sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 24 de julho de 2011

Nunca tinha dito antes

Amo-te. Amo-te muito.
Tive mais namorados do que aqueles de que me consigo lembrar. Tive mais paixonetas, namoricos, flirts passageiros, “curtes” como dizíamos dantes, agora não sei como se diz, do que muito possivelmente deveria ter tido, se tivesse sido bafejada com um pouco menos de sonhos e fantasias e um pouco mais de juízo na cabeça. Mas nunca disse a ninguém “amo-te”, nem nunca dei a entender a ninguém que o amava. Sempre fui clara e transparente nos meus sentimentos. Nunca iludi ninguém, nunca menti, nunca falseei, nem nunca manipulei uma pessoa sequer, para fazer com que caísse nos meus braços, por muito interessada que estivesse na pessoa em questão. Quem ficou comigo, ficou por que queria, sabendo o que eu tinha para dar, e contentando-se com isso.
Nunca disse “amo-te”, mas disse muitas outras palavras bonitas! Muitas outras expressões diferentes que queriam mais ou menos dizer sempre a mesma coisa, mas que eram a verdade do que sentia na altura, e eram tudo o que eu tinha para dizer: ” Gosto muito de ti, adoro-te muito, estou apaixonada por ti, quero-te muito, fazes-me sentir muito feliz, etc, etc” No entanto nunca disse a homem nenhum que o amava.
Porquê? Porque provavelmente nunca senti que isso fosse verdade. Sou às vezes estovada, alegre, brincalhona, se calhar inconsequente, se calhar irreflectida, espontânea demais, divertida sem pensar muito, mas nunca afirmei ter um sentimento que não tivesse na verdade. Penso que os sentimentos são valiosos demais para serem usados como garantia, instrumento de troca ou de persuasão. Jamais diria a alguém que o amava, apenas para o prender, para o convencer, para o contentar ou sequer para o envaidecer. Penso que é muito mau e muito triste brincar com os sentimentos das outras pessoas, levá-las a acreditar em sonhos que não existem, levá-las a apaixonarem-se por pessoas que estão a ser inventadas no momento em que a conversa decorre, e conforme forem surgindo as necessidades ora de ser uma pessoa alegre, ora de ser uma pessoa sentimental, ora de ser uma pessoa sensível e compreensiva. Acho de uma crueldade imensa e de uma desumanidade sem tamanho, escolher pessoas entre as mais carentes, as mais indefesas, as que mais precisam de atenção, de afecto e de carinho, e depois investir o tempo e a atenção em minar as suas defesas enfraquecidas, levá-las a acreditarem, a terem esperança, a confiarem, invadir-lhes o coração, invadir-lhes o corpo e depois, estrategicamente ir recuando aos poucos, devagarinho, devagarinho, mas sempre para mais longe, para mais distante. Há criaturas que fazem disso a sua forma de vida, que encaram essa forma maldosa como a única forma possível de se relacionarem com os outros. Sem mesmo quererem saber do estado miserável e lastimoso em que fica a outra pessoa, à medida que vai sendo obrigada a despertar do sonho maravilhoso em que vivia. Considero essa como uma acção abjecta, não compreendo como seres que parecem humanos, como os outros, podem sentir qualquer espécie de prazer ao brincar assim com os sentimentos dos seus semelhantes. Para mim, não são pessoas normais, na verdadeira acepção da palavra, são doentes que sofrem de alguma patologia estranha, e deve com certeza haver tratamento psiquiátrico para eles, tem que haver, é importante que haja.
