. E tenho a esperança de que nesse dia, então, não precise mais de fechar os olhos, e possa só apreciar todas as belezas do mundo inteirinho, assim, bem presas na palma da minha mão, para não fugirem, para não mudarem de forma, para continuarem para sempre bonitas, lindas, imutáveis e para sempre minhas. Afinal, há tanto tempo que luto por elas!...
Desde pequena que tenho a mania, ou o hábito, se e que há diferença entre os dois, de fechar os olhos quando gosto de alguma coisa e quero prolongar o bem que me está a saber, ou quando estou assustada demais para poder suportar o mundo cá fora e me escondo lá mais para dentro, lá mais para o fundo, aonde a luz do dia não consegue chegar.
Quando bebi a minha primeira Coca-Cola, já lá vão tantos e tantos anos que nem consigo precisar quantos, lembro-me do sabor ser tão delicioso, tão forte, tão inesperado, tão parecido com uma carícia inesperada, que parecia que o mundo todo se tinha enfiado dentro do meu copo e me estava a fazer cócegas na garganta e no nariz. Fechei os olhos e bebi golo a golo. Tão bom, tão fresquinho, tão compensador! Afinal tinha perseguido durante uma eternidade toda a gente lá em casa, tinha pedido até á exaustão ao meu pai, até ter finalmente a autorização para poder beber o tal “refrigerante da moda do qual todos andavam a falar”!
Quando me vim embora da minha terra, já dentro do avião, quando o meu pai chorava devagarinho, a pensar que não o estávamos a ver mas eu estava, ele ainda era o meu herói naquela altura, eu prestava sempre atenção ao que ele fazia ou deixava de fazer, quando as luzes da minha cidade linda das acácias em flor foram ficando para trás, cada vez mais distantes, quando toda a gente em redor se calou e só olhou para fora, eu fechei bem os olhos. Para não ter que ver nada, para não sentir desaparecer o meu mundo, para guardar comigo o último momento do meu céu azul, do meu sol cor-de-laranja a ir dormir, das luzes acesas para uma noite que eu não ia chegar a ver acabar.
Quando a minha mãe morreu, quando o escuro ficou um pouco maior do que sempre tinha sido, maior e um pouco mais escuro ainda, fechei os olhos com todas as minhas forças. Para não ter que olhar para o caixão a ser fechado, para não ter que ver cavar o buraco frio e húmido na terra do cemitério, para não ter que vir embora e deixá-la lá, quieta e sozinha na sua cidade de pedra e mármore, sem ninguém para falar, nem ralhar, nem perguntar o que se tinha passado quando acordasse. Porque de uma forma absurda e irreal, eu sempre acreditei, pelo menos ao princípio, que ela ia voltar, ia um dia entrar de novo pela porta. Parecia-me tão impossível uma mãe morrer assim, achava uma maldade grande demais para acontecer a duas meninas pequenas. Mas maldades grandes acontecem a toda a gente, e em todas as idades. Eu, é que naquela altura ainda era muito nova para perceber isso.
Na altura em que tive o meu primeiro namorado, meio de brincadeira, meio a sério, meio qualquer coisa boa e divertida, sem noção, sem urgência, sem perigo, quando ele me deu o primeiro beijo na boca, quase igual aos que eu via no cinema, também fechei os olhos. Para experimentar bem, para apreciar bem, para lembrar mais tarde, para aprender a dominar a técnica dos beijos de língua, tão diferentes, tão mais complicados e elaborados do que os outros todos.
No dia em que um namorado me tocou de forma diferente, que passou um pouco para lá dos beijinhos e dos abraços do regulamento, que fechou a mão com jeitinho, com meiguice no meu seio, por dentro do meu decote, que subiu devagarinho, com cuidado, com delicadeza, por baixo da minha saia, que foi perguntando se podia até não poder mais e eu o mandar parar, que me fez respirar mais depressa e com mais vontade, também fechei os olhos. Porque era novidade, porque era bom, porque me estava a saber bem, e mesmo sem querer mais do que isso, mesmo sem saber que havia mais do que isso, me apetecia guardar na memória e sentir depois outra vez.
Na minha primeira vez, quando resolvi que estava na altura de conferir se era tão maravilhoso como diziam, no momento em que me deitei e ele se deitou por cima de mim, também fechei os olhos até tudo acabar. Fechei os olhos para esquecer a dor acesa entre as pernas, o desconforto no corpo e na alma, a desilusão de afinal não estar a ouvir sinos a dobrarem, nem passarinhos a cantarem, nem sentir nada mais para além do chão duro por baixo e do peso dele por cima, e da sensação de contar os segundos à espera que tudo acabasse.
