sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Fui até lá, mas resisti valentemente

Uma amiga antiga, daquelas poucas que vieram comigo desde lá de trás, desde os princípios de tudo, ligou-me há uns dias. “-Deitaram a tua caverna abaixo. Passei por lá ontem. Não sobrou mais nada. Vai ver. Nem vais conhecer aquilo…”
Não sei, nunca hei-de perceber, qual a pressa terrível que as pessoas têm em dar más noticias. É como se lhes queimasse a língua e precisassem de despejar depressa cá para fora. Há que tempos ela não me telefonava!...
Tive que ir ver. “Caverna” era o nome de guerra que tínhamos dado á casa aonde vivíamos desde que chegámos a Portugal. A caverna era a casa do meu pai, de onde eu fugi há bem mais de vinte anos. Jurei não mais lá voltar, e não voltei, a não ser em pesadelos. Mas, por uma qualquer razão desconhecida, senti-me obrigada a ir até lá, conferir se ela já não existia mesmo.
E não estava mais. Agora são só ruas novas, uma rotunda enorme, carros a buzinarem cheios de pressa de um lado para o outro, sinais de trânsito e … nada da caverna. Nem nada das paredes brancas e enormes da quinta que nos rodeava, nem do jardim com flores de sardinheiras, rosas, brincos de princesa, nada do caramanchão cheio de lilases bonitos escondidos no meio das folhas verdes e que deu o nome à quinta, nem vestígios do tanque grande de água, do moinho de vento que fazia sempre tanto barulho à noite, nada do salão de jogos em que tinha tantos amigos, nem sinais do café logo à entrada do portão de ferro, donde me assobiavam e diziam gracinhas parvas sempre que por lá passava… desapareceu mesmo tudo. Para aonde terão ido todas as pessoas, as vizinhas antigas, os amigos do salão, os engraçadinhos do café?
Nunca gostei daquela casa, minúscula, húmida, gelada, escura, sem janelas e sem ar, cheia de fantasmas e de gritos, recheada de lágrimas, de tristeza. Nunca gostei daquela casa que nos caiu em cima como um balde de água suja e fria, depois do sol, do calor, da festa e da alegria que era Moçambique. Odiava as paredes, as portas, o próprio ar que se respirava lá dentro, sempre impregnado de humidade, de bolor. Acho que foi por isso, que agora tenho a mania, que mais ninguém percebe, de abrir todas as portas, todas as janelas, mesmo quando está frio, mesmo quando faz vento. Tenho sempre tudo aberto em casa, aberto ao sol, ao calor, ao vento, ao frio. As cortinas voam para fora da janela, às vezes as portas batem com a corrente de ar, o meu filho reclama com o despropósito, diz que só “te falta tirar as telhas para deixar entrar mais vento”, mas nunca mais quero viver numa casa fechada e sem luz. Nunca mais mesmo!
De qualquer forma, fiquei triste. Desapareceu um pedaço da minha história. Assim como já tinha desaparecido o outro primeiro pedaço antes deste. Paciência, é a ordem natural do progresso. Existem sempre coisas novas a reclamar mais espaço, mais lugar para poderem crescer melhor e mais depressa. Tudo bem, fazer o quê? Com toda a certeza, faz muito mais falta à sociedade, aquela nova rotunda gigantesca, aqueles novos troços de estrada que vão dar a todos os caminhos, do que fazia falta a velha quinta centenária que guardava a caverna e outras poucas casas parecidas. Consigo perceber e lidar bem com isso. Não sou muito agarrada a recordações antigas, nem sofro muito quando os vestígios do passado desaparecem. Tenho sempre comigo bem guardadas as recordações que valem a pena ser recordadas, e essas não precisam de testemunhos materiais para se fazerem lembrar. Valem-se a si próprias e sustentam-se muito bem sozinhas. No fim de uns minutos de contemplação, de nostalgia, de uma coisa estranha que não podiam ser saudades, mas que era qualquer coisa cruelmente parecida, porque a gente habitua-se a tudo, até à dor de dentes, virei costas ao lugar aonde tinha estado a caverna, a quinta, as recordações tristes que me espreitavam como almas penadas, perdidas entre os carros e o barulho da estrada e vim-me embora.
