sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Em todas as alturas da vida


Ontem, fui uma menina tão sozinha! Sempre calada, sempre tristonha. Os olhos e o coração postos na hora de voltar para casa, de sair da escola, de sair da rua, de sair do caminho de alguma coisa ou de alguém, de fugir para todos os cantos escondidos do mundo. Sempre com a mesma sensação gelada de estar colada com fita-cola em todo o lado Em todas as alturas tendo a mesma noção de que não estava no meu sítio, no meu lugar. Sem sequer saber muito bem se tinha de facto algum sítio, algum lugar, a que tivesse o direito de chamar meu, e aonde tivesse o direito de querer descansar.
Ontem senti muitas vezes que viver não valia a pena, cheguei mesmo a contar os anos, a fazer cálculos para saber, pela velha lógica da matemática, quanto mais tempo me faltaria para andar por cá. Pensava: “se viver até aos setenta, faltam-me…, se viver até aos oitenta, faltam-me...” “Mas se me acontecer alguma coisa, posso não durar mais do que trinta, quarenta…” Muitas vezes fiquei perdida no meio do caminho, sem me lembrar para aonde estava a ir antes de parar, sem conseguir saber por qual dos cruzamentos semelhantes arriscar a entrar. Esqueci-me de mim, desconhecia a ideia de que havia um “mim”. Para quê querer saber de mim, se eu era tão miseravelmente triste? Para quê preocupar-me com essa tal de “eu”, se eu me fazia chorar e sofrer demais? Fiquei encolhida a um cantinho da vida, a esperar que a vida passasse, e a não querer saber de mais nada, nem de mais ninguém. E mais nada, nem mais ninguém se importou. Não é que me odiassem, simplesmente me ignoravam. O mundo não pára de girar só porque uma pessoa fica triste...
Ontem, deixei muitas vezes as lágrimas secarem sozinhas, sem haver ninguém para mas enxugar. Sem haver ninguém que reparasse que eu chorava. Olhei para todos os sítios de onde me podiam chegar respostas, procurei por todas as pessoas que me podiam sugerir caminhos, corri atrás de todas as réstias de luz que via acender, e que às vezes nem eram verdadeiras luzes, eram só reflexos de brilhos distantes e sem significado. Reflexos fantasma de astros apagados, sem luz e sem calor, corpos flutuando eternamente na grande vastidão negra do universo.
Ontem, rodopiei num carrossel louco de sonhos, e de fantasias. Quase perdi o chão, quase morri de vertigem. Faltou bem pouco para que a ilusão fosse mais forte e mais real do que a minha triste realidade. Faltou tão pouco para me abandonar, para me deixar ir, ir ter a outras praias, outros portos. Conhecer novos prazeres, morar em outros lugares. Lugares dos quais podia não ter voltado, e de onde também não queria saber se voltava ou não. Voltar implica ter para onde. Eu não tinha para onde, nem para nada de nada. Impediram-me de embarcar os marinheiros do barco aonde queria seguir viagem. Queridos amigos, todos eles! Lobos-do-mar, com a pele curtida pelo sol e pelo vento, com o cachimbo no canto da boca, o boné de lado, as roupas esfarrapadas, um coração maior do que o mundo inteiro! Adoro-vos por tudo, adoro-vos porque me deixaram em terra, adoro-vos porque me ensinaram que nem sempre os sítios atraentes, são bons sítios para onde se navegar Boa viagem para vocês, meus queridos! Para os que ainda estão no mar, e para os que repousam já, léguas e léguas abaixo do nível de água, como acontece a quem termina a vida a bordo de um navio errante qualquer. Se um dia precisarem de um porto para largarem a vossa âncora, contem comigo. Não vendo o meu espaço, não alugo. Para vocês, cedo de graça. Lancem âncora e demorem-se até se fartarem. Ainda somos amigos como dantes, “para sempre e até debaixo de água”, como costumávamos dizer naquele tempo do nosso tempo.
Ontem, fui infeliz demais! Quase sempre... Houve alturas melhores, mais bonitas, mais compensadoras. Alturas de quase felicidade. Mas só alturas. Espaços de tempo sempre passageiros, sempre enganadores. Não quero saber de ontem. Ontem foi só um sonho mau. Passou, ficou para trás, finalmente!
