sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Quando o amor não dá certo

Como é que sabemos que o amor chegou ao fim?
Como é que damos conta que aquele sentimento bonito que existia, desapareceu?
Como explicamos aos outros que acabou, como justificamos, como damos a perceber?
Não é fácil, não é bonito. Custa muito admitir. Custa muito superar.
Quando existem razões daquelas fortes, daquelas que não se podem questionar, nem pôr em dúvida, tudo fica mais fácil. “ Batia-lhe, era mau para as crianças, não trabalhava, era mulherengo, etc, etc”. São razões que ninguém contesta. Justificam por si só qualquer fim de amor, qualquer fim de casamento. Absolvem de culpa quem desiste. Inocentam e limpam. Desistiu por tinha que desistir. Não aguentou mais porque não podia aguentar. E teve razões, boas razões. É muito mais fácil explicar assim o fim de um casamento. Não nego que às vezes sinto a tentação de explicar tudo servindo-me dessa causa mais simples, mais comum, mais bem aceite por todos. Facilitava-me muito a vida, tornava tudo mais simples.
Mas, e quando não existem as tais razões óbvias que tudo justificam, que tudo absolvem? Nessas alturas, como se explica, como se dá a conhecer, como se admite que o amor acabou? Como se pode esperar que alguém compreenda, mesmo as pessoas que nos são mais queridas?
Nunca homem nenhum me levantou a mão. Nem o meu pai, muito menos namorados ou marido. Se algum o tivesse feito, fazia-o apenas uma vez. Acho inadmissível, uma cobardia enorme. Homens crescidos que batem em mulheres, em crianças, em pessoas mais pequenas e mais fracas, são criaturas abjectas. Aliás, qualquer pessoa, homem ou mulher, que seja mais forte fisicamente, ou que se coloque numa posição de força através do emprego de qualquer artifício, e que use a sua força para maltratar outro ser, é, na minha maneira de ver as coisas, uma pessoa repugnante. Nunca fui vítima desse género de violência, nem está no meu feitio ser. Preferia sair de casa com a roupa do corpo e dormir em baixo da primeira ponte que encontrasse, do que sujeitar-me a uma barbaridade dessas!
Mas existem outros géneros de violência, que não deixam marcas no corpo, que não saltam aos olhos, que se passam entre quatro paredes e que não deixam sinais nem testemunhos. Violências dessas também fazem com que o amor acabe. Mas nem sempre são tão bem aceites, nem tão bem compreendidas pelo resto da humanidade. Na maioria das vezes as pessoas pensam que “não haviam motivos, era questão de ter um pouco mais de paciência, há casos bem piores e as mulheres não se separam, ele não lhe batia, era trabalhador, trazia dinheiro para casa, beber é próprio dos homens…” A minha própria irmã me disse que se não fosse o meu feitio péssimo e a minha mania de fantasiar e complicar as coisas, tudo se podia ainda ter composto e arranjado.
Perdi a conta às vezes em que tinha a mesa bonita, posta especialmente por alguma razão, Natal, passagem de ano, dia de anos, celebrações cá de casa. Perdi a conta às vezes em que a mesa foi levantada sem sequer ter sido encetada. Em que o bolo de anos foi recolhido ao frigorífico, o jantar diferente ficou a esfriar dentro do forno, as prendas ficaram por abrir, as velas ficaram por acender. Os dias em que devíamos ter ir ver as luzinhas de Natal acesas na rua, os dias em que devíamos ir fazer o piquenique à praia, o jantar no quintal, as castanhas assadas que nunca se chegaram a assar… porque ele não aparecia, não vinha, ou pior ainda, vinha tão bêbado que era bem melhor que nem tivesse aparecido Tantos e tantos desapontamentos! Pequenos, talvez. Sem importância de maior, talvez. Insignificantes, talvez. Nunca me bateu, nunca partiu nada em casa, nunca foi mau para as crianças. Mas nada disso faz com que tenha doído menos. E foram muitos anos de dores pequeninas a sobreporem-se umas às outras! Muitos anos de desapontamentos, de perder o interesse pelas coisas bonitas da vida, de esquecer como é bom sonhar com momentos divertidos, como é bom festejar, cantar, rir, tudo coisas simples, fáceis, pequeninas. Talvez sem grande valor, talvez sem grande importância, mas coisas de que eu preciso para viver, como as flores precisam de sol para se manterem.
