sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Há dias felizes!

Há dias assim! Há dias bons!
Há dias que começam tão iguais a todos os outros antes deles, que nada parece indicar que possam vir a ser diferentes.
Acordo como sempre costumo acordar, e nada de novo me surpreende ou fascina, e nenhum comité de boas vindas se aproxima mansamente para me receber de braços abertos no dia novo que está agora a começar. Acredito pois, e à falta de indícios que me sugiram o contrário, que vou ter, na melhor das hipóteses, mais outro conjunto de vinte e quatro horas exactamente igual ao que já me fez companhia antes, e possivelmente igual ao que virá depois.
Mas às vezes basta uma pequena coisa, aparentemente sem importância, aparentemente banal, aparentemente sem sentido, para mudar todo o rumo do meu dia. Tanto no bom sentido, como claro, no menos bom.
Pelo menos hoje, o meu dia mudou para muito melhor! De maneira que estou assim, como costumo ficar quando estou mais contente! Estou leve, esperta e a sentir-me com aquela sensação intensa de vida que é difícil de explicar, mas que sabe sempre tão bem sentir! É como se tivesse uma braseira por dentro a aquecer-me o coração, a iluminar-me os olhos, a fazer-me sorrir com um prazer mais verdadeiro. Como se milhões de possibilidades, de hipóteses, de atalhos, se apresentassem de repente em frente aos meus olhos cansados de chorar! Como se as cores todas do mundo viessem brilhar na paleta do meu coração, e derramassem a alegria, o brilho e o encanto por sobre as coisas, por sobre o universo. É em ocasiões como esta, que sinto prazer em estar viva, que adoro viver, e sinto que o mundo inteiro é muito parecido com um paraíso iluminado por mil sois de esperança. Dias assim, como os de hoje, ajudam a suportar melhor e com mais coragem, os outros dias mais escuros e mais tristes, que são infelizmente os mais numerosos na minha vida.
Os dias bons deixam a sua marca carinhosa na minha alma, consigo lembrar-me da sensação boa que me dão, mesmo muito depois de já me ter esquecido do porquê dessa sensação. Por isso às vezes nem importa muito aprofundar qual a razão que me fez ficar feliz. Seja qual for essa razão, quase sempre é passageira, quase sempre é fictícia, quase sempre é ilusória, e não se demora comigo mais do que uns momentos, assim como as borboletas de asas tão belas não vivem mais do que umas horas. O que realmente é importante é o que fica depois que tudo passa, e o bem que sabe enquanto está a durar, o bem que me faz à alma, ao corpo. E se o que passou deixou uma lembrança maravilhosa, um efeito de beleza eterna enquanto durou, então cumpriu o seu propósito e pode seguir em paz. Porquê pedir mais?
Também não é preciso muita coisa para me deixar feliz… Uma palavra, um sorriso, um olhar, uma gentileza, uma carícia... Hoje foi um email. Um email sem nada de muito especial, comum e vulgar, só uma coisinha pequenina e inocente, mas que me soube tão bem!
De todas as pessoas que conheço, sem dúvida, eu sou a mais absurda, irracional, infantil e com menos juízo na cabeça!... Aonde já se viu deixar-me entusiasmar dessa forma ridícula, alienada e deliciosa com coisas tão simples, tão básicas? É que mesmo que às vezes, não haja nada para ver, eu, quando quero, vejo sempre mil castelos de fantasias, mil promessas, mil indícios… Mesmo que as coisas sejam simples, transparentes e o mais linear possível, ainda assim, quando se me mete uma ideia na cabeça, pronto… Não há pensamento equilibrado que me prenda à terra!
Por qualquer motivo vou às nuvens e volto, sem mesmo chegar a subir para o ar. Basta um quase nada, que muito provavelmente tem uma explicação absolutamente lógica, racional e óbvia, para eu sentir o coração a bater mais depressa, a respiração a acelerar, o peito a encher-se de ar novo como se realmente estivesse na iminência de acontecer alguma coisa boa! Decididamente sou muito acriançada! Não admira que tenha feito a vida bem complicada à minha mãe, porque se agora ainda sou assim, então é bom de ver como seria quando era criança, ou pior ainda, quando adolescente…
E o mais intrigante de tudo é que mesmo tendo a noção exacta de que vivo a maior parte do meu tempo num castelo de ilusões, mesmo sabendo que quase tudo o que me faz feliz são fantasias que só existem na minha imaginação alucinada, mesmo assim tenho o atrevimento de gostar bastante de ser como sou! Não podia ser pior o estado de palermice confessa, descarada e desmiolada em que estou mergulhada, pois não?
