sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 16 de julho de 2011

Feliz, por enquanto...

De há uns tempos para cá, tenho vindo a sentir-me muito feliz!
Tão bom ser feliz! E gostar de ver a vida acontecer à minha volta, e gostar de sentir as horas deslizarem suavemente, magicamente, quase sem dar por elas! E ter pressa que a noite acabe, para ver o que de novo e bonito me trará o dia… Tão bom sentir aquela sensação gostosa de calor a invadir o corpo e a alma, em doses iguais! Tão bom olhar para o mundo, para as pessoas, para a vida toda e gostar do que vejo! E estar de bem com o vento, o mar, o sol! E não ter medo do que está para vir, porque o que acontece agora, já é só por si, bom demais!
Tão feliz assim, só me lembro de ter sido naquele tempo do meu tempo. Naquela altura em que saía de casa sempre com o coração a bater de entusiasmo, em que cada dia era uma aventura, cada rua um mundo de hipóteses, cada pessoa que conhecia de novo, um universo de possibilidades. Olhava para o espelho de manhã e o sorriso que devolvia a mim própria era cheio e pleno de alegria. Não havia problema, ou preocupação, que não fosse levado pelo vento, pelo sol, pelo ar livre das ruas, dos jardins, dos cruzamentos, de todos os sítios lindos que eram o cenário da minha vida. Todas as boas surpresas eram minhas, e todos os corações do mundo batiam com mais vontade para mim.
Tão feliz como agora, só me lembro de ter sido quando fui pela primeira vez à praia de moto, com o namorado da altura. Não pela praia, igual a todas as outras praias da minha juventude, mas pela ousadia de ter aceitado ir na moto. Ele tinha uma moto que fazia muito barulho mas andava depressa que se fartava, dois capacetes velhos e amolgados, e toda a estrada sem fim, nem limites, em frente para correr. Saí de casa ainda era manhã cedo, assim que o meu pai dobrou a esquina para ir para o trabalho. Os livros e os cadernos ficaram esquecidos, como costumavam ficar de vez em quando. Apanhámos a estrada e fomos numa correria louca, subindo, descendo, desfazendo as curvas quase a raspar no alcatrão. Eu gritava para ele ir mais devagar, para ter cuidado, e ele ria-se para trás. Eu dizia-lhe para olhar para a frente, para pôr os olhos na estrada, e ele piscava-me o olho divertido. Ao princípio tive um medo danado. Depois comecei a gostar! Tão bom o vento a bater no rosto, a levantar a saia, os condutores a dizerem adeus, a gritarem disparates! Tão bom ver as coisas todas do mundo passarem numa corrida á nossa frente, e ninguém nos conseguir agarrar, ninguém ser capaz de nos parar… Ele fugia entre o trânsito, esgueirava-se pelo meio do engarrafamento, fazia gestos feios a quem buzinava a protestar! Sempre que parávamos nalgum sinal vermelho, graças ao altíssimo pelo menos isso ele fazia, virava-se para mim, sorria-se, passava-me a mão pela perna.”-Então estás a gostar? Ainda queres que eu vá mais devagar?” E eu respondia deliciada, com a pergunta, com o vento, com a mão dele na minha perna “- Nem penses nisso! Continua como vais. Estou a adorar!” Depois metemos por uma estrada secundária, mais deserta, mais a direito “-Tira o capacete”- disse ele” sabe muito melhor! Aqui não há crise! Acredita!” Tirei. Sabia mesmo muito melhor. O cabelo voava com o vento, mal se conseguia respirar, mas era muito melhor! Selvagem, louco, livre… Sem regras, sem limites, sem paragens para descansar…Se pudesse, nunca tinha deixado de andar de moto, na garupa de alguém, bem apertadinha, a sentir o vento levar o cabelo, a saia, as preocupações, a secar as lágrimas. Fechar os olhos, inclinar a cabeça para trás e saborear. Só saborear… e sentir-me feliz! Porque é que a vida tem que ser tão complicada?
