sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 10 de julho de 2011

Desistir, nunca...

Penso que devemos insistir e lutar pelo que queremos, e por quem queremos. Se realmente gostamos de alguém, temos a obrigação de não desistir dessa pessoa, sem antes, primeiro tentar de todas as formas possíveis que dê certo. Aprendi isso com a minha mãe e com um rapaz que se apaixonou por ela, há muitos anos, e que podia ter mudado todo o destino, se não tivesse desistido de lutar depressa demais.
Romualdo era o nome do rapaz que gostou da minha mãe, antes de ela se ter casado com o meu pai. Naquele tempo distante, em criança, e depois em rapariguinha, a minha mãe era uma autêntica maria-rapaz, corria, saltava e trepava árvores melhor do que muitos rapazes, e era mais destemida e aventureira do que a maioria deles. Vivia com os joelhos esfoladas, os cotovelos ralados, o cabelo entrançado. Fazia corridas de barcos de remos, pescava com o meu avô no rio! Parece que estou a falar de uma pessoa completamente desconhecida! Mas é a verdade. A minha mãe, antes de se ter metamorfoseado naquela pessoa chorosa, amargurada, nervosa e irascível que eu conheci durante quase praticamente toda a minha infância, tinha sido uma rapariga bem alegre e divertida. Devo ter herdado dela um pouco do amor pela liberdade, pelo prazer de correr riscos, pelos espaços abertos, pelos horizontes sem fim, e, pois, um pouco da falta de juízo também. Ela vivia numa aldeia, naquela altura era aldeia, hoje é uma cidade, no Ribatejo. Habitava, com os pais e os irmãos, numa daquelas casas térreas de província pequena, com um quintal à volta, do tamanho de todos os campos do mundo. O Romualdo era vizinho dela. A minha mãe contava muitas vezes que costumavam jogar à bola, brincar às escondidas, às apanhadas, ao jogo do burro, nadavam no rio, junto com os respectivos irmãos e demais criançada da aldeia.
Além de ser divertida e alegre, a minha mãe era também linda! Linda de uma beleza calma e serena. Tinha um rosto surpreendente, ora sorridente, ora melancólico, e possuía uma presença de espírito que nunca encontrei em ninguém. Contam que conseguia ter sempre resposta pronta para tudo o que lhe interessasse, desarmava qualquer um com a sua boa disposição. Tenho muita pena de não lhe ter chegado a conhecer essa faceta tão diferente e tão interessante! As minhas tias, forneceram-me a maior parte da informação sobre ela, o resto fui-lhe arrancando a custo, durante os intervalos da grande tristeza em que ela vivia mergulhada.
Mas voltando ao assunto do Romualdo, eles foram crescendo juntos, brincando juntos e passando muito tempo um com o outro, mesmo quando já não eram tão pequeninos assim. A minha mãe contava que um dia, o Romualdo se chegou ao pé dela e lhe entregou uma carta fechada. Disse-lhe que lá dentro estava um bilhete para ela ler quando estivesse sozinha. O bilhete era um pedido de namoro. Caso a minha mãe quisesse namorar com ele, deveria dobrar o canto direito do bilhete, caso não quisesse, então dobrava o canto esquerdo. Em qualquer das hipóteses, deveria entregar o bilhete, dentro do mesmo envelope, no dia seguinte. A minha avó acabou por descobrir o papel escondido nas coisas da minha mãe e, foi mostrá-lo ao meu avô à noite, quando ele chegou a casa vindo do trabalho. O resultado foi que que a minha mãe se livrou de apanhar uns bons açoites, mas foi terminantemente proibida de voltar a falar, ou sequer a olhar para o pobre pretendente. O Romualdo deve de ter passado pela mesma proibição em casa, porque naquele tempo todas as vizinhas eram comadres e tudo se sabia, um pouco à semelhança do que acontece ainda hoje, aqui aonde vivo, e a mãe do rapaz deve-lhe ter puxado as orelhas e proibido de procurar mais a minha mãe. Ele também não fez nenhuma tentativa para se aproximar, para perguntar, para insistir. A minha mãe contava que o via passar e esperava que ele olhasse para a janela, que perguntasse por ela a um dos irmãos, que mandasse por eles uma carta, um recado. Mas nada, a proibição fora bem assimilada e o Romualdo não a procurou mais. Assim se separaram sem se falarem mais. Anos depois, com a morte do meu avô, a minha mãe foi com a família que sobrou, viver para Lisboa.
