sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sou assim, amo a ideia de haver amor

Eu sou assim! Complicada, difícil de aturar, rabugenta às vezes. Exigente, teimosa, insegura, birrenta, instável. Assusto-me com facilidade, choro muitas vezes, fico triste, confusa, preciso de colo, de conforto, de carinho. Sinto-me muitas vezes perdida, sem rumo, sem norte. Encosto-me à parede e vou descendo devagarinho, para ficar encolhida no meu canto e desejar que ninguém me veja antes de a dor passar.
Eu sou assim. Falo e digo coisas muitas vezes sem pensar bem, sem reflectir tanto quanto devia. Não faço por mal, não faço para magoar ninguém, às vezes faço pensando que estou a fazer o melhor possível, da forma mais acertada. Por vezes desaponto as pessoas, mesmo aquelas de quem mais gosto, e não o faço de propósito. Comento coisas que não devia comentar, uso expressões que não devia usar, irrito quem não merecia ser irritado. Sou um quase desastre completo, bem sei...
Eu sou assim. Mas não sou má pessoa. Não guardo mágoas, ressentimentos, tento sempre resolver as situações todas com um sorriso, com um beijo, com uma carícia. Sou alegre, divertida, confio em quem gosto, sou amiga dos meus amigos, sempre me disseram que sou uma pessoa em quem se pode confiar, e que quem não se der bem comigo, também não se dá bem com ninguém. Gosto muito de pessoas, de falar, de conversar, de sonhar, de voar sem sair do lugar. Gosto da vida, do sabor da vida, das cores bonitas que a vida tem. Gosto de abrir a janela de manhã e apaixonar-me pelo dia que está a nascer, adoro mais do que tudo a sensação gostosa de que nada é impossível, e que no fim sempre tudo se resolve pelo melhor.
Eu sou assim. É muito fácil magoar-me, é muito fácil deixar-me triste. Qualquer palavra mais ríspida, qualquer gesto mais brusco, qualquer expressão mais sisuda me faz subir as lágrimas aos olhos. Qualquer falta de cuidado, de atenção, de carinho, me faz sentir pequenina, indefesa e sozinha. Esforço-me sempre para parecer forte, decidida, desembaraçada. Ninguém sabe por vezes, o quanto atrapalhada fico, o quanto desorientada me sinto, o quanto gostava de estender a mão e poder tocar noutra mão que fosse minha e estivesse ali para mim. Também ninguém precisa de saber que apesar de eu ser uma pessoa muito alegre, por natureza e por feitio, algumas vezes enquanto rio, choro por dentro, enquanto pareço divertida e espirituosa, me sinto tão sozinha, tão infeliz, que chego a achar estranho que ninguém se dê conta. E de que serviria se alguém se desse conta? Também ninguém pode entrar dentro da minha alma, lavá-la com sabão forte, esfregá-la bem, passá-la por água, torcê-la e pô-la a corar ao sol, e deixá-la a tinir de brancura e frescura. Por isso, é bem melhor que não se preocupem comigo e vivam descansados. Num instante bem rápido a tristeza passa e leva consigo todo o seu séquito de lágrimas e solidão, e tenho de volta todas as coisas lindas do mundo, para me alegrarem, e sem precisar de ter tido que incomodar ninguém.
Eu sou assim. E morro muitas vezes por um beijo, por uma carícia, por um afago. Não sou lá muito forte no que diz respeito a assuntos de paixão e de amor. Separo as duas coisas, isso consigo fazer. Nem todas as minhas paixões se transformam em amor, nem todos os meus amores começam por ser paixão. Mas deixo-me impressionar facilmente, confesso. Gosto da sensação boa de ter alguém interessado em mim. Faz-me bem, faz-me sentir viva. Uma professora querida da minha juventude, dizia que a isso se chama “carência”. Quando ela me via no portão da escola, cada dia com alguém diferente à minha espera, dizia-me muitas vezes, depois, na sala de aula:”- Não vai resolver a sua carência de afecto, trocando de namorado todos os dias. Goste de si pelo que é, não por aquilo que os outros lhe fazem acreditar que possa ser.” Professora querida de francês e de português! Por onde andará ela agora? Tantos anos se passaram, e continuo a vê-la como se fosse hoje, com o seu aspecto exótico e diferente das outras professoras todas da escola, pequenina, baixinha, sempre vestida com roupas exuberantes e garridas, muito pintada, muito maquilhada, despachada, decidida, bem resolvida… Que falta me fizeram os comentários dela pela vida fora! Embora que, na altura, tudo o que ela me dissesse, me entrasse por um ouvido a cem, e saísse pelo outro a duzentos. Mas mesmo assim eu gostava muito de a ouvir, de a saber por perto. Muito mais do que uma professora que cumpre exemplarmente o seu dever, ela foi uma boa amiga, do coração. Ajudou-me muito no meu começo de vida adulta, quando acabei a secundária, saí de casa do meu pai e casei. Querida professora La Sallette, caso se dê a muito pouco provável hipótese de ler o que estou a escrever, muito e muito obrigada por tudo! Vai ter