sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Não desistas de mim!


Não desistas de mim!
Não te canses das minhas criancices, das minhas teimosias. Não te aborreças por eu andar sempre a pedir um pouco de atenção, a fazer-te lembrar de que existo. Eu sei que já prometi, que já garanti que ia crescer, que ia amadurecer e ficar mais parecida com aquilo que se espera de uma mulher adulta.
No entanto, e caso estejas esquecido, foi mesmo esse meu ar de menina endiabrada que te agradou. Foi por isso mesmo que te aproximaste de mim. Por eu ser tão diferente das mulheres a quem estavas habituado.
Eu sei que prometo sempre que é a última vez, que não faço mais, que não volto a ser igual… mas é tão irresistível! É tão bom sorrir quando tenho vontade, cantar quando me apetece, abrir os braços ao sol para um abraço bom e duradouro. E eu sei que tu não achas graça nenhuma, que não percebes o porquê. Eu sei que olhas mas não entendes o meu amor pelas coisas bonitas, pelas coisas que me fazem vibrar, estremecer por dentro, pelas coisas tão simples que fazem com que a vida afinal valha a pena. Não consegues aceitar a minha lua-de-mel eterna com o mundo todo, com as pessoas todas, com os meus afectos antigos, novos de sempre. E tens razão, claro que tens razão, eu sei disso. Eu sei que devia abrandar a velocidade de auto-estrada que uso até nos caminhos de terra batida, eu sei que devia usar um pouco mais o travão nas descidas, confiar menos na minha capacidade de conseguir parar a tempo, confiar um pouco menos na capacidade de algumas pessoas se conseguirem desviar a tempo, enquanto eu passo, veloz, levando tudo á frente. A velocidade mata, e o prazer da adrenalina e do perigo pode ter um preço muito elevado. Posso ir de encontro a um muro, a uma vedação. Posso magoar alguém, destruir alguma coisa. Posso morrer ou ficar desfigurada, magoada, irreconhecível. Eu sei que já me explicaste, e tens razão.
Vai chegar o dia em que te vais cansar de vez dos meus caprichos, das minhas ideias mirabolantes, do meu fazer e desfazer constante de castelos na areia da praia. Vais olhar á tua volta e descobrir uma dessas mulheres sofisticadas, elegantes, charmosas, calmas e controladas. Uma dessas mulheres que fazem parte do teu mundo muito mais do que eu, que sou uma eterna molequa sorridente e traquinas. Apesar de continuares a dizer que gostas do meu lado de menina…
Mas sabes que não faço por mal. Comprometo-me comigo própria e garanto à minha imagem reflectida no espelho, que vou ficar sossegada, bem comportada, sisuda e calma. Nada de conversas só para não estar calada, nada de gargalhadas sem razão, nada de comentários atrevidos, nada de sair para beber café, para passear. E quando faço a promessa, estou a falar a sério. Porém basta uma qualquer aragem mais suave, basta um qualquer raio de sol mais quentinho no meu pescoço, basta um céu mais azul em frente aos meus olhos deslumbrados, e, pronto, lá vou eu na minha alegria, na minha forma inocente de ver as pessoas e as coisas, na minha maneira estranha e desconcertante de ser feliz.
E, no entanto, sabes bem que nunca faço nada de mal, que nunca ultrapasso os limites que não são para ultrapassar. Sim, é verdade, gosto de rir, de brincar, de dizer piadas, de responder á altura quando são engraçados comigo, mas é só. Comigo ninguém passa dos dois beijinhos no rosto, quanto muito do braço sobre o ombro, quando estou mais triste, ou do afago no rosto quando estou a chorar e preciso de conforto. Num desses dias qualquer em que estás, como sempre, a trabalhar, e não tens tempo para as minhas “pequenas coisas de mulher sensível”.
Sabes bem que sou toda tua, só tua. Tua de alma e corpo. Sabes que és o sol na minha vida, que iluminas todos os espaços, todos os recantos, todas as profundezas. Até as pequenas criaturas cegas que viviam no profundo das minhas águas, e que nunca tinham visto a luz, começaram a desenvolver olhos, para conseguirem ver a beleza iluminada em que transformas tudo aquilo que eu sou. Sabes que estás sempre comigo, em cada instante do meu dia, da minha noite, que te quero como nunca pensei ser possível, algum dia, vir a querer alguém. Sabes que és o homem que eu pedi aos céus, durante todos os dias que aconteceram antes de te conhecer, que és por quem eu procurei avidamente em todos os lugares, dentro de todas as pessoas. Sabes também que és o único que me deixa louca de desejo mesmo antes de me tocares. Que quando penso em ti, quando me lembro de ti, da tua voz, do teu rosto, do teu cheiro, do teu toque, dos teus beijos, de ti todo, sinto uma necessidade tão grande de estar perto, que chega a fazer doer de tão boa, de tão urgente e de tão doce que é! E eu sei que também gostas de estar comigo, e que eu te faço muito feliz, e que nos meus braços esqueces um pouco o tumulto da vida lá fora. E tenho a certeza de que nada que seja deste mundo nos pode separar. Não existem compromissos, responsabilidades, idade, doenças, desastres, pobreza, ou qualquer outra calamidade que faça esfriar o meu amor por ti. Nada nesta vida é capaz de fazer com que te ame menos, ou com que te queira menos.
