sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 3 de julho de 2011

Queres ser meu amigo, ou queres ser meu amante?

Hoje, que me propus escrever sobre as diferenças, e as semelhanças, entre o amor e a amizade, confesso que estive tentada a começar da mesma forma como principiava os meus trabalhos na escola: “No diccionário, encontrei as seguintes definições para amor e amizade:…” Mas não vou fazê-lo. O diccionário, com as suas noções exactas, as suas traduções correctas, tem-me enganado demais nestes últimos anos. Tem-se mostrado por demais falível. Prefiro antes escrever sobre o que eu penso que são essas diferenças, e essas semelhanças.
Sendo assim, aqui vai: Sempre tive, e tenho, muitos amigos. Sempre tive, e hoje já tenho bem menos e de categorias diferentes das de dantes, muitos amores. Um amigo é aquele que me faz sentir bem só ao pensar nele. É aquele que me transmite confiança, paz, harmonia. É a pessoa que eu sei que vai estar sempre por perto, se bem que sempre é muito tempo, até para as amizades. Quando estou mais triste, quando tenho um problema, ou uma alegria, grande ou pequena, penso logo em contar a um amigo, em dividir felicidades ou em pedir aconchego. Se digo alguma palavra mais rude, mais impensada, mais inconsequente, mais leviana, sei que o amigo me vai desculpar, que mesmo que fique surpreendido na altura, vai perceber que não fiz por mal, porque me conhece e me aceita como sou, cheia de defeitos, complicações, contradições e inseguranças, e me vai mostrar o seu sorriso lindo outra vez e tudo vai ficar bem de novo. É assim que eu faço com os meus amigos, e é assim também que, e por isso são meus amigos, eles fazem comigo.
Com um amor, já tudo é mais complicado. Alguém que eu ame, e que me ame também, porque se não formos dois a amar, então não é bem amor, é mais sofrimento voluntário, e de sofrimento de várias ordens tenho tido a minha dose bem aviada e dispenso mais, mas como ia dizendo, alguém que me ame e a quem eu ame também vai querer de mim muito mais do que uma boa conversa, um telefonema, um email ou um encontro casual na rua. O amor do género de amor comum, entre duas pessoas que se amam, é bem mais trabalhoso e difícil de entender do que a amizade.
O amor é egoísta, pede exclusividade, fidelidade, permanência, estabilidade. Um amigo acha muito normal, e muito saudável até, que eu tenha outras prioridades para além dele, assim como ele tem, felizmente, outras para além de mim, que eu tenha outros interesses e outros compromissos, que só possa estar ou falar com ele quando tenho oportunidade. Um amante (sendo que amante é aquele a quem se ama e quem nos ama) entende que todo o meu tempo, todo o ar que respiro, todos os meus pensamentos devem ser direccionados única e exclusivamente para ele. Eu bem sei que existem outros tipos de amor, amores mais leves, mais graciosos, mais generosos na forma de dar e de receber, mais descontraídos e mais felizes. Desses, infelizmente, e tirando um ou outro caso mais deliciosamente guardado na lembrança, não conheço muitos. A vida, ou as opções que fui tomando, e os caminhos que fui escolhendo, tem-me presenteado com muitos mais dos outros casos, os dos amores sufocantes, exigentes e absolutistas.
Um amigo querido pode escutar-me até lhe doerem os ouvidos, pode aconselhar, ou não, dar opiniões, ou não, ou pode ficar só ali, perto, gostosamente disponível para o que for preciso. Pode oferecer a mão, o ombro, pode dar um beijo carinhoso na face, pode fechar-me dentro de um abraço acolhedor, e dar-me a esperança de que tudo vai ficar bem, que tudo vai melhorar. Um amante também me pode ouvir e também me pode escutar, ou pelo menos aparentar que escuta, mas de olho no relógio, pensando que o tempo que está perder podia ser melhor empregue noutras coisas bem mais gratificantes para ele. Pode até dar-me a sua opinião se lha pedir, mas de uma forma distante e desinteressada, como quem não se quer comprometer com possíveis resultados menos bons que daí possam advir. Um amante pode também dar-me a mão, mas vai querer sempre mais a seguir Pode dar-me um beijo no rosto, mas vai logo a seguir procurar-me a boca. Pode emprestar-me o ombro para chorar, mas vai logo tentar levantar-me o rosto para me beijar. É bem capaz de me abraçar, mas num instante passa do abraço acolhedor para o abraço egoísta, que pede sempre para além do que estou disposta a dar no momento. A um amante não interessa muito saber se acredito, ou se deixo de acreditar, que amanhã vai ser um dia melhor, se tenho esperanças, sonhos, ilusões. Para que há-de preocupar-se com isso de amanhãs, de esperanças, de disparates insignificantes, se hoje estou ali, bem perto, desprotegida, vulnerável, mas inteirinha para ele?