Ao fundo, do lado contrário àquele por onde eu tinha vindo, estava a minha rua. A rua que ia ter a todas as ruas. A rua da minha juventude. A mesma que eu desci tantas vezes, há mais de vinte anos. Apressada, de livros da escola na mão, de minissaia curtinha, de calções justinhos, de botas de salto, cabelo ao vento, andar balançado… Não deu para resistir. Estar ali tão perto e não ir ver como estava o meu bairro querido, era pedir demais ao meu coração.
Logo ao princípio da descida, notei as primeiras diferenças. O Centro Comercial das P.já lá não está. Fechou, tem as vidraças todas tapadas, as portas bem trancadas com uma corrente e cadeado. Ali mais à frente havia um café que eu adorava. Fui lá tantas vezes, sempre acompanhada, sempre misturada num turbilhão de gente, de vozes, de agitação! Encostada cá fora, ficou tantas vezes a moto do X, a moto do A., tantas outras motos da vida aonde eu andei de pendura feliz e despreocupada… o carro do S, o carro do F, e tantos outros que não tinham nem moto nem carro e simplesmente me passavam o braço pelos ombros ou me levavam pela mão. Naquele banco de pedra a toda a volta sentámo-nos tantas vezes todos, em grupo, como sempre, no meio do fumo, de cigarros ou de charros enrolados á pressa e sempre com um olho a vigiar quem passava, com os gravadores de cassetes a gritarem músicas da moda, “I want to break free, selfcontrol,only you, heaven, let’s dance, I’ve should known better…” tantas e tantas músicas lindas que eu ainda hoje ouço com o mesmo prazer de dantes! As pessoas que passavam olhavam-nos desconfiadas do ajuntamento, e escandalizadas com o barulho que fazíamos. Nós lá ficávamos, divertidos, contentes, felizes na nossa provocação inocente, na nossa rebeldia sem causa, tão jovens, tão bonitos, tão loucos, tão livres! Até que alguém se lembrava de que estávamos parados há muito tempo e íamos pelas ruas, pelas estradas, em bando, para pousar noutra esquina qualquer. Adorei viver a juventude nos anos oitenta! Anos doidos, selvagens, sem regras, sem leis, sem nada a não ser viver o mais intensamente que podíamos. A juventude de hoje é muito mais sossegada, muito mais contida, regrada. Não passaria pela cabeça do meu filho, ou dos amigos e amigas dele, fazerem um terço das coisas que eu fiz quando tinha a idade deles. Pior para eles, porque eu diverti-me bastante! “Ninguém tinha juízo nessa altura.”, é o que o meu filho costuma dizer. Talvez, mas é tão bom não ter juízo, esquecer um bocadinho o que é correcto, bem estruturado, bem justificado e simplesmente fechar os olhos, seguir em frente e ser feliz! Nós éramos felizes naqueles anos, muito felizes. Certo que alguns morreram jovens, outros perderam-se por aí nos becos da vida, mas durante aquele tempo da nossa juventude, foi bom demais!... E "se não valer pelos frutos, valeu pela sombra", a sombra foi fresquinha e deliciosa. Valeu, pois!
Continuei a descer a rua até ao fim. Os prédios estão todos lá na mesma. Os pátios nas traseiras dos prédios aonde parávamos ainda hoje têm grupos de jovens encostados, sentados, parados à toa de olhos postos em quem passa. Não reconheci rosto nenhum. Claro, tantos anos depois… Os meus amigos antigos que sobraram vivos, têm a minha idade, ou são bem mais velhos. Estranho seria que ainda parassem nos mesmos sítios, nas mesmas esquinas, nos mesmos lugares que eram nossos na época. Mas, secretamente, era isso mesmo que eu esperava que acontecesse. Esperava que algum deles se levantasse, me chamasse pelo nome, me abraçasse, me rodasse no ar como eles costumavam fazer “- Miúda, por aqui? Que é feito de ti?” Mas não, eram rostos desconhecidos, simpáticos, sorridentes, convidativos, mas desconhecidos.
Na baixa do meu antigo bairro pouca coisa mudou. Lojas abriram, outras fecharam, mas o essencial continua lá. A Igreja, branca e fria, como todas as igrejas, fechada, com hora certa para abrir como um qualquer estabelecimento comercial. Os cafés da minha vida ainda existem, os empregados são outros, os clientes são outros. Os centros comerciais do meu tempo, também estão quase lá todos. Mais vazios, mais silenciosos, cheios de ecos do passado, de rostos do passado. O D., nosso quartel general de Inverno, mais calmo, mais desinteressante, sem os vultos queridos encostados pelas paredes, sem os risos, as musicas, os barulhos dos flippers, das motos paradas a roncar lá fora… A mata, a minha querida mata, dos primeiros piqueniques, o meu mundo das férias de Verão, paraíso, de tantos amores, cantinho abençoado de muitos momentos felizes, está lá, na mesma, como sempre, grande, verde, bonita, linda como me tenho lembrado dela todos estes anos. Fiquei muito feliz por isso!
