sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 30 de julho de 2011

Saudades... só se for daquelas que fazem sorrir

Saudades…
Há quem viva cheio de saudades, de recordações, com o espírito, e os olhos, perdidos no que já ficou lá para trás no tempo. Há quem se consuma na nostalgia do que já foi, do que já passou. Há quem esteja tão acostumado a ter saudades, que não saiba já viver de outra maneira, e confunda saudades com a única possibilidade de voltar a ser feliz.
Eu não. Não sou dada a saudades dessas que fazem doer, que aprisionam, que escravizam, que fazem chorar, que embaçam a alegria que o presente sempre pode ter, como se fossem um véu espesso de nevoeiro a encobrir a luz do sol.
Não sou diferente das outras pessoas. Também sinto de vez em quando, de quando em vez, nostalgia de alguma coisa em especial, de alguém, de alguma situação. Afinal já foram tantas as coisas, as pessoas e as situações que passaram pela minha vida e saíram e se perderam ou transformaram, umas para não mais voltarem, outras apenas por uns tempos, outras simplesmente que já não existem mais. Não tenho coração de ferro, nem sou insensível, antes pelo contrário, sou bastante emotiva e sentimental, só não sou muito saudosista. Nem deixo que o passado mexa muito com a minha vida. De forma nenhuma permito ao que já se foi, que continue a comandar as minhas acções, como se tivesse ainda algum poder sobre o que decido ou faço. Não gosto de fantasmas, nem da sua convivência, nem mesmo quando são fantasmas bonzinhos e pacíficos.
Gostava, claro que gostava, de voltar a certos lugares, aonde fui feliz! Como por exemplo, voltar á minha terra linda das acácias vermelhas em flor, subir outra vez no elevador castanho do meu prédio antigo, o barra de sabão, entrar de novo no meu 4º andar esquerdo, ver as salas grandes e arejadas, os quartos cheios de luz, as varandas aonde a minha mãe tinha vasos de flores e aonde nós, as miúdas, tínhamos os triciclos e os carrinhos de pedais arrumados, a cozinha de todos os banquetes, de todas as patuscadas, até a casa de banho para aonde o meu pai nos mandava fugir quando começavam os tiroteios e que tinha azulejos pequeninos azuis da cor do mar, nunca mais vi azulejos como aqueles!… Adorava poder voltar a passar perto da Fazenda, aonde o meu pai trabalhou durante décadas e aonde estavam os meus primeiros admiradores, que me davam rebuçados, caramelos, bolinhas doces, que me pegavam ao colo e me sentavam nas secretárias deles, por entre montes de papeis por preencher e no meio do ruído tão querido e tão familiar das máquinas de escrever. Devo de ter aprendido a gostar de ser mimada, cortejada e admirada ali, com eles, sentindo-me a princesinha do coração de todos aqueles homens importantes que eu conhecia desde sempre e que satisfaziam todas as minhas vontades infantis. Os amigos lá de casa, os colegas do meu pai, todos de fato e gravata, todos corteses, simpáticos… todos desaparecidos no furacão da vida. Tantos que eram! Para onde terão ido? O que terá sido feito deles? Gostava de subir de novo aquelas escadarias enormes, claras e brilhantes da Fazenda, atravessar, como quando era pequenina e era dia de ir “trabalhar” com o meu pai, aqueles corredores espaçosos, de tecto alto, que faziam eco quando nós caminhávamos, cheios de portas de ambos os lados, cheios de rostos conhecidos, sorridentes e amigos!… Também era tão bom entrar de novo no Scala, ou no Continental, pedir como dantes um gelado de chocolate na taça, um bolo com muito creme escolhido do balcão e beber uma Coca-Cola para acompanhar! Ou ir passear no Jardim Vasco da Gama, que já não se chama assim mas não faz mal nenhum que tenha mudado de nome, porque um nome é só uma palavra, e o que importa é que ele está lá na mesma. Ir ver como está o lago grande dos patinhos, a estufa das plantas e das flores, as árvores frondosas, toda aquela beleza sem fim… Então não gostava? Claro que sim. Mas não vivo obcecada com isso. Não choro, nem fico triste de cada vez que me lembro de lá. Não me enfureço porque as coisas mudaram, têm outros nomes, outros aspectos, não acho mal terem havido mudanças, alterações, modificações. Cada um faz da sua terra o que bem lhe apetece, não é verdade? E nós viemos embora, perdemos o direito de opinar. É o progresso, é a vida a acontecer todos os dias. E as coisas não têm que ficar sempre paradas no tempo, para quem se lembra delas poder recordá-las quando quiser. Tive tantas vezes estas discussões com o meu pai! Ele nunca se recompôs de ter saído de Moçambique, de ter passado os últimos anos de vida dele longe de casa. Deixou-se consumir pelas saudades e pela tristeza, pelo ressentimento e pela mágoa. Eu não sou nada assim. Só quero sentir saudades que me façam bem à alma, que me alegrem e me deixem feliz. Saudades que fazem chorar, não são de forma nenhuma, as minhas preferidas, não as evoco nem as desejo. E acho um desperdício estragar recordações de passagens da vida, que foram tão bonitas e tão cheias de encanto, misturando-lhes lágrimas, e tristezas.
