sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 17 de julho de 2011

Menina mimada

Será que sou mesmo mimada e acriançada?
Já me têm dito que sim... Em várias ocasiões da minha vida, com várias pessoas diferentes, em diversas situações, já me têm chamado “menina mimada”, “menina que ainda não cresceu”.
Desde pequena que a minha mãe se queixava do meu feitio birrento e caprichoso, cheio de mudanças, de alterações e de humores flutuantes, das minhas alegrias exuberantes e infundadas, das minhas lágrimas sem razão nem porquê. Ela atribuía as culpas da minha personalidade volátil ao meu pai. Achava que se ele não me satisfizesse sempre todas as vontades, se não cedesse sempre aos meus caprichos, se não se deixasse constantemente enredar nas minhas artimanhas, talvez eu não fosse tão senhora do meu nariz, tão voluntariosa, tão, mas tão teimosa e difícil de lidar! Bem, é uma hipótese a levar em conta… De facto o meu pai nunca foi capaz de me negar nada enquanto eu era pequena. Sempre fui a sua princesinha preferida, aquela que se portava menos bem, que dava mais trabalho, que era complicada e travessa, mas que era sempre desculpada e que recebia sempre um sorriso, embora o sorriso viesse disfarçado da dureza que era obrigatória demonstrar.
Quando cresci, na escola, continuei teimosa, casmurra, com a cabeça cheia de opiniões, de vontades. Tinha as minhas matérias preferidas. Aquelas que eu gostava de aprender e de estudar, o inglês, o francês, o português com todos os seus livros de leitura obrigatória, que para mim eram sempre um brinde extra. O meu pai tinha que os comprar sem reclamar, eu podia lê-los com prazer, e ainda por cima cumpria um dever e obtinha notas excelentes! As outras disciplinas, as mais sérias, as mais complicadas, as que não me interessavam, eram deixadas para trás, a matemática, a geografia, a química, eram sempre aquelas em que tinha piores notas, nem sequer me esforçava a pensar nelas. Não me agradavam, pronto. Achava logo que não valiam o tempo que ia perder. Afinal quem é que precisava de saber todos os nomes maçadores das montanhas e de todos os rios do mundo? E para que servia decorar todas aquelas horríveis fórmulas químicas, cheias de sinalefas estranhas e códigos disfarçados de letras? Sem falar da matemática, uma ciência de outro mundo mais complicado, praticamente indecifrável no meio de tantos cálculos, chavetas, parênteses… Não queria saber dos conselhos da minha mãe sobre as profissões futuras, sobre as dificuldades de entrar para a universidade sem boas notas, etc, etc. Se não me agradava, não estudava e pronto, mandava todo o resto, e todas as possíveis consequências funestas que daí pudessem advir, às urtigas. Além disso, a minha ida para a universidade era um sonho que só existia na cabeça dos meus pais e de alguns professores meus. O que eu queria era fazer depressa dezoito anos e sair de casa. Jamais admiti sequer a hipótese de ter que esperar até quase aos trinta anos para começar a viver… E não me arrependo! Duvido muito de que qualquer universidade do mundo me tivesse dado tantas coisas bonitas como as que tive cá fora. Desconfio seriamente que algum dos colegas intelectuais e universitários se pudesse assemelhar aos amigos com quem acompanhei, aos namorados que amei, às ruas lindas em que passeei solta e livre, aos sonhos loucos que sonhei quando quis, com quem quis. Duvido muito… Talvez tivesse de facto hoje, uma vida mais confortável do ponto de vista material, mas não é por aí que eu vou. Sou muito mais aquilo que se sente, do que aquilo que se tem. Prefiro muito mais ter todas as estradas desconhecidas e bonitas para andar, quando quiser, por onde quiser, do que deslizar sem graça dentro de um automóvel luxuoso, de vidros fechados, e sem sequer notar o vento, nem o fresco do caminho. Lá está, “criancices… falta de maturidade”. Paciência, sou mesmo assim…
Depois, com os meus namorados, as coisas não melhoraram muito. Tive namorados que sofreram horrores nas minhas mãos, e mesmo assim não desistiram de mim! Talvez tivessem no fundo, esperança de me domarem, de me segurarem, de me entenderem. Talvez lhes fosse suficiente ter ao lado uma “miúda gira e interessante”. Talvez, como a minha mãe dizia, os homens gostem mesmo de ser maltratados… Eles coitados não sabiam muito bem como lidar comigo. Tão depressa era amorosa, meiguinha, ternurenta, como mudava completamente e ficava rabugenta, irascível, mal-humorada. Não é que nenhum dos namorados que tive, se importasse muito com isso. “Tu és insuportável às vezes. Não dá mesmo para aturar. Mas quando estás de bem com uma pessoa, o mundo é mais bonito!” E era mesmo. Ainda hoje sou assim, sei que sou. Nos meus dias mais bonitos, é realmente agradável estar perto de mim. Nos outros, que felizmente são menos, e nem chegam a ser dias inteiros, também não posso exagerar, são quando muito bocadinhos assim pequenininhos de dias, o melhor mesmo é nem passar perto, e deixar-me ficar quietinha  até que passe.