Mas ninguém conhecido. Ninguém para abraçar, ninguém com quem matar saudades, conversar, ir beber um café, passar um bocado a recordar o que nunca vai desaparecer do meu coração. Até que cheguei muito perto do reino antigo do X. As barracas desapareceram quase todas, as ruas estão arranjadas, os becos foram desmantelados, os passeios estão nivelados, as lojas abertas e tranquilas. Mas encostados nas esquinas pareceu-me reconhecer pela primeira vez rostos familiares. Mais envelhecidos, com cabelos brancos, alguns com rugas. Mas sem dúvida, rostos conhecidos finalmente! Os antigos homens de guarda, os que avisavam, os que passavam sinal quando se aproximava algum perigo, o perigo naquela altura costumava quase sempre usar uma farda. Aproximei-me de um deles. Era o T., claro que era ele. Olhei-o e sorri-lhe “-Não me estás a conhecer T.?” Os olhos dele suavizaram-se, abriu-se num sorriso de alegria, quase me apeteceu beijá-lo ali mesmo, no meio da rua e em frente de toda a gente. “-És mesmo tu miúda? Caramba, estás bonita! Andas perdida ou quê? Nunca mais vieste ver a malta!” Não me contive. Dei-lhe um abraço tão grande, tão cheio de saudades, tão cheio de ternura, de amizade, de remorsos, de tudo o que me passou naquele momento pela cabeça! “- Calma. Vê lá se o X vê- e de repente estávamos outra vez lá atrás, há bem mais de vinte anos, o X a ser o rei do bairro, eu a miúda dele, aquela em quem ninguém podia tocar- não quero problemas com ele.” Mas não se aguentou. Abraçou-me, beijou-me, rodopiou comigo no ar como eu estava á espera que ele fizesse. T., que saudades dele e do seu ar bonacheirão, sempre bem-disposto, sempre contente com a vida, sempre meu amigo querido! “- Ainda páras aqui, como dantes? De sentinela ao quartel?” Ele explicou-me que as coisas mudaram. Está tudo muito mais calmo. A verdadeira acção mudou-se para outros lados, espalhou-se. Muita da malta antiga morreu, outros estão dentro, outros desapareceram, outros atinaram na vida, casaram, foram para muito longe “-…como tu miúda. Casaste, fugiste, nunca mais… que saudades tuas!” Fomos beber um café. Ele pagou. Sempre cavalheiro. Desde aqueles tempos, mesmo que eu convidasse, o T. pagava sempre “-As damas não pagam. Comigo é assim.”
Dá-me sempre uma raiva tão grande quando as pessoas falam dos drogados, dos sem abrigo, dos ciganos, dos que são mais marginais, sem conhecimento de causa, quando os rotulam, quando os rebaixam, quando fogem deles como se tivessem peste! Todos os que conheço são óptimas pessoas! Amigos dos seus amigos, bons companheiros, leais, pacíficos. Se fazem algum mal, é a eles próprios. Se transgridem algumas leis, fazem-no mais como defesa do que como ataque. Posso continuar a ser a mesma menina sonhadora e crédula de outros tempos, mas recuso-me a tratar uma pessoa de forma cruel, só porque tem um estilo de vida diferente. Convivi de perto e durante muito tempo com eles, sei como são, nunca me fizeram mal algum,  não me tornei numa drogada, numa viciada por andar com eles. Nem cigarros dos normais, me deixavam fumar, para desgosto meu na época. Não se injectavam à minha frente, porque sabiam que me fazia impressão ver o sangue a saltar, não deitavam baforadas dos seus fumos para perto de mim, desviavam-se, levantavam-se, pediam desculpa, gostavam de mim, nunca nenhum deles me magoou, me ofendeu, nunca nenhum me fez chorar ou ficar triste. Não sei se terei tido uma sorte especial com o grupo de amigos que arranjei na altura. Não sei se haverá grupos piores, mais duros, mais fechados, menos seguros. Só posso falar do que conheço, e pelo que conheço, nunca tive problema algum com nenhum dos chamados “marginais”. Muito antes pelo contrário. Ainda hoje todos eles ocupam no meu coração o lugar destinado aos melhores amigos. Nunca tive problemas com nenhum deles e continuo a não ter, embora agora os meus conhecimentos duvidosos estejam, bem mais limitados.
