sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 5 de julho de 2011

"Meu herói, meu bandido", como na música brasileira...

Quando eu era pequenita, no tempo distante e gostoso em que o meu pai era o meu mais querido herói, e o único amor da minha vida, gostava muito de sair e passear com ele.
Mal ele pegava no chapéu para sair de casa, lá estava eu, numa alegria só, a saltitar em redor das suas pernas, quase pendurada nas calças bem vincadas dos fatos que ele gostava sempre de usar. O meu pai era capaz de usar fato completo, colete e gravata, mesmo em baixo do sol escaldante de Moçambique! Destilava calor por todos os lados, mas não desistia da sua imagem composta e cuidada:”- Posso ir consigo? Vá lá, posso? Quero ir!” Ele sorria, hesitava só para me fazer pedir mais, mas levava-me sempre com ele. A minha mãe bem reclamava, que as filhas eram duas, que só uma é que ia sempre passear “- Vais acabar por estragar a miúda! Não lhe podes fazer todas as vontades!”. Mas o meu pai nunca me conseguiu negar nada, pelo menos enquanto eu era pequenina, e enquanto os meus pedidos eram todos inocentes e simples de atender. Qualquer coisa que eu lhe pedisse, disparatada que fosse, se o fizesse com uma voz mais doce, com um sorriso mais carinhoso, já sabia que ia ser minha. E é bom de ver que o meu pai não era homem que gostasse muito de beijos, nem de abraços. Era muito reservado nos seus sentimentos e muito avesso a demonstrações públicas de afecto. Por isso eu não o beijava, nem abraçava, bastava um toque na mão, uma festinha na cara, um ajeitar-lhe a gravata, endireitar-lhe os botões de punho. Acho que no fundo ele se sentia muito sozinho, e eu era talvez a única pessoa capaz de lhe dar amor e carinho da forma "british" e distante que ele apreciava.
E depois eu adorava sair com ele! Para começar, fazíamos sempre coisas muito engraçadas, simples, mas que eu amava! Passeávamos que nem desalmados! Acho que aprendi a gostar de andar a pé com o meu pai. Ele foi, e até hoje ainda não lhe encontrei substituto nesse campo, o melhor caminhante, o mais falador e o mais interessante, que já tive oportunidade de acompanhar. Atravessávamos ruas e mais ruas, parques, jardins, sempre em passo curto de passeio, sempre com o mar a espreitar ao fundo, eu sempre com a minha mão pequenita bem enfiada na mão grande e larga dele. O meu pai conhecia todos os caminhos, sabia todos os lugares, nunca se perdia, nunca hesitava. Íamos andando e íamos conversando. Ele com uma paciência enorme com as minhas perguntas, com as minhas curiosidades:”- Como é que se diz prato em inglês? E em francês? Como é que conseguiram fazer aquilo ali? Quando é que construíram esta casa? Sabe quem mora ali? Porque é que está aquela árvore tão longe das outras?” Ele ouvia e respondia sempre, com a sua voz calma, atenciosa, sempre a saber as respostas a todas as perguntas do mundo inteiro…
Quando queríamos descansar, parávamos nalgum café, pastelaria, esplanada. Sentávamo-nos, eu bebia a minha Coca-Cola do costume, a Coca-Cola foi uma das minhas vitórias e primeiras conquistas, ninguém em casa me queria deixar beber, diziam que fazia mal à saúde, mais uma data de disparates antigos, mas tanto moí o juízo ao meu pai, tanto pedi, tanto expliquei que na escola todos bebiam e ninguém ficava doente, que ele autorizou:”- Deixa lá a pequena! Também não há-de fazer mal. E ela não abusa que eu não deixo” A minha mãe espumou de fúria, mas teve que se aguentar, afinal o meu pai era quem dava as ordens lá por casa… Passei a beber Coca-Colas sempre que me apetecia! Até hoje não parei de as beber. Sempre, em todas as ocasiões, nas festas, nos passeios, com colegas, com amigos, com namorados, a minha bebida de eleição é sempre a boa e velhinha Coca-Cola. O meu pai bebia uma cerveja LM, as preferidas dele. Comíamos salgados, aperitivos, bolachinhas, e falávamos… O que a gente falava! Sobre tudo e sobre todas as coisas. Desde pequena que eu falo sobre tudo. Mesmo que não percebesse bem o assunto, mesmo que não fosse apropriado para a minha idade, se me interessava, pronto, tinham que me aguentar. “-Estás a ouvir o que a tua filha está a dizer? Achas que são conversas próprias para uma menina?” E lá vinha o meu pai apaziguar “- A pequena é esperta! Deixa-a falar. Vai dar trabalho quando crescer… tem espírito, tem personalidade!” Ele falava comigo com cuidado e com carinho, não me tratava como a uma criancinha pequena e desinteressante, escutava-me com atenção, queria saber o porquê das minhas opiniões, argumentava, rebatia, concordava, discordava… Eu adorava aqueles momentos em que tinha o meu pai só para mim, o homem que mais coisas sabia no mundo inteirinho, o mais inteligente, o mais bonito, o mais bem vestido, o que tinha na Fazenda uma secretária imponente cheiinha de papeis importantes todos à espera dele, aquele a quem quase todas as pessoas cumprimentavam na rua, ali, parado, com todo o tempo do mundo para me ouvir, sem fazer mais nada, sem ter que acudir a mais ninguém, sem ralhar, sem ler o Noticias, ali, sentado a falar comigo e a mordiscar salgadinhos do pires!
