sonhando, escrevendo e imaginando

domingo, 7 de agosto de 2011

Notícias de casa!

Um amigo meu foi de férias para Moçambique, há poucos dias.
Mandou-me notícias da minha terra linda das acácias, e contou-me um pouco como estão as coisas na cidade rainha do meu coração, Maputo.
“Tudo estragado, tudo partido, tudo deixado ao abandono, tudo cheio de lixo em cada esquina, estradas cortadas, buracos no chão”, foi basicamente o que ele teve para me dizer. Estava triste, desapontado, amargurado. Como é possível? Como é que se pode ver só isso?
Esqueceu-se, com toda a certeza, de procurar o mar ao fundo de cada rua. O mar surgia sempre, azul, faiscante de luz. As nossas ruas tinham sempre o mar como fundo do seu cenário. Com toda a certeza, o mar azul, lindo demais, ainda está por lá! Era impossível movê-lo de lugar, era impossível construir muralhas tão altas que ocultassem a sua visão. Eu amava de paixão ver aquela imensidão de água a fazer-me companhia ao fundo dos meus horizontes. Um dia se voltar a casa, não me vou esquecer de ver, de procurar o mar da minha infância. Quase de certeza, que o meu amigo se esqueceu…
Também lhe deve ter passado de ideia o ir sentar-se num banco de jardim do antigo Vasco da Gama. Deixar-se ficar esquecido do tempo por um bocado, e sentir o verde todo, a frescura das árvores, a maravilha delicada das flores. Passar pelo lago grande dos patinhos e atirar-lhes pedaços de pão, dar uma passada nas estufas, subir os carreiros entre as plantas. Respirar aquele cheirinho tão bom que ainda hoje não me saiu da lembrança! Como é possível que o jardim já lá não esteja? Tão grande, tão lindo! Que interessa se agora tem outro nome, se algumas partes não estão tão luxuriantes de vida como costumavam estar antes? Interessa é que está lá, e é sempre bonito e é sempre nosso. Quanto mais não seja porque continuamos a lembrarmo-nos dele, e a guardar a sua presença no nosso coração. Não há falta de cuidado que diminua o brilho de um lugar mágico.
Quer-me parecer, e porque ele não me falou disso, que também se esqueceu de conferir se as acácias ainda são tão vermelhas como nós, os que viemos de lá, nos lembramos. As acácias em flor vivem comigo sempre, são para mim o expoente máximo do quanto a natureza pode ser bela e envolvente! Aquele mundo sem fim de flores vermelhas a ondear por cima da minha cabeça, nunca perdeu o seu lugar na minha lista de coisas mais bonitas do mundo. Não acredito que nestes anos todos, as acácias tenham perdido a sua cor, ou o seu fulgor. Não é crível que houvesse incúria ou desleixo tamanho que deixasse banir do espaço da cidade, aquelas árvores cheias de encanto e poesia.
O meu amigo foi até á praia e viu que estava tudo tão mal cuidado, que até as raízes das árvores estavam de fora, sem terra, nem sustento. Mas não foi até ao mar. Não matou saudades daquela água baixinha, baixinha, que a gente andava e andava pelo mar dentro e este não nos passava dos tornozelos. Nem se sentou na areia para ver se ela continuava escaldante, solta, se ainda cheirava tão bem como dantes, a sal, a mar, a liberdade de espaços sem fim. Não perdeu os olhos no horizonte para ir ao encontro do nada e do tudo, que se deixam aperceber quando a linha do mar acaba, e começa a linha do imaginário e da ilusão. Não inspirou com força a maresia, o perfume sem igual das praias de Moçambique. Um cheiro mais forte, mais delicioso, um cheiro que nunca encontrei nas praias de cá. Talvez o perfume da saudade, talvez o perfume de todo aquele mar sem tamanho… Mesmo com pouca terra nas árvores, mesmo com pedras no areal, aposto que as nossas praias ainda são lindas de morrer! Não há como isso ter mudado. Não há poder de homem capaz de mover ou apagar uma obra assim tão sublime da natureza mãe, criadora de toda a beleza e de todas as coisas do mundo que nos fazem sonhar.
Andou pelas ruas e encontrou sacos de lixo espalhados e abertos por tudo o que era lugar. Mas não levantou os olhos para as árvores frondosas que costumavam refrescar os nossos passeios, que deixavam um rumor de folhas e de ramos no ar, que às vezes formavam uma espécie de túnel mágico, de um lado ao outro da rua, só para nós passarmos por dentro e não apanharmos muito calor. Árvores de tronco mais largo, outras mais pequenas, outras bem enrugadas, outras mais jovens ainda. Tantas árvores por todo o lado, em todos os espaços. A procura incessante pelo fresco, que é tão característica dos povos que vivem no calor, mas que em Moçambique fica ainda mais bonita. Impossível que as nossas árvores tenham desaparecido das nossas ruas. Têm que estar ainda lá, é o lugar delas, quem as quereria derrubar ou cortar? Não me parece, estão ainda por lá, de certeza que sim.