Mas voltando ao T. e á nossa conversa, chegou a altura em que tive mesmo que lhe perguntar:”- E ele? O X, que é feito dele? “- Juntou-se com uma garina daqui que tem uma filha pequena, acabou por ficar com a mãe e com a filha. Mas não penses que te esqueceu. Ainda fala boé em ti, carocha, era assim que ele te chamava, não era? Queres ir lá para dentro? Entra aí uma beca… Ele deve lá estar. Ia ser bom vocês falarem-se outra vez. Só para ver se… sabes como é, vocês eram doidos um pelo outro…” E éramos mesmo! Completamente doidos! Como chegar lume á palha seca. O X foi o único de todos os meus namorados que esteve bem perto de conseguir tudo de mim. Tudo, o corpo, o coração, a alma, o prazer supremo. Éramos tão doidos um pelo outro, que o melhor é que não nos voltemos a encontrar. Tão doidos que secalhar estamos bem assim, um vivo na recordação do outro, só na recordação. Lembrei-me dos olhos verdes brincalhões, dos caracóis ruivos, soltos, rebeldes em cima dos olhos, do rosto bonito, das mãos quentes, dos braços que sabiam abraçar tão bem, da boca que sabia beijar tão bem… mas lembrei-me também de outros olhos, azuis, de outros beijos, de outras palavras, de outros abraços, de outras mãos quentes, com um calor muito diferente, muito especial.
“-Não, acho melhor não. Depois custa mais ir embora. Compreendes não compreendes T?” Compreendeu. Foi testemunha dos nossos amores, acompanhou-me muitas vezes á escola, a casa, fez muitas vezes de meu guarda-costas a pedido do X, bebeu muitos cafés comigo, aturou muitas cenas de ciúmes, de desconfiança, entregou muitos recados, presenciou muitos beijos, muitos abraços, muitas reconciliações. “- Vocês deviam ter ficado juntos. Ele nunca mais foi o mesmo.” Nem eu. Deixamos sempre um bocadinho de nós com quem amamos, acho. Um bocadinho bem grande de mim, ainda está lá, com ele. Um bocadinho dele também ficou comigo Uma das tais recordações que não precisam de caixa para serem guardadas, que estão sempre perto do coração.
Ainda conversámos mais um pouquinho, demos mais uns abraços, uns beijos simples de amigos com saudades, ele foi-me pôr ao comboio.”-Cuida-te miúda. Se precisares de alguma coisa, sabes como é. Procura a malta. Como dantes. Ainda és uma das nossas. Queres que diga alguma coisa ao X?” “Como dantes”, soube-me tão bem ouvir aquilo! Como dantes… ainda são meus amigos, ainda são o meu grupinho bonito de há tantos anos atrás. Menos, mais velhos, mais cansados, mas são eles mesmos ainda. Que bom! É sempre tão bom saber que não morremos no coração de quem queremos muito bem! “- Diz ao X que lhe mando um beijo grande. Está tudo bem comigo. Diz-lhe que eu lhe disse para tentar ser feliz com a tal rapariga. E diz-lhe também que eu não me esqueci, se algum dia precisar dele venho procurá-lo como ele prometeu. E é bom que ele ainda se lembre disso.” Ri-me na brincadeira, mas o T estava muito sério “- Ele lembra-se. Podes crer que ele se lembra. Vai ficar fulo da vida comigo por eu te ter deixado ir embora sem lhe ires falar!
E já lá vinha o comboio. Tive que ir. Mais um beijo de despedida, um abraço, um carinho no rosto. Fiquei a vê-lo da janela, a afastar-se, a ficar, a ficar cada vez mais longe. Lá, no mesmo lugar, nas mesmas ruas…
Foi muito bom ter lá ido, ainda que só por um bocadinho, ainda que só para dar uma rápida vista de olhos. Um dia volto com mais tempo. Mas agora, é altura de cuidar de outros assuntos, de outros amores.
Cuidar com carinho do presente que o presente me deu. Porque afinal, o presente é o único momento que conta. Estou a aprender umas coisas, não estou? Mas também tenho um professor brilhante!

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