Bons tempos! Que saudades daqueles nossos passeios e daquelas nossas conversas! Que saudades do tempo em que me sentia tão feliz, tão contente, tão despreocupada! Em que sentia que nada me podia atingir nem magoar, porque tinha ali o meu pai forte e amigo para me defender. Em que tudo parecia sólido e para sempre, e o inferno lá de casa ficava para trás, bem fechado e trancado, quando estávamos os dois simplesmente a passear, por entre as ruas enfeitadas de acácias floridas e cheiro a mar!
Mas a despreocupação passava depressa quando chegávamos a casa e a minha mãe nos recebia com os queixumes do costume:”- Demoraram, por onde andaram? É tarde para o almoço, tens mais família, …” E pronto, lá o cavalheiro gentil e delicado, o meu príncipe, se transformava de novo no ditador contrariado que silenciava todas as discussões com um potente berro, e lá ia eu toda triste para o quarto, até os ânimos acalmarem.
Já se passaram anos, e mais anos em cima desses anos. Saí de Moçambique com dez anos de idade, por isso passaram-se mais de trinta anos desde que fazíamos aqueles nossos passeios pedestres por toda a cidade. Nunca me esqueci de como eram bons! Nunca me esqueci de que talvez aqueles tenham sido os únicos momentos em que consegui ver o meu pai, como ele realmente era. Como ele teria sido sempre, se alguma coisa não tivesse funcionado mal na sua vida, nalgum ponto que eu simplesmente não consegui nunca descobrir qual foi.
Depois, nos primeiros tempos de Portugal, tentámos ainda fazer a reedição dos nossos passeios. Mas já tudo era diferente… As ruas, intermináveis e desalinhadas, os caminhos desconhecidos e confusos, cheios de uma multidão imensa de gente que corria sem parar de um lado para o outro. Os cafés, as pastelarias, as esplanadas, sempre cheias de pessoas apressadas, que comiam e bebiam a correr, engasgando-se, levantando-se ainda a comer, comendo em pé… Coitadinho do meu pai, tão deslocado, tão perdido de caminhos e de destinos no meio da confusão da grande capital, com o seu chapéu, a sua gravata e o seu eterno fato bem engomado! Sempre com os olhos postos no fundo de cada rua, sempre à espera de ver surgir o azul conhecido do mar, num convite cheio de saudades na alma!
Também à medida que eu fui crescendo, fui deixando de achar tanta graça em andar com ele pelas ruas fora. Fui começando a procurar mais companhias da minha idade, amigos, colegas de escola, depois namorados… As minhas preferências em relação a conversas também foi mudando, deixei de querer saber o porquê de todas as coisas do mundo, deixei de me interessar na razão que justificava a existência de cada casa, de cada árvore, de cada caminho. Comecei a gostar de ser olhada nas ruas, admirada, comecei a gostar que os homens me dissessem coisas engraçadas e picantes, nunca consegui perceber as mulheres que não gostam de ouvir piropos, eu ainda hoje gosto muito e sabe-me muito bem ouvir, claro desde que não sejam ordinarices nojentas. Começaram a vir rapazes atrás de mim, pelas ruas, a seguirem-me de perto ou de longe, a meterem conversa ou só a olharem. E a presença da figura paterna, pronto, digamos que atrapalhava um pouco o natural desenvolvimento das minhas aventuras juvenis.