Mas detestava de repente ganhar o tal “juízo” e transformar-me numa pessoa sensata e concentrada. Ia odiar de repente deixar de sonhar, de vibrar com qualquer coisa simples.
Como seria possível viver todos os dias se não estiver sempre à espera de alguma coisa nova, de alguma coisa boa? Como é que as pessoas conseguem fazer isso? Como aguentam fazer isso? Se eu perdesse o entusiasmo delicioso de ver bons presságios em tudo, de ler nas entrelinhas, de decifrar enigmas, como é que conseguiria aguentar lidar com a sensaboria entediante que é a minha vida? Se fosse cingida apenas ao momento que passa, ao tal precioso presente do qual tanto se fala, acredito que se passariam muitos e muitos dias, semanas, meses, sem ter sequer um pequenino motivo para me alegrar, para me sentir assim como estou agora, solta, leve e viva.
Eu tenho que pedir emprestado, ao reino da fantasia, material suficiente com que alimentar a fogueira da minha imaginação. Porque se deixo a fogueira apagar, se deixo de manter acesa a chama que me vai guiando e iluminando, corro o risco de ficar às escuras. E sem luz, não sei viver. Sem luz, não sei sequer se vale a pena continuar a viver. Eu gosto de construir castelos mágicos feitos de areia molhada. Gosto de viver histórias bonitas de encantar, gosto de sonhar com finais felizes, cheios de beijos e de abraços, sem amanhã, sem depois de amanhã. Gosto de acreditar em princesas apaixonadas com vestidos compridos de rendas, e véus de seda, a deslizarem etéreas nos corredores dos palácios, príncipes valentes, guerreiros e destemidos montados em lindos alazões brancos de crinas compridas a voar ao vento, fadas-madrinhas gorduchas e bondosas empunhando as suas varinhas de condão com estrelinhas na ponta, e dragões verdes, bravos e gigantescos lançando fogo pelas ventas. Gosto de transformar beijos simples e comuns, em beijos quentes e ardentes. Gosto de transformar um abraço que só é morno, num abraço apertado e envolvente. Gosto de sentir o coração a bater com vontade no peito, a visão a ficar turva, o sangue a correr com mais força. Gosto de viver romances proibidos e intempestivos, gosto de aventuras, gosto de fugir por aí, pelas ruas da ilusão, mesmo que seja só no reino do faz-de-conta. Mesmo que a minha fuga se limite, aos olhos de toda a gente, a continuar a caminhar ordeira e sossegadamente pelo caminho recto, simples e decente da vida.
Fico feliz se o livro que leio tem um final bonito. Se não acabar bem, de cada vez que o volto a ler, porque eu tenho a mania de reler os livros, fico sempre na esperança envergonhada de que daquela vez seja diferente. Com os filmes, a mesma coisa. Já vi alguns filmes tristes, várias vezes. E de cada vez é como se fosse a primeira, e como se o final pudesse ser diferente Casa Blanca é um desses filmes.Como se pudesse acontecer que tudo o que já está escrito, que tudo o que já está determinado, que tudo aquilo que já saiu da nossa mão, ou que nunca chegou sequer a estar na nossa mão remediar, sofresse ainda assim uma mutação misteriosa e pudesse deixar de ser como foi inventado, e se pudesse ir adaptando e melhorando por magia!
Pois, está bem demonstrado que não pode haver qualquer dúvida em como sou realmente muito infantil e muito pateta! Em qualquer etapa do meu crescimento, lá muito para trás, ou lá menos para trás, algum cabo importante do circuito principal que comanda o meu cérebro complicado, se deve ter afastado da ligação original, e aconteceu o eu ficar assim… em eterno curto-circuito, num faiscar constante de fios descarnados que fazem mau contacto Paciência, fazer o quê? Já que é assim que sou, agora é aguentar e seguir em frente.
E enquanto o que está em frente, não aparece, vou aproveitando bem, porque hoje estou feliz! E em dias assim, é muito difícil que me consigam deitar a mão, que me consigam parar e prender cá em baixo. Fico bem mais difícil de apanhar. A realidade comum ao resto das pessoas, vai ter que esperar um pouco mais. Surpreendam-se e deixem-se ficar a admirar, talvez aprendam alguma coisa, talvez aprendam como se faz para voar! Porque no meio da minha insensatez e da minha falta de juízo, hoje estou a ter um dia bom, e hoje estou feliz! É tão bom estar assim!...









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