Hoje sou muito mais feliz! Não completamente, claro. Existem ainda algumas arestas agudas e dolorosas a limar, sebes espinhosas a aparar, cacos de vidro enterrados na areia da praia onde construo os meus castelos. Ainda tenho muitas cicatrizes mal curadas, muitas feridas que abrem rapidamente deixando o sangue jorrar. O meu céu ainda nem sempre é azul, e á noite, as estrelas nem sempre conseguem vencer a neblina. O vento não é suficientemente forte de vez em quando, para afastar os trovões para longe e limpar o ambiente de relâmpagos carregados de electricidade. Mas sou quase sempre feliz. Tenho mais alegria Tenho esperança no coração. Descobri que tudo se ultrapassa e tudo se vence, e que as trevas não têm poder de tapar a luz do sol para sempre, a menos que esse poder lhes seja dado por nós. Ainda fraquejo uma vez ou outra. Ainda choro de quando em vez. Ainda me sinto miserável e perdida no meio da grande confusão que é o teatro da minha vida. Mas hoje tenho um amor que me faz esquecer a tristeza, que enche os meus dias de alegria, que fica sempre comigo no meu corpo e no meu peito, aonde quer que eu vá, com quem quer que eu esteja. Tenho um amor que podia ter chegado mais cedo, que podia não ser tão complicado, que podia ser mais para todos os minutos, para todas as horas, mas que é o meu amor querido do coração. Não o troco por nenhum mais simples, nem mais fácil. Não desisto dele por nenhum outro. Não quero ficar sem ele por nada deste mundo. O meu “hoje” é indiscutivelmente muito melhor do que o meu “ontem”, porque tu, meu amor, entraste na minha vida e fizeste a divisão das águas em antes de ti, e depois de ti. Nunca mais nada foi igual, nada do que era importante antes, faz falta agora. Tu és a minha luz, a minha vida, o meu sol de Verão, bebida fresca quando tenho calor, bebida escaldante quando tenho frio. E eu que sempre defendi a ideia de que não se deve dar a ninguém a chave da nossa felicidade, dou por mim hoje, completamente apaixonada, misturada, diluída em ti. Não interessa se quem tem a chave és tu, se sou eu. Qual de nós dois precisa de chave alguma se eu deixo sempre o meu portão aberto para poderes entrar? Amo-te, fica comigo, continua no meu “hoje”, fica até amanhã, não partas mais!
Amanhã é um mistério, uma promessa por cumprir, um livro em branco para escrever. Amanhã é tão incerto, tão imprevisível, tão estranho que não quero perder muito tempo a pensar nele. Se lá chegar, se houver de facto um amanhã para mim depois do hoje, se isso acontecer… então pensarei no que fazer. Já percorri tantos caminhos, já virei tantas esquinas, já lutei em tantas batalhas. Tive medos mil, sonhos mais ainda, esperanças sem fim, amores e paixões. Se amanhã tu já não estiveres comigo, se já não estiveres ao meu lado, seja lá o que for que está para vir, não fará a mínima diferença. Pode ser mau, pode ser péssimo, pode ser terrível. Sem ti, o “bom” não existe. Por isso, se ficar sozinha de novo, se a vida te levar embora para longe de mim, da mesma maneira que te trouxe, que venha o que vier. Nada fará diferença, nada importará. O meu amanhã e o meu ontem, bem que se poderão fundir num abraço apertado, porque serão os dois muito parecidos, e não serei capaz de descortinar diferença alguma entre eles.
Vendo bem, em todos os anos da minha vida, em todas as alturas tristes, em todas as situações felizes, em todos os problemas complicados, e em todas as alegrias, estiveste tu presente. Quer sob a forma de sonho que havia de acontecer, quer sob a forma de presente delicioso que a vida me deu, num dia em que estava mais bem-disposta comigo do que aquilo que é seu costume estar.
E não quero saber, nem me interessa nada, que seja carência, falta de auto-estima, criancice, qualquer um desses palavrões modernos e complicados que algumas pessoas gostam de empregar para justificar um amor que é grande demais para caber dentro das regras aceites. É assim que eu te amo. Não conheço outra forma de amar.

O meu ontem, hoje e amanhã nunca vão estar dissociados de ti. Porque mesmo antes de te conhecer e de te encontrar já te amava. Só que ainda não sabia por onde andavas…






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