sonhando, escrevendo e imaginando

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Envia-me um Anjo

Estou aqui. Não me queres mandar um anjo?
Tenho sido uma menina bonita. Tenho-me comportado muito bem.
Tenho conseguido fazer quase tudo o que era suposto ter feito, e tenho feito esse tudo direitinho. Tenho sido obediente, responsável, bem-educada, elegante, cortês, calma, paciente, eficiente. Não me meti em confusões, pus os olhos no chão, tapei os ouvidos, fechei os olhos, abotoei todos os botões até acima, vesti calças largas e saias compridas. Tenho visto a vida passar depressa demais à minha frente. E tenho-me deixado ficar, como quando a maré volta para o mar e ficamos com os pés bem fincados na areia para não cair, tenho aguentado firme no meu lugar. Vês? Ainda aqui estou. Não fugi, não virei costas. Não interessa se tive ou não vontade de fugir, de correr, de me salvar. Claro que tive. Muitas vezes, todas as vezes. Não fui feita de ferro, nem de pau. Sou de carne e osso, fraca, pequena, medrosa, sozinha. E não somos julgados pelo que pensamos, nem pelo que sonhamos, lembras-te? Só as acções contam. É assim que era para ser, não era? Era para ter ficado, não era? Não está na hora de me mandares um anjo?
Desisti de tanta coisa que amava e que enchia a minha vida de felicidade! Deixei de sonhar tantos sonhos! Larguei tantas ilusões para trás, deixei-as ficar no meio do caminho, despedi-me delas com lágrimas nos olhos, mas despedi-me. Os sonhos, as ilusões, as fantasias, as aventuras, ficaram lá no meio da estrada que eu tinha querido seguir, daquela estrada que tinha sido a escolha natural do meu coração, a que eu tinha agarrado para mim. Mas desisti. Desisti há tanto tempo e ainda dói quando me lembro, como se fosse hoje. Mas fiz o que devia ter feito, não foi? Estou triste, estou vazia, estou sozinha há mais anos do que os que me consigo lembrar. Mas estou aqui, no tal lugar que era para estar. Na tal vida que era para ter. Rodeada de todas as coisas que toda a gente queria para mim, vivendo a vida pateta e tola que todos acharam por bem eu viver. Respeitável, considerada, que interessa se sou feliz? Que interessa se choro, se gemo de dor e não de prazer, que interessa se as minhas noites são noites de inferno e de angústia? Não era o que querias? Fiz a minha parte. Quitei as minhas contas. Paguei muito caro todas as dívidas que tinha contraído com o mundo hipócrita e fingido, por ter tentado ser livre, selvagem, solta, saltando de sonho em sonho, de aventura bonita em aventura bonita! Saldei tudo, para esta e para outras encarnações. Faz agora tu a tua parte. Manda-me um anjo. 
Não me comportei sempre como tem que se comportar uma boa mulher? Engoli as lágrimas, baixei a cabeça, aceitei, dei, sempre dei sem pedir nada em troca. Não discuti, não reclamei, perdoei e voltei a perdoar, desculpei e voltei a desculpar. Não é o que se espera de uma esposa amantíssima, daquelas que caminham um passo atrás dos seus excelsos maridos? Sufocar o desejo, sufocar a paixão Deixar-se ir, permitir tudo, deixar que seja o que for para ser. Deixar-se agarrar, deixar-se mexer, ter que deixar tudo sempre, mesmo quando o corpo e o coração gritam de revolta. Sem reclamar, sem fugir. Então? É tudo o que tenho feito durante todos estes anos! Fui uma aluna aplicada, tirei boa classificação no exame final. Fui aprovada com os malditos vinte valores que havia para dar! Caramba, queres mais? Mais?… Não há mais! Se não chegou, acabou. Estou vazia. Não tenho mais nada que dar.
Chorei tantas lágrimas que ninguém ajudou a secar. Naufraguei tantas e tantas vezes sem ninguém para me salvar. Engoli água, esperneei, vim ao de cima, fui ao fundo. Tudo sozinha. O mundo é um lugar grande e inóspito demais quando se está sozinha. E faz muito frio também. E o vento quando sopra forte, leva tudo, cabelo, saia, casaco, o corpo fica gelado. Tenho tido tanto frio! Durante tantos anos! Tinha-me chegado até a esquecer de como é bela a luz do dia a nascer, vê bem! Eu a esquecer-me da vida lá fora e cá dentro do meu coração, eu a não me importar com o sol, a chuva, as estrelas! Logo eu, eterna amante da beleza, do prazer, da vida, da maravilha que é correr solta por todos os campos floridos do mundo! Que mais queres? Que mais podes querer da minha própria sombra, do meu espectro que caminha e fala sem mesmo quase se dar conta, como um boneco de corda com a corda avariada? Vá lá… manda o meu anjo, manda!
