sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Uma praia na Índia

Gosto muito de ver fotografias! Sempre gostei, desde pequenita. Lembro-me do meu pai sempre com a máquina fotográfica na mão. Todas as oportunidades que lhe parecessem interessantes, pronto, lá ia mais uma foto para os álbuns de família! E em África oportunidades não faltavam, vivíamos em almoços, jantares, convívios, festas, já sem falar daquele mundão enorme de beleza que nos envolvia por todo o lado, de todas as maneiras, para onde quer que olhássemos… Tínhamos imensas fotos em Moçambique, fotos que eram para ter ficado de recordação para um dia mais tarde. Quase todas ficaram por lá, das poucas que conseguimos trazer, a maioria acabou por se estragar com a humidade. Foi uma das coisas que me ensinou a não dar muito valor às recordações que se agarram e se guardam em caixas. Prefiro antes as recordações que não desaparecem nunca de dentro do coração e que não podem ser roubadas, nem destruídas, nem vandalizadas.
Se calhar herdei do meu pai o amor pelas fotografias, mas não lhe herdei o poder da organização. Ele adorava organizar as fotos que tirava, por arquivos, por datas, por assuntos. Eu não sou lá muito assim. Sou mais desarrumada, mais trapalhona, mais impulsiva. Mas tal como ele, considero que as fotografia são um prazer palpável, uma porta aberta para outros mundos, outras dimensões. Têm qualquer coisa de mágico, de encantador! Um bom fotógrafo, na minha opinião, é aquele que consegue captar a essência daquilo que a sua câmara vê, e não se deixa ficar pelo óbvio, pelo que está mesmo à vista. Costumo ver as fotos tiradas por um fotógrafo que eu acho maravilhoso, que se interessa não apenas pelo aspecto majestoso dos lugares, dos monumentos, mas que descobre sempre alguma coisa bonita e especial por detrás de tudo isso. (Além de ter um espírito aventureiro que me delicia!) Essa é a diferença entre uma boa fotografia, e um simples cartão postal, acho eu. Mas também não percebo nada da nobre arte de fotografar… Só sei apreciar o que vejo, independentemente do valor técnico que tenha, e dos nomes complicados e científicos que sejam precisos saber para classificar fotografias. Aliás, penso que todas essas complicações acabam sempre por desvirtuar o que quer que seja de que se gosta. Quando vejo, só vejo, e quando gosto só gosto. Não preciso de mais, não peço mais, fico bem assim.
No outro dia, vi uma matéria do tal fotógrafo cujo trabalho muito aprecio, sobre uma das praias da Índia. A praia era encantadora, cheia de palmeiras, árvores que eu amo de paixão, a delimitar o areal, com uma quantidade enorme de areia dourada e macia a perder de vista, e água do mar limpa e quentinha… Tudo uma maravilha! Mas o que me chamou mais a atenção foi o facto de, naquela praia se alugarem quartos, quase à beira-mar.
Os tais quartos são assim meio rústicos, encantadoras construções pequeninas de madeira, encostadas umas às outras, todas em fila, todas a olhar de frente para o mar. Tão lindo!...
Pus-me logo a pensar como seria uma delícia sem fim alugar um daqueles quartos, não para uma semana, ou para um mês de férias, mas para toda a vida! Ficar para sempre ali, naquela praia linda de morrer, com todo aquele mar quentinho aos pés, bem perto da floresta de palmeiras mais atrás… Pode lá haver algum sítio mais lindo para se morar?
Eu “levanto-me com as galinhas”, como se costuma dizer. Mal a madrugada começa a ir embora, já estou acordada e a espreitar o céu, para ver como será a nova manhã que aí vem. Acordar todas as manhãs, bem cedinho como eu sempre faço, e ter de oferta aquela beleza deslumbrante, logo ali ao sair da porta, deve ser a melhor das maneiras de começar os dias! Ir percebendo os tons dourados do sol a nascer lá no horizonte, por cima do mar. Ver as ondas a mudarem de cor, a deixarem de ser quase negras, para passarem a ser azuis esverdeadas, ou azul-turquesa. Notar as primeiras pessoas a chegarem, animadas, conversadoras, bem-dispostas. Reparar nos barcos a partirem para a pesca, acompanhar os restaurantes a abrirem as portas devagarinho… Bonito, saudável, contagiante!
