sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 23 de julho de 2011

Se tudo der errado...

E se tudo o resto der errado… vou sempre ter o sol, e o vento, e as flores todas do mundo para me alegrarem.
Se não houver mais  certeza nenhuma de nada, e em nada, se tudo estiver irremediavelmente perdido e para sempre, sem horizontes ao fundo, sem remédio, sem salvação, vou sempre poder molhar o rosto e os cabelos na chuva e sentir-me viva outra vez.
Se me levantarem a saia, se me agarrarem apesar de eu não querer, se me apertarem contra uma parede qualquer da vida, vou sempre poder dar a volta, correr e deixar a saia para trás, mas permanecer intocada. As saias são fáceis de levantar, mesmo quando não queremos, mas também são fáceis de despir e largar, afinal são só trapos. A mim, só me põe as mãos em cima, quem eu escolher.
Se todas as músicas do mundo se calarem ao mesmo tempo, se todos os rostos queridos deixarem de sorrir para mim, se não houver mais nenhuma canção para cantar, nem mais nenhuma história para aprender, vou sempre poder fechar os olhos e sentir a brisa do mar a soprar-me aos ouvidos. A despentear-me os cabelos com gentileza, e a desarrumar-me a blusa com meiguice. A contar-me histórias de outros lugares aonde já soprou antes e a sorrir-se para mim, com o seu rosto feito de vento e de brisa. Um rosto de aragem sem forma, e ao qual eu posso dar a forma de todos aqueles rostos que já não querem sorrir para mim.
Se quiserem que eu fique, mesmo quando sabem que há muito tempo fui embora, se preferirem ter a minha imagem do que finalmente entenderem, que uma imagem é só uma recordação sem vida, vou sempre poder mudar a imagem devagarinho, devagarinho, até ficar tão diferente do original, que já não tenha interesse ou serventia alguma.
Se não tiver mais braços para me abraçarem, nenhuma boca para me beijar, nenhum amor para me amar, nem nenhum corpo aonde me enroscar, vou sempre ser capaz de imaginar, fantasiar e inventar um sonho novo e bonito, e sentir-me renascer de novo.
Se me segurarem pelo braço com força, se não me deixarem seguir mais, se cortarem os meus sonhos, se me mantiverem acordada só para não poder sonhar, vou sempre poder sonhar de olhos abertos. Já faço isso há tanto tempo. Já lhe apanhei o jeito. É fácil e é bom na mesma. Se me magoarem, se me marcarem, se me fizerem chorar, ainda assim posso sempre esperar que passe, porque tudo acaba por passar, mais tempo, menos tempo. As lágrimas secam ao vento, as dores acabam por adormecer.
Se todas as estradas se revelarem de sentido proibido, ou se forem apenas e só becos sem saída, se perderem o encanto do apelo gostoso da novidade, vou sempre ser capaz de arrepiar caminho e, em vez da estrada tomar um caminho de terra. Em vez do alcatrão, seguir pelas pedras soltas. Ou então vou sempre poder desobedecer aos mapas, aos sinais de trânsito da vida, e rumar contra ventos e marés, seguir livre como eu gosto,  por todos os sentidos proibidos do mundo que me pareçam deliciosos.
Se me prenderem amarrada na cama, se me quiserem mesmo sem eu querer, se pensarem que me têm nessa altura, se eu não tiver como correr, como dar a volta e fugir, vou sempre poder ir para os meus sonhos e não ser mais do que uma boneca sem vida. É sempre tão mais fácil vencer o corpo do que alcançar o coração! Talvez nem sempre consiga proteger o corpo, sou mais fraca, mais pequena, mas no meu coração, nesse aí, eu garanto, só toca quem eu muito bem quiser.
