sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 26 de julho de 2011

Vem ter comigo esta noite

Vem ter comigo esta noite!
Vem e entra devagarinho, sem fazer barulho, sem ir de encontro aos móveis, sem pisar o rabo do gato que deve de andar por aí, sem acordar o periquito que dorme na cozinha, dentro da gaiola, sem fazer o cão ladrar no quintal.
Vem mesmo com a luz apagada. Que importa a falta de luz? Conheces de cor o caminho até mim. Pelo menos devias conhecer, se tiveres prestado atenção aos sinais que te dou. Mas andas sempre muito ocupado para reparar em mim, para falares comigo… Se calhar deixo uma luz fraquinha acesa no corredor, só para te orientares melhor…
Não te demores, não te atrases, nem arranjes nenhum outro compromisso de última hora. Não me deixes muito tempo à espera, que posso ficar com sono e não dar pela tua chegada. Quando estou com sono, fico de péssimo humor. E, se estiver a dormir, bem vês… perdes a viagem.
Cansei-me de esperar, de ouvir desculpas, de aceitar ausências. Não quero ter que te dividir com todo o resto do mundo, a todas as horas, a todos os instantes. Que se dane a compreensão, as boas maneiras, o civismo e a cortesia. Vem ter comigo esta noite.
Talvez de noite estejas menos ocupado, menos atarefado. Talvez de noite arranjes um pouquinho de tempo para mim. Tenho-me sentido muito sozinha, muito abandonada. Porque será que todos os assuntos do mundo são mais importantes para ti do que eu?
Entra sem precisar de bater à porta. Eu deixo a fechadura destrancada para poderes passar. Vem, estou à tua espera.
É o que faço sempre, espero e volto a esperar que apareças, que me fales, que te lembres que eu existo, que me dês um bocadinho da tua atenção. Às vezes pergunto-me para que me queres? Para que te sirvo eu, se nunca dás por mim? O que faço na tua vida, se todos os espaços já estão ocupados por outras pessoas, por outros afazeres?
Queria tanto que me perguntasses o que sinto, o que penso, o que sonho. Queria tanto que te interessasses pelos meus planos, pelas minhas esperanças, pelas minhas dificuldades! Queria tanto que voltasses a ser como eras quando nos conhecemos, quando tinhas sempre um pouquinho do teu tempo para me dedicares!
Vem ter comigo esta noite. Entra de mansinho no meu quarto. Não precisas de chamar o meu nome, não precisas de te anunciar. Não deixaria a minha porta aberta para mais ninguém. Não deixaria entrar mais ninguém. Sei que só podes ser tu. Aproxima-te de mim. Não demores, não me faças esperar.
Ultimamente temos andado muito afastados, muito distantes. Passo tempo demais sozinha. Nunca gostei de solidão. A solidão faz-me triste. Nunca aguentei ficar sozinha durante muito tempo. Se não cuidares melhor de mim, alguém pode passar e ver-me assim, sempre sem companhia, sempre com um assento vazio ao lado. Se não me deres mais atenção, posso ter vontade de emprestar um bocadinho a tua cadeira a quem pedir para me fazer companhia. Depois já sabes, conversa puxa conversa, conversa puxa amizade, amizade puxa sempre algo mais, foi assim connosco, não foi? Provavelmente já nem te lembras, ou nem queres saber. Quem sabe se até nem te importas que outra pessoa me faça companhia? És sempre tão distante, tão liberal, tão moderno na tua maneira de encarar os relacionamentos. Eu sou mais à maneira antiga, quando gosto de alguém quero-o só para mim, e gosto de ser de um homem só, enquanto estivermos juntos. Não me atraem nada relacionamentos abertos, livres, em que cada um faz o que lhe apetece, com quem lhe apetece e regressa depois ao posto principal de abastecimento como se nada fosse, lavado, pronto e limpo como se coisa nenhuma se tivesse passado. É bem possível que nem te interesses em saber que outro homem me diga palavras bonitas, que me sussurre ao ouvido, que me pegue na mão, que me ponha o braço pelos ombros, que se incline sobre o meu rosto e que me beije com doçura. E se a outra pessoa me fizer respirar mais depressa, se me fizer fechar os olhos, se me fizer abrir a boca e responder ao seu beijo? Nem com isso te importas? E se depois de me beijar ainda quiser mais? E se eu também quiser mais? Ainda assim não te vais importar? Isso já não é aceitar os outros como eles são, desculpa que te diga, mas isso é fazer pouco caso, é falta de interesse, é falta de amor. E podes dizer à vontade que tenho mente fechada e que sou imatura e preconceituosa.
