sonhando, escrevendo e imaginando

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Para quê saber do meu passado?

Há uma canção brasileira que eu amo de paixão e que começa assim: “Para quê saber meu nome, saber do meu passado?” Já tive vontade de fazer essa mesma pergunta, pelo menos dezenas de vezes, a dezenas de pessoas diferentes.
Embora seja do conhecimento geral que todos nós temos uma história, uma bagagem que carregamos connosco e que faz de nós o que somos, seja isso bom, seja mau, ou seja mais ou menos um pouco das duas coisas, é bem rara a pessoa que conheço de novo, que não me faça perguntas sobre o passado.
O passado fascina. As coisas que desconhecemos parecem sempre mais atraentes do que aquelas que nos contam, simplesmente, abertamente. Os segredos encobertos, as pontas soltas de casos suspeitados, os episódios mal resolvidos, tudo isso atrai muito mais a curiosidade, do que é possível imaginar. Os homens são bem curiosos, embora gostem de pensar o contrário! Julgam que por conhecerem melhor o que deixei para trás, e o que trouxe comigo no coração daquilo que ficou para trás, vão passar a conhecer melhor o que sou hoje. Julgam que sabendo a quem amei, sabendo com quem estive antes deles, quais foram as ruas por onde andei e quem me fez companhia enquanto andava por elas, quais os lugares do caminho aonde parei e descansei e na companhia de quem o fiz, vão ter acesso mais fácil e mais directo ao meu coração, ou vão desvendar melhor os segredos da minha alma. Ou acreditam que vão ser capazes de prever o que vou fazer amanhã, se souberem o que fiz ontem. Ou quem sabe, querem apenas avaliar em qual lugar estão na minha escala de preferências, ou com quantas recordações antigas vão ter que partilhar os meus abraços e os meus beijos? Talvez no fundo, lhes agrade saber que têm nos braços uma mulher a quem já muitos outros homens quiseram, e isso lhes confirme que têm bom gosto, ou que o tempo que estão a perder é bem empregue.
Mas existem certos assuntos sobre os quais não gosto muito de falar. Certas coisas que não gosto muito de lembrar. Pessoas que só em pensar que podem regressar, nem que seja apenas sob a forma de recordação, me dão um medo danado! Existem lugares aonde não quero ter que voltar, situações que não quero reviver, lágrimas que não quero ter que chorar de novo… Tomei muitas atitudes, fiz muitas escolhas e segui por muitos caminhos que prefiro que não sejam conhecidos por ninguém.
Não é que me envergonhe, não é que me arrependa. Não sou mulher de ter muitas vergonhas, acho que o que realmente envergonha é carregar o peso de ter feito mal a alguém, ou de deliberadamente ter prejudicado alguma pessoa. Isso nunca fiz, talvez aqui ou ali, um ou outro, se tenha sentido desgostoso comigo, desapontado, desiludido. Mas de forma geral sempre sou muito transparente naquilo que quero, naquilo que posso no momento dar. Por isso, vergonha não tenho. Arrependimento, só se tivesse deixado algum caminho por explorar, se tivesse perdido alguma hipótese de ser feliz por medo, ou por desconfiança de arriscar. Penso que não. Experimentei sempre até ao fim todas as possibilidades que a vida me ofereceu. Arrisquei sempre, quem sabe às vezes até demais, mas nunca dei uma porta por intransponível, antes de bater, rodar a fechadura, espreitar se não podia entrar pelo menos pela janela. Arrependida não estou. Só não gosto muito de falar sobre o meu passado, porque simplesmente não me apetece apresentar-me assim, despida de segredos, quase exposta em absoluto, quase como que numa nudez consentida, sem a roupa confortável que o passado, e o seu manto de invisibilidade, representam para mim.
Não é só das coisas menos boas que prefiro não ter que falar, para não ter que reviver. Também prefiro não me lembrar demais de outras pessoas que foram muito boas na minha vida, que me fizeram muito bem, a quem amei muito e por quem fui muito amada também. Pessoas com quem vivi amores selvagens, loucos, relacionamentos talvez até marginais e doentios, mas tão completos e tão totalmente bonitos! Acho bem melhor deixar essas boas recordações quietinhas, não vão elas subir de novo ao palco da minha lembrança, e eu não ser capaz de mandá-las embora uma segunda vez. Certas visitas queridas do passado, quando aparecem, gostam de reclamar o lugar que já tiveram e perderam. Há certos visitantes a quem custa muito bater a porta na cara… 
Houve pessoas de quem tive que me despedir, porque os nossos caminhos deixaram de se cruzar, porque em certo momento deixámos de querer a mesma coisa, deixámos de sonhar o mesmo sonho. De entre essas pessoas, algumas ficaram para sempre comigo, no coração, na memória, no pensamento. Mesmo que nunca mais os tenha voltado a ver, custa-me muito ter que falar deles a alguém. Custa-me evocar a memória do cheiro, do sabor, do bom que era quando estávamos juntos, do bem que sabia quando nos beijávamos, do apocalipse total do sol e da lua e da chuva de estrelas que acontecia sempre que nos deitávamos por aí, numa qualquer cama de relva, de flores, de mar e areia.
