sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Um universo inteiro entre nós

Sempre ouvi dizer que existem universos paralelos.
Será? Às vezes parece mesmo que sim.
Não é fascinante pensar que duas pessoas podem olhar para o mesmo objecto, para a mesma pessoa, falar do mesmo conceito, e cada uma delas estar a ver e a falar de uma coisa diferente? Como ter a certeza de que ambas vêem a mesma coisa? Como garantir?
Ou é defeito dos meus olhos em particular, ou então já me tem acontecido muitas vezes não conseguir ver as mesmas coisas que as outras pessoas vêem.
O que para mim parece ser simples, claro, bonito, é muitas vezes complicado, escuso e feio para outra pessoa. Diferenças de interpretação, diferenças de opinião, diferenças de pontos de vista… talvez. Mas porque será que quase nunca a minha opinião, a minha interpretação ou o meu ponto de vista coincide com o dos outros?
Ainda no outro dia, uma amiga minha se fartou de me ralhar porque entendia que eu devia valorizar mais as oportunidades de ganhar dinheiro, e não devia ser tão sentimental e inocente. Adoro esta minha amiga, amiga a sério e já há um bom tempo, mas ela vê uma coisa, e eu vejo outra, embora estejamos ambas a falar da mesma coisa. Dinheiro para mim, não tem mais importância do que a que tem uma aspirina quando me dói a cabeça. É precisa, faz falta, mas não se admira verdadeiramente. A minha relação com o dinheiro nunca foi de grande intimidade. Sei que ele se perde de um dia para o outro, sei que ele muda de mãos e de dono num ápice. Não preciso de mais do que o necessário para viver sem fome, sem dívidas, mais ou menos tranquila. A minha amiga não, entende que é preciso amealhar, poupar, procurar novas formas de lucrar mais, investir o que já se tem… enfim, uma complicação enorme e confusa de números, acções e transacções que fazem dela uma tão bem sucedida mulher de negócios. Ficou escandalizada comigo quando lhe disse que considero muito mais importante ser feliz do que ter uma boa conta bancária. Para ela, de nada serve ser feliz se não se tiver dinheiro para gastar, e não há felicidade possível quando se é pobre… Universos paralelos, o dela e o meu. Ela vive no mundo das finanças, do dinheiro, do lucro, do capital, eu vivo no meu mundinho de cores, de sol, de vento, de flores bonitas, de sonhos sem fim. Qual está certo? Qual é o verdadeiro? Qual das nossas visões corresponde à realidade? Fascinante! No entanto a nossa diferença de opiniões, neste, como em outros assuntos, não obsta a que sejamos muito amigas. É a minha companheira querida para beber um cafezinho, para conversar, para arejar um bocadinho a cabeça, sempre que passo lá para os lados dela. E aparte o lado materialista exacerbado dela que me assusta e me confunde, é realmente uma pessoa muito boa!
Quando digo a alguém “gosto de ti”, estou a falar a sério. Senão, porque haveria de dizê-lo? Quando gosto de alguém, gosto a sério. Não conheço outra maneira de gostar. Não sei fazer de outra forma. No entanto, conheço muitas pessoas que afirmam que gostam, amam e adoram e isso não corresponde à verdade. Sentimentos, para mim, são coisas sagradas. Não servem para brincar, não servem como moeda de troca, não se podem falsear, disfarçar ou deformar. Para outras pessoas, os sentimentos são instrumentos como quaisqueres outros que permitem alcançar objectivos, auxiliar em dificuldades, vencer competições. E não são pessoas más. Claro que não, conheço bem e sou amiga de pessoas que pensam assim. Pessoas que vêem o conceito de sentimento, de uma forma diferente da minha. Como se pode definir o que é um sentimento e qual a sua real importância? Qual das formas de ver é a correcta? Qual delas é exactamente a correspondente ao significado de sentimento? Até aonde podemos ir sem magoar, sem fazer sofrer o outro, sem nos perdermos na nossa própria confusão? Se estamos a falar do mesmo conceito, como é possível que eu pense de uma forma e oriente as minhas acções de acordo com o que penso, e outras pessoas referindo-se exactamente ao mesmo, façam tudo ao contrário? E como é possível que possa ser amiga de alguém, e interagir com alguém que conduz a sua vida de forma tão diferente da minha? Mas é possível sim, nalgum ponto desconhecido, as nossas diferenças perdem a sua importância e o que temos em comum acaba por ser maior. Esse deve talvez ser o ponto em que os nossos universos paralelos se cruzam, por um bocadinho.
