sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 11 de julho de 2011

A minha Primeira Vez

Não vou dizer quando foi, não vou dizer com quem foi. São informações muito íntimas, e que não me apetece partilhar com ninguém. É o género de pergunta á qual eu só responderia ao homem que amasse. Tirando isso, todo o resto fica descaracterizado e impessoal. Aconteceu comigo como acontece com tantas outras mulheres pelo mundo fora. É a lei da vida, da natureza. Não faz mal falar sobre. Tirando esses dados mais pessoais, que realmente podiam humanizar a história, e fazer dela a minha história, ela podia ser de qualquer um, podia ter acontecido em qualquer lugar.
Eu era sonhadora e romântica, como ainda sou, o que se há-de fazer, defeito de nascença, vivia apaixonada por fantasias de amores imortais, como ainda hoje vivo, sinos a tocarem, príncipes e princesas. Achava que tudo o que lia nas histórias de amor, acontecia na realidade. Todos os pares românticos que se amavam nas linhas dos livros que eu adorava ler, correspondiam exactamente ao que acontecia com toda a gente que vive no mundo exterior á imaginação dos escritores. Julgava que os amantes do cinema que acabavam o filme sempre com um enorme beijo apaixonado, eram iguais aos de fora da tela. Acreditava nas histórias mirabolantes que as minhas colegas contavam sobre como tinha sido bom, sobre como tinha sido fantástico e imperdível, de como tinham subido aos céus e voltado, enfim… provavelmente a maioria delas até nem tinha ficado assim tão contente, provavelmente até, algumas delas continuavam tão intocadas como quando tinham nascido, mas pelo menos nos anos 80, quando eu era jovenzinha, ser virgem era mais do que uma vergonha, era um autêntico atestado de incompetência e de inabilidade social. Só era virgem a rapariga que não conseguia arranjar um namorado, uma curtição, um qualquer coisa que vestisse calças e que se interessasse por ela. Hoje não sei como é, mas presumo que as raparigas tenham aprendido a preservarem-se um pouco mais, e tenham um pouco mais de juízo. Naquele tempo tudo era mais selvagem, vivíamos mais depressa, a um ritmo muito mais louco, muito mais solto, mas também e talvez até por isso mesmo…infinitamente mais tentador!
Sempre tive muitos namorados. Comecei a namorar muito cedo, assim que os rapazes começaram a reparar em mim e logo que deixei de ser uma patinha feia, sem formas e sem graça. Achava imensamente divertido ter sempre um enxame de pretendentes à volta, achava bom demais conseguir chamar a atenção de tantos rapazes, ser capaz de os ter ali à espera de um consentimento, de um olhar, de um encorajamento. E gostava da sensação de protecção, de segurança que eles me passavam. À sua maneira, cada um deles, era um desafio e uma recompensa. Bastava eu carregar no botão invisível do desejo, para que qualquer um ficasse completamente nas minhas mãos, e para uma menina que nunca tinha tido grandes afectos na vida, isso era uma maravilha demasiado boa para se descrever em palavras. E gostava das outras partes boas e carinhosas do namoro, passear de mão dada pelas ruas, comer um gelado dividido pelos dois, ir ao cinema, ir à praia, ver o pôr-do-sol, andar de moto a voar pela estrada como se a estrada não tivesse mais fim, beijar, abraçar, enfim… coisas de namorados, coisas sem tempo e sem idade, coisas que vão continuar a acontecer para sempre, desde que continuem e existir pelo menos duas pessoas que se queiram bem.
Lembro-me de que muitos rapazes que conheci me achavam fria, distante e inacessível. Um deles disse-me que eu era óptima para mostrar aos amigos, que enchia de orgulho qualquer um que pudesse andar comigo pela rua e chamar-me sua namorada, mas que era péssima quando longe de todos. Outros achavam que eu só tinha pose e estilo, mas que por baixo da roupa só tinha gelo. Eu gostava de tudo o que fosse bonito, leve, solto, livre, sem compromissos, sem regras escritas, sem horas marcadas. Não me apetecia muito deitar-me com nenhum deles, nem achava que isso fosse muito importante. Não me queria prender a sério com ninguém, nem queria dar a ninguém o poder de se prender a mim, por algo mais que não fosse a simples vontade de passar um bom tempo juntos. Eles não percebiam muito bem o porquê de eu ser diferente das outras namoradas que tinham tido, mas a maioria respeitava as minhas esquisitices. Os que não queriam do jeito que eu queria, pronto, eram despachados mais depressa do que os outros e o namoro terminava quase tão depressa como tinha começado. Simples e eficaz, sem choros, sem lágrimas, sem mágoas.
Mas, lá veio o dia em que mudei de ideias, ou achei que tinha mudado de ideias. Porque afinal, se era tão bom, se toda a gente gostava e fazia, se era o que se esperava de mim, se era até o que todos pensavam que já tinha acontecido, porque é que logo eu, que vivia no meio de um constante vai e vem de namorados, não havia de experimentar também?