E poder ficar de noite a olhar as estrelas, no fim de o sol ter ido dormir, no fim do mundo todo se ter tingido de vermelho e laranja, em tons tão gostosos e quentes que quase fazem chorar perante tanta beleza! Ter o tempo todo da noite para poder espreitar a lua pálida e ao mesmo tempo brilhante, pendurada no céu enorme, como uma pérola gigantesca a flutuar por cima do universo… Sentir a brisa do mar, mar que á noite é como um mistério de negrume e barulho forte, de ondas zangadas e revoltas que brigam umas com as outras no meio das trevas. Gozar o sopro delicado do vento fresco nos cabelos, ou deixar-me despentear à vontade pelas rajadas mais fortes, aquelas que gostam de assobiar nos meus ouvidos, que gostam de me provocar e desafiar para correr atrás delas e tentar apanhá-las na mão, levá-las comigo bem apertadinhas, soltá-las depois, noutro sítio, noutro lugar, deixar que me arrepiem e que me entonteçam à vontade, sem que ninguém veja…
E poder finalmente circular entre as pessoas, sem ninguém me conhecer! Sem ninguém saber de onde vim, quem sou, o que fiz antes de estar ali… Sem ser preciso contar a minha história, sem ser preciso talvez até dizer o meu nome. Como naquela canção brasileira que eu ouço há anos, sempre com a mesma paixão, e que diz: “ Para quê saber meu nome, saber do meu passado? Eu sou igual a tantos, já amei e fui amado.”
Poder parar de me preocupar com o que pensam, com o que podem dizer, com aquilo em que vão reparar, poder parar de assumir o meu papel de pessoa respeitável. Voltar a ser só eu! Voltar a só depender de mim. Olhar para toda a gente e ninguém se interessar em saber mais do que aquilo que eu quero revelar. Nunca mais ter que fingir, que representar, nunca mais que ser outra senão não a que quero ser. Bom demais! Tão bom!...
E não precisar de ter data marcada para vir embora, poder ficar para sempre, até que o sempre se acabe, porque o sempre só é para sempre enquanto dura. Não precisar de fazer planos, não precisar de atingir objectivos. Não precisar de mais nada que não fosse o quartinho bonito de madeira, a praia linda e o mar aos pés.
Não receber visitas do outro lado do mundo, que me viessem desinquietar com os seus problemas, com os seus horários, com as suas obrigações a cumprir. Deixá-los lá bem atarefados no mundinho deles, consumindo os dias que lhes restam em tarefas inúteis, aborrecidas e que ninguém agradece. Mantê-los bem afastados da minha praia. Não lhes escrever, não lhes dar a minha nova morada. Senão, era bem capaz que me encontrassem de novo, e me fizessem embarcar nalgum daqueles barquinhos bonitos de pesca, e me levassem mar fora, arrastada de volta para o lugar de onde vieram. E corria o risco de no fim de sair, já não conseguir atinar com o caminho para voltar. Isso já me aconteceu e doeu demais. Não volto a deixar rasto para me seguirem. Quando for viver para o meu paraíso perdido, naquela praia linda da Índia, num daqueles quartinhos de madeira para alugar, ou noutro lugar encantado qualquer, vou apagar as pegadas que deixar para trás. Vi como se faz num filme antigo de cowboys.
E se de entre todas aquelas pessoas desconhecidas, que fariam parte da minha nova vida, lá na praia, houvesse alguma em especial que me escolhesse, e a quem eu escolhesse também, poder-me dar em paz, em tranquilidade, sem remorsos, sem pesos na consciência, deveria ser uma maravilha incalculável! Porque ali, não iam haver lembranças da vida que ficou para trás, ali não se devia fidelidade, nem permanência. Era só uma praia bonita, com muitas palmeiras, areia até perder de vista, mar quente e quartos para alugar. Ali podia ser de quem quisesse, amar quem me apetecesse, na areia, no mar, aonde fosse…sem ter que prestar contas depois. Ali podia transformar um amor de férias, num amor para a vida toda. Coisas bonitas assim, costumam acontecer em sítios bonitos como aquele!
Pronto, está decidido, quando puder, vou até lá e alugo um dos quartinhos, não para uma semana, não para um mês de férias, mas talvez para a vida toda. Só espero que a realidade seja tão bonita como a fotografia, e que valha mesmo a pena. È um grande investimento ir para tão longe e fechar tudo por aqui. Mas vai valer a pena com certeza, pelo menos pelo prazer da viagem, e pela delícia que é sempre descobrir sítios novos! Depois, logo penso, se realmente é para ficar por lá a vida inteira, ou se é preciso retomar viagem, procurar outra fotografia bonita, de outro lugar bonito, tirar o bilhete e ir lá conferir.

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