sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Descapotável cor-de-rosa


 Há muito tempo ninguém me convidava para passear.
Passear mesmo.
Sair para ver um sítio bonito,
um lugar agradável.
Não daqueles convites disfarçados de passeio,
disfarçados de amizade,
cheio de pretextos, de desculpas,
mas que trazem sempre um mundo sem fim
de possibilidades escondidas e ocultas.
Desses convites dissimulados
recebo muitos,
quase todos os dias.
Porque os anos passam,
a vida vai-se alterando,
mas os homens,
esses não mudam nunca…
Sei lidar bem com eles.
afinal há tantos anos que os conheço,
alguma coisa devo ter aprendido…

Na outra noite,
fui passear de descapotável cor-de-rosa,
até um lugar lindo aonde nunca tinha estado,
e aonde nunca estive realmente de facto.

Lembrei-me das motos da minha juventude,
lembrei-me de como o vento soprava nos cabelos,
de como a saia curtinha se levantava na estrada,
de como os motoristas assobiavam e diziam gracinhas patetas.
Á minha frente,
naquela altura,
foram tantos condutores diferentes!
Namorado que era namorado que se apresentasse,
tinha moto,
ou tinha automóvel,
calças de ganga russas,
barba mal feita, ou por fazer,
maço de tabaco a sair da algibeira,
capacete entalado em baixo do braço ou chaves enfiadas na dobra do dedo,
andar gingão,
muita conversa bonita
e muito sorriso malandro.
Tive tantos assim!
Feitos em fotocópia uns pelos outros.
Mudava o nome, quando o nome não ficava só pelas alcunhas.
Mudava a cor do cabelo, dos olhos,
Mas a pessoa em si era sempre a mesma.
Todos como eu era então,
livres, selvagens, soltos na vida e nas estradas da vida,
não importava se as estradas eram asfaltadas ou caminhos de terra batida.
De moto, de automóvel, andei vezes sem conta!
Fui e voltei de lugares que já esqueci,
Lugares aonde nem reparei que estava a chegar,
de onde nem me dei conta que estava a sair.

De descapotável,
que é a meu ver um género de carro á parte dos outros automóveis,
nunca tinha andado.
Nem nunca tinha saído com alguém que se despedisse sem um beijo atrevido,
sem uma tentativa,
sem um convite disfarçado na sombra do sorriso.
Veio-me á cabeça o meu melhor amigo dos tempos de criança.
Aquele que no pátio da escola me defendia dos outros rapazes,
me salvava dos apalpões,
dos empurrões,
dos ovos e da farinha na altura do Carnaval.
Aquele que anos mais tarde,
me levava para dançar,
para beber café,
para conversar.
Que nunca passou do braço pelos ombros,
que nunca foi além do beijinho no rosto.
Deixava-me á porta de casa,
um pouco afastado para o meu pai não ver.
Um sorriso lindo sem maldade!
Meu amigo querido de há tantos anos!
Mais do que os anos de que me consigo lembrar.
Meu amigo desde que desembarquei em Portugal.
Desde os tempos em que eu era a melhor aluna da classe,
e vestia bata branca bem engomada,
e era considerada pelas professoras
e admirada pelos colegas.
E meu amigo depois,
quando na minha busca desenfreada por liberdade
voava sem rédeas na garupa de qualquer moto barulhenta,
ou deslizava sem travões ao lado de qualquer paixoneta de ocasião.

Desde os tempos da minha juventude atribulada,
desde que me perdi do meu amigo,
(não do Jacob de ontem,
graças aos céus tenho tido vários bons amigos,)
até agora,
nunca mais tinha voltado a sair com ninguém só por amizade.
Nem nunca mais me tinham convidado para ouvir música pela noite fora,
nem tinha andado de salão em salão de baile,
á procura do lugar mais agradável para ficar.

Quando me fui deitar,
depois do passeio,
depois da música,
parecia que levava no rosto ainda
a deslocação do ar da estrada.
Parecia que levava nos cabelos o vento a soprar
na noite quente
Como se realmente tivesse saído.
E tivesse mesmo entrado no descapotável.
E tivesse de facto ido passear.
Como se depois do passeio,
tivéssemos voltado para o salão de baile,
em busca de novas músicas,
de novas conversas.

Quando na verdade,
Não cheguei nunca a sair da minha cadeira
em frente ao computador.
Não existiu descapotável cor-de-rosa nenhum,
nem houve qualquer salão de baile.
A não ser, claro,
no mundo da imaginação.
No mundo paralelo ao da realidade que conseguimos tocar,
nesse mundo mágico e maravilhoso que é o mundo virtual.

Fiquei com uma dúvida.
O passeio foi virtual,
O descapotável cor-de-rosa foi também virtual,
assim como os salões de baile dos quais entrámos e saímos.
Mas o acompanhante era uma pessoa real.
Se essa pessoa tivesse passado para o meu lado do ecrã,
Se se tivesse materializado num passeio a sério,
por uma estrada com vento quente a sério,
se me tivesse acompanhado para passear,
se me tivesse levado de facto a dançar,
e depois me tivesse deixado á porta de casa…
Será que se ia despedir com um beijo no rosto?
Será que ia abrir a porta do meu lado para eu sair?
Teria perguntado no dia seguinte se o passeio tinha sido bom?

Não sei…
Mas não quero saber.
A magia e o encanto do mundo que existe dentro dos nossos computadores,
não é para trazermos cá para fora,
salvo honrosas excepções, claro.
Nem há regra que sobreviva sem pelo menos uma excepção.
Já tenho a minha excepção.
Mas regra geral,
O que é virtual,
na virtualidade deve ficar.`

Gostei tanto de passear de descapotável!
Gostei tanto de ir ouvir música e dançar depois!
Fez-me lembrar,
fez-me sonhar.
Nestes últimos dias tenho andado bem precisada de quem me faça sonhar.
Ou de quem me faça acreditar que ainda vale a pena sonhar.
Ou de quem saia dos sonhos e se torne enfim real.
Tenho andado muito carente…
Queria que a minha excepção que confirma a regra,
se materializasse agora,
aqui em frente de mim!
E me convidasse para sair.
Me levasse de moto, de carro, a pé.
E não me deixasse passear de descapotável com mais ninguém.





2 comentários:

  1. Só tu Glória escreves com tanto conteúdo e sem segundas intenções -apenas pelo prazer de escrever e aconchegar a alma :))

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  2. Obrigada amiga! Acertaste em cheio! Pelo prazer de escrever e aconchegar a alma! De vez em quando sabe tão bem a gente sentir-se um bocadinho mais aconchegada! Nem que seja só com palavras, uma vez que o aconchego principal é difícil de trazer até mim :))
    Beijinhos

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