sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 12 de julho de 2011

Vou continuar a escolher o meu próprio caminho

Se há uma pessoa no mundo a quem eu seja capaz de escutar, e chegar a pensar seriamente em atender, sem dúvida é a minha irmã.
A minha irmã mais nova do que eu uns aninhos, ajuizada, calma, bem comportada, ponderada. Que nunca comete um deslize, que nunca sai dos limites naturais do bom senso. Que não sente como eu sinto o apelo do vento, do sol, das ruas desconhecidas, das aventuras, dos mundos de encantar. Que se mantém com os dois pés bem plantados no chão, e nunca dá um passo sem saber se será capaz de dar o próximo, e nunca entra por um caminho desconhecido se não tiver consigo o mapa das estradas. A minha irmã que é tudo o que eu não sou, que tem todo o juízo que me falta, que possui todo um mundo de máximas, conselhos, admoestações, palavras sensatas. Que vê o mundo de uma forma tal, que às vezes parece que não vivemos as duas no mesmo planeta. Aonde eu vejo beleza, ela vê desconfiança. Aonde eu consigo sonhar com promessas bonitas, indícios maravilhosos, sinais do universo de que vale a pena continuar a lutar e a ter esperanças, ela apenas descobre contra-sensos, ilusões infundadas e enganos tolos. Se eu gosto de apanhar chuva, ela odeia molhar o cabelo porque é mau para a saúde, se eu adoro as cores, o sol, o vento, o mar, olhar para o mundo e ver tudo a sorrir como num convite tentador, ela apenas encontra razões para pensar, para reflectir, para recuar a tempo, para examinar primeiro antes de continuar. Não podíamos ser mais diferentes, mas também não podíamos ser mais amigas. Afinal, ela é a minha única irmã, a única que sobrou de todo aquele tempo estranho e nublado em que éramos quatro e éramos todo o mundo que tínhamos.
A minha maninha linda era a minha única companhia nos tempos de criança. Só nos tínhamos uma à outra para confortar, dar a mão e aguardar que a tempestade passasse. Quando todo o nosso mundo ruía em redor, lá estávamos nós duas, pequenitas, assustadas, perto uma da outra, encostadas e encolhidas, à espera que a normalidade aparente voltasse, e as cosas todas ocupassem de novo o seu devido lugar. A minha irmã mais nova que não se ressentia de eu ser a preferida do nosso pai, que não mostrava nunca desagrado ou inveja nas vezes em que eu saía com ele, e ela ficava a aturar os disparates azedos da nossa mãe. Que aceitava sempre que eu dividisse com ela os chocolates, as bolinhas doces, os caramelos que trazia da rua. Que me emprestava as bonecas e não pedia nada em troca, apesar de eu ter muitas mais bonecas do que ela graças às perseguições impiedosas que fazia ao meu pai, até ele mas comprar. Que ouvia com paciência as minhas birras, as minhas reclamações quando a vida não me corria exactamente da forma que eu queria.
Depois, quando fomos para a escola, a minha irmã sempre com as suas amigas escolhidas entre as mais bem comportadas, as mais sossegadas. Sem nunca se envolver em questões, em diz-que-disse, naqueles disparates tão próprios das raparigas, sempre amiga das suas amigas, leal, segura. Não acho que ela escolhesse verdadeiramente as amigas, acho apenas que havia uma inclinação natural das miúdas mais atinadinhas e comportadas, as meninas queques, como nós chamávamos, se aproximarem dela e gostarem de ficar por perto. Sempre muito melhor comportada do que eu nas aulas, mais estudiosa e aplicada do que eu, mas nunca conseguindo ter tão bons resultados na escola. Enquanto eu sem mesmo prestar grande atenção aos professores, sem perder muito do meu tempo a estudar, tirava sempre notas muito razoáveis nos testes, ela empenhava-se a sério, estudava de facto. E não ficava triste depois, não achava uma injustiça, não se queixava. Aceitava apenas como uma verdade inegável o facto de eu ter “melhor cabeça para os estudos”, e conseguir sem esforço, nem dar o devido valor, aquilo que ela tinha que se esforçar bastante para conseguir.
Mais tarde em adolescentes, em jovens, a minha irmã mantinha-se sempre recatadamente no seu cantinho. Não gostava de saias curtas, nem roupas apertadas. Não se ria para qualquer um, nem acompanhava com toda a gente como eu fazia. Enquanto eu vivia metida numa confusão e turbulência constantes e alucinantes, ela lá estava, calma, serena, ajuizada. Como um rochedo, como um ponto de referência, como o centro do furação, o espaço tranquilo aonde os ventos não sopravam e não derrubavam tudo em redor. Sempre a tentar dar-me bons conselhos, sempre “com o coração nas mãos”, como ela dizia, quando eu me demorava mais, quando não sabia para onde eu tinha ido, com quem, em que sarilhos me estaria a meter. A minha maninha linda que me esperava sempre para irmos juntas para casa e o nosso pai não desconfiar de como eram diferentes os mundos em que as duas vivíamos. Que me via chegar espavorida, despenteada, ofegante, descer da garupa de qualquer moto, atrasada, ou pelo braço de algum namorado, sempre a rir, sempre nas nuvens, sempre com o meu regimento leal de admiradores, envolvida na confusão dos amigos que me acompanhavam, contente, despreocupada sem fazer caso das horas, sem me preocupar com o facto de ela estar lá, à minha espera.