Na manhã em que fugi de casa do meu pai, em que finalmente escapei da caverna e dos gritos, dos berros, dos sacos de roupa amontoados, da humidade, do caos que tinham sido todos os anos até então, no momento último em que olhei em redor, também fechei os olhos. Para não ter que ver nem mais uma vez a tristeza, a desolação, a desordem, a desarrumação, a falta de espaço, a falta de claridade, de ar, a falta de tudo e a abundância pesada do nada que sempre nos rodeou e nos esmagou lá dentro. Porque desde o primeiro dia em que lá chegámos, aquela nunca  foi a nossa casa. Não como a outra, a que era mesmo nossa, a que tinha ficado perdida no tempo e nas saudades, numa terra que já nem tinha o mesmo nome, numa rua que já nem era a mesma rua e que já não existia mais, ou se existia, era como se não existisse, o que vem a dar tudo no mesmo, não é verdade? Aquela ali tinha sido a “caverna”, como merecidamente lhe chamávamos Um buraco triste cheio de mágoas, de saudades, de desânimo e de falta de esperança. Tudo o que eu não queria mais para mim, tudo o que eu queria enterrar juntamente com a minha infância desoladora, e a minha sensação de estar sempre deslocada e presa com fita-cola em todo o lado.
Quando casei, no dia do meu casamento, sem festa, sem convidados, sem padre e sem igreja, porque afinal “quem faz boa cama nela se deita”, como o meu pai fez bastante questão de me lembrar durante muitos anos, também fechei os olhos triste. Não por sentir a falta de ser a tal princesa por um dia, como as raparigas sonham, não sou muito ligada a essas coisas materiais que perdem o valor e se esfumam tão depressa como vieram e não são as que me fazem realmente feliz, não por sentir falta do que poderia ter sido se as coisas tivessem seguido o seu rumo normal, mas porque algures dentro de mim, sabia que o preço que estava a pagar pela minha tão querida liberdade, era elevado demais, e, sabia também que um dia, a conta ia acabar por aparecer. As facturas sempre aparecem para serem cobradas, mais cedo ou mais tarde, e a minha, como era de se esperar, também apareceu.
Quando os meus filhos nasceram, e com cada um foi como se fosse a primeira vez, e eu os vi no meu colo, quando senti que era responsável por amar, cuidar e proteger aquelas criaturinhas tão pequeninas, tão indefesas, tão lindas, também fechei os olhos. Assustada, feliz, mas sabendo que estava cada vez mais distante dos meus sonhos, das minhas batalhas épicas em prol do direito de ser dona dos meus passos, e senhora do meu caminho.
Durante todos estes mais de vinte anos de casada, perdi a conta às vezes em que fechei os olhos para as lágrimas não caírem desamparadas, em que fechei os olhos para me esconder no meu cantinho, sozinha, perdida, sem ninguém para me ajudar. Durante todas as noites em que esperava não ouvir o barulho da fechadura a rodar, em que esperava que ele não aparecesse, em que esperava que o vinho o tivesse derrubado por aí nalguma esquina bondosa da vida, antes que ele tivesse tempo de chegar a casa. Fechei tantas vezes os olhos para tentar perceber aonde tinha errado, o que tinha feito de mal, o que devia ter mudado, aonde foi que deixei a carruagem da minha vida sair descontrolada do trilho e perder-se por aí, no descampado dos caminhos. Passei anos e anos de olhos fechados para não sofrer, para não chorar, para não estragar o que tinha conseguido conquistar. Anos de solidão, de tristeza, anos inteiros de me esquecer de mim e de me esquecer de como a vida é bonita e merece ser vivida.
E, depois, por fim, quando finalmente me apercebi de que o mal não era meu, de que o erro, se algum havia, não era meu, de que fiz tudo o que estava ao meu alcance para que tudo desse bem, para que tudo corresse como devia ter corrido, senti-me finalmente livre para poder voltar a sonhar. E fechei os olhos de novo perante a assombração maravilhosa de que a vida continuava lá, no mesmo lugar. Que eu ainda era capaz de rir, de sonhar, de me sentir alegre, de adorar o vento a soprar nos meus cabelos, de ter prazer com a brisa a roçar no meu rosto, de me derreter com o bem estar do sol a aquecer a minha pele, de me prender fascinada nas estrelas bonitas a iluminarem as minhas noites. Fechei os olhos de felicidade ao encontrar-me de novo comigo própria e descobrir que ainda estava viva depois de tudo e apesar de tudo. E, que tirando uma cicatriz ou outra com que a vida me brindou, até ainda consigo tentar ser feliz.
Mas mesmo assim, mesmo depois de me ter lembrado que existe mais horizonte para além do meu quintal, e depois de ter recordado que há mais mundo para lá do que aquele que consigo espreitar de trás das minhas cortinas, ainda continuo a ter que fechar os olhos. A cada vez que sou tocada e não quero ser tocada, sempre que tenho que dar o que não quero dar, sempre que sou tomada e não me quero deixar tomar.
De olhos bem apertados, à espera que tudo acabe, vou pensando em como há-de chegar o dia, em que não seja mais preciso viver de olhos fechados. Em que possa manter sempre os olhos bem abertos, bem felizes, presos quem sabe nos olhos de outro alguém, abertos numa sensação boa de não querer mais que acabe. Livre finalmente depois de tantos anos à procura do meu caminho para a liberdade, de me ter enganado tanto, de ter feito tantos disparates e ter experimentado tantas tentativas frustradas.
Nesse dia vou poder pousar finalmente os meus olhos castanhos em tudo o que é bonito no mundo, e vou poder sentir tudo o que é bom e dá prazer sentir. E vou abrir um grande sorriso para a vida em troca do sorriso lindo que ela abre para mim, e vou estar de olhos bem abertos até ao fim.

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