sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 5 de julho de 2011

Uma fracção de tempo apenas

Uma amiga querida emprestou-me, há tempos, um livro, cuja personagem principal era um antigo combatente de uma qualquer dessas guerras horrorosas que assolam o mundo, um pouco por vários lugares. Era um sargento, de nome Corpo, que tinha sofrido um ferimento grave na cabeça, e tinha entrado num estado quase permanente de afastamento da realidade. O Corpo vivia numa ilha semi-deserta, numa habitação de madeira, feita por ele próprio, sem quaisquer condições de conforto, nem de higiene. Vivia coberto de farrapos, barbudo, despenteado, no meio de uma colecção disforme de objectos estranhos que recolhia na praia. De vez em quando, havia alguém bondoso do outro lado do mar, que lhe trazia alimentos ou qualquer outra coisa de que precisasse, ou então ele próprio se dirigia a terra, num bote que lhe tinham oferecido para esse fim. Enquanto estava mergulhado no nevoeiro mental em que vivia, o Corpo era aparentemente feliz e sossegado, meio infantil e inocente. Relacionava-se pacificamente com quem se aproximava. Não se queixava, não reclamava, não era agressivo. Mas porém, nas poucas ocasiões em que lhe passava um clarão de entendimento pelo cérebro, era capaz de se aperceber da vida miserável que levava, da solidão que o cercava, do abandono a que tinha sido votado e da desolação que o rodeava. Nestes momentos, felizmente passageiros e breves, o Corpo sofria, chorava, gemia, debatia-se, lamentava-se e não entendia como se tinha transformado no vagabundo hediondo que o espreitava pelo espelho. Não me lembro já como acabava a história, se o Corpo foi deixado na paz triste do seu mundo cinzento de nevoeiro, se as visitas maldosas da razão pararam de o atormentar, ou se pelo contrário o tormento foi tão forte e tão insuportável, que ele tenha simplesmente desistido de continuar a viver.
De uma forma, ou de outra, achei aquela história muito parecida com a minha. Não na parte do ferimento recebido em guerra, as minhas cicatrizes são de outra ordem e têm as suas origens noutras guerras, mas na parte em que as visitas incómodas da lucidez têm sempre o condão de me fazerem sofrer demais.
Em certas alturas tudo parece estar a correr da forma mais normal possível, tudo parece estar encaixado e acondicionado nos lugares respectivos, de forma sufocante, asfixiante, mas tristemente suportável. Os enormes espaços vazios por preencher quase não se distinguem no meio da confusão diária. As tristezas, as mágoas, as desilusões estão tão conhecidas e decifradas, que fazem já parte integrante e aceite da minha personalidade. As noites que passo de olhos abertos na escuridão, revirando-me na cama, tapando a cabeça com a almofada, com medo, com frio, a tentar ouvir o que as sombras do quarto têm assim de tão importante para me dizer, parecem quase noites normais de insónias simples e comuns. A falta que sinto de carinho, de amor, de um abraço apertado, de um beijo gostoso, de uma sensação boa que me dê força para acordar todos os dias, quase se dilui no passar obrigatório das horas, no correr interminavelmente desinteressante dos dias. Até aqueles silêncios mais pesados, aquelas conversas mais vazias, aquelas palavras más que doem no coração, aqueles beijos mais frios, tudo isso se integra no vidro transparente e invisível do cenário da minha vida, como acontece nas produções de orçamento reduzido e de baixa qualidade, aonde nada é o que parece, e se tem que usar a imaginação para vencer cada dificuldade.
No entanto, de vez em quando, vindos não sei bem de onde, surgem momentos impiedosos de lucidez, de uma claridade branca, crua, e faiscante, iluminando tudo à volta e obrigando-me a encarar a dura realidade do que me rodeia. Como acontecia no livro, todas as coisas, que estavam bem dissimuladas no cinzento do nevoeiro, e que mal se notavam no meio da penumbra, depois de iluminadas daquela forma impiedosa, se começam a destacar e a ganhar vida própria. Começam a adquirir movimento como fotografias animadas e a saltar dos seus caixilhos para fora. Correm atrás de mim para me assombrarem como almas penadas em eterno sofrimento.
Nessas alturas consigo distinguir muito bem, bem demais até, os contornos de uma existência desprovida de interesse, de afectos, de alegrias e de sonhos. Reparo nos enormes espaços vazios que existem à minha volta e que deveriam estar preenchidos por felicidade, desejos, planos, ilusões… Vejo a minha própria face no espelho e aquela que me devolve o olhar não é a mesma pessoa de quem me lembro. Não tem a mesma frescura no sorriso, não tem a mesma aventura no semblante, o corpo não está erecto da maneira que costumava estar, parece que carrega todo um fardo pesadíssimo em cima dos ombros… Sinto então uma vontade tão grande de chorar, de tapar os olhos para não ver mais, de escorregar devagarinho encostada á parede e ficar encolhida no chão, no meu cantinho à espera que tudo passe, ou de correr e fugir porta fora! Mas no fundo sei bem que não há nenhum lugar para onde fugir, e que correr porta fora não me levará muito longe. No máximo, até ao limite do quintal escuro e dos muros de cimento… Nessas ocasiões, em que a lucidez me ataca, não me consigo lembrar o que fiz para me encontrar agora neste sítio escuro e vazio. Não percebo de que maneira contribui, ou deixei de contribuir, para estar aqui aonde estou. Não me recordo qual foi o ponto da estrada aonde entrei por um cruzamento errado, aonde deixei de ver as tabuletas sinalizadoras que indicavam o caminho. O mais certo foi eu própria ter seguido por um caminho desconhecido e não ter levado mapa, é assim que eu gosto sempre de fazer, e é assim que depois me perco lá mais á frente. Por vezes, dou com o caminho de volta, mas dou comigo no mesmo sítio de onde tinha fugido. Outras vezes, o caminho não tem volta e sigo até outro fim de estrada, que em pouco tempo se torna igual à estrada inicial.