O meu pai também foi ficando mais amargo e mais azedo, com a passagem dos anos. Sempre a resmungar contra qualquer coisa, sempre contrariado com alguma coisa. Pior depois que a minha mãe morreu, mais confuso, mais sozinho sem a companheira de zaragatas e berros de anos e anos.
Quando ele morreu, há mais de dez anos, os nossos passeios já se resumiam a uma ou outra ida ocasional a um restaurante, a um jardim, a um café. Já não andávamos a pé, já não conversávamos sobre tudo e sobre nada. Ele já não era o homem que mais coisas sabia no mundo e o que me podia proteger das invasões dos vilãos e dos piratas. Já me tinha desiludido e desapontado muito, de várias maneiras, em muitas situações. Por causa dele, das suas tiranias, das suas intransigências, dos seus mandos e desmandos, já eu tinha tomado decisões drásticas que mudaram a minha vida para sempre, e que talvez tenham contribuído e muito, para o sofrimento quase diário que tem sido a minha existência nestes últimos anos. O meu pai era já um rei deposto, tinha perdido o ceptro e a coroa, o manto e o trono, mas continuava a ser, dentro do meu coração, num cantinho bem escondido, desconhecido de todos, até dele próprio, o meu paizinho querido.
Não me lembro de ter sentido por mais nenhum homem o mesmo género de amor que sentia pelo meu pai. Nunca mais encontrei ninguém que me convencesse que sabia todas as respostas a todas as perguntas, que me ouvisse com tanta atenção, que me desse a mão e me guiasse pelas ruas da vida com tanto carinho. Nenhum outro homem voltou a ocupar o lugar que era dele, na simpatia, no cavalheirismo, na maneira educada e gentil como às vezes, o mal é que era só ás vezes, era capaz de lidar com todas as situações, com todos os imprevistos.
Sempre preferi rapazes mais velhos do que eu, homens mais velhos do que eu. Nunca, ou quase nunca, namorei alguém da minha idade. A minha irmã costuma dizer, e deve-se sentir de alguma forma justamente vingada com isso, que este foi o preço que paguei por ser a preferida do meu pai, por ser sempre a mais protegida das filhas, a mais mimada, a mais querida, a que ele escolhia sempre para passear, aquela para quem ele trazia do trabalho chocolates Tic-Tac e bolinhas doces de várias cores. Ela acha que a minha busca entre homens mais velhos, tem sido uma forma de tentar encontrar de novo o meu pai antigo, aquele que se perdeu lá para trás e que ficou prisioneiro do tempo, entre ruas bonitas com mar ao fundo e pires cheios de salgadinhos. Talvez ela tenha razão, costuma ter sempre, pelo menos no que diz respeito às análises cruéis que faz da minha vida. Talvez eu tenha tentado encontrar em cada um dos namorados, aquela imagem querida, importante, protectora que tinha sido o pai da minha infância. Talvez seja por isso que ainda hoje bebo Coca-Cola e ainda hoje ando à procura…
Quando me lembro do meu pai, as imagens que me vêm à cabeça são as de nós dois, a caminharmos de mão dada pela Baixa de Moçambique, com paragens no Scala, no Continental, com descansos na frescura deliciosa do Vasco da Gama, a passearmos pelos eucaliptos perto da Fazenda, ou a espreitar o mar visto da Marginal. Não me lembro, ou não me quero lembrar das zangas, dos berros, dos gritos, das loucuras despropositadas, das desilusões, das vezes em que precisei dele, e ele me virou as costas porque “fizeste a tua cama, e agora vais-te deitar nela”. Quando me lembro dele, ainda é o meu herói, o mais bonito, o mais inteligente, o que ia comprar um cinturão com duas pistolas para manter os "malandros" à distância.
Penso na quantidade infinita de passos pequeninos que dei pela mão do meu pai, penso em como ele devia de ter que atrasar o passo para não me fazer correr, para não me cansar, e fico com pena, com muita e tanta pena, de que eu não tenha sido capaz de acertar os meus passos pelos passos dele, quando foi ele que começou a andar mais devagar, e eu comecei a ter tanta urgência de correr!

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