Experimentei. O rapaz com quem eu andava naquela altura, não tinha nada a mais do que os outros tinham tido antes dele. Era bonito, simpático, e era mais um namorado. Calhou-lhe a ele, podia ter calhado com outro qualquer. Isso não era muito importante. Afinal, também não gostava assim tanto de ninguém, não da tal forma especial que achava que se tinha que gostar antes de passar da fase dos beijinhos e dos abraços, para a fase seguinte. Mas estava cansada de esperar por alguém especial, e a curiosidade era muita. Queria comprovar se realmente era assim tão bom, assim tão mágico, tão sublimemente maravilhoso que fizesse logo começar a pensar, e a desejar a próxima vez. Além de que, depois, quando as minhas amigas começassem com as conversas delas de como tinham feito, de como tinha sido, de quanto tempo tinham aguentado, eu também já podia participar com conhecimento de causa, e ia deixar de ser a única virgenzinha, a que tem a mania que é boa mas não faz nada, a que namora mais do que todas mas nem sabe como fazer para ir mais além. Pode alguém ser assim tão parvo? Mas eu era! E se calhar junto comigo, haviam muitas outras raparigas a pensar da mesma forma, e a irem para a cama com os namorados pelas mesmas razões. Ai, ai… vá-se lá perceber a cabecinha tonta das adolescentes?
Eu deitei-me e ele deitou-se. Começou, acabou. Doeu, foi desagradável, foi rápido. Não foi tão mau como eu temia que pudesse ser. Mas não foi nem de perto o que era para ser. Não houve foguetes a estalar, nem sinos a dobrar, nem me senti nas asas do vento a deslizar por sobre as nuvens. Foi só. Ele gostou. Como? Porquê? Não entendia. Se era só aquilo, se aquilo era tudo, então porquê tanto entusiasmo, tanto aparato? O que pensei logo foi “Ou a culpa é dele, ou a culpa é minha. “ Dele não podia ser. Era um rapaz que tinha namorado muito, as raparigas babavam quando falavam dele, tinha experiência, devia saber o que fazia. Pronto, então o mal só podia ser meu. E sendo assim era uma vergonheira incalculável! Porque muito pior do que perder a virgindade, era perder a virgindade e não ter gostado. Por isso, no dia seguinte quando as outras raparigas me perguntaram como tinha sido, fui mais uma voz entusiasmada a relatar factos inventados na altura e a deixar todas admiradas e finalmente convencidas da minha competência como “mulher adulta no mundo das outras mulheres adultas”.
A primeira vez não foi grande coisa. Desde então e até hoje, tive depois outras vezes melhores, outras iguais outras piores. Tive namorados mais entusiasmados, mais pacientes, outros mais apressados, mais egoístas. Tive os que estiveram quase a chegar lá, os que foram uma desilusão. Uns com quem não me importava de repetir, outros com quem nem sequer falava mais. Convenci-me de que era assim mesmo e de que não havia mais para esperar. Achei que o que tinha lido nos livros, o que tinha visto nos filmes, o que as minhas colegas me tinham contado, era tudo ficção e invencionice. E no fim de ver as coisas por esse lado, tudo se começou a encaixar melhor. O problema não era meu, não era deles, nem sequer havia problema algum. Tratava-se apenas de uma coisa que era empolgada demais, falada demais e que decididamente não merecia os créditos que lhe atribuíam. Publicidade enganosa, como se diz hoje em dia.
Naquela altura, na altura da minha primeira vez, fiquei triste e desiludida. Fiquei arrependida de não ter feito como sempre tinha feito até então, beijinhos, abraços, mas mais nada para lá disso. Senti-me tonta, parva e fútil. Deixei-me influenciar, deixei-me levar pela curiosidade, pelo querer saber como era, pelo ter sobre o que falar depois. Nas outras vezes a seguir, já estava feito, para quê mais cuidado e mais negativas? Mas em todas as alturas que vieram depois dessas, nunca perdi a esperança bem escondida de que pudesse ser diferente. Nunca deixei de sonhar com algo mais especial, mais bonito do que simplesmente chegar, fazer e andar.
Às vezes dou por mim a pensar como era bom se afinal o que li nos livros, o que vi nos filmes, o que sempre sonhei ser, fosse mesmo assim! Como era bom estar com alguém da maneira diferente que eu ainda acho que se pode estar! E penso também se essa não voltaria a ser a minha primeira vez? Sem dor, sem medo, sem decepções. Mas dessa vez, se ela chegar a acontecer, não vou fazer como fiz da outra vez. Não vai ser com qualquer um namorado da vida a quem eu deite a mão num canto escuso do meu caminho, e use por uns momentos antes de o soltar no mundo de novo. Desta vez tem que ser com alguém muito especial. Alguém que eu ame primeiro com o coração, antes de começar a amar com o corpo. Alguém a quem eu me entregue como se fosse de novo uma virgem, e estivesse a ser de novo tocada pela primeira vez. Mas com todas as vantagens da experiência e da idade, e sem amigas patetas para quem contar depois.
Se acontecesse, tinha que ser com alguém com quem eu quisesse repetir e repetir depois, não num dia, não num ano, mas sempre e até ao fim. Afinal não é por isso que se chama fazer amor?

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