Eu gosto de sonhar, de construir castelos de areia, de voar por cima dos problemas, das contrariedades. Vejo histórias bonitas por todo o lado, encontro sempre alguma coisa linda que mais ninguém vê, em que mais ninguém repara. Sou capaz de fazer de um sapo, príncipe, e acreditar tanto na minha própria criação que dê por mim apaixonada por uma fantasia que eu própria inventei. Vivo com a cabeça no mundo da lua, aonde tudo é mais bonito, aonde as cores têm mais cor, o vento é mais doce, o sol mais laranja, o céu de um azul muito mais lindo! Nos momentos mais tristes, mais solitários, fecho os olhos, vou para onde quiser ir, fujo para a companhia de quem quiser fugir. É a minha maneira de sofrer menos, de seguir o meu caminho sem tomar o freio nos dentes e largar a correr à desfilada, sem sair da estrada e meter por algum atalho desconhecido que possa ir dar a um precipício sombrio e definitivo. Se bem que de vez em quando, uma escapadela a algum desses atalhos misteriosos possa ser um convite bom demais para ser recusado. Até agora, todos os atalhos, mesmo os mais bonitos e promissores, se têm revelado apenas o que são, atalhos com mais ou menos graça, que não vão ter a lado nenhum, becos sem saída. Mas pelo menos, nenhum dele me levou para o precipício. Talvez algum seja capaz de me conduzir de volta à estrada bonita da qual me perdi, e que ainda deve de estar algures, num cantinho qualquer do mundo, com saudades dos meus passos e de braços abertos, como estrada que se preze, para me deixar entrar. Ou talvez não… Eu sou assim. Cheia de imperfeições e de defeitos, mas é como sou. A minha irmã é o contrário de mim. Se eu sonho, ela chama-me para a realidade dela, mais fria, mais cinzenta, mais dura. Ela não faz castelos de areia, assenta os seus tijolos sobre cimento bem rijo, e ainda lhes põe bastante reboco por cima, para não se separarem. Ela não se perde, não segue por atalhos, avança teimosamente na estrada que escolheu, sem sequer se interessar em desviar o rosto para os caminhos que aparecem de lado. Ela não precisa de voltar a nenhum sítio bonito, porque na opinião dela, sítio bonito é aquele que mais nos convém, e que menos complicação nos trouxer. No entanto, eu adoro a minha irmã. A minha maninha querida, que tem sido a minha estrela guia desde que nem me lembro mais. Ela vê toda a vida de uma forma, eu vejo de outra completamente diferente. Muito raramente os nossos dois mundos coincidem, estamos quase sempre em rota de colisão, mas de qualquer forma, em certas alturas, chegamos uma à outra, através de algum portal desconhecido, de alguma saída encantada oculta no nevoeiro da estrada. Sei que apesar de vivermos em mundos opostos, somos muito amigas. Mais do que amigas, irmãs. Filhas únicas de uma história triste, inseparáveis desde nascença por destino e por herança. Habitantes de universos paralelos, seguindo cada uma teimosamente, o caminho que traz impresso dentro do coração.
