sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Descansa em paz


“- Se for menina pomos-lhe fitinhas no cabelo…
   -Se for rapaz vai jogar contigo á bola…”

Não foi nem menina, nem rapaz.
Não foi criança, nem adulto.
Morreu antes, durante e depois de tudo isso.

Lembro-me de mim aos dezanove anos…
A encolher a barriga,
todos os dias na esperança de que estivesse enganada.
A ver-me cada dia mais larga, mais gorda,
a convencer-me de que não era nada.
Depois o teste da farmácia com o temido resultado.
O farmacêutico conhecido de há tantos anos, a perguntar-me se me sentia bem.
O mundo a fugir debaixo dos pés.
O ruído trocista das grades a fecharem-se de novo devagarinho sobre mim
numa saudação irónica de:“Aonde pensaste tu que ias? Apanhei-te de novo!”
Os dias sem dinheiro,
sem comida,
sem ninguém.
O frio, a solidão.
Aquela criaturinha desconhecida a crescer dentro de mim,
a invadir o meu mundo,
a levar para longe todos os meus sonhos de liberdade,
a transformar em pó a minha luta, antiga de tantos anos,
para tomar as rédeas da vida nas minhas mãos…

Lembro-me de mim,
A entrar pela porta da sala,
a atravessar a cozinha cheia de gente,
com ele na alcofa que uma colega do trabalho me tinha oferecido.
Como se chegasse da mercearia carregada com um saco de bananas.
Ninguém olhou, ninguém pediu para ver,
Nenhum sorriso, nenhuma simpatia.
Depois sozinha,
Naquilo que era o meu quarto cheio de vento e de ratos,
com ele a chorar, sempre a chorar.
E o mundo todo a acontecer lá fora,
do outro lado do muro que era cada vez mais alto,
e cada vez mais intransponível.
Os primeiros tempos,
o leite que era tão caro,
a roupas que deixavam de servir!
As alturas certas das coisas acontecerem,
e que nunca chegaram a acontecer.
As dúvidas, os medos, a certeza instintiva de que alguma coisa estava muito errada.
Depois a confirmação,
O diagnóstico, a doença.
A vida bonita que eu tinha buscado para mim cada vez mais afastada.
O sol cada vez menos brilhante.
Os sonhos cada vez mais por sonhar,
Cada vez mais guardados, arquivados, despidos de importância,
convenientemente disfarçados sob outros nomes, outras urgências…
Mas sempre lá á espreita, como lobos famintos em roda da presa ferida.
Tantos anos!
E tantas complicações!
Foram lágrimas demais, como diz a canção.
Foram tristezas demais…
Não era para ser assim,
Não tinha que ter sido assim!
De vez em quando parece que o velhinho lá de cima,
aquele que separa as águas, comanda os ventos
e distribui as tempestades,
se esquece de nós,
ou sobrestima as nossas forças…
Perde a noção de que nos fez fracos, assustadiços, medrosos…

Lembro-me de que a última vez em que o vi,
ele devia ter uns seis anos de idade.
Agarrou num bonequinho de louça que enfeitava um móvel qualquer de casa,
veio ter comigo,
largou o boneco no chão, á minha frente.
O boneco partiu-se,
ele estendeu uma mão para mim,
de pé, em frente dos cacos partidos,
como se fosse uma carícia,
como se tivesse acabado de me oferecer uma prenda…
  
Depois, nunca mais!
Veio o internato, que não resultou,
Veio a separação durante todo este tempo…
Este ano ele devia fazer vinte e quatro anos.
Mas afinal,
já há três anos que ele não fazia anos nenhuns.

Minha querida amiga P., obrigada por teres descoberto,
obrigada por me teres contado,
obrigada pelo cuidado, pelo carinho, pela preocupação!
Se soubesses como me tens feito falta estes anos todos!
Se soubesses quantas vezes me lembrei de ti e da tua amizade!
Como teria sido bom ter podido contar com o teu apoio
em tantas alturas tão tristes da minha vida!
Desde os quinze anos até agora,
já se passaram tantas coisas,
já fiz e desfiz tantos caminhos,
já virei tantas esquinas fechadas na auto-estrada da minha vida,
mas saber que ainda és minha amiga e ter-te reencontrado
foi uma das passagens mais bonitas da minha história!
Gosto muito de ti, amiga do coração!

Quando á tarde falei com aquele que é agora o meu amor,
não lhe contei nada.
Porquê? Para quê?
Como é que contamos ao homem que amamos
que tivemos um filho
que não víamos quase há vinte anos,
que descobrimos que esse filho morreu há três,
e que a vida continua,
e que assim foi melhor para todos
e que não há-de ser nada?
Como é que se pode esperar que ele compreenda, aceite, perceba?
Melhor mesmo não dizer, não explicar.
O que desconhecemos não nos pode fazer mal,
e aquilo que desconhecem de nós também não.
Se não tivesse a certeza de que ele é tão ocupado,
tão atarefado tão cheio de compromissos,
podia acreditar que ele se sentava em frente ao computador dele,
lia este texto,
e ficava a saber de tudo.
Telefonava-me,
falava comigo,
dizia que estava tudo bem,
que tudo ia passar e que me amava na mesma.
Isso se eu acreditasse que ele ia ler…
Como sei que não,
não me preocupo com a sua possível reacção.
Prefiro continuar a ser a bonequinha sorridente
no ecrã do computador.
Afinal foi por ela que ele se apaixonou.
Não por uma mulher cheia de problemas e contrariedades,
mais instável e mais perdida
do que um moinho de vento numa noite de tempestade.

Quando ontem á noite pus a cabeça na almofada,
perguntei a mim própria se Deus me teria afinal ouvido...
E a incerteza dessa resposta,
só me fez sentir ainda mais miserável, mais culpada e mais desgraçada.
É que só eu e Ele sabemos,
quantas vezes, na escuridão da noite,
por entre os berros e os choros do meu filho ainda pequeno na altura,
eu pedi e roguei que o sofrimento acabasse!
E afinal,
de uma forma ou de outra,
pelo menos esse sofrimento,
agora acabou de vez.
Será que afinal Ele me escutava?

“- Se for menina pomos-lhe fitinhas no cabelo…
   -Se for rapaz vai jogar contigo á bola…”

Não foi nem menina, nem rapaz.
Não foi criança, nem adulto.
Morreu antes, durante e depois de tudo isso.





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