Eu gosto de inventar festas, celebrações, coisas engraçadas, para fazer dos dias normais e sem graça, dias diferentes. Não me importo que não haja dinheiro para ir jantar fora, levo a mesa para o quintal à noite, e pronto, jantamos fora. Não me importo que não possamos ir á praia de dia, vamos à noite, levamos um farnel, e pronto, estamos na praia. Não me importo que não possamos ir às montanhas fazer um piquenique a sério, estendo uma toalha no chão da sala, faço umas sandes, um bolo, frito uns pastéis, e pronto, temos um piquenique. Não me importo que não possamos ir passear à noite pelas ruas, quem precisa de ruas quando tem um mundo enorme de estrelas no céu para olhar, quem precisa de sair se pode ficar sentado simplesmente a conversar, a olhar as estrelas e a lua, a sonhar? Não desanimo nem desarmo facilmente. Tento sempre dar a volta por cima, tento sempre encontrar uma alternativa. Não perco muito tempo a chorar, nem a lamentar-me. Mas fica sempre muito difícil ter que fazer tudo sozinha, perde muita da graça que era suposto ter quando não posso contar com a ajuda, o interesse e o apoio de quem devia estar para me ajudar. Não é grave, talvez. Não é sério, talvez. Não tem importância, talvez. Mas dói muito, dói de cada vez como se fosse a primeira, e deixa uma tristeza muito grande no coração. E faz com que as coisas boas da vida, que para mim sempre foram as mais simples e as mais inocentes, percam o seu brilho e vão deixando de serem estrelinhas mágicas a piscarem e passem a ser só fósforos de cozinha sem magia nenhuma e quase apagados.
Foram tantas as vezes em que fiquei à noite na cama, atenta ao barulho da chave na fechadura, a escutar o ruído dos bancos na cozinha a serem empurrados, os passos trôpegos no corredor. Tantas as vezes em que imaginava a distância entre a cozinha e a sala “já tinha tido tempo de aqui chegar, talvez fique no sofá, talvez não venha para cá”. E depois ele vinha, a porta abria, e todo o quarto ficava cheio do bafo horroroso a vinho, a cerveja, a não sei que mais bebida horrorosa, dessas todas que eu detesto e que repugnam só de pensar nelas. Sempre tive problemas com gente bêbada. Provocam-me um asco instintivo, uma repulsa sem explicação. É um vício como outro qualquer, nunca tive problemas com drogados, nem me fez qualquer impressão lidar com pessoas debaixo do efeito de drogas, quase todos os meus amigos de juventude tinham alguma coisa a ver com esses produtos tentadores e proibidos, mas álcool, não consigo nem cheirar. Um querida amiga minha, muito ligada ao espiritismo, diz que noutra encarnação devo ter tido algum desgosto grande relacionado com bebidas, talvez… Prefiro antes pensar que nesta encarnação, que é a única de que me lembro, e é a única que me interessa, o álcool me causa uma aversão tão forte por motivos que não sei explicar, mas que existem e estão lá. E foram mais de vinte anos a encarar os mesmos cheiros horrorosos, quase dia após dia. Ele entrava eu deixava-me ficar bem quietinha no canto da cama, bem encolhida “talvez adormeça, talvez caia na cama e não dê por mim”. Mas dava. E cheirava tão mal. E dava vontade de vomitar, de fugir, de gritar, de desaparecer. Mas não podia. Chorar, gritar, ralhar, fazer barulho não serviria de nada. O marido pode, o marido tem direitos protegidos por lei. O marido pode agarrar, pode apertar, pode mexer, pode forçar. Forçar não, o marido nunca força, apenas exerce o seu direito. E eu aguentava, quieta, parada, as lágrimas a descerem silenciosamente pelo rosto, no meio do escuro “alguém que me ajude, alguém que ajude, alguém que me tire deste inferno”. Mas claro que ninguém apareceu nunca, ninguém me ajudou nunca. Nem havia o que ajudar. Um casal normal, num quarto normal, um homem que bebe uns copinhos a mais, como tantos outros homens, mas que volta para a sua casa, que se deita na sua cama e procura amor nos braços da sua mulher. Então, qual é o problema? 
Não gosta? Não casasse. Quem disse que o casamento é o fim feliz das histórias de amor, e que depois todos são felizes para sempre? Eu disse. Eu acreditava que fosse assim. Eu lutei e esforcei-me muito para que pudesse ter sido assim. Mesmo quando tudo já estava perdido, continuei a insistir, continuei a tentar. Eu sempre acreditei em contos de fadas. Mas eu sou tonta, parvinha e acriançada. Demoro séculos a perceber o que as outras pessoas percebem em instantes, demoro séculos a desmontar um sonho, uma ilusão. Só desisto de vez, quando não há mais nada para salvar.
