sonhando, escrevendo e imaginando

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Nunca fui mulher de pedir muito


Nunca fui mulher de pedir muito.
As minhas aventuras foram apenas simples casos de amor.
Procuro sempre não me meter em grandes complicações,
mesmo quando o meu coração dispara enlouquecido pelos ares.
Dinheiro, automóveis, roupas caras, jóias, luxos, passeios,
nunca foram coisas que me seduzissem ou atraíssem.
Não me lembro de uma única vez
em que tenha escolhido um homem para mim,
baseada no que ele me podia oferecer
para lá do seu amor, do seu desejo e do seu carinho.
Nem faço questão nenhuma de alianças, papeis passados,
compromissos oficiais, reconhecimentos.

Nunca fui mulher de pedir muito.
O que eu sempre quis foi ser feliz.
Desde os tempos em que era pequenita,
e em que a minha felicidade era voltar parar casa, no fim da escola.
Não me preocupo muito com o futuro,
com o que está para vir daqui a dez, vinte, trinta anos…
Nem sequer sei se cá estarei ainda por essas alturas!
A vida ensinou-me que tudo o que são coisas,
e que pensamos que são nossas,
podem desaparecer de uma noite para o dia.
Para isso serviu o ter nascido em Moçambique,
e ter visto como todos os bens materiais se esfumaram ante os nossos olhos.
Como mudaram de mãos, mudaram de donos,
sem termos tido tempo sequer para nos despedirmos.
Talvez por isso mesmo,
aquilo que mais amo
são as coisas que não podemos comprar.
Os sentimentos, aos quais ninguém pode pôr um preço,
nem atribuir um valor comerciável.
Sentimentos que se os conquistarmos,
ficam connosco no nosso coração para sempre,
ainda que mudem governos,
acabem países,
mudem de nome as terras, as ruas e os jardins.

Nunca fui mulher de pedir muito.
Por isso acho que o que peço bem que me podia ser concedido…
Não sei se por alguma divindade lá de cima,
se pela célebre lei universal que rege o universo,
Sei que só queria ser feliz,
e que não concebo outra felicidade,
sem ser junto ao homem que amo.

Ele não precisava de largar tudo, o que já existia antes de mim.
Não precisava de casar comigo,
viver comigo,
ter sequer dia certo para aparecer e se deitar na minha cama.
Precisava de estar para mim,
pelo menos naquelas alturas em que mais preciso dele.

Tenho andado muito insegura,
muito carente,
muito necessitada de uma palavra carinhosa,
de colo,
de um abraço.
E ele está lá,
e eu estou cá.
E o caminho que unia as nossas duas distâncias
e fazia com que estivéssemos na mesma estrada,
está-se a encher de nevoeiro.
O fio condutor que tínhamos conseguido arquitectar para nos aproximar,
para nos guiar um ao outro
está-se a desvanecer devagarinho, devagarinho…
E ele diz que é uma fase,
que vai passar,
que precisa de espaço…
E dói muito ouvi-lo dizer que me ama,
e vê-lo a ir embora,
e não poder deitar-lhe as mãos ao casaco,
abaná-lo, abrir-lhe os olhos para ele perceber,
para o impedir de partir.
E dói demais não ter nenhuma ideia salvadora,
que pudesse resolver tudo de uma vez,
dissipar as dúvidas, clarificar as ideias.
E ele diz que não posso fazer nada,
só posso ter paciência.
E eu amo-o tanto, tanto!...

Nunca fui mulher de pedir muito,
mas hoje gostaria de pedir,
a quem estiver de serviço lá em cima
e me poder ouvir,
que traga o meu amor de volta para mim.
Complicado, difícil, cheio de contratempos e barreiras,
mas outra vez lindo, quente, carinhoso!
Demorei tanto tempo para o encontrar,
a minha vida inteira!
Para que mo puseram no caminho,
para que deixaram que me apaixonasse por ele,
desta maneira tão completa e absoluta,
se não era para ele ficar na minha história?

Deus das barbas brancas e da voz de trovão,
não tens vergonha de te portar tão mal comigo?
Afinal que mal te fiz?
Não chega já de me castigares?
Tiraste-me da minha terra,
das minhas ruas, das minhas árvores, das minhas praias,
das minhas noites estreladas de mil estrelas sem fim.
Tiraste-me o meu pai, a minha mãe.
Levaste a minha maninha bonita para tão longe!
Deixaste que o meu casamento fosse o que foi e acabasse como acabou…
Deixaste-me chorar sozinha e perdida por tantos e tantos anos!
E sabes bem que nunca deixei de acreditar que ias dar um jeito em tudo,
nunca deixei de confiar em Ti!
Não queria muito,
não te pedia mais nada durante o resto da vida…
Faz só com que ele goste de mim,
da mesma maneira que eu gosto dele.
Faz com que ele não se vá embora,
faz com que ele perceba que o que quer não é espaço,
que o que tem é medo de me amar demais e de não conseguir viver sem mim!
Se até eu percebo isso,
Como é que ele sendo tão culto,
tão inteligente, tão brilhante,
não se deu conta ainda?

Nunca fui mulher de pedir muito,
mas francamente…
acho que Tu me deves isto!
Eu sei que eu disse que sou uma rapariga crescida,
que consigo resolver,
que consigo ultrapassar.
Não sou nada!
Não consigo nada!
Ainda sou a mesma menina pequenina que queria ir para casa.
Só que agora a casa mudou de endereço.
E a casa não é mais de quatro paredes e um tecto de tijolo e cimento.
A minha casa agora é o coração dele,
As paredes são os braços,
E o tecto é o corpo inteirinho,
bem perto do meu, bem quente, bem gostoso!

Não deixes que a minha casa nova se desmorone!
Sabes que deitaram a caverna abaixo, não sabes?







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