Prometeste… Acreditei em ti! Com o hábito que sempre tenho de acreditar no que me prometem, de ficar á espera com confiança, cheia de certezas que só existem ao certo na minha imaginação. Disseste que se me portasse bem, se não fizesse maldades, se não fosse mal comportada, no fim teria uma recompensa. O fim ainda não é agora? Quanto tempo falta? Não quero mais nada. Não peço mais nada. Também já nem tenho forças para pedir mais nada, nem acredito que possa haver mais nada. Se houvesse mais alguma coisa para além de tudo isto que tem sido a minha vida, essa tal coisa já tinha aparecido. Se houvessem de facto os príncipes encantados com que sempre sonhei, um deles já teria vindo, no seu alazão branco, resgatar-me pela janela da torre da minha prisão. Tinha lutado contra os gigantes e morto os dragões, tinha-me posto a salvo em cima da garupa do seu cavalo, tinha-me afastado os cabelos do rosto e tinha-me dado um beijo gostoso igual aos do cinema. Depois íamos os dois, a galope, pela floresta encantada, não sei bem para aonde, mas para um qualquer sítio bonito aonde as histórias de amor tivessem um final sempre feliz. Se houvesse de facto amores eternos, como eu sempre supus que houvessem, algum amor querido do meu passado me tinha levado com ele, não me tinha sequer deixado partir quando eu disse que ia partir. Não se tinha conformado em me perder, procurava-me em todos os lugares da vida, encontrava-me de certeza, parava a moto preta do outro lado do quintal, buzinava e eu ia ter com ele. Assim simplesmente, como sempre ia dantes quando ele buzinava, sem mala, sem livros da escola. Livre, com um beijo e um abraço apertado. Olhava para ele e dizia-lhe “-Demoraste tanto a chegar! Por onde andaste?” E ele respondia-me que eu me tinha escondido no fim do mundo, e que o fim do mundo é um lugar aonde se demora muito tempo a chegar. Depois eu desviava-lhe os caracóis ruivos de frente dos olhos verdes, fazia-lhe uma carícia no seu sorriso brincalhão e dizia que não fazia mal, estava tudo bem, o que importa é que ele tinha chegado e ninguém mais nos ia separar outra vez. Mas isso era se eu ainda acreditasse em príncipes encantados e em amores do passado. Até os amores do presente são tão inconstantes, o que fará aqueles que ficaram lá, perdidos numa qualquer curva fechada do tempo? Cansei-me de esperar por qualquer um deles. Sei que não virá ninguém. Por isso só queria o anjo que disseste que me mandavas.
Não me mandes um homem normal, comum, igual aos outros. Um homem normal nunca vai querer nada comigo. Tenho demasiadas cicatrizes, demasiadas feridas mal fechadas que podem abrir a qualquer momento, que podem recomeçar a sangrar e a maioria dos homens tem horror a sangue. A maioria dos homens não gosta de cicatrizes, de marcas que desfeiam, que diminuem o valor da peça no seu todo, nem na carne, nem na alma. Não me mandes um homem vulgar, daqueles que fazem exigências, que querem saber de toda a história, que quem estar a par de todo o passado, que esmiúçam nas coisas antigas com o mesmo prazer sórdido dos abutres em torno de uma carcaça fétida. Qual desses homens comuns e banais vai ter paciência comigo, com as minhas manias, com as minhas fraquezas, com os meus medos e com os meus fantasmas? Qual deles vai ser capaz de segurar a minha mão quando eu ficar com medo, qual deles vai ser capaz de me abraçar durante a noite quando as sombras me assustarem? Qual deles vai ser capaz de me sossegar, de me embalar, de me emprestar o ombro, o abraço, sem pedir mais nada logo ali, sem confundir carência com desejo, misturando tudo o que podia ser muito bom com o paladar das lágrimas e da tristeza? Não, um homem igual aos outros não! Já tentei antes, tu sabes que sim. Não deu certo. Sofri demais. Sonhei alguém que era quase ninguém, construi os meus castelos de areia do costume, e quando dei por mim, toda a areia tinha desabado, e o castelo lindo e diferente não era mais do que terra molhada, com outro aspecto, é certo, com outra textura muito mais apetitosa, muito mais intrigante, mas apenas terra molhada, sem forma, sem sustentabilidade. Eu sou demasiado absorvente, demasiado intensa, demasiado complexa para permanecer interessante aos olhos de um homem durante muito tempo. E dou um trabalho danado! Canso, saturo, fatigo. Choro, fico triste, preciso de colo, de carinho, de assistência. Quem quererá arcar com todo esse trabalho só para me ter? Para quem posso ser tão importante que justifique tanta dedicação, tanto empenho em me resgatar e recuperar de novo para a vida? Sabes que ninguém! Então pára de colocar no meu caminho homens normais, que assim só me fazes sofrer mais depois, quando o sonho acaba e se revela apenas o que era, um sonho, nada mais, e manda-me logo o meu anjo.