sempre um lugar no meu coração, sentada na primeira fila da zona dos camarotes. Gosto muito de si! Saiba que esta sua antiga aluna de português, continua a escrever como dantes, disparates como dantes, carente como dantes, mas talvez tenha aprendido alguma coisa consigo. Pelo menos aprendi a nunca mais deixar sair um amigo da minha vida, a não ser que ele queira mesmo sair, e mesmo assim, não sem antes lhe deixar saber que pode voltar sempre, quando quiser. Nunca devia ter perdido o contacto consigo, setôra. Desculpe. Fui ingrata, egoísta, irreflectida. Muitas vezes, ainda sou assim. Só que agora arrependo-me logo a seguir, procuro a pessoa e peço desculpa. Logo, antes que o tempo passe e a mágoa aumente. As mágoas, quando crescem descontroladas, são muito perigosas…
Eu sou assim. Gosto que gostem de mim. Gosto que me digam coisas bonitas, que me façam sentir querida, cortejada, desejada. Não fico nada ofendida com os comentários engraçados na rua, nem com as tentativas desajeitadas que os homens costumam fazer para serem notados. Acho tudo isso uma parte bem gostosa e deliciosa de ser mulher! Um privilégio que nós mulheres temos, o de conseguir pôr a cabeça a andar á roda aos homens, puxar-lhes um pouco pelos neurónios preguiçosos, quanto mais não seja, a pensarem como chegar até nós. Quero lá saber se isso é ser leviana e desmiolada. Gosto e pronto, diverte-me, faz-me sentir viva, faz com que os dias fiquem mais bonitos, faz com que o sangue circule melhor, e o coração bata sempre num ritmo um pouquinho mais acelerado, mas sem correr. Não passo daí, da fase engraçada e fascinante da conquista, do ritual divertido do conhecer melhor, conversar, falar, a fase de “namoriscar”, como diz uma amiga minha. Só pessoas muito especiais passam á fase seguinte. Só pessoas ainda mais especiais passam da fase seguinte para a outra. E há muito tempo, nenhuma dessas pessoas, mesmo entre as mais especiais das mais especiais, passou de todas essas fases para a minha cama.
Eu sou assim. Acredito em fadas madrinhas com vestidos rodados e varinhas de condão, em duendes brincalhões que vivem escondidos por trás das flores do jardim, em príncipes valentes e destemidos e em princesas bonitas e apaixonadas. Acredito em amores eternos. Acredito na magia das coisas bonitas, na maravilha do que não se consegue tocar, nem agarrar, nem guardar no bolso, mas que mesmo assim está por toda a parte, em tudo o que vemos ou sentimos. Uma espécie de magia, de pó dourado, que preenche todos os intervalos, que dá vida a todos os espaços mortos, que empresta um toque de poesia e de cor a tudo aquilo em que toca. Acho que o nome dessa coisa mágica é amor. Acredito no amor. Amor entre duas pessoas que se querem e se desejam, amor entre pais, filhos, irmãos, amor pelos animais, pelas plantas, pelo mundo todo, que é tão lindo e aonde cabe tanta coisa e tantas pessoas diferentes e sem igual! Amor pelas palavras, que permitem dizer e escrever o que de outra forma ficaria por saber. Amor pela música, pelas cantigas bonitas que fazem sonhar. Amor pelas fotografias encantadoras que nos levam para lugares diferentes, para sítios distantes, ou nem tão distantes assim, mas sempre cheios de aventuras por descobrir. Amor enfim, por tudo o que enche o coração de alegria, seja lá aquilo que for, venha de onde muito bem vier, seja recebido das mãos que quem quer que seja, e entre em nós da forma que quiser entrar!
Eu sou assim. Adoro quando me beijam com paixão, quando me abraçam bem apertado, quando me envolvem com carinho nos braços, quando me fazem sonhar. Adoro quando chega a altura em que já não sei muito bem o que estou a pensar, o que estou a fazer. Quando abandono as minhas defesas e me entrego de uma só vez, de corpo e alma, sem querer saber do ontem, do amanhã, do que está para vir. Gosto de ouvir palavras sussurradas ao ouvido, gosto do som que faz a respiração mais quente de encontro ao meu pescoço, gosto do deslizar intimo das mãos e dos lábios húmidos no meu corpo, gosto de sentir o bater acelerado do coração da outra pessoa, bem juntinho ao meu. Gosto de gemer de prazer, gosto de ouvir a outra pessoa gemer de prazer. Gosto do antes, do durante que dure o mais possível, e do que vem quando o durante acaba, e que é tão bom, tão delicioso, que o mundo todo podia acabar junto que já não tinha importância nenhuma! Adoro quando não fico sozinha, quando sinto que está tudo bem, que posso dormir descansada e bem agarradinha, bem protegida e bem amada, porque ele não vai embora mais.
Eu sou assim. Um desastre quase completo em muitas situações, mas não sou má pessoa. Acredito em fadas, em príncipes e princesas. Choro e rio com facilidade. E adoro o simples prazer de estar apaixonada pela vida, e de amar o amor.

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