sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Ainda queres ir comigo dar a volta ao mundo?


Ontem lembrei-me do Jacob.
Lembro-me do Jacob muitas e muitas vezes.
Mas ontem,
não sei porquê, a lembrança dele não me abandonou o dia inteiro…

Jacob foi um amigo querido que eu tive, há muito tempo.
Ficou na minha vida por uns meses largos,
está no meu coração até hoje,
e é daqueles amigos
que vai ficar comigo para sempre.
Eu tinha dezassete anos, ele, vinte e cinco.
Eu era louca, livre, alegre, solta no mundo.
Ele tocava violão, fumava, viajava e sonhava.

Em comum tínhamos os cabelos compridos,
a paixão pela liberdade,
a vontade de ir sempre mais além
do que aquilo que a próxima esquina deixava antever.

O Jacob conhecia países e lugares nesses países
que eu nem sequer sabia que existiam.
De vez em quando punha a mochila às costas
e desaparecia pela estrada fora.
Assim…
Sem mais nada a não ser a vontade indomável de ver o que está
para além da linha do arco-íris.
Acho que foi ele quem me ensinou a gostar do arco-íris!...

Depois voltava quando eu menos esperava.
Cheio de histórias, repleto de novidades.
Trazia sempre uma lembrança, um carinho, um agrado para mim.
Uma folha de jornal da localidade aonde estivera,
uma caixa de fósforos que usara e que tinha alguma coisa interessante para ler,
uma prata bonita de embrulhar chocolates…
No outro dia,
encontrei no fundo duma gaveta
a pulseira de missangas vermelhas, brancas e azuis
que ele me trouxe de um dos passeios a França.

Os meus outros amigos olhavam-no com desconfiança.
Não percebiam o que eu via nele,
tão pacifico, tão calmo, meigo, sossegado.
Tão bonito, com os seus cabelos cor de mel a rodearem-lhe o rosto como um manto.
Sempre pronto a partilhar tudo o que tinha.
Partilhar naquela altura em que não havia facebook,
era um conceito pouco divulgado entre a juventude.
Ele oferecia cigarros, cerveja, tocava as músicas que lhe pediam.
Não reclamava, não exigia nada em troca.
O único de entre todos os daquele tempo,
que era capaz de ficar perto de mim
sem me tentar agarrar, nem beijar,
nem puxar para um canto mais abrigado.
“Amaricado”, era o que lhe chamavam.
Querido, amigo, lindo companheiro do coração, era o que ele era para mim.

Muitas vezes o Jacob me convidou para ir com ele
“á volta do mundo”,
como ele dizia.
Claro que nunca pude ir…
“Pomos o pé na estrada, e depois já ninguém nos apanha. É tudo nosso! Vamos?”

Se fosse hoje?
Se ele ainda estivesse por aqui,
com o seu violão ao ombro,
os cabelos do tamanho dos meus,
a voarem como os meus voam ao vento,
os olhos castanhos tão parecidos com os meus,
aquele sorriso inocente que era só dele e nunca mais vi em ninguém…
Se ele me voltasse a convidar para ir com ele?
Ontem tinha ido de certeza!!!

Naquela altura nunca notei nada de diferente no meu amigo.
Não me apercebi de nenhuma mudança,
de nenhuma alteração de humor.
Ele sempre foi como continuava a ser,
calmo, atencioso, cortês, delicado…
Nunca se queixou comigo, nunca se lastimou de nada.
Aliás, eu pouco sabia da vida dele para além do seu amor pela aventura.
Sabia o que todos sabiam,
os pais eram ricos,
ele não precisava de trabalhar,
passava a vida a viajar e a tocar viola,
sem manorada fixa, sem amigos fixos,
sempre sozinho, ou comigo de vez em quando.

A última viagem á volta do mundo
levou o meu amigo Jacob para debaixo de um comboio.
Seguiu em frente, como sempre seguia,
só que daquela vez
não entrou na estrada bonita aonde costumava entrar.
Seguiu pelo trilho da via-férrea que passava atrás da mata
aonde entretínhamos os nossos dias.
Foi esmagado, trucidado, abraçado de frente pelo comboio.
Morreu com a sua mochila de caminhante às costas,
o seu violão pendurado ao ombro.
Porquê?
Nunca soube.
Dessa viagem ele não voltou mais
para me contar como tinha sido.
Nem me trouxe mais nenhuma recordação do mundo do outro lado.

Acho que ontem me lembrei dele
mais do aquilo que é costume,
porque finalmente percebi
o que o levava a partir sempre,
uma vez após outra,
sem se cansar, sem se deter, sem se saciar.

Chega uma altura na vida da gente
em que todos os caminhos que temos por perto
vão dar a lugar nenhum.
Em que todas as estradas que conseguimos ver da janela
estão experimentadas e são conhecidas.
Não há mais atalhos para explorar,
nem mais montanhas virgens
para subir e ver o que está do outro lado.
Tudo é igual.
Tudo é feio e é cinzento.
As cores bonitas fugiram todas para o arco-íris que está na outra ponta do horizonte.
Nessas ocasiões,
os viajantes como o Jacob,
põem a mochila ás costa e entram na estrada que os leva para longe.
Os que não são viajantes,
continuam aonde estão.
A morrer devagarinho em vida.
Á espera de algo que nunca vai chegar.

O Jacob escolhia sempre seguir ao acaso pela estrada
que lhe apetecia conhecer na altura.
Talvez tenha chegado uma ocasião
em que até todas essas estradas estivessem conhecidas.
Em que mesmo do outro lado do horizonte
já não houvesse mais nada para descobrir.
Nem nenhuma razão para parar em lugar nenhum…

Talvez tivesse sido por isso
que ele escolheu o abraço do comboio,
experimentar o único caminho por aonde ainda não tinha seguido…

Jacob, que tal vires-me contar como é por aí?
Que me dizes de apareceres um pouquinho,
como fazias dantes,
de mansinho, com um sorriso,
sem eu dar por isso?
Pode ser em sonhos,
ou pode ser aqui mesmo sentado na outra ponta do meu sofá.
Não tenho medo nenhum!
Não tenho medo de fantasmas, nem de almas penadas,
e tu és meu amigo, nunca ia ter medo de ti!
Conta coisas de lá,
se é sossegado, se existem também lágrimas e tristezas,
ou se é um lugar aonde se pode simplesmente descansar em paz…

Se for bom,
se estiveres a gostar,
convida-me de novo a ir contigo…
Quem sabe desta vez eu aceito.
Se fores comigo,
se me deres a mão
se me prometeres que não desapareces no caminho…
Acho que sim.
“Pomos o pé na estrada, e depois já ninguém nos apanha. É tudo nosso! Vamos?”

É que as minhas estradas estão todas batidas demais!







2 comentários:

  1. As estradas não estão nunca batidas demais, há sempre algo novo debaixo das mesmas pedras, dessas mesmas estradas, só não podes desistir de procurar, isso nunca, amiga!

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  2. Pois é, tens razão. Mas de vez em quando dá uma canseira de andar sempre a rebuscar entre as pedras por algo de novo! Queria que a vida me trouxesse uma coisa tão indiscutivelmente nova e maravilhosa, que eu a visse até de longe, sem ter que procurar rente ao chão. Se calhar até já trouxe, só que o brilho de vez em quando fica um bocadinho embaciado... Mas depois volta a brilhar de novo. Hoje está bem brilhante! Amanhã? ....
    Obrigada pelos comentários!
    Muitos beijinhos para ti, amiga do coração!

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