Um anjo que me acalme, que me console, que me sente a seu lado, pegue o meu rosto entre as suas mãos e diga que tudo vai passar, que me garanta que as coisas vão ficar bem. Os anjos podem garantir coisas dessas, complicadas e impossíveis para os homens. Um anjo pode convencer-me de que as lágrimas não vão mais precisar de cair, que as trevas e a escuridão não me vão conseguir mais chegar, nem me vão mais pôr as mãos em cima. Pode fazer-me acreditar que mais nenhum homem do mundo vai ter o poder de me magoar, de me empurrar de encontro a uma parede, mais nenhum deles vai voltar a ter o direito de fazer comigo o que bem entender, quando bem entender, protegido por lei alguma ou por tradição estúpida alguma. Um anjo não cobra, não exige, não apresenta factura, não me grita, não me empurra, não me faz sofrer. Envia-me um anjo que me deixe chorar no seu ombro, que me permita soluçar e engasgar de tanto chorar e depois me limpe todas as lágrimas com um sopro de magia, com um beijo de encantar, com uma passagem da sua mão no meu rosto afogueado pelo pranto. Então? Estou aqui! Não me vais mandar um anjo?
Se não for pedir demais, e uma vez que me portei tão bem, e uma vez que esperei tanto tempo, e que sempre acreditei, e que fiquei e lutei até não mais ter forças para lutar contra o que nunca teve remédio, manda-me um anjo enquanto ainda estou viva. Não o guardes só para quando eu morrer e precisar de ser guiada pela mão, através do tal túnel que dizem que separa esta vida da outra.
Quero ser feliz! Não na outra vida, não me importo muito com a outra vida, aquela que acontece, ou não, quando aquilo que sou eu desaparecer e já não puder sentir nem mais fome, nem mais frio, nem mais desejo, nem mais prazer. Quero ser feliz já aqui, tudo e agora! Agora, enquanto tenho corpo, enquanto gosto de ser beijada, de ser tocada, de ser acariciada. Enquanto me dá prazer fazer alguém feliz, aquecer alguém com o meu calor e envolver alguém com os meus braços. Enquanto ainda sou um bocadinho bonita, um bocadinho sonhadora, um bocadinho esperançosa de dias melhores. Por isso, manda-me por favor um anjo todo especial.
Um anjo feito de carne e osso, como eu. Um anjo que goste do sol, do céu, do mar, das coisas bonitas, como eu gosto. É normal que os anjos gostem da beleza, não é? Afinal toda essa beleza sem fim que está por todo o lado do nosso mundo maravilhoso é criação tua, certo? Portanto nessa parte, não me parece que vá haver dificuldades de maior. Manda-me um anjo que goste de beijar, de abraçar, de fazer amor em todos os campos de malmequeres do mundo, em todas as areias escaldantes das praias, por debaixo da sombra de todas as palmeiras. Amor é um sentimento próprio dos anjos. Amor é uma dádiva dos céus. Fazê-lo e não apenas senti-lo, também não me parece que contrarie em muito a essência daquilo que é um anjo dos teus. Manda-me um anjo que seja gentil, que pergunte sempre se pode, que me trate com cuidado, com carinho, que me prenda nos seus braços e me envolva num abraço gostoso, que me acaricie com mãos escaldantes, que me faça perder o juízo, o controlo, o poder de raciocinar. A gentileza, o cuidado, o carinho, a paixão são coisas boas, são coisas celestiais! Não faz nenhum mal que um dos teus anjos possa experimentar na prática isso mesmo, em vez de só saber a teoria de todas essas coisas.
Reúne todas essas características e qualidades num só anjo, e envia-o para ao pé de mim. Deves-me isso, sabes que deves. Não importa se for um anjo louro, moreno, ruivo. Não interessa se tiver olhos castanhos, como os meus, verdes, azuis. Não quero saber da idade, da cor da pele, de nenhuma dessas ninharias insignificantes que servem para fazer perder tempo precioso. Só te peço que seja um anjo querido, amoroso e apaixonado.
Vá lá, estou aqui. Envia-me um anjo…

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