Tudo bem, posso ser mimada, acriançada, posso fazer birras de vez em quando, chorar por tudo e por nada, amuar e fugir para o meu cantinho, mas não sou má pessoa, nem tenho mau coração. Só sou temperamental, mais nada. Mudo com os dias, mudo com as noites. Fico triste com alguma palavra mais descuidada, com alguma expressão que eu julgue ser mais agressiva. Magoo-me com tanta facilidade como uma flor de estufa. Basta que consiga captar no ar alguma coisa menos bonita, menos feliz, que me pareça um pouco brusca ou ríspida, e não é preciso mais para o meu dia passar de luminoso a nublado, para o sol deixar de brilhar com tanta beleza no meu coração.
Mas depois, assim como fico triste, também fico feliz. Posso estar bem desolada, bem amuada, bem perdida no meu mundo de lágrimas e pesares, mas se vejo algo bonito, se os meus olhos pousam nalguma paisagem mais bela, mais envolvente, se alguém fala comigo de forma mais carinhosa, se me fazem um afago, se me dão um beijo, se uma aragem me sopra mais próximo do ouvido e me faz arrepiar de prazer, ou se a vida me empresta um sonho bonito para sonhar, pronto fico feliz e de bem com a humanidade toda outra vez!
É complicado ser assim! É complicado saber que tão pouco, pode mudar tanto e tão depressa. É difícil ser uma menina mimada, que não cresceu, cheia de caprichos e de vontades. Cheia de sensações à flor da pele, prazeres simples, que deviam estar devidamente compartimentados e arrumados nas prateleiras do grande armário que decora o cérebro de um adulto composto e ajuizado. É estranho saber que estou sempre como que na dependência daquilo que a vida, as outras pessoas, me fazem desfilar pelos olhos, pelo coração, daquilo que deixam antever, que deixam suspeitar, das mudanças subtis que capto no ar antes mesmo de as coisas acontecerem. É embaraçoso ficar logo com os olhos cheios de água, mesmo sem estar triste, e o coração ficar a bater mais depressa, se alguém me toca de forma mais gostosa, às vezes nem é preciso muito, basta uma maneira de encostar, de acariciar que seja diferente, ou se vejo uma fotografia bonita que me emociona, se ouço uma música de que gosto e que faz sonhar. Mas é bom também! Estou habituada a estas mudanças todas, a estes altos e baixos a que o meu coração, coitado, anda sempre submetido. Acho que uma vida mental equilibrada, monótona e certinha, nunca se iria coadunar bem comigo.