Até de certas músicas me custa recordar. Músicas que ouvia enquanto ia a um ou a outro lado. Músicas que costumavam tocar neste ou naquele lugar aonde eu ia com esta ou com aquela pessoa. Músicas que foram meus hinos de vida e de amor, em certos momentos lindos de prazer. Ou outras ainda que acompanharam as minhas lágrimas naquelas alturas que todos temos, em que o sol da nossa vida parece brilhar com menos cor e menos alegria.
Também não me agrada muito a ideia de que as outras pessoas fiquem a saber demais sobre mim, fiquem a par de demasiados segredos meus. Não gosto muito de facilitar a entrada no meu coração, nem nas minhas histórias antigas. Dar poder a outra pessoa, para saber como administrar os meus afectos, não é coisa que me seduza. Prefiro manter sempre uma considerável distância entre aquilo que sou, e aquilo que deixo perceber de mim. Como se assim, a vida não escapasse ao meu controlo e não houvesse o perigo de seguir junto com a correnteza forte que às vezes leva quem se apaixona.
Então para quê saber do passado? Para quê esmiuçar o nome do primeiro, a morada do segundo, como amava o terceiro, porque deixei o quarto, aonde fui com o quinto… não interessa. Passou, é passado. E o passado, se o deixarmos quietinho e sossegado no seu canto, não tem qualquer poder sobre o nosso presente, muito menos pode assombrar o nosso futuro.
Pela primeira vez, em muito tempo, talvez porque cada nova história, é sempre uma história diferente,gostava de não ter tantas histórias do antigamente a espreitarem por cima do meu ombro. Pela primeira vez, desde há anos, apetecia-me ser uma mulher sem passado, sem presente, sem histórias, nem complicações. Daquelas mulheres normais, que simplesmente nascem, crescem, e a quem nada acontece, que não são manchadas com culpa, nem salpicadas com lama.
Deve ser muito bom, para variar, responder a quem pergunta sobre o passado :”- Não me lembro de nada capaz de te incomodar entre aquilo que já fiz.” E ser mesmo verdade!
Pela primeira vez gostava de não ter corrido tantos abraços, de não ter rolado em tantos leitos, de não ter experimentado tantos beijos. Apetecia-me ser de novo inocente, pura, inexperiente. Voltar a acreditar que pode ser bom, se houver amor. Voltar a não deixar a mão subir tão depressa por baixo da saia, voltar a mandar parar antes que tudo fuja ao controlo. Gostava de ainda ficar na expectativa de como ia ser, de quando ia acontecer, se ia ser bom, se ia doer, se ia querer mais, se ia dar prazer. Não dei a mim própria muito tempo para apreciar devidamente todas essas fases que vêm junto com a paixão e a entrega. Tive sempre pressa, urgência. Achei sempre que o mundo podia acabar já amanhã e eu podia não ter aproveitado tudo o que podia.
Hoje, já não penso assim. Sei que mesmo que o mundo acabe logo á tarde, as coisas continuam a ter o tempo certo para demorar a acontecer, e o tempo certo para serem vividas e apreciadas. Hoje sei, e faz parte da grande quantidade de ensinamentos que vamos adquirindo com a passagem dos anos, que o que dá verdadeiramente prazer, não é o desempenho físico, melhor ou pior, mais rápido, mais vagaroso, mais meigo, mais violento. O verdadeiro prazer é feito de muito mais do que beijos, abraços, carícias e afagos, embora, claro, essa parte também seja boa demais! O prazer, para dar prazer, tem que ser  feito também de confiança, cumplicidade, amor e paixão. Coisas que demoram tempo a conquistar, que demoram tempo a conseguir. Sem isso, de nada serve estar na cama com o mais experiente dos homens. Sem isso, o amor transforma-se em simples acto animal, numa simples transacção de dar e receber, sem graça, sem alma, sem depois, sem até amanhã. Na minha pressa de viver, de ser feliz a todo o custo, fosse com quem fosse, desde que me agradasse, esqueci-me dessa parte. Talvez por isso nunca tenha sido assim tão bom quanto eu esperava que fosse… Talvez por isso, até as pessoas mais queridas do meu passado, ficaram lá atrás, e não tenho vontade de as chamar de novo para o meu presente.
Ter um grande passado amoroso, uma grande experiência, muitas paixões, muitos romances mais ou menos completos, não é garantia de que fui feliz. Não é garantia de que fui muito amada, de que amei muito. É apenas sinal de que procurei bastante, em muitos lugares, com muitas pessoas diferentes.
Por isso mesmo, o passado, pelo menos o meu, não tem importância, não tem grande significado.
Podem pois parar de me perguntar quem fui, de onde vim, de quem fui, a quem chamei meu. Nem com quem fui mais feliz, quem me fez chorar, quem esteve mais perto de me ter por inteiro. Não me perguntem mais nada. Não me peçam para contar sobre mais nada.
Vamos fazer de conta que tudo começa hoje. Que não houve nenhum ontem. Que sou uma folha em branco, sem registos, sem cicatrizes. Em vez de perguntar pelo passado, é muito melhor construir um presente bonito e maravilhoso. Para que nunca venha a fazer parte do que passou, e se mantenha para sempre vivo e novo.
"Não me pergunte nada. Fique do meu lado."

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