Mas sou divertida, alegre por natureza, esqueço, desculpo, tento sempre que as coisas corram pelo melhor possível. Não guardo rancores, nem mágoas. Tudo isso faz um mal imenso à pele e ao coração. Perdoei milhares de vezes as bebedeiras, as noites em que ele não aparecia e dormia não se sabe onde, os telefonemas que ele não atendia quando eu precisava dele para ajudar a resolver alguma coisa, as vezes todas em que tive que ser pai, mãe, tudo ao mesmo tempo e tudo com dupla competência. Tentei não dar demasiada importância a ter que ser sempre eu a tratar de todos os assuntos, até mesmo os chamados “assuntos de homens”, como levar o carro à oficina, à inspecção, pagar impostos, preencher papéis, responder a perguntas pelos dois, em nome dos dois, como se ele se importasse com alguma das respostas que eram precisas dar, marcar consultas, porque ele nunca conseguia fazer nada, nunca sabia fazer nada, nem se queria esforçar para fazer nada. Tentei esquecer sempre as vezes em que combinávamos sair com outras pessoas, casais amigos do meu trabalho, a minha irmã e o meu cunhado, e ele aparecia bêbado, atrasado, desalinhado, dizendo uma correnteza de disparates sem sentido nem nexo. Fingi que não percebia os olhares de pena, de acusação, de “se ela se esforçasse, o homem parava de beber”. Desvalorizei os desapontamentos, as desilusões. Fiz de tudo para ficar até ao fim, para salvar alguma coisa do desastre que foi o meu casamento, para que pelo menos pudéssemos ficar amigos.
Tudo isto são coisas que fazem com que o amor acabe. Não acaba num dia, nem num ano, nem desaparece porque queremos, ou deixamos. Simplesmente vai desaparecendo devagarinho, de mansinho. A alegria de estar com aquela pessoa, vai-se transformando em indiferença, a emoção vai ficando mais pequenina, vai ganhando outros nomes menos apelativos. A paixão morre. Comigo a paixão morre sempre primeiro do que todas as outras coisas. Talvez possam sobrar restos de amizade, lembranças bonitas de quando as coisas eram melhores, bocadinhos de conversas, bocadinhos de vivências, fantasmas dos planos, das ideias, dos objectivos. Afinal foram muitos anos! Talvez mesmo algum sentimento pequenino de simpatia, de compaixão, de pena por aquela pessoa que foi o centro do meu mundo, a pessoa em quem eu confiei cegamente, por quem abandonei tudo, junto de quem quis verdadeiramente passar o resto da minha vida. Mas paixão, desejo, vontade de estar perto, de estar com… nunca mais, desde as primeiras desilusões, desde as primeiras lágrimas.
Não sei se realmente é muito importante o que as outras pessoas possam pensar. Os estranhos, os de fora, os da rua, estou-me nas tintas para o que pensam. Não lhes dou mais importância que dou ao rumor dos trovões nos dias de chuva forte. O que custa mais é a opinião das pessoas que realmente são importantes na minha vida. Os amigos mais amigos, a família mais família. Todos os que podem deixar de gostar de mim da mesma forma como gostavam, na consideração de quem posso descer, todos os que me podem começar a olhar de forma diferente.
Mas se não aceitarem bem, se não entenderem, se não quiserem continuar a estar na minha vida, paciência. Não eram eles que se tinham que deitar com alguém a quem não queriam. Não eram eles que eram agarrados à noite, não eram eles que eram apalpados, invadidos, beijados à força, manietados, lambuzados, tomados e usados como objectos sem nenhuma outra serventia. Não eram eles que choravam no escuro sem fazer barulho e que no dia seguinte se levantavam punham um sorriso triste no rosto e faziam de conta que nada tinha acontecido. Porque o mais importante era continuar seguir em frente, cumprir o dever até ao fim. Não era nenhum deles, era eu. Por isso, se quiserem pensar que sou leviana, imprudente, precipitada, que pensem. Fazer o quê? Embora doa demais, posso viver sem eles. Sem mim, não quero viver nem mais um dia.
Nunca, nunca mais outro homem me terá sem eu querer. Nunca mais ninguém me vai pôr as mãos em cima sem eu desejar que ponha. Daqui para a frente vai ser sem deveres, sem obrigações, sem contratos de papel, sem calendário, sem relógio. Sem para sempre, só até enquanto for bom. “Enlouqueceste de vez”, foi o que me disseram. Talvez tenha enlouquecido, talvez tenha sido sempre louca e tenha conseguido disfarçar estes anos todos. Mas quando alguém se deitar na minha cama, é porque eu quero muito e é para ser bom como eu sei que pode ser. Quando alguém me beijar vou fechar os olhos, vou abrir a boca e responder ao beijo, vou-me deixar invadir, levar, vou saborear o beijo como é tão bom de saborear e de beijar. Quando alguém me abraçar, vou junto com o abraço até aonde for para ir, e vou esquecer as tristezas, os desapontamentos, as mágoas. Quando voltar a ser de alguém, se houver lágrimas vão ser de paixão, se me mexer na cama, se gemer alto, vai ser de prazer. Se arquear o meu corpo de encontro ao dele vai ser porque estou com vontade, e quando chegar ao céu, vai ser porque mereci e tive coragem de lutar.
E nunca mais vou dar a homem nenhum o poder de me fazer chorar, nem de me deixar triste. São coisas como essas que matam o amor. Muitas lágrimas, muitas tristezas. Outras formas de violência. Não tão bem compreendidas, não tão bem aceites…
E quando um amor acaba, é inútil tentar prolongá-lo mais. Isso também aprendi. A vida continua, e a vida é linda demais! Merece muito ser vivida!

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