Se deixasse de ser a tal menina mimada e acriançada, que amua que faz birra, também já não seria eu. Já não teria a capacidade maravilhosa que tenho de me deixar embalar pelo vento, de olhos fechados, e imaginar que estou a deslizar pelo céu, num tapete voador, na companhia do Aladino e com a lâmpada encantada bem segura nas mãos, com os três desejos ainda todos por pedir. Ia perder a delícia que é saborear o sol a dourar a pele, a fazer cócegas na barriga, as cores bonitas que ficam nos olhos quando a luz bate forte e temos que os fechar. Ia não mais ser capaz de sentir a chuva a escorrer em cascata pelo rosto, pelos cabelos, ia ter medo de me constipar, de estragar a roupa, ia perder a beleza que é esquecer o frio, esquecer o tiritar do corpo e só sentir a água a deslizar devagarinho primeiro, mais rápida depois quando já está tudo tão molhado que não é preciso mais cuidado nem mais jeitinho. Desde o tempo da escola que gosto de fazer isso. Ainda hoje gosto, mas tenho que ter mais cuidado, não vão as pessoas descobrirem que afinal não tenho assim tanto juízo como aparento. Dá um trabalho imenso manter a respeitabilidade!… Mas dantes, lembro-me muito bem, vestia um daqueles kispos compridos que se usavam para a chuva, escondia os livros junto ao peito, protegidos pelo casaco, e lá ia eu para a escola, para a rua, e a tomar banhos de chuva. Chegava aonde queria ir com os cabelos a pingar água, a parecerem ainda mais compridos do que sempre foram, a cara encharcada, feliz, tão feliz! Os condutores dos carros, dos camiões, os rapazes das motos, metiam-se comigo, ofereciam-me boleia, buzinavam, e eu seguia em frente, divertida com tanta algazarra, contente comigo própria, no meu passo característico balançado, o coração a bater de alegria, os cabelos a voarem ao vento, a ficarem pesados embaixo da chuva, todo o mundo nas minhas mãos… Hum… que saudades de apanhar uma boa chuvada!... Um dia destes, quem sabe…
Mas como ia dizendo, se crescesse de vez, e deixasse de ser uma mimada e imatura, ia ter vergonha de chorar com um final mais triste dum filme, dum livro, quando os personagens principais não ficam juntos, não dão um grande beijo apaixonado, daqueles beijos de cinema que são tão bons de ver e muito melhores de fazer. Em crescendo, já não me ia contentar e alegrar com as coisas pequeninas que agora me fazem tão feliz, uma flor deslocada do seu ambiente, que sobrevive por milagre no meio das pedras soltas de um solo árido. Ia deixar de me espantar com um passarinho que canta num tom diferente dos demais e a gente ao ouvi-lo nem percebe bem se ele está a cantar ou se está é a chorar alguma mágoa desconhecida, daquelas mágoas que também devem atormentar os passarinhos bonitos de penas brilhantes. Não ia achar a mínima piada na nuvem mais rosada de todas que aparece esplendorosa no céu da manhã, e depois muda logo a correr de forma, para ser só mais uma nuvem qualquer, no meio das outras nuvens da manhã, já não tão rosada, já não tão esplendorosa. Nem me ia sentir fascinada com a estrela que brilha mais do que todas as outras irmãs estrelas, e que está pendurada em oferenda no escuro da noite… “Não percebo aonde é que está a boniteza. Também achas sempre tudo bonito. Para ti qualquer coisa serve.” Mas para mim não são coisas quaisqueres, são pedacinhos de beleza avulsa e grátis, distribuídos igualmente pelo mundo inteiro para alegrar a vida de todos nós.
Por isso reconheço, sou mimada sim. Têm-me sempre tratado bem, têm sempre sido gentis para comigo. A vida nesse aspecto tem sido muito boa para mim. Não me tem dado mais do que aquilo que eu posso suportar. Não me obrigou a vergar, a capitular. Não me domou, nem me colocou arreios na boca, nem esporas nos flancos. Tenho conseguido quase sempre manter o meu espírito livre, voador incasável por todas as pradarias do mundo. Não tenho sido obrigada a mudar drasticamente, nem em todas as frentes de combate. Por vezes tive que capitular um pouco, por vezes tive que me amansar ligeiramente, pôr alguns travões na minha imaginação, nos meus sonhos, nos meus desejos. Mas ainda assim, tenho que ficar bem contente, porque e apesar de tudo, a vida tem-me permitido sobreviver continuando a ser uma menina que é mimada e imatura.
E, no fundo, qual é o mal de ser assim? È que falam sobre o assunto como se fosse uma desgraça… Eu gosto da minha maneira de ser, mas pronto, eu sou a tal, mimada, acriançada, a que ainda não cresceu. Não sei se a minha opinião deva ser levada muito em conta…

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