Já sem falar que o mais certo é que ele se tenha esquecido completamente de à noite, levantar os olhos para o céu. Quem nunca viu um céu estrelado em África, nunca viu um céu estrelado em lado nenhum. As estrelas são aos milhares, inúmeras, incontáveis! São tantas, mas tantas que quase tapam com o seu brilho cintilante o negro aveludado do céu! A gente olha para elas e perde-se completamente. Impossível não se perder. É tão lindo, mas tão deslumbrante que se sente como se fosse uma carícia física! Sente-se como se fosse um afago, um contacto na pele. Nunca olhei para o céu da minha terra, sem que ficasse com os olhos marejados de água. Lindo demais! Um espectáculo digno dos deuses, como diria outro amigo meu. Tem que lá estar ainda! Claro que tem. O céu não desaparece das terras, nem as estrelas deixam de brilhar por cima da cabeça dos homens. Não dá para ser diferente. A beleza sem comparação do nosso céu estrelado tem que lá estar! Basta levantar os olhos, encarar o céu, receber e aceitar. É grátis, é único, é lindo!
Quanto aos sacos de lixo espalhados por todas as ruas, que ele viu, isso também já acontecia dantes. É verdade. Não é nada bonito, nem nada higiénico, principalmente com o calor forte. Lembrei-me agora de que nas traseiras do prédio aonde vivíamos, existia um bom pedaço de terra sem nada. De noite, assim que escurecia, as pessoas do prédio começavam a atirar os seus sacos de lixo para a terra abandonada. Era muito engraçado! Fui muitas vezes à varanda da cozinha com a minha mãe, à “hora de atirar o lixo”. Viam-se imensos sacos de plástico coloridos a voarem, cada qual vindo do seu andar, todos certeiramente apontados para o mesmo lugar. Não me lembro porque é que simplesmente não se descia com o lixo e se colocava no caixote grande cá em baixo, para ser recolhido depois. Mas, apesar de pouco higiénico, essa também é uma das recordações divertidas que guardo da minha infância, sacos a voarem ao mesmo tempo, de vários andares e a aterrarem direitinho na terra abandonada. Bem, pelo menos, na parte do lixo, tudo continua como dantes. Isso não foi preciso estranhar nem precisava de ser chocante. Com o tempo e as saudades, esquecemos um pouco as coisas como elas realmente eram, e começamos a endeusar todas as situações, todas as memórias. Nem tudo era belo e limpo, mesmo na nossa altura! Havia lixo nas ruas sim senhor. Eu sei, porque me lembro, e era bem engraçado!
E os grilos a cantarem à noite? Será que o meu amigo se lembrou de fazer um pouco de silêncio, para os ouvir? Cantavam tanto, tão alto! Eram uma autêntica orquestra de sons encantados! De noite, pelas ruas, nos jardins, nas esplanadas, sempre o som bonito dos grilos a fazerem-se ouvir. Eu gostava muito! Não há passeio à noite, de que me lembre, de quando éramos nós quatro, lá, e que não esteja misturado com as recordações dos grilos a cantarem. Os grilos ainda estão por lá, naquelas ruas, naqueles lugares todos, como dantes, iguais ao que sempre foram e sempre serão, seres alados que alegram o mundo com o seu cantar. Que não se calam quando os governos mudam, que não têm medo de revoluções, nem de confusões. Cantam simplesmente, num hino constante à noite e aos seus mistérios, ao dia e às suas alegrias.
Eu acho sempre tão melhor, tão mais saboroso olhar as coisas e procurar nelas apenas o seu lado mais bonito! Há sempre beleza em tudo o que nos rodeia. Para lá das ruas esburacadas, para lá dos sacos de lixo, para lá das praias mal cuidadas, do abandono provocado pela falta de manutenção, das obras paradas, para lá disso tudo, está a nossa terra linda! A mesma de sempre, única, sempre bela, sempre imutável! 
Voltar a casa e preocupar-me em perder o meu precioso tempo a dar-me conta daquilo que não está tão bem, não faz grande sentido para mim. Um dia, se eu voltasse lá, às minhas ruas, às minhas praias, aos meus jardins, ia encontrar tudo lindo na mesma! Não ia notar diferença alguma. O sol é ainda o meu sol cor-de-laranja, o céu ainda é o meu céu azulão, as acácias ainda são vermelhas, o mar ainda cheira àquela maresia única no mundo e ainda contínua baixinho, pelos tornozelos. Os grilos ainda cantam de noite e as estrelas ainda nascem aos milhares, todas as noites, penduradas no céu negro de África.
E isso é que interessa! Isso é tudo o que faz com que passados tantos anos, nos continuemos a lembrar e a querer bem àquela terra bonita! Não as outras coisas pequenas, que não têm valor, não têm importância nenhuma. Coisas pequenas mudam, perdem-se, estragam-se.
Meu amigo, aproveite bem as suas férias! Divirta-se muito. Sinta-se em casa. Esqueça as amarguras, os ressentimentos. Olhe á sua volta, respire, apanhe uma flor, deite-se no capim, dance ao som de um batuque, tome banhos de mar à noite quando as estrelas brilham, vá comer um gelado de chocolate ao Scala, se não houver já Scala a outro lado qualquer, o que interessa é comer o gelado e sentir-se bem. Vá beber uma das nossas Coca-Colas bem fresquinhas, ou uma Laurentina muito gelada a transpirar num copo alto! Coma camarões, coma caril! Arranje uma namorada, namore muito, tenha um amor lindo como são todos os amores de Verão, leve-a a passear, encante-se com ela, procure nela o gosto de todos os amores de dantes, com o paladar de agora. Isso também é voltar a casa! E é muito bom!... Seja feliz com as coisas realmente importantes, aquelas que sempre esperam por nós, nos lugares que amamos.
Dê um beijo grande por mim à nossa cidade maravilhosa, e obrigada por ter mandado noticias. BOAS FÉRIAS!!!!!!

Sem comentários:

Enviar um comentário