Vem ter comigo esta noite, enquanto o lugar ao meu lado ainda é teu. Não percas a hora, não me enganes, não inventes histórias, não me embales com as tuas cantigas, como de costume.
Vem ter comigo, entra na minha cama com jeitinho, chega-te a mim com amor. Beija-me com cuidado, como se eu fosse de cristal e pudesse partir. Pede-me desculpa pela falta de cuidado, pede-me desculpa pelas desatenções, pela falta de tempo, pela falta de interesse. Convence-me de que estás a ser verdadeiro, convence-me de que me amas, de que me queres, de que me adoras. Só te deixo ficar se me conseguires convencer. Só te aceito se acreditar em ti. Vou saber se me estiveres a enganar. Às vezes estou tão sozinha e tão triste que até o amor fraco e mentiroso me parece melhor do que amor nenhum, mas para poderes ficar na minha cama, vais ter que fazer melhor do que enumerar horas, compromissos, agendas.
Fica comigo até a noite acabar. Fica comigo até o sol nascer no céu. Depois podes ir embora. Depois não sei quando te volto a ver, ou a falar, ou a saber de ti. Como sempre. Nunca sei de ti. Nunca queres saber de mim.
Não trabalhes tanto, não passes tanto do teu tempo a tentar ganhar mais dinheiro. Dinheiro não é tudo, dinheiro gasta-se, muda de mão, muda de dono, dinheiro deixa de ser nosso de um dia para o outro, podemos deitarmo-nos ricos e acordarmos pobres, como aconteceu lá em Moçambique. E junto com o dinheiro, podem ir todas as outras coisas que com ele comprámos, tu sabes, como eu também sei, que é assim. Mas eu não, enquanto me quiseres, eu não mudo de dono, não mudo de mãos, não deixo de ser tua, eu não vou a lado nenhum, estou aqui sempre para ti. Dinheiro nenhum do mundo pode ser mais valioso do que um abraço gostoso, um beijo apaixonado, uma carícia escaldante. Nenhuma das coisas que possas comprar com dinheiro, vai fazer o meu coração bater mais depressa, nenhuma delas vai fazer com que te ame mais, nenhuma delas me vai dar o prazer que tu me dás só com uma palavra, só com uma atenção. Para quê trabalhar tanto, para quê querer tanto? Esquece o trabalho por um pouco, esquece as obrigações por momentos, deixa para lá os deveres, os compromissos. Não atendas o telefone, não marques mais horas na tua agenda, não abras a tua porta da frente, sai pelos fundos sem te verem sair, e vem para mim.
Vem ter comigo esta noite. Toma-me nos braços, despenteia-me, beija-me, abraça-me, acarinha-me. Despe-me com urgência, faz-me gemer alto de prazer, faz-me delirar, faz-me quase parar de respirar, beija-me na boca, no pescoço, nos seios, desce até onde quiseres, entra em mim e nos meus sonhos, nas minhas esperanças, toma posse de tudo o que sou eu, leva-me ao céu e não me deixes muito tempo em terra, porque eu adoro voar. Toca-me com paixão, respira de encontro ao meu pescoço, molha-me com o teu suor, beija-me onde te apetecer, mexe-me aonde quiseres, toma-me as vezes todas que te der prazer. Sou toda tua esta noite, aproveita bem. Pode ser a última vez, posso não te receber mais. Posso-me cansar de ficar à espera, sozinha, triste, sem alegria, sem companhia.
Depois deixa-me olhar-te com atenção. Deixa-me mergulhar no fundo dos teus olhos. Quero ver se consigo perceber bem o que queres afinal de mim. Ou se já não queres nada, ou se nunca quiseste nada. Quero que me digas o que sentes, com o que sonhas, o que mais gostas, o que mais temes. Quero saber o quê, ou quem, te fez triste assim. Podes contar-me tudo, podes perguntar-me tudo. Não gosto muito de falar sobre o meu passado, sobre partes menos bonitas do que ficou para trás. Nunca respondo a certas perguntas sobre algumas dessas coisas, mas tu podes. Podes tudo. Pergunta o que quiseres saber. Esclarece o que quiseres esclarecer. Mas importa-te, interessa-te! No fim de saberes sente ciúmes, sente raiva, sente desejo, fica escandalizado, fica surpreso, fica admirado, sente qualquer coisa forte! Trata-me como se trata uma pessoa real, não como a uma bonequinha sorridente na montra de uma loja de doces!
