sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Não vês que estou a chorar?

Não consegues ver que estou a chorar?
Será que podes parar por um bocadinho o que estás a fazer, e prestar um pouco de atenção em mim?
Não atendas o telefone, não ligues o computador, não abras a porta a quem bater. Esquece o relógio, vira o calendário de cabeça para baixo, fecha a agenda, manda a secretária para casa mais cedo. Não vás á janela se te chamarem da rua.
Olha para mim! Deixa-me sentar um pouco perto de ti. Toma o meu rosto nas tuas mãos. Pergunta o que tenho. Interessa-te por mim! Não consegues ver que estou a chorar?
Tentei ser forte, fiz os possíveis para não te incomodar, não te roubar tempo, não te atrapalhar. Sei que o teu tempo é sempre precioso demais, e que eu não tenho nenhum direito de dispor dele, ou de desviar a tua atenção do mundo imenso de coisas que tens para fazer. Por isso tentei ficar quieta, por isso não te quis perturbar com as minhas pequenas “coisas de mulher sensível”.
Engoli as lágrimas, disfarcei os soluços, baixei os olhos para não notares como estavam vermelhos e inchados. Desculpa, não consegui mais… Fala só um bocadinho comigo. Pergunta-me o que tenho. Demora-te ao pé de mim. Não me faças uma pergunta para depois saíres logo a seguir, sem mesmo esperar pela resposta. Não me respondas a perguntas que nem sequer foram as que eu fiz. Não comentes assuntos que não têm nada a ver com os que eu te levei. Não me ignores. Não mudes de tema de conversa. Não faças promessas sem prestar atenção, porque eu acredito sempre que as vais cumprir, e depois fico sempre triste demais... Não comeces a falar das tuas coisas, dos teus assuntos complicados, dos teus problemas. Hoje não, pelo menos não agora. Não quando eu preciso tanto de ti!
Porque será que te interessas pelos problemas do mundo inteiro muito mais do que pelos meus? Será que nunca vais deixar de me ver como uma boneca sorridente e bem-disposta na tela do computador? A boneca dos primeiros tempos? Não sou assim como pensas. Não sou só alegria nem só palavras engraçadas. Não estou sempre tão feliz, não sou capaz de espalhar sempre entusiasmo contagiante por todo o lado. Olha bem para mim. Não consegues ver que estou a chorar?
Fala comigo. Faz-me sentir tão importante como qualquer outro dos teus compromissos, se bem que eu esteja longe de ser um compromisso. Mas disso sempre soube, não é disso que me queixo. O que já existia quando eu cheguei, não me diz respeito, aceitei tudo, concordei com todas as dificuldades no momento em que deixei que me pusesses as mãos, os lábios, o corpo, mais do que isso, aceitei tudo no momento em que deixei que entrasses no meu coração. Mas será que tenho que marcar hora na tua agenda para ter direito a sessenta minutos do teu tempo? Como podes ser tão preparado, tão estudado, tão culto, tão inteligente e não te aperceberes que não estou bem? Lê os meus recados até ao fim, ouve os meus telefonemas com atenção, presta atenção nas minhas mensagens. Não estou sempre a dizer-te a mesma coisa, não podes tomar como garantido que são sempre declarações de amor, às vezes podem ser pedidos de ajuda! Mas como sempre, lês a primeira parte, saltas para a última, e respondes da mesma forma, seja o que for que te tenha dito. Nem costumo reclamar, nem costumo protestar. Já estou acostumada a essa tua forma de ser, meio descuidado, meio apressado, mas depois, quando te lembras de mim, sempre carinhoso, sempre amoroso. Quando arranjas tempo para mim, tudo fica de novo a valer a pena, esqueço os desapontamentos, o meu dia volta a ter brilho, o sol volta a ficar mais bonito. Por momentos assim, acho que vale a pena continuar. Pelo prazer de te ouvir, de saber que estás lá, que pensas em mim, ainda que só de vez em quando. Pela felicidade de saber que existes, já tudo ganha outra cor, outro aspecto. Só por poder pensar em ti a qualquer momento do dia ou da noite, e acreditar que apesar de tudo, gostas de mim, da mesma forma que gosto de ti, sinto o coração bater mais depressa e as pernas amolecerem de desejo. O amor é uma coisa bem estranha, não é?
Mas hoje é diferente! Hoje estou mesmo precisada de um carinho, de um abraço, de um afago, de uma palavra amiga. Hoje queria tanto que fosses outra vez como quando nos conhecemos. Como quando tinhas sempre tempo para mim, para falar comigo, para me dizer coisas bonitas. Naquela altura, aposto que se me visses chorar, paravas tudo, largavas o que estivesses a fazer e vinhas para ao pé de mim. Não sei bem o que mudou, porque mudou, mas também não quero saber. Gosto demais de ti, para te pressionar, para questionar, para levantar objecções. Aceito-te como és. Amo-te e pronto. Também não é por isso que estou a chorar…
Depois podes sair. Depois já te devolvo à tua vida agitada e cheia de mil actividades. Depois, só depois… Senta-me no teu colo. Abraça-me, encosta a minha cabeça ao teu ombro. Vá lá, só um bocadinho… Não percebes que estou a chorar?