Um bom amigo percebe sempre quando não estou bem, percebe sempre quando a vida me pregou outro golpe bem desferido e me atirou de novo para o canto do ringue, desorientada, confusa e incapaz de distinguir grande coisa para além das lágrimas e das dores. Um bom amigo, como eu tenho alguns, graças aos céus e graças um pouquinho também a eu nunca ter desistido de acreditar que existem pessoas maravilhosas, entende sempre quando eu estou a falar com ele mas com a cabeça noutro lugar muito distante. Um amante não é capaz de distinguir se aquela que ali está sou mesmo eu, ou se é só a minha imagem. Nem quer saber disso, precisa muito pouco de mim e muito mais daquilo que a minha imitação lhe pode dar. Provavelmente ama mesmo muito mais a imagem do que a pessoa que eu sou. Afinal um corpo sem alma não tem problemas, não precisa de consolo, não pede carinho, não chora, não fica confuso, não pede espaço.
Qualquer um dos meus amigos mais próximos, mais queridos, respeita quando lhe digo que não me apetece sair, que não me apetece falar, que não me apetece escrever ou telefonar. Não ficam ofendidos, nem se sentem menosprezados. Sabem que isso em nada diminui o afecto que lhes tenho, percebem que gosto deles na mesma, só que por vezes preciso de ficar assim um bocadinho mais sozinha, se bem que ultimamente, ficar sozinha só consigo mesmo em imaginação. Por vezes preciso de fugir de tudo e de todos e encontrar um cantinho só para mim, de tentar pôr as ideias em ordem, tentar aplacar os demónios que rugem por entre a suavidade aparente do meu sorriso.
Um simples amante não entende, nem aceita um não, uma recusa, um adiamento. Quer porque quer e porque é assim que a vida é desde o primeiro dia em que houve um homem e uma mulher. Desempenha o seu ridículo papel de líder e sente-se muito feliz e muito realizado. Que lhe interessa saber se foi bom, se gostei, se era o que eu queria?
Por isso, sempre me senti muito confusa entre o mundo dos amigos e o mundo dos amores. Sempre tentei misturar um bocadinho de cada um dos dois mundos. Sempre tentei completar numa só pessoa o que de melhor há na amizade e no amor. Por vezes confundi-me, e confundi as pessoas. Por vezes deixei que uma bonita amizade se transformasse num amor feio. Outras vezes esfriei um amor bonito com tentativas de obter amizade. De cada vez que isso acontecia, perdia o amigo e perdia o amante. De cada vez que isso acontecia, eu ficava um bocadinho mais triste e mais sozinha. Mais desorientada e mais confusa. Perdida num mundo complicado de relações baralhadas e cruzadas. Sem norte, sem rumo, sem saber aonde tinha errado. Como é enorme o universo e como é difícil encontrar um lugar aonde me encaixe!
Vou continuando a procurar, a tentar descobrir qual a fórmula mágica que devo empregar para tentar que um dia, quem sabe, possa vir a descobrir uma pessoa com todas as qualidades maravilhosas que os amigos têm, e que possa ao mesmo tempo ser um amante com todas as qualidades maravilhosas que os amantes devem ter. Uma pessoa carinhosa, compreensiva, paciente, que me saiba escutar, que se interesse pelo que tenho para dizer, que respeite as minhas recusas e o meu espaço. Uma pessoa que goste, como eu gosto, de não ter que viver acorrentada num lugar, numa realidade imutável, fria e mecânica. Que de vez em quando me acompanhe quando fujo por aí, sem rumo, nem destino, que não precise de levar mapa da estrada nem tenha hora marcada para voltar. Alguém que me proteja, que me faça sentir especial, mesmo sem eu ter nada de especial, que me faça sentir bonita, querida, mesmo que eu saiba que está a exagerar um pouquinho. Alguém que divida comigo alegrias, tristezas, esperanças, sonhos, ilusões e todas aquelas coisas mais pequeninas mas tão gostosas que dão gosto à vida. Mas também alguém que seja capaz de me sorver a alma com um beijo, de me abraçar com loucura, de me dizer mil palavras ardentes, de me fazer mil carinhos estonteantes. Alguém que se deite comigo em todas as praias desertas, que me ame em todas as florestas virgens do mundo, que me leve da terra ao paraíso, que me mostre as estrelas, que me ofereça todos os sois ardentes do nosso universo tão bonito e tão imenso! Uma pessoa que me faça sentir viva, feliz, desejada e a quem eu seja capaz de fazer sentir o mesmo. Mas que seja uma pessoa real e esteja ali bem pertinho de mim, aonde eu lhe consiga tocar com a minha mão, aonde eu consiga encontrá-lo de noite, ou de dia. Que seja mais do que um sonho bonito, mais do que uma ilusão deliciosa. Alguém que seja meu e que seja para sempre, enquanto o sempre durar.
E agora que já falei um pouco sobre as diferenças e semelhanças entre amor e amizade, entre amantes e amigos, resta-me apenas dizer àquelas pessoas maravilhosas, que me dão a honra de serem meus amigos, aqueles com quem eu posso contar, e com quem conto mesmo, para o que for, quando for, que os amo muito e com todo o coração. E dizer áqueles que foram os meus amores, os amantes de todos os meus tempos, que apesar de tudo o que possa não ter corrido tão bem, foi muito bom conhecê-los a todos. Com cada um vivi e aprendi coisas diferentes. Com cada um deixei também partes diferentes de mim.
Mas agora quero mais, agora quero toda a felicidade do mundo a que tenho o direito de aspirar. Agora quero o romance completo.

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