Então, por isso, amor, não desistas de mim…
E não me peças para mudar. Aceita-me assim como sou, imperfeita, cheia de complicações, acriançada e atrevida. Brincalhona, feliz, selvagem e solta. Não sou com certeza a mais indicada para estar ao teu lado, para te acompanhar nos teus grandes momentos, nos teus triunfos, nas tuas horas de fama, mas, pelo menos, nas outras alturas, podes vir sempre para mim. Já tens companhia à altura para todas essas ocasiões formais. Eu prefiro ser a que fica com o homem por detrás das luzes. Eu prefiro ser a que fica contigo, a que tem direito aos teus beijos, às tuas carícias, a ti todo enquanto pessoa e enquanto homem que eu desejo. Quando as luzes se apagam, quando a sala fica vazia e as cadeiras arrumadas, podes tirar o casaco, afrouxar o laço da gravata, deixar os papéis na secretária, e vir para mim. Também não peço mais, sempre soube que não ia poder ter mais para além do teu amor. E o teu amor é tudo o que me basta. Ter-te por inteiro, todo só para mim, de vez em quando, no intervalo entre uma batalha e outra, é a maior das felicidades a que posso almejar. Não te peço para mudares, para deixares a tua vida e os teus compromissos, nenhum deles. Todos já existiam bem antes de eu aparecer, e todos fazem parte de ti, todos ajudam a construir esse homem maravilhoso que és, e a quem eu amo tanto. Talvez te ame ainda mais pela forma bonita e responsável como manténs a tua vida a funcionar, para lá de tudo o resto.
Não desistas de mim, nem te vás embora. Não te canses, não te fartes de me aturar. Não fiques triste, nem desiludido comigo. Imagina bem que agora eu mudava e ficava uma outra mulher. Imagina que me deixava de rir, de brincar, de dizer disparates. Imagina que perdia o gosto pelo vento, pelo sol, pela chuva. Imagina que olhava para o sol a pôr-se, e não conseguia ver mais do que um pedaço de calhau pendurado no espaço do universo, sem beleza, sem significado... Imagina que olhava para um campo verde cheio de flores de cores garridas, e via só um monte de terra, cheio de espinhos e urtigas… E que quando o mar viesse bater-me devagarinho nos pés, não era mais capaz de me deitar na água e deixar-me molhar toda, e fugia apenas para trás, num horror de molhar os sapatos e as calças…
Ias continuar a gostar de mim, se eu mudasse tanto assim? Se deixasse de te receber com um sorriso rasgado, se deixasse de fazer comentários engraçados às coisas serias que dizes, que fazes? Ias querer ficar comigo na mesma? Se agora eu me transformasse numa outra mulher, será que ias amar essa outra mulher, tanto como me amas a mim? E eu, sendo outra, toda diferente, sem sonhos, sem ilusões, sem alegria, amar-te-ia da mesma forma? Com a mesma intensidade? Com o mesmo desprendimento que tenho agora, que tudo aceita e nada reclama para si?
É capaz de ser um risco elevado demais para corrermos. Aquela que te ama, sou eu. Eu, cheia de imperfeições. Eu, a que gosta de rir á gargalhada, de sorrir para toda a gente, de fazer amigos por todo o lado, de sair para a rua sempre na esperança de coisas boas. Eu, a que vive no mundo das fantasias, dos sonhos, dos amores eternos, das princesas de conto de fadas. Nesse mundo bonito da minha imaginação, tu és o meu amor, o meu homem, perfeito, querido, amado e desejado. Se o meu mundo acabar, se tudo se esfumar, se os sonhos se mostrarem só como são, sonhos, feitos de ar e vento, sem nada por dentro, se as ilusões se desvanecerem, se a alegria acabar, o que vai sobrar da nossa história? O que vai sobrar de nós dois?
Não desistas de mim, amor. Nem dos meus beijos, nem dos meus abraços, nem do meu corpo que anseia sempre pelo teu. Não te afastes, não desapareças. Aceita-me como sou. Podes ter ciúmes que não me importo, podes discutir, reclamar, podes-me pedir para parar, para mudar, podes tudo, porque tu és tu, e porque eu te amo. Podes fazer o que quiseres, andar pela casa toda, abrir gavetas, espreitar lá para dentro, desarrumar os armários, mudar o lugar aos móveis. Podes alterar a cor das paredes, podes colocar portas novas. Estás autorizado a cortar as árvores velhas do jardim, e a plantar novas. Mexe, revira, toma posse de tudo o que ainda não é teu. Eu deixo, eu gosto! A tua presença em tudo o que faz parte daquilo que sou eu, faz-me sentir feliz, faz-me sentir tão bem!
Só não desistas de mim!






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