sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 19 de julho de 2011

Um péssimo hábito

Tenho o hábito de fantasiar, de romancear e de idealizar as pessoas. É um hábito que tenho desde sempre e é, sem dúvida, um péssimo hábito.
Ninguém tem culpa de que eu seja assim. Nem sequer, e muito menos, as pessoas que são objecto das minhas fantasias, e alvos das minhas imaginações.
Devido a esse péssimo hábito que tenho, quase nunca chego a conhecer realmente as pessoas com quem me relaciono. Falo, penso, sonho sempre com alguém que nem sequer existe. Alguém que não pode atravessar a fronteira entre a ilusão e a realidade e vir-se juntar comigo. E não podia fazê-lo ainda que quisesse, simplesmente porque os sonhos não têm vida própria para lá do espaço que lhes damos para viverem, e que fica bem resguardado dentro do nosso coração.
Quando começo a idealizar uma pessoa, uma situação, uma relação qualquer que mesmo sem ter nome definido (e quem é que precisa de nomes definidos? quem é que precisa da segurança bonita que dá o sabermos com o que lidamos?) se torna importante para mim, faço-o, ao princípio sem grande risco de me magoar.
No começo, consigo sempre distinguir muito bem aonde começa a realidade, e aonde termina o sonho. Sou capaz de não me deixar envolver demais, sou capaz de perceber quais das facetas da pessoa são mesmo parte partes integrantes da sua personalidade, e quais só fazem parte dela porque eu as coloquei lá, como brinquedos novos num parque infantil.
Logo ao princípio, não me custa mudar de direcção, mudar de planos, pôr de lado, contornar. Não me custa orientar o sonho mais para aqui, ou mais para ali, de acordo com as necessidades do momento, respondendo sempre aos impulsos do meu coração endiabrado e travesso.
Gosto de imaginar grandes amores, romances eternos, daqueles que não têm fim, nem mesmo quando acabam e teimam em continuar vivos durante muito mais tempo do que aquele que lhes é concedido, gosto de imaginar paixões abrasadoras e envolventes, carícias ardentes e palpitantes. Acrescento pormenores que não estão lá, mas que eu gostaria que estivessem. Empresto à pessoa acções nobres, sentimentos elevados, opiniões saudáveis e bonitas sobre todas as coisas do mundo, doto-a de uma personalidade apaixonante e calorosa, faculto-lhe a possibilidade de conhecer mil maneiras de amar que só devem existir na minha ilusão. No inicio de um sonho, ainda tenho as rédeas na mão, ainda posso puxar o freio, ainda posso comandar a velocidade da imaginação e diminui-la de acordo com o meu desejo, de galope para curto passo de passeio.
Tudo isso é ao princípio, depois começam as complicações. Depois fico tão apaixonada pelo meu sonho, acho a minha criação tão fantástica e sublime, que começo a não conseguir mais separar bem o real do imaginário! O sonho pula para fora das páginas do meu romance e invade a vida deste lado. O sonho, repleto de magia, encanto e exuberância esmaga a realidade com tanta força e com tanto empenho, que a pobre da realidade, quase sempre feia e mesquinha, sem conseguir competir com tamanha beleza, desaparece completamente de vista. Talvez que se a realidade fosse mais bonita e atraente, não fosse tão fácil aos sonhos vencê-la… Talvez que se quem faz parte da realidade se preocupasse um pouco mais com o que se passa à sua volta, não fosse tão rapidamente substituído pelas pessoas que vêem do lado dos sonhos. O outro lado é muito mais atraente. Muito mais lindo! E eu gosto tanto de sonhar, gosto tanto de coisas lindas, sentimentos bonitos, sensações encantadoras!... Gosto tanto daquela emoção bonita de ser levada pelo vento, pelo temporal, de atravessar o espaço todo, acordar perto das estrelas e tocar no céu.
No fim de estar já bem instalada no meu sonho, no fim de já estar apaixonada demais por aquilo que eu própria criei, aparecem as primeiras desilusões. Começo a perceber o que está mal, mas a não querer acreditar que está mal. E provavelmente nem está nada mal, o que não está é a encaixar correctamente com o que eu havia imaginado. Embelezo frases menos bonitas, mas que podiam sempre serem ditas de outras formas, terem outros significados, para ficarem mais parecidas com as frases que eu gostaria de ouvir. O que é um enorme disparate, frases são só conjuntos de palavras, não têm que ser mais do que isso, não têm que ter mais importância do que isso. Desculpo atitudes mais desagradáveis, porque provavelmente uma pessoa tão perfeita como a que imagino nunca as teria, e por isso, com certeza, o erro de interpretação foi meu… E o mais certo é mesmo o erro ser meu, eu é que passo a vida a inventar maneiras bonitas de agir, a romancear gestos, sentimentos. Transformo faltas de atenção, esquecimentos, mudanças na forma de falar, de conversar, de estar, promessas por cumprir, em coisas banais, sem importância, se comparadas à verdadeira dimensão gigantesca do que eu sonhei sobre essa pessoa. E são realmente coisas banais. Ninguém em seu perfeito juízo pode esperar ser tratada toda a vida como uma princesa de conto de fadas, ninguém pode querer prolongar para sempre o encantamento do princípio dos namoros, da poesia que é a conquista, o ritual bonito que ‘é fazer com que alguém se apaixone por nós. Vou então começando a escolher as palavras certas para dizer na altura certa, vou mudando os assuntos para se enquadrarem melhor no novo cenário, vou-me esquecendo de que o principal objectivo de estar com aquela pessoa, era o tentar ser feliz e não tentar remediar o que nem sequer chegou a existir. Um sonho pode ter um imenso poder na cabeça de alguém alienado da realidade como eu! Um sonho pode justificar uma vida inteira de sofrimentos, um sonho pode também transformar-se num pesadelo, quase tão depressa quanto o tempo que é preciso para adormecermos.