Já me disseram “amo-te” várias vezes. Houve até quem dissesse que me amava no primeiro dia, sem ainda me conhecer, sem mal ter falado comigo, sem quase saber o meu nome. Amaram-me pelo meu sorriso, pela minha forma engraçada de ser, pelas minhas conversas espevitadas, pelo meu aspecto gostoso, porque estar comigo era agradável, porque beijar-me era bom, porque gostavam de ouvir os amigos darem-lhes os parabéns, porque de certa maneira engraçada e infantil que os homens têm de ver as coisas, se tiverem uma mulher que todos achem bonita, é porque devem ser muito homens para a contentar. Quando é preciso bem mais do que isso que eles pensam, para contentar uma mulher. Para fazer com que uma mulher se apaixone, e se mantenha apaixonada, é preciso muito mais empenho mental do que físico. Mas os homens são crianças que nunca crescem, vão continuar a achar para sempre que o que prende uma mulher, é a forma como decorre o desempenho do homem na cama. São engraçados!... Pelo menos para mim, as coisas não são tão simples assim, nem de longe, nem de perto. Mas isso também sou eu, é provável que outras mulheres não sejam tão complicadas como eu sou. Talvez com elas as técnicas ancestrais e primitivas de sedução funcionem às mil maravilhas. Se não, e porque o ser humano tem uma grande capacidade de se adaptar e reinventar, os homens já teriam mudado as suas tácticas de lidar com as mulheres. Se ainda pensam assim, é porque continua a resultar bem. Mas como eu ia dizendo, todos os que disseram que me amavam, amaram-me porque era fácil amar, e bom dizer que amavam. Amaram-me por todas as coisas que conseguiram perceber em mim, ou que imaginaram saber sobre mim, mas não me amaram como eu acho que se ama, quando se ama mesmo alguém. Por isso acho que nenhum deles me amou de verdade, nem mesmo os que estiveram mais perto de...
Para mim, amar alguém é muito mais do que achar a pessoa bonita, simpática, inteligente. Não é apenas ficar horas esquecida a ouvir a outra pessoa falar sobre assuntos interessantes, lugares bonitos, sobre um mundo todo de coisas preciosas para descobrir. Não é apenas ter a noção de que encontrámos alguém inteligente, sensível, amoroso e bom companheiro. Isso é amizade, admiração, consideração, talvez respeito. É bom de sentir, é bom encontrar uma pessoa a quem se respeite, a quem se admire, e por quem se tenha consideração. É muito agradável saber que podemos contar com alguém assim para nos ouvir para uma boa conversa, um agradável passeio, mas não é amor. Nunca diria “amo-te” a uma pessoa que fosse só um amigo para mim. Talvez seja outro género de amor, concordo. Um amor mais puro, mais inocente. Mas amizade é amizade, e para mim, amor é uma coisa muito diferente.
Amar alguém é muito mais do que encontrar uma daquelas pessoas com quem se tem uma relação escaldante, sem mesmo perceber porquê. Uma daquelas pessoas que nos incendeiam só com um toque, que nos fazem estremecer só com um beijo, e com quem nem temos no fundo nada em comum, nenhum ponto de união, nenhum interesse maior e mais profundo. De acordo, é muito bom quando uma coisa dessas acontece, um encontro entre o sol e a lua, um eclipse total, um tremor de terra, sei como é, é óptimo, sabe muito bem por uns tempos, mas não é o suficiente para amar alguém. Pelo menos para mim não é. Sou mais complicada, mais difícil de contentar, “e por isso ainda vais acabar sozinha” como sempre me disseram.  Amor para mim, tem que ser mais do que só prazer. Prazer é relativamente fácil de encontrar, perde o interesse com o tempo substitui-se, coloca-se outra novidade no seu lugar, amor não. “Amo-te” são palavras que têm que ser usadas com alguém por quem sinta muito mais do que apenas desejo.
O amor tem que ir para além da amizade, da paixão, do prazer. Tive namorados que me fizeram sentir nas nuvens, pelos quais estive sem dúvida, muito e muito apaixonada. Namorados a quem adorei, alguns de quem gostei mais, e outros de quem gostei menos, outros de quem gostei de passagem, assim-assim, alguns que satisfaziam o meu orgulho, outros que me divertiam, que me levavam a passear por sítios bonitos, que tinham motos, carros, outros que me ofereciam rosas e poemas, enfim… gostei de cada um deles de forma diferente, e por motivos diferentes. Mas não amei nenhum, nem nunca lhes disse que os amava.