Hoje não queria beijos na boca que fazem sonhar, que fazem perder a cabeça. Não queria carícias escaldantes, daquelas que deixam um rastilho aceso por onde passam. Nem queria que me falasses ao ouvido aquelas coisas que eu gosto de ouvir, e que arrepiam o corpo e a alma. Hoje não te queria por debaixo da minha saia, nem entre as minhas pernas, nem por dentro do meu decote. Queria só que olhasses para mim com olhos de ver. Queria que me perguntasses o que tenho, quem me fez chorar, que mal me fizeram, quando foi, aonde foi… Queria que me pedisses desculpa por não teres estado lá para me ajudar, queria que chorasses um bocadinho comigo, que me prometesses que tudo ia ficar bem, que tudo ia passar. Mesmo sem teres o poder de consertar e endireitar todas as coisas que estão erradas na minha vida, porque isso ninguém tem, gostava de te ouvir dizer que ias tratar de tudo, que ias resolver tudo, que nunca mais ninguém me ia fazer mal, nem magoar, nem fazer chorar. Gostava de te ouvir dizer que acontecesse o que acontecesse, não me preocupasse, porque ia estar sempre dentro do teu coração e que podia sempre contar contigo.
Mesmo que eu não seja muito capaz de te explicar porque choro, o que se passou, o que aconteceu, vai sempre saber tão bem pensar que te importas realmente comigo. Ultimamente tenho a sensação de que mesmo que me pintasse de azul da cabeça aos pés, nem ias dar pela diferença. Mesmo que pedisse claramente ajuda, apoio, aconchego, metade do que eu dissesse se ia perder num mar de descaso e de indiferença. Isso, claro, se chegasse sequer a ter a oportunidade de chegar até ti, durante mais do que cinco minutos de cada vez. Sempre outros horários, outros compromissos, outros interesses, outras pessoas, todas as pessoas do mundo, são mais importantes do que eu. Caramba, até dormir depois do almoço é mais importante do que eu!
Talvez penses que não noto, que não ligo, que não me incomodo com essas pequenas desfeitas porque tenho a certeza do teu amor. Nos últimos tempos, não tenho sequer a certeza de porque é que me manténs por perto. Nem sequer entendo muito bem para que me queres ainda na tua vida, nos teus contactos, nas tuas amizades. Porque sou bonita? Porque faço sucesso no meio dos teus amigos? Porque consigo dizer duas ou três frases bem articuladas e que se destacam no resto das palavras sem sentido e sem propósito? Porque te dou prazer? Tem sido difícil, tem sido complicado… Sabes que às vezes tenho quase a certeza de que se eu saísse com todos os homens do mundo, se marcasse encontros com todos os que me pedem para o fazer, e se tu viesses a descobrir, não te ias importar nem um pouquinho? Aliás, para descobrires, só se eu to dissesse directamente, sem rodeios, porque de outra forma, nem dás conta que tenho vida para além dos minutos que passo contigo. Assim como nunca queres saber com quem falei, por onde andei, o que estive a fazer… Perguntas e não esperas pela resposta, desvalorizas, gracejas…Ias ignorar, deixar de lado, responder uma daquelas coisas intelectuais que gostas de dizer sobre ter que aceitar as pessoas como elas são, e de que cada um precisa de ter o seu próprio espaço, e que não gostas de ser invasivo… Tanta compreensão entristece e faz doer! Fica muito parecido com falta de amor, falta de cuidado. E “quando a gente gosta, a gente cuida”, como diz o meu querido Caetano Veloso.
Não precisava de ser assim! Era para ser uma história linda, cheia de dificuldades naturais a quem se encontra na situação em que nos encontramos, mas uma história cheia de amor. Cheia de certezas, cheia de alegria, cheia de hoje e amanhã. Só o passado não pode ser mudado, nem substituído, mas o presente merece sempre ser um bocadinho mais bonito! Foi essa mistura de alegria, encanto, amor e desejo que fez com que me apaixonasse por ti. Podias ser o homem mais normal, mais simples e mais comum do mundo, se tivesses sabido entrar no meu coração da forma como entraste, eu amar-te-ia na mesma. Volta a ser quem eras nos tempos dos nossos primeiros tempos… Senta-te comigo, põe-me o braço em redor dos ombros, puxa-me para perto, dá-me colo, ouve-me, não consegues ver que estou a chorar?
Não preciso de mais nada, não peço mais nada, não sou difícil de contentar. Nem faço exigências, nem sou inconveniente. Dá-me um minuto do teu tempo. Enxuga-me as lágrimas, desvia-me o cabelo do rosto, diz que me amas.
Não preciso de mais do que isso para parar de chorar. Não é preciso que me faças promessas, nem que me faças juras eternas. Não tens que ser o maior e o mais inteligente de todos os homens. Nem o mais bem sucedido, nem o melhor entre os melhores. Para mim, já és isso tudo, porque te amo, e porque nunca conheci ninguém como tu.
Abraça-me com força, fica comigo hoje, só nós os dois, esquece o mundo lá fora. Não vês que estou a chorar?

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