A minha irmã, que apesar de ser muito bonita, com o seu ar exótico de indiana de cabelos lisos e olhos rasgados, o seu sorriso calmo e sereno, as suas roupas compostas e controladas, perdeu alguns namoricos por minha causa, e viu alguns pretendentes interessarem-se por mim, e que, mesmo assim não se zangava nem ficava de mal comigo. Continuava a ser a mesma, a falar-me do mesmo modo carinhoso, a querer tomar conta de mim e do mundo infinito de trapalhadas que era a minha vida. Só lhe conheci um namorado sério. Aquele com quem ela casou, e que é o pai dos meus sobrinhos, o que foi meu cunhado durante bastantes anos. Feio, bruto, bronco, ignorante, mas que na altura parecia muito bom rapaz, e parecia gostar muito dela.
Quando saí de casa, quando fugi, virei costas a tudo e comecei a minha vida de adulta, a minha irmã ficou lá, na caverna. Ficou com o nosso pai, foi ela quem tomou conta dele nos últimos tempos, mesmo depois já estar casada. Ela, a que tinha passado a vida em segundo lugar, a que era quem sempre ficava para trás, a que nunca recebia atenção, a que nunca ficava na cozinha de noite a ouvir histórias de fantasmas e de policias e ladrões, a que não era escolhida para passear aos Domingos, a que não recebia chocolates nem bonecas. Ela, a minha irmã querida, bonita, generosa, com o coração maior do que o mundo!
Depois, quando eu casei, ficou toda contente, descansada, tranquila. “- Finalmente, vou ter sossego! Finalmente ganhaste juízo e orientaste bem a tua vida!”
E teve mesmo sossego, pelo menos no que a mim diz respeito. Não lhe dei mais motivo para preocupações, nem para dores de cabeça. Cumpri integralmente tudo o que se esperava de mim. Não houve mais bilhetes para me entregar, recados para me enfiar na mão de forma despercebida, mensagens segredadas rapidamente, nem houve mais notícias sobre as coisas antigas que tinham ficado lá para trás, até as mais perigosas, aquelas que inflamam o coração, só de recordar. Tudo isso, tudo o que era a minha vida vibrante, linda, selvagem, desapareceu. E se às vezes eu me queixava de tristeza, de vazio, de falta de sonhos, de esperanças, de alegria, ela dizia apenas “tem juízo e agradece o que te calhou. Da forma como estavas a levar a tua vida, nem sei como conseguiste chegar aonde chegaste!” E se eu às vezes chorava, e me lamentava, e me lastimava ela apenas ouvia e sorria. “Os antigos demónios a agitarem-se, mais nada, passa, é passageiro, ela agora mudou, tem muito mais tino, não há problema”.
A minha irmã que detestou que eu tivesse facebook, blogue, email, ou internet sequer. “-Não são coisas boas para ti. Deixa-te estar quieta e sossegada. Não arranjes confusões! Não procures trapalhadas. Estás tão bem assim…” A minha irmã que não acreditava que eu não estava nada bem assim, que não percebia o quanto me estava a deixar morrer, a esquecer do que era viver, a deixar passar os anos e o tempo numa letargia dolorosa e insuportável. Que não fazia ideia de como batia o meu coração quando por momentos deixava voltar um pouquinho de mim, um pouquinho das minhas fantasias, dos meus bem quereres, da minha vontade indomável de continuar a viver. A minha irmã que não sabia o quanto eu chorava de noite, o quanto me debatia e me castigava por isso, o quanto eram tristes os meus dias, as minhas tardes, todas a horas da minha existência. Ela própria, a que achava que “mais vale aguentares o que for preciso aguentar, mas manter a vida organizada e respeitável que tens, do que atirares tudo para o ar e ficares sem nada. Outra vez só, com os teus sonhos, as tuas fantasias e os teus disparates!”
A minha maninha mais nova que continua a pedir-me que tenha juízo, que tenha cuidado, que abrande, que retroceda enquanto posso. Que não siga caminhos que não sei aonde vão ter, que não dê passos sobre os quais não possa voltar… A minha irmã mais nova, que se voltou a preocupar comigo, depois de tantos anos, e que voltou a tentar pôr um pouco de ordem nos meus pensamentos, nos meus afectos, nos meus quereres…
Quem diria que íamos estar ainda as duas, outra vez, na mesma situação em que já estivemos tantas vezes antes? Ela, sossegada, atinada, calma e ponderada. Eu, sempre com a cabeça nalguma nuvem mais longe, mais acima, mais bonita, mais distante... Ela, serena e controlada, tranquila e confiante. Eu, inquieta, intempestiva, surpreendente, sempre a tentar chegar mais além, sempre a pedir um pouco mais da vida, das situações da vida.
“-Já vi vezes demais esse filme. Pensei que não voltasse a estar em exibição nunca mais.” Diz ela, enquanto eu nunca acho o filme repetido. Encontro sempre mudanças, variantes, formas diferentes de contar a mesma história, outros finais possíveis. Para mim, tudo o que acontece de novo, é novidade. Para mim, as novidades podem sempre ser coisas boas, ou podem não ser. Há novidades mais tentadoras do que outras, mais prometedoras, mais deliciosas. Há novidades tão boas, que nos enchem o mundo de alegria, que faz doer o coração só de pensar em pô-las de lado, em desistir delas. Acho que vale a pena tentar descobrir, que vale sempre a pena tentar ser feliz. Mesmo que para isso, tenha que dar mais um desgosto à minha maninha querida, e voltar a não ouvir o que ela me diz.
E esperar que se tudo correr mal, se tudo for só mais um sonho, no fim, se houver fim, pode ser que não haja fim desta vez, a minha irmã linda ainda esteja lá à minha espera, para irmos para casa como dantes. E me dê um beijinho, e me abrace, e me diga como sempre dizia “-Vês! Eu não te avisei? Agora não chores, que vai tudo passar, vai ficar tudo bem!”

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