Demoro a reconhecer que me enganei. Demoro a arranjar coragem para terminar uma história bonita, que me fez feliz durante um tempo bom. É custoso demais ter que admitir que errei, que inventei, que idealizei, que construi um castelo de areia e me esqueci de pelo menos, molhar bem a areia para o meu castelo não se desmanchar tão depressa. Custa-me sempre tanto dizer adeus a uma fantasia que acalentei com amor! Mas, por outro lado, sabe sempre tão bem perceber que apesar do tempo, dos anos, da experiência, continuo na mesma, ingénua, sonhadora, sempre pronta a embarcar numa ilusão bonita e apelativa!
Acho delicioso reconhecer-me sempre e em qualquer situação. Na facilidade como idealizo, invento, romanceio, na maneira apaixonada como me dou a cada sonho, como o vivo tão intensamente como se fosse o primeiro, de corpo e alma, sem protecção por baixo, sem cordas de segurança, e na forma corajosa como costumo acordar, sacudir a poeira e andar em frente.
Até agora, não tive nenhum sonho cujo fim me custasse mais do que umas lágrimas, uns dias de tristeza e desalento, um merecido intervalo para descansar o coração magoado e cansado de imaginar. Até agora, tenho sido sempre capaz de dar a volta por cima, superar, esquecer, admitir que o engano foi meu e não da outra pessoa. Perceber que fui eu quem colocou pormenores que não estavam lá, quem exagerou qualidades, quem acrescentou sentimentos aonde não havia sentimentos nenhuns. Tenho conseguido com êxito assimilar bem a ideia de que geralmente o que interessa a quem se aproxima de mim não é nem de perto nem de longe, o que eu procuro quando me aproximo de alguém. Embora também possa querer isso, nunca é só isso que busco. Independentemente dos meus comentários mais modernos, das minhas ideias mais liberais, nunca procuro apenas o óbvio, o imediato. E quem está errada sou eu. Provavelmente nem há mais nada para procurar, nem há mais nada para ser encontrado. Tudo se resume, se calhar, ao mais simples e mais objectivo. Tenho compreendido claramente que é muito natural e espectável que passados os primeiros momentos de novidade, a pessoa vá alterando a sua forma de agir, de pensar. Não tenho ficado nem magoada, nem revoltada, por ver que os esforços que fazem para se aproximarem de mim, são considerados mal empregues depois, depois de realmente as pessoas me conhecerem bem, e descobrirem como no fundo sou, aborrecida, cansativa, normal, igual a toda a gente que enche o mundo.
Não fico triste demais com nenhuma dessas coisas. Afinal quem me manda não ter juízo, não é verdade? Sou forte e determinada. Sou uma rapariga crescida como a da canção, e as raparigas crescidas não choram, nem ficam deprimidas, nem se encolhem num cantinho. Sei muito bem aquilo que faço, sei muito bem como arcar com as consequências daquilo que faço. Aprendi já que todos os sonhos têm o seu preço, e que pagar o preço de cada sonho vale a pena, se o sonho foi bonito e se me fez feliz. Sou poderosa e não há fim de ilusão que me derrube. Lambo as minhas feridas, feridas já é muito, arranhões superficiais talvez, e parto em busca do que a vida me trará, lá mais para a frente. Corajosa, segura, pisando o chão com força e determinação, sem medos, nem mágoas, nem tristezas.
Só de vez em quando me pergunto se a pessoa que procuro existirá realmente, e estará por aí, num desses caminhos desconhecidos que ainda hei-de percorrer. Ou se já passei por ela e nem reparei. Ou se vou acabar por concluir que não há pessoa nenhuma. O que há é um grande conjunto de pessoas, todas parecidas, todas iguais nas suas essências, uma grande amálgama de vontades, de desejos, de confusos sentimentos. Se for isso mesmo o que for descobrir, ainda assim não vou ficar triste. Vou pensar que tudo valeu a pena, que se nunca tivesse procurado, nunca ia saber com certeza se a tal pessoa existe ou não. E vou sorrir, linda, destemida, e o mundo vai admirar a minha resistência e a vida vai enviar-me de presente, outro sonho para sonhar.
Ser sempre forte dá muito trabalho. Nunca perder a esperança pode ser cansativo. Cair e levantar com graciosidade é uma habilidade que se aprende com o tempo. Sorrir, sorrir e sempre sorrir, treina-se, aperfeiçoa-se, melhora-se. Chorar e ficar triste, esses são prazeres solitários, ninguém precisa de saber. Nem ninguém quer saber. Não faz parte do espectáculo.

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