Tão feliz assim, como tenho andado agora, lembro-me de ser quando o X reparou em mim. Quando veio ter comigo, deixando o amigo lá para trás, naquele andar despreocupado dele, com aquele sorriso maroto, os caracóis ruivos a dançarem-lhe em frente aos olhos, o ar de admiração. “-És daqui? Ainda não te tinha visto? Posso-me sentar?” E eu que o achava lindo de morrer, que já o conhecia de vista e de fama, que pensava que nunca iria ter a sorte de ele me notar, toda encantada, toda deslumbrada “- Claro que podes. Cabemos os dois.” Ele riu-se, o sorriso mais lindo do mundo, afastou-me o cabelo do rosto “-És linda miúda! Já to tinham dito?” Claro que já mo tinham dito, e muitas vezes. Mas dito por ele parecia diferente, mais autêntico, mais sentido.”-Tens alguém? Namoras, curtes…?” Sabia lá se namorava, sabia lá se curtia, e como se houvesse namorado ou curte no mundo que fosse obstáculo para ele… Sabia que ele estava ali, sentado bem pertinho, a mão no meu rosto, o sorriso tão perto do meu, tão bonito, tão bem cheiroso, tão famoso, tão disputado. “-Vamos andar os dois? Gosto de ti. És bonita, tens estilo. Comigo estás bem. Dou-te o que quiseres, enquanto quiseres. E ninguém te toca enquanto estiveres comigo.” Não foi preciso mais. Fiquei logo rendida. Começámos a namorar. Foi o meu namorado mais importante, o único que realmente mexeu comigo a sério, o único que me fez pensar em ficar, em desistir de correr o mundo dos meus sonhos e descansar no seu colo. Meu X, rei do bairro, rei do meu coração durante muito mais tempo do que qualquer um. O que teria acontecido se não o tivesse deixado? Fui muito, muito feliz com ele!
Assim parecida com esta felicidade que agora ando a sentir, talvez aquela vez em que comprei o vestido verde, lindo, pequenino, justinho, encantador! Sempre que passava no Centro Comercial perto da secundária, minha segunda casa no tempo de escola, via-o lá. No manequim, parado, a sorrir-me, a convidar-me a entrar e levá-lo comigo. Se ficava tão bem no manequim magricelas e sem formas, então como não ficaria em mim? Sonhei com aquele vestido dias e dias. Pedi-lo ao meu pai, nem pensar, estava fora de questão. Curtinho daquela maneira, justinho daquela maneira… “roupa de senhora da noite”, era a forma como ele se referia sempre a roupas que considerava indecentes. Tive sorte. Uma professora pediu um livro caro e o meu pai deu-me dinheiro a mais. Com o que sobrou do livro, comprei o vestido. Foi uma felicidade! Desfilar pelas ruas com aquele vestido foi uma experiência inesquecível, melhor ainda do que eu tinha pensado! O sucesso foi tal que durante uns tempos, o vestido era lavado, voltava, ela lavado, voltava… Nem me lembro já qual o fim que teve o vestido verde, mas lembro-me muito bem dos olhares de admiração, e não só, que recebia quando o vestia! Dessas coisas uma rapariga nunca se esquece! É bom demais ser bonita, e saber que nos acham bonitas, mesmo que seja com a ajuda de um vestido verde-esmeralda, curtinho, justinho e encantador!
Ah, pois, outra vez em que fui muito feliz, do mesmo género de felicidade boa que sinto agora, foi quando encontrei de novo o meu amigo Carlos, depois de ter estado um tempo mais afastada dele. Sempre tínhamos sido os melhores amigos, daquelas amizades bonitas que nascem entre a melhor aluna da classe, de bata branca bem abotoada e meia dobrada sobre o tornozelo, e o menino de olhos tristes, de calças remendadas e sapatos descolados, que precisa de explicações depois de as aulas acabarem. Eu adorava o Carlos, calmo, sereno, amigo bom do coração! Desde crianças que éramos amigos, desde que vim de Moçambique para cá e aterrei numa escola de crianças turbulentas, rebeldes, que diziam palavrões, coisa que eu nem fazia ideia que existia e repetia depois em casa. Apanhei muitas palmadas da minha mãe nessa altura, mas então, eu não sabia que fazia mal…, o meu pai ria-se, perguntava em que género de escola é que tinha ido parar a filha…. Mas eu gostava muito dos meus coleguinhas da escola nova, de todos eles sem excepção, alegres, divertidos, e tenho muitas saudades deles! O Carlos foi desde o primeiro dia, o meu melhor amigo. Mudámos de escola, quando acabámos os dois a instrução primária, fomos juntos para o ciclo preparatório, depois outra vez juntos para a secundária. Sempre amigos… Afastámo-nos um pouco quando comecei a frequentar outros meios, a coleccionar namorados, a acompanhar com pessoas de quem ele não gostava.”