sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Gosto de pessoas, e as pessoas também sempre gostaram de mim

Eu gosto de pessoas e as pessoas também sempre gostaram de mim!
Desde que me lembro de ser eu, que adoro falar, conhecer, conviver com pessoas. Sempre tive uma enorme facilidade de fazer amigos, conhecidos, de me desembaraçar com graciosidade e elegância no meio de pessoas que não conheço bem. Não me perco nas ruas desconhecidas, não me atrapalho quando não sei o que fazer primeiro, nem me envergonho se precisar de pedir ajuda. Acho uma delícia sem tamanho nem preço, acercar-me de alguém, pôr um sorriso no rosto, e apenas ser simpática. Falar de maneira agradável, ser correcta, educada.
Gosto de conversar, de dar opiniões, de escutar versões diferentes, de ponderar argumentos, de falar também só por falar, sem grande assunto, sem grande motivo a não ser estar perto de alguém e sentir-me bem a falar com essa pessoa, gosto de ouvir o que têm para me dizer, de escutar o que me querem contar. Quando pergunto a alguém se está bem, se passou bem, quero mesmo saber como a pessoa está. Não começo logo a andar, sem dar sequer tempo da outra pessoa responder. Acho uma piada imensa às pessoas que fazem isso, e pergunto-me simplesmente porque é que sequer o fazem... Não sou assim intencionalmente, nem como forma de alcançar propósito algum, nem como artimanha estudada para me dar bem nas situações, é simplesmente a minha maneira de ser. E fico bem satisfeita quando vejo que deixei a outra pessoa contente, animada por ter tido uma boa conversa, ou apenas por ter tido alguém que a escutasse. E fico feliz também, apenas saber que gosto das pessoas, e que elas também gostam de mim.
Felizmente, também tenho tido muita sorte com as pessoas com quem me tenho cruzado. Até quando por vezes alguém me diz coisas mais disparatadas, mais atrevidas, mais ousadas, coisas que eu até dispensava ouvir, mesmo assim é sempre de forma educada, amável, agradável, lisonjeira. Decididamente não tenho ideia de ter escutado algum comentário mais ordinário, mais grosseiro, mais sem imaginação. Como se quem diz esse género de coisas gratuitas, tivesse ainda assim cuidado para não me magoar, nem ofender.
Mesmo quando vou tratar de algum assunto mais complicado, mais aborrecido, tenho tido sempre a felicidade de me deparar com pessoas cordiais, amigáveis, interessantes. O meu filho costuma dizer que descobri algum segredo mágico para deixar todas as pessoas à vontade e bem-dispostas, mesmo aquelas pessoas que ele garante que são antipáticas, inacessíveis com toda a gente, comigo são sempre super afáveis. Ele às vezes vai comigo para comprovar, “-com este não vais conseguir, é bruto, é estúpido, não responde a nada de boa vontade”. Mas não noto nada disso. Ninguém me trata mal, ninguém me responde com más palavras, ninguém é bruto comigo.
Já discuti, claro, com amigos meus. Já tive desentendimentos com pessoas com as quais acompanhava, que faziam parte da minha vida e dos meus dias, e de quem eu gostava muito, mas até nesses momentos de mais tensão, mesmo com amigos menos dados á boa educação e á delicadeza de palavras e de maneiras, nunca nenhum deles me gritou, me levantou a voz, foi agressivo comigo. Limitavam-se a franzir o sobrolho, a fazer cara feia, mas durava pouco, desmanchavam-se a rir, davam-me um abraço e éramos amigos como sempre. Também a minha forma de discutir nunca é ofensiva, nem destrutiva. Não rebaixo as pessoas, não as tento inferiorizar. Digo apenas o que penso, da maneira o mais suave possível, e o menos agressiva possível, nunca tenho a intenção de magoar, só de fazer ver que também existo, e também estou ali, e não é por ser simpática, acessível, sorridente, meiga, que podem fazer de conta que não tenho vontade própria.
Até mesmo o meu pai, furioso, nervoso, sempre pronto a dar um berro, a desferir um murro na mesa, sempre com a sua cara de monstro papão quando era contrariado, não conseguiu nunca ir mais além comigo do que uma admoestação verbal, um tirar-me um brinquedo, um mandar-me para o quarto de castigo. Para impaciência da minha mãe, que gostava de resolver os problemas com uma boa palmada, o meu pai sempre foi incapaz de me levantar a mão ou sequer a voz. Olhava-me com má cara, mas depois sorria-se e sem a minha mãe ver, piscava-me o olho como quem desculpa ou perdoa. Também eu era a única que o compreendia, que lhe fazia uma festinha na mão, que lhe dava um beijinho a correr, antes que ele me impedisse, que o esperava à tarde com um abraço mesmo que ele fingisse que não queria. As pessoas às vezes são muito engraçadas. Querem e fingem que não querem. Se pararmos de fazer, ficam tristes, querem de novo, mas não conseguem pedir… Eu não sou assim, sou mais simples, menos complicada. Talvez isso também ajude a dar-me bem com toda a gente.
