sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 28 de agosto de 2011

Não vou a lado nenhum

Os meus amores são sempre complicados!
Não sou uma mulher que se costume deixar encantar
com histórias simples e fáceis.
Os homens que prenderam a minha atenção,
os que me conseguiram segurar por algum tempo a seu lado,
tiveram sempre uma auréola de mistério,
de segredo,
de dificuldades a serem ultrapassadas.
Tinham a tal característica
que levava a minha irmã a saber de antemão
quais eram os meus namorados que iam durar,
e quais eram destinados a serem descartados passada a primeira semana.
“este não vai passar dos primeiros dias, é calmo, tranquilo, bom rapazinho.”
Ou então
“parece que este se aguenta um tempinho, complicado, diferente, perturbador “

 A minha primeira paixoneta a sério
foi por um rapaz da minha turma,
ainda eu andava no ciclo preparatório.
Ele era como eu era naquela idade e naquela altura,
sempre sozinho, sempre distante e calado.
O único que não entrava nas equipas de futebol dos rapazes,
que não se envolvia em lutas de murros e pontapés no pátio da escola.
Que mantinha uma atitude de distanciamento da confusão,
do tumulto que era a vida dos outros adolescentes em ebulição.
Conversava comigo calmamente,
falava-me dos seus problemas,
das suas aspirações simples e tão possíveis de se realizarem,
como são todas as aspirações da juventude.
Por isso, e por serem tão simples de acontecer,
dói sempre demais quando vemos que
afinal mesmo sendo simples, não aconteceram!...
Nunca chegámos a ser namorados.
Nem naquela altura,
nem durante os anos em que depois continuámos a estudar juntos.
Nunca cheguei a saber se ele gostava de mim
da mesma forma como eu gostava dele.
Ou se me procurava por eu ser igual a ele,
a única miúda mais afastada do barulho e da confusão,
mais admirada com toda a agitação que era
o recreio da escola das nossas vidas.

Sem falar sequer de toda a imensidão de amores de menos importância,
que foram aparecendo
e foram ficando perdidos no mesmo caminho
aonde os encontrei,
o meu outro amor mais importante
foi o meu querido X.
Lindo, charmoso, irresistível,
marginal, vagabundo, herói, bandido.
Rei do nosso bairro,
das nossas ruas,
de todos os becos e travessas,
e rei do meu coração
durante um bom tempo.
Aquele que me conquistou no primeiro dia
em que me pôs os olhos em cima.
Que enchia os meus dias de excitação, de adrenalina, e de ternura também.
Que quando estava sozinho comigo
era tão diferente do líder temido por todos.
Tão especial, tão tentador, tão meu!
Que num instante passava de milionário a pelintra completo,
de anjo a demónio,
que voava como um louco maravilhoso
pelas estradas fora na sua moto negra e brilhante.
Que me encostava de encontro a uma parede qualquer,
que me deitava sobre um campo qualquer,
que fazia com que as preocupações desaparecessem com um beijo,
que silenciava as minhas dúvidas e os meus receios com uma carícia.
O único que mexeu comigo a sério,
que me fez escolher se realmente eu queria ir atrás da minha liberdade,
ou simplesmente perder-me nos braços dele e esquecer do resto do mundo.
E ficarmos assim, juntos sem planos,
sem obrigações…
Ele comandando as suas tropas fiéis,
regendo os seus domínios,
E eu,
princesa consorte e intocável
 de uma história de amor bonita demais,
estranha demais para ser contada em meras palavras.
Abandonar o X
foi a decisão que mais alterou o rumo da minha vida.
E muito provavelmente,
uma decisão que tomei de forma errada.

Passados tantos anos,
voltei a encontrar-me de novo com o amor.
Como sempre,
um amor complicado, diferente,
cheio de dificuldades, de obstáculos.
Um amor que levou a minha irmã,
cheia da mesma sabedoria de antes,
a sentenciar calmamente
“agora é que estás bem tramada.
Duvido que consigas sair da mesma maneira como entraste.”
Não me importo nada com isso.
Quem é que falou em querer sair?

Toda a minha vida tem sido complicada!
Estou muito habituada a viver no meio do furacão,
que é o único lugar aonde os ventos não me tocam,
apesar de á volta
a destruição ser total.
Não vou embora.
Não vou para lado nenhum.

Desde os meus primeiros tempos
que tenho lutado contra as dificuldades que a vida me tem apresentado.
A minha família de nascença
foi sempre uma família estranha, diferente, complicada,
Cheia de regras próprias,
de leis internas,
todos eles mergulhados num caos tal,
que nem os próprios se entendiam.
Nasci numa terra,
e tive uma forma de vida em pequenita,
que simplesmente se desintegraram no ar.
De tal forma e de tal maneira
que já nem o nome da terra hoje existe.
E tudo o que era para ter sido para sempre,
tudo o que achávamos inalterável e garantido,
desapareceu junto com a terra,
com as ruas,
com os jardins.
Tive um percurso de muitos anos,
por uma estrada vazia, ressequida e deserta,
desprovida de encantos, de beleza.
Uma estrada pela qual me obriguei a caminhar,
na esperança de que fosse dar a algum lugar,
na esperança de que na próxima curva se visse alguma promessa no horizonte.

Estou tão familiarizada com situações complicadas,
que se calhar nem sabia viver em tempo de paz!
Porque é que havia de desistir de complicações
a esta altura da minha vida?

A única maneira de desistir,
seria renunciando aos sonhos,
prestando atenção á voz da razão,
pondo de lado a alegria, voltando a fechar de novo o coração.
Recuso-me!
Desistir agora, seria muito mais do que desistir de um caso de amor complicado,
seria desistir de acreditar no que me manteve na estrada até agora,
a esperança e a certeza de chegar a um porto bonito de abrigo.

O meu velho veleiro tem as velas rotas e estragadas,
o casco abalroado pelo embate de tantos icebergs, temporais, furacões.
Duvido muito de que conseguisse voltar a pô-lo no mar,
sem que deixasse entrar água pelos rombos mal remendados,
e sem que afundasse com a primeira onda mais revolta.

Acho que sou um pouco como algumas baleias cansadas que dão á costa,
mesmo que as empurrem de novo para o mar,
já lhes falta o ânimo para nadar.




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