Se caírem todas as rosas das roseiras, se só sobrarem os espinhos, se só sobrarem os galhos despidos de beleza, vou sempre poder recolher as pétalas e juntá-las, uma a uma, pôr-lhes uma laçada à volta e fazer uma rosa nova, à minha maneira e só para enfeitar o meu jardim. Que interessa se não for uma rosa cortada da roseira há pouco tempo? É uma rosa bonita e isso é que é importante, pelo menos para mim. Espero que para quem gostar de mim também seja, porque eu não tenho dom nenhum, nem tão pouco o de devolver flores mortas à vida. Quando cortamos uma rosa da sua roseira, ela morre. Podemos colocá-la num jarro com água, e ela durará mais um tempo antes de secar. Podemos tentar plantá-la de estaca, como dizem os meus vizinhos agricultores, talvez pegue e se transforme numa roseira, talvez não pegue e seque na mesma. De qualquer forma, não mais voltará a ser a rosa que cortámos. Mas enquanto não morrer de vez, ainda é uma rosa. E se calhar ainda merece ser tratada com toda a delicadeza e cuidado com que as rosas merecem sempre ser tratadas, penso eu, talvez esteja errada.
Se quiserem beijar a minha boca, mesmo que eu cerre os dentes e queira fugir com a cara, se me puxarem pelos cabelos e me obrigarem a ficar, quieta e submissa como uma ovelha indefesa, vou sempre poder morder com força a boca de quem me beija, até a fazer sangrar, e conseguir que desistam de me perturbar. Não sou nada violenta, quem me conhece sabe. Sou doce como o mel, chego a enjoar de tão doce, mas “às vezes é preciso lutar-se quando se é um homem”, como diz a canção, e embora eu seja mulher, também tenho precisado de lutar um bocadinho, de vez em quando. Beijar é muito bom, beijar na boca é bom demais e eu gosto muito, mas só beijo a quem eu tiver vontade de beijar. Não é a qualquer boca que entrego os meus beijos.
Se vier um Verão em que o sol não aqueça como costuma aquecer no Verão, e em que o céu nem sempre esteja daquele azul que dá gosto olhar, se os dias forem ventosos e frios, a fazerem lembrar o Inverno que está para vir, vou sempre poder olhar para uma fotografia bonita, daquelas que me fazem sonhar, e voar para onde me apetecer. Uma praia linda, uma cidade exótica, um monumento, um jardim, mar, lagos, estátuas, barcos, templos, igrejas, feiras, quem sabe a minha casa antiga e distante noutro lado do mundo, tudo enfim… é só escolher. A realidade não me consegue aprisionar durante muito tempo, nunca conseguiu. As fotografias têm sido uma valiosa ajuda. Obrigada do fundo do meu coração, a todos os fotógrafos do mundo, principalmente àqueles de quem mais gosto, e que estão, sem o saber, todos os dias comigo, por me ajudarem a compor melhor o meu mundo e a enfeitar com mais alegria as paisagens da minha vida. Quando olho para uma fotografia, esqueço por instantes a realidade à minha volta, e a minha realidade merece, quase sempre, ser esquecida.
Se me quiserem forçar a cumprir obrigações, deveres, honrar compromissos que assumi quando a vida era tão outra e tão diferente, se me quiserem impor o peso das leis, das regras, das conveniências, vou sempre poder interpretar as leis e as obrigações à minha maneira, à maneira como eu as vejo e as sinto. Não sei se isso faz delas menos leis, ou menos regras, mas justifica-me a mim, e absolve-me perante o tribunal da minha própria consciência, que às vezes dá muito trabalho a convencer. Vou sempre poder demonstrar que os compromissos eram para ser bilaterais, e as obrigações também. Assim como os deveres e as regras eram também para os dois lados, e não só para o meu. Talvez consiga convencer os juízes da terra que quando se quebra o coração de alguém durante décadas, quando se lhe roubam os sonhos, quando se lhe distorce a luz, quando se lhe pisam as ilusões e as esperanças, quando se violenta o corpo e se tenta violentar a alma de uma pessoa, essa pessoa tem o direito de se sentir livre de compromissos e de deveres. O direito à legítima defesa, acho que é assim que se chama, e se não me engano, está contemplado na lei.