-Pensa bem, não têm nada a ver contigo, eu conheço essa gente… Tu és diferente, tu és tu. Não há ninguém como tu. Sai enquanto podes” Era o que ele pensava! Amigos, amigos, conselhos à parte. Ninguém me demovia, nem me convencia. Quanto mais ele falava, quanto mais a minha irmã falava, mais eu me aproximava daquele outro estilo de vida tão diferente, tão atraente, tão cheio de coisas boas e proibidas. Afastámo-nos um pouco, se eu não queria subir de novo até ele, ele também não estava disposto, felizmente, a descer até mim. Mas nunca deixou de ser meu amigo. Protegia-me como podia, defendia-me quando eu precisava, sorria-me de longe com o seu sorriso sincero e o meu dia enchia-se de outro género de luz, mais calma, mais serena, mais límpida. Mais tudo aquilo que não me apetecia ter na altura. Quando sosseguei um pouco, ele lá estava, ainda, como sempre. Sem fazer juízos de valor, sem opinar, sem mudar a sua forma bonita de lidar comigo. Começámos a sair mais, a dançar, a passear, sempre amigos, sempre ombro com ombro, nunca mão na mão. Ficámos assim bem próximos até eu me casar. Mudei de sítios, perdi-me das minhas ruas e dos meus lugares e perdi-me também do Carlos. Até hoje não soube mais dele, e queria muito saber!. Tem-me feito uma falta danada! Nem ele sabe o quanto!... Se soubesse, já tinha aparecido para me salvar, vindo não sei bem de onde, como ele sempre fazia… Para se pôr entre mim e o mundo, e dizer como costumava “-Esta não. Esta é minha amiga! Vem comigo, anda, eu levo-te.” Ai que saudades do meu amigo… Aparece, vá lá, aparece! Encontra-me na Net, encontra-me no facebook, encontra-me no blogue, encontra-me na rua… Não sei mais aonde mais me hei-de pôr para tu me encontrares!…
E pronto, de repente fiquei com saudades deles todos, de mim, e já nem me sinto assim tão feliz como estava! Ora bolas! Caramba! Chiça penico (estou a usar outra vez a tua expressão L, obrigada)! Já devia saber, acontece-me sempre isto quando penso nas pessoas de quem gosto e que foram ficando pelo caminho! A minha mãe, o meu pai, os meus amigos do coração, o X, que não foi mais meu do que o vento que corre é das ruas, mas que foi meu, e eu fui sua, á nossa maneira livre e gostosa, durante um tempo bonito da vida. A minha irmã, que de certa forma também ficou pelo caminho e tem a mania de reaparecer, de vez em quando, para me atormentar a alma com dúvidas. E até o Carlos… que desapareceu no tempo, que nunca me encontrou, que se calhar, e sabe-se lá, a cabeça das pessoas é tão boa a esquecer quem nos está “interdito”, como ele dizia, até já se esqueceu de mim.
Mas não interessa, estou feliz na mesma! Quero lá saber das recordações, das lembranças, das saudades… Afinal, de que me serviram durante todo este tempo de tristeza? Aonde estavam todos os de quem me lembro agora, e que empatam a minha alegria, quando eu chorava e ninguém aparecia para me consolar? Ah, pois é!... Basta surgir um “raio de luz a iluminar a minha noite sem fim”, para eles saltarem de dentro dos armários aonde se tinham recolhido!... Mas agora também já não os quero! Também já não me fazem falta! Pelo menos, não tanta… Mas calma, escusam de fugir para muito longe… Podem-se deixar estar por aí, aonde eu vos consiga encontrar se…, só em caso de… Embora nenhum de vocês tenha aparecido para me ajudar, pensar em todos vocês foi a única coisa que me deu força para continuar.
Nestes últimos tempos, em que me tenho sentido mais feliz, em que a luz bonita da vida tem penetrado mais no meu coração, em que foram decretadas umas tréguas entre a batalha eterna que travo contra a escuridão e a tristeza, tenho tido a sensação boa de que demorei, mas cheguei finalmente a um sítio bonito. Demorei um bocado, muito tempo mesmo, se calhar mais tempo do que a maioria das pessoas, mas também comigo só podia ser assim, ser normal nunca foi o meu forte… E também não podia ter encontrado um lugar bonito, mas sossegado, calmo, simples, tranquilo. Comigo tem que haver sempre alguma coisa diferente, perigosa, fora do habitual. Comigo as coisas acontecem sempre de forma estranha, ambígua, imprevista… Fazer o quê?
Entrei e saí vezes sem conta dos mesmos caminhos, sem me dar conta de que eram caminhos repetidos. Insisti como um jumento teimoso, em permanecer no mesmo pasto estéril e ressequido, na esperança de que as ervas voltassem a nascer, a despontar verdes de novo, ou verdes como só o tinham sido na minha imaginação. Deixei que o tempo passasse por mim, e não entrasse em mim, não se demorasse comigo um pouco, para me deixar as impressões dos dias, dos meses, dos anos. Mas, finalmente acho que fui ter a algum lugar bonito.
Talvez eu esteja enganada de novo, talvez ainda não seja por aqui que fico. Quem sabe se não será apenas mais um dos tais caminhos repetidos, mas com um aspecto muito, muito diferente? Seja lá o que for que venha a ser, por agora está muito bom! Por agora está bom demais, e eu quero que continue até aonde der para continuar. Essa sou eu! A que não desperdiça uma oportunidade, não se recusa a uma aventura desde que pareça tentadora, a que procura sempre uma estrada que vá ter ao porto seguro e abrigado da felicidade.
E falando em felicidade, de há uns tempos para cá, tenho vindo a sentir-me muito feliz! Vale só por si! E vale muito!

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