Posso sorrir como se ainda fosse uma garotinha, posso ser alegre e divertida, posso encarar a vida e os problemas da vida de uma forma mais ligeira, é o que sempre faço para não perder o pé, para não me desequilibrar, para não cair e ser levada pela maré, é que apesar de ter nascido numa terra de praias e de mar, não sei nadar lá muito bem. Se for levada pela maré, se não houver um nadador salvador experiente por perto para me ajudar, posso muito facilmente ir dar ao mar gelado aonde se afundou o Titanic, morrer de frio nas águas geladas pendurada nalgum bloco de gelo. Posso ser levada até aos tubarões que rondavam os mares das minhas praias em Moçambique e dos quais eu tinha tanto medo que nunca largava a mão do meu pai quando íamos ao mar. Posso ser raptada por um barco de piratas sanguinários e malvados, daqueles que bebem rum pelo barril e invadem barcos para saquear, que têm uma bandeira negra com uma caveira hasteada a voar ao vento, como o Corsário Negro de Salgari, ou como o Sandokan da minha infância, se bem que ser raptada pelo Sandokan, não se pode propriamente dizer que fosse uma consequência muito má de ser levada pelas ondas... Mas posso também ir acostar a uma praia de tribos desconhecidas e ancestrais de canibais horrendos, e onde vivem lagartos gigantes descendentes dos grandes dragões das histórias ou dos dinossauros dos livros de ciências da natureza. Ou muito simplesmente, posso morrer afogada. Eu sei que posso parecer muitas vezes infantil, imatura, engraçada, leviana até, inconstante, descarada, brincalhona, inconsequente, mas gosto muito de ti. Se tivesses tempo para me conhecer um bocadinho melhor, talvez te surpreendesses comigo. Se tivesses tempo e se te interessasse fazer isso.
Vem ter comigo esta noite. Ama-me e não saias logo. Passa toda a noite comigo. Não fiques distante, não fiques atrapalhado. Não precisas de ser grande comigo. Não precisas de ser o melhor. Nem o mais inteligente, nem o mais entendido sobre todas as coisas do mundo. Não precisas de me impressionar com a tua cultura, com a tua inteligência, com as tuas vivências diferentes das minhas. Já sei disso tudo. Estou a par disso tudo. Admiro muito todas essas qualidades que fazem de ti um homem especial, diferente de todos os que conheci até agora. Mas não é só por isso que te adoro. Antes mesmo de saber o tão brilhante que és, já me tinhas conquistado com as tuas palavras bonitas, com o teu carinho, o teu cuidado, as tuas atenções tão queridas e tão amorosas. Antes de saber todo o resto sobre ti, já te adorava pela forma linda de te relacionares com as pessoas da tua vida e das tuas amizades, a maneira deliciosamente espontânea que tens de te dar a conhecer, numa entrega total e simples, tão desarmada e tão bonita que chega a parecer impossível encontrar alguém assim, maravilhosamente bonito como tu! Estou habituada a outro género de homens. Mais armados, mais formais, mais protegidos nas suas couraças, mais escudados contra a vida, memos francos, menos leais, mais egoístas e interesseiros. Tu és único. Quero-te muito! Vem ter comigo esta noite.
Vou ficar à tua espera. Quando me quiseres, estou por aqui. Podes entrar. Segue a luz do corredor. Mesmo que ouças o cão ladrar, não faz mal, é um gigante bondoso, nunca morde. Mesmo que pises o rabo do gato, não te preocupes, ele foge para algum canto e já se recompõe. Mesmo que acordes o periquito e ele comece a fazer barulho, deixa, já se cala. Vem ter comigo esta noite, deixa o resto do mundo lá fora. Não interessa como vai ser o dia de amanhã. Não interessa como vai ser o resto da nossa história.
Vem ter comigo esta noite. Entra na minha cama e deita-te ao meu lado. Abraça-me, beija-me, faz amor comigo. Para começar já está muito bom. O resto, logo se verá. O depois só interessa depois. Agora és o meu presente. Agora és tudo para mim.

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