sonhando, escrevendo e imaginando

sábado, 6 de agosto de 2011

Pode ser a minha história, pode ser só ficção

E pronto! Acabou-se tudo! Mais de vinte anos…
Não foi de um dia para o outro. Não foi tudo de uma vez. Nem demos pelas coisas mudarem a princípio.
Não acabou de uma forma bonita, nem elegante. Talvez tivéssemos merecido um outro fim. Talvez pudéssemos ter tido um outro fim. Ou talvez não devêssemos sequer ter tido um inicio…
Éramos tão novos quando nos conhecemos! Eu tinha dezoito anos, ele, quase vinte. Eu tinha acabado a escola secundária, ele ia entrar para a tropa. Eu queria fugir da casa do meu pai, das suas tiranias, dos seus berros, dos seus desmandos. Ele queria-me a mim, aos meus beijos, aos meus abraços.
Pareceu tudo tão simples, tão natural. Éramos namorados há pouco tempo. Sentíamo-nos bem um com o outro. Estava na minha hora de partir. Os dezoito anos tinham sido desde novinha, a meta a atingir antes de sair de casa. Combinámos tudo. Juntámo-nos no princípio de Dezembro de 1986.
Ficámos a viver num barracão imundo e minúsculo, nas traseiras do quintal dos meus sogros, na companhia dos ratos e do mau cheiro do esgoto. Consegui arranjar emprego, mal remunerado, claro, precário, sempre. Ele foi para a tropa durante quinze meses. Engravidei, em parte devido á falta de juízo, em parte devido aos remédios que na altura tomava para a febre reumática, e que não me deixavam tomar a pílula, como sempre tinha feito até então. Entre o pouco que eu ganhava, o aluguer do quarto e a despesa do bebé, o que sobrava era nada vezes nada. E de nada fomos vivendo os três, até ele sair da tropa e arranjar finalmente trabalho.
Já então ele bebia, fazia noitadas, desaparecia durante dias. De temperamento calmo e tranquilo, passava a agressivo e embirrento sempre que estava bêbado. A minha vida começou a ser um inferno desde aqueles primeiros tempos. Eu devia ter desistido logo ali… Mas não, era feio, parecia mal, o que é que as pessoas iam dizer, logo agora que parecia que tinha finalmente assentado cabeça…
Depois veio a confirmação da doença do meu filho, paralisia cerebral. Vieram as consultas, os exames, as terapias, o internamento numa escola de ensino especial. A escola não funcionou como era esperado, ele não podia ficar sozinho em casa enquanto nós trabalhávamos. Eu não podia pensar sequer em largar o emprego. O meu filho ficou definitivamente a viver com os meus sogros em Lisboa, quando mudámos para aqui. Já se tinham passado mais de seis anos.
Alugámos esta casa, longe de Lisboa, aonde temos vivido até hoje. Aqui, na então casa nova, continuaram as bebedeiras, as ofensas e a vida infernal. Mudei de emprego, para um muito melhor, fiquei a receber um bom ordenado, consegui uma colocação efectiva no Estado. A parte financeira melhorou bastante, e talvez por isso, ele tenha feito umas tréguas na bebida, nas noitadas. Vivemos mais ou menos bem durante uns dois anos. Foi o que bastou para me encher de ilusões e acreditar novamente que tudo ainda se podia arranjar, que o casamento ainda podia ser salvo. Engravidei do meu segundo filho.
Houve mais um, ou dois anos de calmaria e ele regressou ao que era. O cheiro horroroso a vinho, a cerveja, a substâncias estragadas e malcheirosas, os vómitos pelo chão, as noitadas, noitadas abençoadas mesmo assim, porque sempre eram noites em que ele não vinha dormir e não me atormentava de noite na cama. Mais três anos se passaram mergulhados neste inferno sem nome certo, sem fronteira entre o pesadelo e a realidade. Mais juras, mais promessas, mais “desta vez acredita em mim, é a sério”, mais “conversa mole para boi dormir”, como diria uma querida amiga minha brasileira. E eu, burra, estúpida, crédula, como sempre acreditei, perdoei, dei novas oportunidades, fechei os olhos e fingi que ainda podia ficar tudo bem.