Já em Lisboa, o Romualdo voltou a aparecer. Voltaram-se de novo a encontrar, e ele voltou-lhe a pedir namoro. A minha avó foi-lhe logo dizendo que enquanto não estivesse numa situação financeira que lhe permitisse sustentar família, o melhor que fazia era não comprometer a minha mãe, e ir cuidar primeiro da sua vida. Que voltasse depois. Pelo que a minha mãe contava, o Romualdo na altura ainda estudava. Anos depois tornou-se engenheiro de máquinas agrícolas, ou algo parecido, pelo que me disseram as minhas tias, ficou a ganhar todo o dinheiro que precisava para sustentar a família que quisessem ter, mas aí já era tarde demais… Ele disse que sim, que iria então primeiro tratar de organizar a sua vida, acabar os estudos, cumprir o serviço militar, conseguir um bom emprego e voltaria para vir buscar a minha mãe. Não a tornou a procurar, não tornou a aparecer. Mais uma vez, seguiu à risca o conselho que lhe deram e simplesmente se foi, convencido de que o mundo pára quando não estamos presentes nos lugares, e convencido de o coração de quem amamos será para sempre nosso, mesmo quando não estamos por perto para cuidar dele.
Passou-se tempo, e mais tempo depois desse tempo. Naquela altura, já a minha mãe trabalhava, era uma mulher independente, sonhadora, romântica, idealista e continuava linda. Continuou à espera do seu Romualdo, durante todo o tempo, sem mais notícias, sem mais sinais alguns de que ele poderia ainda querer manter o que tinham acordado. E ela queria um daqueles amores arrebatadores que via no cinema, vivia com a cabeça sempre noutro sítio qualquer mais bonito, e cansou-se de esperar. Conheceu o meu pai através de um anúncio de jornal que lhe pareceu um autêntico convite para o paraíso de aventuras deliciosas que sonhava, namorou com ele por correspondência, à maneira ingénua dela, que é tão parecida com a minha e da qual eu gosto tanto, convenceu-se de que estava apaixonada. Casou por procuração, cortou relações com a família toda que não a queria deixar partir, apanhou um avião e foi viver para Moçambique.
Ela era bem diferente do Romualdo. Quando se lhe metia uma coisa na cabeça, não havia quem a fizesse desistir nem reconsiderar. E eu sou muito parecida com ela! O que a minha mãe fez, ir ao encontro do desconhecido, com uma mala na mão, sem ninguém para se despedir dela no aeroporto, casada com um estranho que vivia numa terra distante, é exactamente o género de coisa que eu seria muito bem capaz de fazer. Perseguir um sonho, uma ilusão, tentar ser feliz, é um desafio bom demais para resistir! Prefiro sempre tentar para ver se corre bem. Às vezes não corre muito bem, ou não tão bem como eu esperava, mas pelo menos nunca fico com aquele amargo horrível de boca, que é pensar que poderia ter dado certo se… O Romualdo não era assim aventureiro, empreendedor, sonhador. Obedecia, respeitava, cumpria os prazos que lhe impunham, esperava o tempo que fosse preciso esperar e o tempo às vezes passa depressa demais, e é muito curto para esperarmos tanto.
Portanto, ele ficou aqui em Portugal, a organizar a sua vida, e ela, a minha mãe, foi-se embora sem sequer se terem despedido. Lá, no seu novo mundo, que era para ser romântico e aventuroso, ela sofreu, chorou, transformou-se na mulher estranha e zangada que eu conheci, perdeu os seus sonhos, as suas ilusões, e de vez em quando, confessou, esperava que por entre as poucas cartas que o meu pai permitia que ela recebesse das irmãs, viesse alguma notícia sobre o Romualdo. Se ele estava bem, se tinha casado, se perguntava por ela. Mas nunca lhe disseram nada sobre ele, e ela, eu teria feito muito diferente, também nunca teve a coragem de perguntar. 
Quando a minha mãe morreu, já tínhamos fugido de África há quatro anos. Na noite em que ela estava na capela a ser velada antes do enterro, surgiu um homem aparentando ter uns cinquenta e poucos anos, muito bem vestido, muito bem parecido, que perguntou pelas “senhoras irmãs da falecida”. Conversaram bastante tempo e uma das minhas tias chamou-me para junto deles. “-Glórinha,- elas tinham o péssimo hábito de me chamar Glórinha hoje já ninguém me chama assim, mas em pequena fui sempre a Glórinha, o que até teve certa graça na altura da Gabriela, mas depois, com o passar do tempo, se tornou bastante aborrecido,- este senhor era um amigo da tua mãe. Viveu perto de nós, antes de virmos para Lisboa. Era nosso vizinho. Chama-se Romualdo. Veio-se despedir da tua mãe, e pediu para conhecer as filhas dela.” Era ele, era o Romualdo de quem a minha mãe costumava falar! O mesmo do bilhete, dos pedidos de namoro! O mesmo que tinha desistido sem insistir, que tinha ido embora sem lutar. O mesmo que podia ter evitado toda a grande desgraça que foi a vida da minha mãe, se tivesse tido a ousadia de contrariar o que lhe impunham, se tivesse tido a valentia de ficar um pouco mais, de tentar um pouco mais!