Saudades de pessoas, também tenho algumas. Saudades naturais de quem já se foi, do meu pai, da minha mãe, tios, tias, enfim… saudades das coisas boas que vivi com cada um deles, dos momentos bons, bonitos, alegres. Saudades que deixam um rasto de felicidade ao lembrar. Lembranças que não fazem chorar, que não magoam. Saudades escolhidas entre as recordações. Recordações que não são para lembrar, podem continuar aonde estão, a ganhar pó, bem arrumadas e muito bem empacotadas no canto do grande salão que é a minha memória. Cá para fora, só têm autorização de sair as boas partes da vida. Como diz a canção “já foram lágrimas demais”, e não vou desperdiçar o meu tempo a carpir mágoas que não se podem remediar, nem tão pouco alterar.
Vontade de rever outras pessoas, com certeza que tenho. Não sei se sé saudade, ou se é apenas vontade de ver outra vez. Amigas e amigos antigos, colegas do tempo da escola, da rua aonde vivia em miúda, antigos colegas dos lugares aonde trabalhei, antigos namorados, antigos amores, antigos pedaços de vida que ficaram espalhados em tantos lugares, em tantos sítios diferentes! Mais do que rever, vontade de falar com, de estar ao pé, de olhar bem nos rostos, de poder levar recordações comigo. Os olhos de um, o sorriso de outro, a maneira de falar divertida daquele, a postura desembaraçada daquele outro. O beijo, o abraço, o toque de todos os que me fizeram feliz, durante um certo tempo, e que hoje me continuam a fazer feliz sempre que me lembro deles e da sorte que tive em os encontrar. Não sei porque é que certas pessoas quando terminam um namoro, uma relação, um casamento, seja lá o que for, acham impossível continuarem a ser amigos da outra pessoa. Desde que tudo tenha terminado dentro do que é normal acontecer, porque não? Acho muito estranho ficar indiferente a uma pessoa a quem já amei. Fiquei amiga de quase todos os meus namorados mais importantes. Perdi-me, ou fiz por me perder de alguns, não porque estivesse zangada com eles, ou porque tivessem deixado de me fazer falta , mas porque foi melhor assim para prevenir males maiores. Existem tentações tão fortes, que quanto mais longe estivermos delas, melhor. Mas da maioria deles, dos meus amores antigos, continuei amiga. Se os encontrar na rua, seja aonde for, falo-lhes com o mesmo à-vontade de dantes, com a mesma alegria. Se me telefonam, atendo-lhes o telefone com a mesma naturalidade com que o faço a qualquer uma das minhas amigas. Saudades do tempo que passei com eles, da juventude que repartimos, da liberdade sem fim que marcou os nossos anos juntos, tenho claro. Mas são saudades boas, daquelas que parecem uma aragem de Verão a passar sobre a pele, que fazem sorrir, que fazem sonhar. Nem me imagino a ter saudades de alguém que me pusesse triste, ou a ficar triste por me lembrar de alguém que me fez sentir feliz.
São saudades assim que gosto de sentir, que gosto de ter. Saudades que arrepiam de prazer, que parecem um contacto físico, e que fazem passar sobre a alma uma luz de poesia, de beleza. Saudades que fazem sorrir. Boas demais! Lindas demais! Gosto muito de as sentir!