Já travei amizade com pessoas nas mais incríveis situações. Em filas aborrecidas de super-mercados, em paragens de autocarros apinhadas de pessoas fartas de esperar, em estações movimentadas de comboios, em salas de espera monótonas e silenciosas. Cheguei a ficar amiga de um condutor que bateu no meu carro, e me partiu um farol traseiro. O carro dele ficou bem pior do que o meu, e depois, eu sei que ele não fez de propósito, para quê armar confusão? Ele pagou o farol ou o vidro, ou lá como se chama aquela coisa que tem as luzes de trás, e pronto… ficámos amigos. Não precisámos de assinar papéis, nem envolver seguradoras, falámos apenas, sorrimos da situação, calmamente, simpaticamente. De vez em quando ainda conversamos um bocadinho e ainda nos fartamos de rir com tudo o que se passou. Não é tão melhor assim? As coisas ficam muito mais fáceis se não as complicarmos. As pessoas ficam muito mais simpáticas, se formos também simpáticos para elas. É a lei da lógica, não há porque ser diferente!...
Uma outra vez, também de carro, ouvi buzinar várias vezes atrás de mim. Pensei logo que já tinha feito alguma azelhice, passado algum sinal, pisado alguma linha proibida, ou que fosse devagar demais na minha velocidade máxima, que é os oitenta das regras, e fora das povoações, porque pronto, conduzir não é realmente o meu forte, apesar de ser bem cuidadosa e cumpridora das regras todas que há para cumprir, prefiro francamente ser conduzida, do que ter que conduzir eu. Mas não era nenhuma reclamação, era um outro condutor, muito simpático, que me avisou que eu tinha um pneu furado. Saiu do carro dele, sempre agradável, sempre sorridente, mudou-me o pneu, sujou-se todo de óleo, e ainda me agradeceu por me ter ficado a conhecer! Depois disso, ainda nos voltámos a falar umas vezes, e ainda nos telefonamos de quando em vez. Ah, estou-me a lembrar aqui há coisa de uns dois anos, levei o meu carro à inspecção e ao manobrar para sair da fila de espera e entrar para dentro do pavilhão das inspecções, raspei no carro de um homem que também estava à espera de ser chamado. Pensei que ele fosse ficar furioso comigo e que, no mínimo dos mínimos fosse dizer alguma daquelas coisas tradicionais que os homens dizem às mulheres que conduzem, género” devias estar em casa, vai aprender a conduzir”, enfim, por aí… Mas não. Olhou para mim, eu pedi-lhe desculpa toda atrapalhada, quase a chorar, porque eu sou assim, por tudo e por nada vem-me logo uma lágrima aos olhos, é inútil tentar lutar contra isso. Ele sorriu-me, disse que não tinha importância nenhuma, que realmente não havia espaço suficiente e o carro dele não estava parado no melhor lugar. Limitou-se a limpar o risco com um lenço e até se ofereceu para entrar ele com o meu carro lá para dentro, e fez ele toda a horrorosa inspecção no meu lugar. Quando nos despachámos os dois da inspecção, que é uma coisa que eu detesto ter que fazer, muito parecida a meu ver com os exames da escola, e só vou fazer mesmo porque sou obrigada, fomos beber um café, conversámos um bocado, foi muito bom, foi muito agradável! É o que eu digo, as pessoas gostam de mim, mas eu também tenho algum jeito para lidar com as pessoas.
É um facto que me sinto mais à vontade se tenho que falar com homens, os homens são muito mais simpáticos, cordiais, faladores. Por algum motivo que só eles sabem, parecem sempre muito inclinados a receberem-me bem e a serem amáveis para comigo. È verdade também que quando estão dois funcionários, uma mulher e um homem, eu escolho sempre o funcionário masculino, mas também me dou muito bem com mulheres. Embora as mulheres sejam mais reservadas, mais defensivas, também elas acabam sempre por ser simpáticas comigo.