É muito triste receber de vez em quando estas visitas dos tais clarões de luz, dos tais momentos de lucidez! É quando reparo na cama vazia, ou como se estivesse vazia, porque um corpo sem alma, não é mais do um saco sem nada dentro, sem amor, sem desejo. É quando me doem mais as saudades do tempo em que qualquer sopro cuidadoso do vento, qualquer aragem mais suave me acendia o pensamento. Qualquer pôr-do-sol mais vermelho ou mais bonito me deixava rendida, sem respiração, extasiada só na contemplação da beleza sublime de tudo o que nos rodeia. Quando certos abraços, certas carícias me faziam perder a noção de onde estava, do que queria, de quem era, mas sabiam-me tão bem, e eram tão naturalmente bem-vindos!
Então, assim como chega, sem ser convidada e sem avisar, a lucidez passageira retira-se para o canto de onde me espreita constantemente, e deixa-me de novo, mergulhada no meu mar conhecido de nevoeiro e de penumbra. As dúvidas esfumam-se, esbatem-se. As necessidades perdem a sua importância. Os desejos são calados e tudo é relativizado. Deixo de me preocupar com a falta de sonhos, com a ausência de ilusões, com a saudade da alegria e da felicidade. A cama vazia, ou como se estivesse vazia, deixa de ser importante e todas as minhas vontades de beijos, de abraços, não passam de, desejos e saudades, só saudades. Saudades e lembranças que se guardam, que se recordam, que me enchem a boca de água e me fazem acelerar o bater do coração, mas não me conseguem tirar daqui, não me conseguem levar com elas como se fosse montada num tapete voador e pudesse transpor muros, portões, estradas, fronteiras. Saudades e desejos só, sentimentos que não se agarram, não se tocam, não me dão a mão e não me envolvem num abraço. Não me beijam, não me acalentam, não se importam se sofro ou não. Só aparecem assim, de vez em quando na altura dos clarões de lucidez.
Quem sabe o que aconteceria se em vez de ser a lucidez cruel a visitar-me de vez em quando, fosse antes a loucura? Quem sabe o que aconteceria se em vez de conseguir distinguir tão claramente o que está mal, e está errado, e em vez de dar nome aos fantasmas que me fazem sofrer e chorar no escuro, eu conseguisse distinguir o caminho para sair através de toda esta desolação e alcançar finalmente o lado de fora da porta, do quintal, dos muros? Se a loucura me emprestasse as suas asas mágicas que ultrapassam todas as dificuldades, que desafiam todos os perigos, que se riem de todas as regras e de todos os preconceitos do mundo, eu era bem capaz de ainda tentar… Se a minha antiga amiga loucura, companheira querida de tantas lutas, de tantas batalhas, de tantas conquistas, se voltasse a lembrar de mim, e a cobrir-me com o seu manto de rebeldia e insensatez, acho que ainda conseguia…
Tenho quase a certeza de que ainda era capaz de encontrar o meu caminho de volta para os lugares bonitos de onde vim. Ou para outros lugares bonitos que existam por aí…Lugares aonde eu possa sonhar, rir, amar, ser feliz, sem pecado, sem culpa, sem insegurança. Aonde não haja nevoeiro, nem penumbras, e aonde o sol brilhe sempre lindo e cor-de-laranja num céu azul sem fim. Aonde qualquer aragem mais cuidadosa me acenda a alma, aonde qualquer pôr-do-sol mais encarnado me faça acelerar a respiração. Aonde tenha para mim um abraço apertado que me faça delirar, um beijo quente que me incendeie o corpo e o coração, e uma cama que nunca fique vazia e nunca fique fria.
Se a loucura me lançar um daqueles desafios a sério, como gostava de fazer dantes, se soprar de mansinho no meu ouvido palavras de encorajamento, se me fizer sonhar acordada com caminhos novos, sou bem capaz de me render e não resistir mais. Tem é que ser na altura certa. No exacto momento em que saio do nevoeiro que não me deixa ver para lá, e antes que a lucidez me apanhe nas suas garras. Entre essas duas alturas existe uma pequenina fracção de tempo vazio. È essa fracção de tempo que tenho que aproveitar, se quiser voar para longe daqui, nas asas da minha loucura. Não passam de alguns segundos apenas, mas são esses segundos apenas, que vão resumir toda a minha vida. E depois, ah… depois vai ser bom demais!
Talvez o personagem do tal livro que li, o sargento Corpo, tenha conseguido fazer o mesmo. Talvez se tenha conseguido escapar entre um momento e outro, entre o nevoeiro e a lucidez. A barraca de madeira que ele construiu e aonde vivia tão miseravelmente talvez ainda esteja hoje por lá, na ilha semi-deserta. Deve ser assim que nascem as casas assombradas, sítios aonde se sofreu demais, aonde se chorou demais, mas de onde, de quando em vez, alguém consegue fugir.

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