Saudades do tempo em que o céu era mesmo azul. O sol era todos os dias cor-de-laranja. O Verão era sempre uma promessa a descobrir em cada dia. As ruas eram convites doces para percorrer. Mas sem choros, sem lágrimas. Para quê chorar? Foram tempos tão maravilhosos, tão mágicos! Porque já não voltam? Quem disse que não voltam? Não voltam os mesmos dias exactamente iguais aos que já passaram, nem voltam as mesmas pessoas da mesma forma como as conheci, mas isso não quer dizer que não volte a sentir todas as coisas bonitas que sentia naquela altura. E isso é que é importante! O que se sente, o que nos faz felizes! Não as ruas, não as cidades, não os países, nem sequer as pessoas com quem estivemos. O conjunto de tudo, é que foi bom, o que sentimos é que foi bom! Os países mudam de nome, de governo, de políticas, as ruas são alteradas, acrescentadas, desfiguradas, as casas são demolidas, restauradas, os jardins são deitados abaixo, ampliados, reformulados, as pessoas ganham novos interesses e mudam junto com eles, as pessoas podem esquecer-nos ou trocar-nos por novos amores, novas amizades. Tudo passa e se transforma, para quê sofrer com saudades de coisas que não estiveram nunca na nossa mão conservar? Não temos culpa nenhuma de que as coisas mudem, se alterem, desapareçam. É assim que tem que ser. É assim que é desde os princípios dos tempos, e é assim que será até ao fim dos mesmos.
O que podemos é sentir de novo os mesmos sentimentos que sentíamos nas alturas mais felizes das nossas vidas. Noutros lugares, noutras idades, noutras situações, com outras pessoas. Não preciso chorar de saudades quando me lembro como era bonita a minha casa em Moçambique, nem em como parecíamos todos tão mais felizes lá do que cá, nem como tudo o que era julgávamos nosso e para sempre desapareceu de um dia para o outro. Posso antes e é muito melhor e mais saboroso, empenhar-me para conseguir ter aqui, que é a minha casa agora, e casa, para mim, é o sítio aonde penduro o chapéu, uma vida alegre, feliz, rodeada de pessoas amigas. Sem tantos bens materiais como lá, até porque aprendi que as coisas de que nos rodeamos não têm nenhum valor, desaparecem, são-nos tiradas, partem-se, ficam pelo caminho, mas cheia de sentimentos bonitos, cheia de amizade e de amor. Não é muito melhor assim, do que chorar e sofrer com saudades? Eu acho que sim!
Não preciso sentir saudades das que fazem doer, de cada vez que me lembrar de como era bom beijar, abraçar, estar com algum dos meus amores, daqueles que me faziam sentir nas nuvens, muito mais do que os outros. Para quê? Claro que foi bom, claro que é muito agradável recordar, claro que continua a saber bem lembrar, imaginar. Mas eu acho muito melhor, muito mais delicioso ter um amor novo que me faça sentir toda aquela magia outra vez. Ter alguém que me queira, que me deseje, que me faça estremecer de paixão agora, não trazer uma sombra de outros tempos embrulhado em saudades. As saudades não me consolam, não me beijam, não me fazem enlouquecer, não se deitam ao meu lado na cama. Não têm mãos, não têm braços, não têm corpo. Não posso abraçar uma saudade, não me posso deixar levar devagarinho e com carinho por uma saudade. Mas posso sentir as mãos de alguém presente agora, posso vibrar de prazer agora, e é muito melhor do que lembrar como foi o prazer do passado. Claro, se o agora não for tão inconsistente difuso com o são as saudades. Se o agora for mesmo de verdade, e não uma ilusão momentânea dos sentidos. Se o amor que tenho agora, me achar tão importante e tão querida como eu o acho a ele. Caso isso aconteça, então não é muito melhor o amor que se tem, do que aquele que já se teve?
Não sou mulher de muitas saudades. Não me dou muito bem com a tristeza que as saudades provocam. Não me seduz, nem me atrai a ideia de que o passado foi maravilhoso e que por isso se tem que viver nele a toda a hora. Gosto muito mais das coisas bonitas que vou descobrindo a cada dia que passa. Cada dia é uma novidade. Sei sempre como começa, mas nunca sei que coisas boas me vão acontecer durante todo o tempo em que vai demorar a acabar. Espero sempre alegria, felicidade, de forma simples, sem grandes complicações, sem grandes dramas. Aproveito o melhor que posso e o melhor que sei as coisas lindas que a vida tem a gentileza de continuar a colocar no meu caminho.
Saudades… deixo-as para os poetas. Eu sou só uma romântica sonhadora de sonhos sem fim. E sonhar, posso fazê-lo sempre que tenha vontade. Os sonhos do passado, já estão muito distantes pata me preocupar com eles. Se os sonhos que tenho agora não forem bons de sonhar por muito tempo, nem sequer vão figurar na minha lista de recordações bonitas. Vão ficar empacotados, a ganhar pó, junto das outras lembranças mais tristes e mais sombrias. Outros melhores virão. 

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