Parto sempre do principio que quem me beija, quem me abraça, sente nisso o mesmo prazer do que eu. Senão porque beijaria, porque abraçaria? Confio sempre quando gosto de alguém. Quando não gosto, claro, não chega a haver beijos nem abraços. Mas a partir da altura em que dou por mim a gostar de uma pessoa, a querer-lhe bem, a sentir por ela o que não sinto por mais ninguém, a querer passar todos os meus dias, todas as minhas noites com essa pessoa, então confio e acredito. Embora às vezes, as minhas campainhas de alarme, soem alto dentro da minha mente, e me peçam para ter cuidado, para ir mais devagar, para não arriscar tudo, para me manter com um pé pelo menos em terra firme, mesmo assim costumo mergulhar de cabeça e de coração. Não perco o meu tempo a tentar ler nas entrelinhas, a tentar extrair segredos de onde não existem, a procurar fingimentos em todas as coisas menos claras. Não faço grandes planos, não tenho grandes ilusões. Vivo apenas e aproveito enquanto for bom, depois logo se vê. Simples, directa, franca, é como sou, mesmo quando amo. Mas já me tem acontecido gostar de alguém que não goste de mim da mesma maneira, que tenha uma forma de gostar e de amar menos comum, mais radical, mais desafiadora. Alguém que espere de mim coisas que não faço, porque simplesmente não faço, atitudes que não tenho, porque não estão nas minhas formas de agir, e prazeres que não me seduzem porque sou mulher de prazeres mais claros, mais imediatos, mais objectivos. Alguém mais complicado do que eu, mais sofisticado, mais difícil de decifrar. No entanto, vivemos ambos a mesma história. Falamos ambos sobre as mesmas coisas, beijamo-nos, abraçamo-nos e acarinhamo-nos ao mesmo tempo. Como é possível? Como posso gostar de estar com um homem que não consigo compreender, de quem não consigo perceber os segredos, a alma, a essência? Logo eu que sou toda transparente, às vezes até demais, que sou toda confiante, crédula, simples, que me deixo encantar e seduzir por qualquer coisa bonita que me acelere o coração de uma forma especial! Em princípio os nossos dois universos paralelos não se deviam sequer cruzar. Eu devia procurar pessoas mais de acordo com a minha forma de ver o mundo, e ele devia naturalmente fazer a mesma coisa. Eu devia querer a meu lado um homem sem complicações, sem mistérios, sem gostos difíceis e diferentes dos meus. Um homem que visse as coisas da minha forma bonita, que amasse o sol, o vento, a beleza toda que está á nossa volta e que nos pode fazer tão felizes! Eu devia de procurar um homem que se contentasse com o calor do meu corpo, com a paixão dos meus abraços, com o sabor dos meus beijos e de mim toda junto com os beijos, que achasse óptimo ver as estrelas, passear de mão dada, comer gelado nas tardes de Verão, ficar bem juntinhos nas noites de Inverno. E ele, ele devia procurar uma outra mulher, mais sofisticada, mais culta, mais inteligente, com gostos e prazeres mais refinados e mais fora do comum, com uma personalidade mais sombria, mais sedutora, mais madura, mais versátil, mais poderosa do que eu. Ou seja, nem devíamos olhar um para o outro de tão diferentes que somos. Os nossos dois mundos de gostos, de preferências, de formas de encarar o amor, são tão, mas tão diferentes que os pontos de contacto entre eles são quase inexistentes. Como é então possível que consigamos ficar juntos? Estaremos mesmo juntos? Ele não será apenas uma imagem que veio de outro universo, um holograma inventado pela minha solidão? E eu, estarei mesmo ao lado dele, ou o que ele vê será também só uma imagem, um reflexo de outro mundo? Estaremos de facto a olhar um para o outro, ou para outras duas personagens que nem existem de verdade, e que só têm hipótese de se reunirem por escassos momentos, quando os dois universos se encontram?
Mas se assim for, se os momentos em que estou com ele, são só ilusões da vista, do olfacto, do tacto, se ele todo pode não ser mais do que uma visão, um fruto do contacto entre os nossos dois universos paralelos, então como é que me apetece tanto ficar com ele? Como é que é tão bom beijá-lo, como é que é tão gostoso sentir as mãos dele em mim, como é que pode ser tão delicioso sentir-me envolvida nos seus braços? Como é que a simples lembrança de que ele existe já possa ser suficiente para me deixar húmida de desejo, para me fazer bater o coração mais depressa, para me acelerar a respiração?
Tão fascinante a ideia de que possam existir mesmo universos paralelos, coexistindo mais ou menos pacificamente uns com os outros! Tocando-se de vez em quando, aqui e ali, como aves que executam uma qualquer dança amorosa. Universos aonde existimos de outras formas, noutros lugares, noutras personalidades que se buscam mesmo assim, que se pertencem e se querem juntar numa só. Se conseguíssemos juntar todas as realidades numa só, o que aconteceria? A felicidade completa e absoluta ou o caos? Amor ou ódio? Tudo tão complicado, tão estranho...
Melhor ir aceitando o que aparece e da forma como se apresenta. Deste universo, ou de outro paralelo, se for bom, se souber bem, pode vir. Depois se cataloga e se vê aonde pertence. Primeiro tem que passar pelo filtro do coração.

Sem comentários:

Enviar um comentário