Olhei em volta à procura do meu pai. Não o vi, nem à minha irmã. Deviam ter saído por momentos. Reparei bem no rosto do homem. Estava triste! Com os olhos cansados e parecendo inchados e vermelhos de chorar. Eu tinha catorze anos, mas já era praticamente da altura que sou hoje. Ele era bastante mais alto. Pus-me em bicos dos pés e dei-lhe um beijo na face. “- É um beijo da minha mãe, para si. Sei que ela ficou com pena de não lho ter dado. Nunca se esqueceu de si, falava sobre a vossa infância com muitas saudades, e falava também sobre o quanto lamentou que se tivessem separado.” O Romualdo olhava muito sério, num evidente esforço para conter as lágrimas “- Eu também nunca a esqueci. Fui estudar. Fui para a tropa. Os primeiros tempos não foram fáceis…Quando arranjei emprego firme, procurei por ela, como estava combinado, mas disseram-me que estava em África há pouco tempo, casada... Eu nunca me casei. Pensei que… E ela… foi ao menos feliz?” Engoli em seco. Tinha que dizer a verdade, não tinha? “- A minha mãe foi profunda e miseravelmente infeliz cada dia da sua vida desde que casou. E o senhor foi cobarde, porque a deixou ir embora sem lutar por ela.”
A minha tia horrorizada com o meu despropósito e a minha falta de maneiras, levou-me dali quase arrastada pela mão. O Romualdo ficou lá parado, o olhar perdido no vazio, o rosto encharcado de lágrimas, parecendo muito mais velho e muito mais acabrunhado do que antes, e eu senti-me livre da minha tarefa, porque à minha maneira tinha vingado a minha mãe.
Agora, há distância de todo este tempo, vejo que o que fiz foi uma grande crueldade! Mas continuo a pensar que tudo podia ter sido diferente se ela tivesse namorado, casado e ficado por cá. Se ele tivesse ficado perto, se não se tivesse afastado, se não a tivesse deixado livre para sonhar os seus sonhos mirabolantes, se tivesse ficado com ela… Podia ainda hoje estar viva. Velhinha, com oitenta e quatro anos, mas viva, e talvez feliz com o seu Romualdo. Podia ter continuado a ser a pessoa alegre, divertida, sonhadora que era antes de eu a conhecer. E ele, que será feito dele? Tinham mais ou menos a mesma idade. Ele pode ainda ser vivo, e andar por aí. Pode continuar a ir pôr flores na campa dela, como eu sei que sempre fazia até eu sair de Lisboa. Todos os Domingos encontrávamos um ramo novo de flores, sempre rosas, sempre brancas, sempre postas por cima da laje de pedra e não na floreira, sempre por cima do nome dela. Ele pode ainda hoje estar arrependido de não ter tentado mais…
Nunca, mas nunca deixei de lutar até poder, por qualquer hipótese que a vida me deu para ser feliz. Não gosto de me conformar, de me resignar, não paro quando me mandam parar, nem sigo os caminhos que me querem mostrar. Tento sempre resolver e fazer da forma que eu escolho e acho a melhor. Lembro-me sempre da minha mãe, triste, amargurada, infeliz, a pensar como as coisas poderiam ter sido diferentes se... a contar-me a história do rapazinho que lhe tinha pedido namoro e depois desaparecera sem deixar rasto.
Vejo sempre como se fosse agora o Romualdo choroso, destroçado em frente ao caixão por fechar. Em frente ao meu caixão, não quero ver ninguém arrependido de não ter insistido mais, nem quero ver nenhum amor antigo a chorar por me ter deixado ir embora. Quero deixar todos os meus assuntos bem resolvidos e bem arrumados, quero fazer o que for preciso fazer para esgotar ao máximo as possibilidades de ser feliz. Só se de todo não conseguir, é que vou desistir, e acho que, felizmente, e porque lá em cima tem mesmo que haver alguém que gosta muito de mim, nesse campo, ainda tenho muito trabalho à frente, por fazer.

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