Se chegar uma altura na minha vida, em que não consiga mais levantar-me para andar, em que não tenha mais forças para seguir em frente, ou em que me falte o ânimo para persistir nas minhas eternas tentativas de ser feliz, desde que não deixe apagar a luz da esperança, vou sempre poder arrastar-me em vez de andar, puxar o meu corpo cansado e dorido pelo resto do caminho que falta percorrer, esfolar os joelhos no chão, esfolar os cotovelos, rasgar a roupa em farrapos, mas ainda assim vou sempre poder chegar até aonde pretendo. E se não conseguir, se morrer pelo caminho, se os meus olhos não chegarem nunca a ver a tal terra prometida, é possível que isso aconteça, eu sei que é, aconteceu com a minha mãe, pode acontecer comigo, mas mesmo assim, vou poder sempre dizer que tentei até ao fim! E que não foi por falta de tentativas que não consegui, nem por ter deixado passar oportunidades e ter tido medo de arriscar. A quem vou poder dizer isso, no fim de estar morta, não sei… Mas tenho esperança que o possa dizer a mim própria. Afinal só a mim devo explicações. Porque também só tenho contado comigo durante todos estes anos. Mereço pois saber que não desisti, e que procurar como chegar ao outro lado do arco-íris, foi sempre a minha grande luta, até ao fim.
Se algum dia der o meu coração a uma pessoa, com a mesma ousadia com que sempre costumo dar quando gosto a sério de alguém, se junto com o coração der a alma, o amor, o sentimento, a ilusão, o corpo, e se depois afinal for tudo mentira, for tudo fingimento, ainda assim vou poder levantar, ir embora e chorar devagarinho no meu cantinho sem ninguém para ver, e ninguém para tripudiar do meu sofrimento. Se me fizerem acreditar que existe algo mais para mim do que aquilo que eu sempre soube que existe, se conseguirem fazer com que eu desmonte as minhas defesas e me apresente exposta e toda, e depois nada tiver sido o que parecia, e tudo tiver sido só real na minha imaginação febril e sedenta de carinho, mesmo assim vou sempre poder … poder… não sei o que vou poder. Acho que aí vou perder a esperança de que alguma pessoa possa ser verdadeira. Vou perder a esperança e a faculdade de acreditar, de seguir, de confiar. Vou ficar triste e magoada como um gatinho escorraçado à paulada, ou como a menina pequena que ofereceu uma prenda à mãe e a viu ser recusada, ou como um cão que não percebe o que fez de mal para ser espancado, quando tudo o que fez foi abanar a cauda o melhor que sabia. Se perder a esperança, perco também a vontade de seguir. Sem esperança, para quê seguir? Seguir para aonde? Para que destino? Para fazer o quê em qual lugar?
Se algum dia alguém me magoar tanto que eu não queira mais seguir, ainda assim vou poder parar e descansar. Esperar que o fim venha. Deixar de lutar. A vida pode sempre ser vivida enquanto tivermos sonhos para sonhar. Se pararmos de sonhar, então estamos mortos em vida. E se já estamos mortos, então podemos parar, podemos descansar. Que se dane o “tentar até ao fim”, que se dane aquilo que eu gostaria de dizer a mim própria sobre mim própria. Se conseguirem quebrar o meu coração, fazer-me mal sem eu merecer, se me tratarem com um pedaço de lixo imprestável no fim de me terem feito acreditar tanto, como posso algum dia voltar a confiar em alguém? Se me fizerem perder a esperança, aí prefiro morrer.
E se tudo o resto der errado… posso sempre desistir. Porque eu posso viver acorrentada, posso aguentar ser encostada com força contra uma parede, posso tentar esquecer que me obrigam, que me forçam, que me magoam, posso aguentar isso tudo e ainda dar a volta por cima e seguir em frente. Mas se perder a capacidade de sonhar, se não mais for capaz de acreditar, de confiar, se deixar de saber como sorrir à vida e às pessoas da vida… se não tiver mais vontade de fazer comentários descarados e brincalhões, se deixar de ser capaz de olhar para o mundo de forma provocante, de procurar sempre o melhor de cada coisa da vida… se ainda por cima deixar de sentir prazer com o sol a nascer, com o vento a soprar, com o mar a ir e vir num vaivém lindo demais, se perder a esperança de um dia poder vir a ser feliz, em não sei qual ponto do universo, não sei em qual companhia, então recuso-me terminantemente a sofrer mais.
Quanto mais não seja, só para ver se a pessoa que me fez sofrer tanto vai ao meu enterro. Sou ou não sou parva demais? Ai, ai como é que alguém assim, pode sequer esperar ser levada a sério? Devo realmente ter o que mereço.

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