“Amas-me?” Cansei-me de ouvir essa pergunta. “Gosto de ti, está bom por agora.” Amor tem que ser mais do que isso. Quando amar alguém quero sentir bater o coração mais forte só ao pensar nessa pessoa. De cada vez que ele me falar, ou procurar, quero ficar feliz e contente. Quero que a imagem dele povoe os meus sonhos, me faça acordar à noite na cama com saudades dele, da sua voz, do seu nome, do seu cheiro. Quero gravar na mente as conversas, o que dissemos, sobre o que falámos, o eco das palavras bonitas que ele me disse. Guardar no corpo os beijos, as carícias, os afagos, e lembrar-me deles mesmo quando não é conveniente lembrar, fazer deles a minha companhia constante para quando estamos separados. Quero continuar a gostar dele, mesmo quando ele não corresponda exactamente ao que acha que deveria corresponder, quero não ter que me preocupar com as horas, com os atrasos, com as faltas de contacto. Quero confiar que ele me ama, e quero sentir-me segura desse amor. De tal forma que possa descansar o coração e viver em paz. Quero compreender as suas fraquezas, perdoar as suas imperfeições, esquecer as coisas menos perfeitas que possa dizer ou fazer. Quero secar as suas lágrimas, se ele chorar, quero oferecer-lhe o meu ombro se ele precisar. E quero que ele saiba que pode estar à vontade comigo, que não o vou achar de forma nenhuma menos homem por ele ser afinal uma pessoa que fica triste, que chora, que se emociona. Quero ter a noção exacta de que nem ele nem eu somos perfeitos, nem ideais nem únicos no reino da criação, mas continuar a amá-lo mesmo assim, e saber com certeza, que ele me ama também da mesma forma.
Não quero um amor que me faça sentir insegura, sempre com receio de que vá acabar, de que vá passar, de que se vá transformar noutra coisa qualquer. Não quero um amor que se vá desinteressando aos poucos, que vá substituindo palavras de amor por palavras de amizade. Que vá esfriando antes mesmo de ter começado a ferver. Nem quero um amor que me faça chorar e sentir triste.
Quando amar alguém, quero que esse amor embeleze os meus dias, as minhas horas, ponha um sorriso feliz no meu rosto, que me faça sonhar. Quero que naquelas alturas em que a tristeza me ataca sem aviso, sem convite, só a lembrança de que ele existe e de que ele está lá, mesmo que longe fisicamente, mas lá a pensar em mim, a gostar de mim, seja suficiente para impedir o avanço das trevas e da escuridão. Quero que seja a minha companhia mais querida e mais preciosa, que me ajude a esquecer um pouco as tristezas do passado, que suavize o meu presente e que eu saiba que, com certeza, e dentro daquilo que depende de nós controlar, vai estar lá no meu futuro. Quero confiar o coração, a alma, o corpo, tudo na mesma altura em que disser “amo-te muito”.
Não precisa de ser um amor simples, não precisa de vir junto com promessas impossíveis de atingir dadas as circunstâncias, nem tem forçosamente que ser um amor comum e normal. Não precisa de ser um amor que exija permanência constante, dedicação total, fidelidade para além da fidelidade do coração, que é afinal a única que podemos garantir, devido a tantas e tantas coisas diferentes. Também não tem que ser um amor de contos de fadas, cheio de príncipes e princesas, dragões e cavalos brancos, embora eu gostasse muito que fosse.
Mas tem que ser um amor bonito, que encha o coração de alegria, que ponha luz aonde havia trevas, que aqueça as mãos quando estão frias, que cuide e que proteja. Tem que ser um amor que resista à distância, que faça do longe perto, que seja honesto, dentro da honestidade possível no momento. Um amor bonito, um amor que fique sempre dentro do coração, não importa aonde estejamos, ou com quem tenhamos que estar na altura.
No dia em que encontrar um amor assim bonito, no dia em que encontrar um homem que seja capaz de me fazer sentir esse sentimento tão lindo, tão procurado, tão fantasiado, então vou poder dizer, ou escrever, ou telefonar, ou qualquer que seja a forma que poderei empregar para o fazer saber : Amo-te muito.
E quando o disser, espero que seja para sempre.

Sem comentários:

Enviar um comentário