Claro que sei que os amigos que se fazem assim, com meia dúzia de palavras, são mais “conhecidos” do que amigos. Também não sou assim tão ingénua! Sei que alguns deles pretendem sempre alguma coisa a mais do que a amizade, mas que importa isso? O que que interessa o que pretendem, o que acham que vão conseguir, o que gostariam de ter? O que realmente interessa é que na altura em que preciso de falar com eles, seja lá porque razão for, tudo corre muito bem, e é sempre agradável para todos. E o que interessa também é que resolvo os meus assuntos, sou simpática, que é coisa que eu adoro ser, são simpáticos comigo, que eu também adoro que sejam, porque eu gosto muito que me tratem bem, e o resto, se resto houver, fica na cabeça e no coração de quem pensa ou sente. Não tira pedaço, não belisca, não alcança mais do que o espaço entre o pensamento e o desejo, não tem efeito nenhum a não ser, claro, porque eu também sou humana, uma maravilhosa sensação de bem-estar no meu ego! Eu vou e venho na mesma, tranquila, feliz, descansada. Sem precisar de prometer, sem precisar de acenar com hipóteses, sendo apenas como sempre fui, simples, simpática, sorridente. Fazer o quê? Não tenho culpa de ser assim, e nem quero tão pouco mudar. Gosto muito desta parte linda, leve e solta da minha personalidade. Quem me quiser, vai ter que se adaptar a ela. Há um limite bem delineado para aquilo de que estou disposta a abdicar para conservar alguém. Abdicar de mim, não volto a fazer! Já tentei, não resultou e magoou demais! Posso, usando de muito esforço e de muita boa vontade, tentar limar algumas arestas aqui e ali, suavizar algumas coisas aqui e ali, tirar um pouco de brilho nesta ou naquela parte, mas mesmo para isso acontecer, era preciso que estivesse muito apaixonada por quem mo pedisse!... 
Outra coisa que adoro fazer é conversar com os meus vizinhos reformados. Enquanto estou à espera da carrinha da escola da minha filha, sento-me num dos bancos de jardim aqui perto da minha casa Estão sempre por lá muitos idosos, reformados, a ler o jornal, a conversar, a dormitar. Eu vivo num meio pequeno, e todos me conhecem. Por isso não faz mal nenhum falar com eles todos e é tão bom! Gosto de ouvir as histórias de antigamente que contam, as crónicas familiares, os nomes dos filhos, dos netos, os lugares que conheceram, aonde trabalharam, os achaques e as maleitas que os atormentam, às vezes estão tão sozinhos que não têm ninguém com quem conversar o dia inteiro! Eu gosto de falar com eles, e não é por solidariedade, ou por qualquer tipo de pena. Gosto francamente, enchem-me a tarde de alegria, de paz de tranquilidade! Aprendo muito com o que me contam, aprecio a lógica simples e inabalável das suas convicções, das suas crenças quase primitivas, divirto-me muito com os seus juízos de valor tão, mas tão diferentes dos meus, com as suas opiniões firmes e inocentes sobre as coisas da vida! Alegro-lhes um pouco a tarde e venho-me embora mais feliz também. Tenho bons amigos entre eles e gosto muito deles, sei que eles também gostam de me ouvir falar, de me ver sorrir, gostam das minhas maneiras simples, cordiais, desafectadas, e somos apenas amigos entre amigos.
Converso da mesma maneira com uma vizinha que me ensina uma receita nova para um doce, como converso com as professoras dos meus filhos. Não faço distinções, nem de pessoas, nem de assuntos. Gosto de falar de tudo, interesso-me genuinamente por tudo e adoro prestar atenção ao que me dizem.
Tenho amigos mais pobres, mais ricos, mais novos, mais velhos, homens, mulheres, bem comportados, ajuizados, educados, cumpridores de todas as leis, menos cumpridores, mais rebeldes, viciados, marginais… enfim, já são muitos anos de conhecer e gostar de conhecer pessoas, já houve tempo suficiente para juntar um variado número de amizades diferentes. O meu mundo é muito mais rico devido a esta grande faculdade com que nasci, o ser capaz de me relacionar bem com toda a gente, sempre, acima das diferenças, das divergências, das crenças ou religiões, das ideologias políticas, acima mesmo da linha ténue que divide e aparta as “boas pessoas” das pessoas “menos boas”.
Para mim, estar no meio de outras pessoas, sentir-me bem com elas, saber que se sentem bem comigo, é sem dúvida um dos grandes prazeres da vida. E um prazer daqueles mais simples, menos egoístas. Não exige, não promete, não cobra, nem impõe condições. É só ouvir, falar, sorrir, gostar… e eu gosto muito de pessoas e elas também sempre gostaram muito de mim!

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