Voltou a ficar tudo bem, dentro daquilo que era possível ficar bem. Engravidei da minha filha mais nova. Foi há treze anos. Voltou a ficar tudo mal. Voltou a ficar tudo bem. Voltou tudo a ficar mal outra vez. Cada vez o “bem” durava menos, cada vez o “mal” era pior. Deixei de trabalhar. A minha filha foi diagnosticada como sofrendo de autismo. Fiquei em casa com as crianças, dependente do dinheiro dele, como um dia tinha sido dependente do dinheiro do meu pai. Dependente dos gritos e dos berros da minha filha, como um dia tinha sido dependente dos gritos e dos berros do meu pai. Infeliz, triste e tão sozinha, como tinha sido desde que me conheço, tirando o breve intervalo da minha louca juventude. Sem amigos nenhuns, todos os colegas me deixaram de falar, convencidos de que tinha enlouquecido por ter desperdiçado assim um emprego fixo, bem pago, estável e de futuro, para me enterrar viva, por de trás do sol-posto, à mercê de um bêbado, e com duas crianças pequenas para cuidar todo o dia. Os amigos antigos, os amores antigos, todos esquecidos de mim todos sem saber do meu paradeiro, da minha morada. A minha irmã mergulhada na vida dela, bem satisfeita por ver a mana problemática e selvagem, finalmente cheia de juízo e trancada dentro das quatro paredes de casa, longe das tentações, longe das ruas, dos jardins, da vida toda.
Passavam-se dias inteiros em que não falava com uma única pessoa, a não ser os meus filhos. Não tinha com quem conversar, não tinha com quem rir, nem com quem chorar. Esqueci-me de tudo, esqueci-me de mim. Perdi a noção do quanto a vida é bonita, do quanto é gostoso viver. Não me lembrei de que era bonita, de que era engraçada, de que tinha um espírito divertido e amigo de rir. Passava os dias à espera do dia a seguir, e a pedir que cada dia não trouxesse consigo uma noite de pesadelos. A noite vinha sempre. E os pesadelos também.
Voltámos a ficar com pouco dinheiro, claro, só com um ordenado… Ele continuou sempre a beber. “Bebe uns copinhos. O que é que tem de mal?” Como me costumam dizer. “É teu marido. Tem direitos. Pode fazer-te o que bem quiser. Ninguém pode nada contra isso.” Os anos passaram, devagarinho, tristemente, sempre assim. Eu, que casei aos dezanove anos, tenho agora quarenta e quatro. Grande parte da minha vida foi passada aqui, dentro destas paredes.
Há pouco tempo, um ano, ou talvez um pouco mais, descobri a Internet. Descobri que podia ter um blogue para escrever tudo aquilo que não tinha a quem dizer. Descobri outros blogues, de outras pessoas fantásticas. Descobri o facebook. Comecei de novo a ter amigos. Amigos novos, amigos virtuais, amigos antigos que reencontrei por aqui, na maravilha que é a rede virtual que une mundos e pessoas. Encontrei familiares esquecidos, familiares desconhecidos. Encontrei de novo, e acima de tudo, a alegria que era tão minha e que me tinha abandonado há tantos anos!
Descobri-me outra vez a gostar de dizer coisas atrevidas, descaradas, a fazer comentários divertidos, como os que eu sempre fiz, como os que sempre fizeram parte de mim, e da minha maneira solta e leve de encarar o mundo.
Mais do que tudo, encontrei um amor outra vez. Apaixonei-me a princípio, dei por mim a amar a sério, depois, como se fosse a primeira vez. Com este amor aprendi tantas e tantas coisas que nem sequer fazia ideia de que existiam! Mudei a minha forma de ver a vida, de encarar os problemas, as situações novas. Voltei a gostar de me ver ao espelho. Voltei a gostar de me sentir atraente, desejável, mulher. Reencontrei-me comigo própria e descobri-me ainda mais linda do que dantes, por dentro, como por fora. Senti pela primeira vez como é grande e poderoso o prazer que pode haver numa relação amorosa sem preconceitos, sem tabus, sem vergonhas e sem medos. Encontrei o amor da minha vida!
E comecei a não suportar que o meu marido me pusesse as mãos. Comecei a não me querer sujeitar, submeter, aguentar calada. Desisti de chorar em silêncio no escuro do quarto enquanto ele não acabava, e desisti de me levantar de manhã com um sorriso triste, como se nada tivesse acontecido. Percebi que sou dona de mim e do meu corpo, e que tenho o direito de me deitar apenas com quem eu quiser. Não sei se é um direito consagrado por lei. Talvez não… Mas a lei dos homens foi feita por homens e para homens. Pela minha lei, não volto a deixar que me ponham as mãos em cima, se eu não quiser também.
Ele apercebeu-se, claro. Por entre os vapores do álcool, deve-lhe ter chegado ao cérebro confuso, a informação de que as coisas tinham mudado, de que agora já não era rei e senhor dentro do seu ridículo castelo. Os desentendimentos começaram a ser mais constantes, mais violentos. Uma destas noites, correu tudo tão mal que lhe disse, sem margem de dúvida, que já não o queria mais, nem como marido, nem como homem. Que pensasse o que fazer da sua vida e nos deixasse em paz.
Foi triste, foi feio, foi muito mau de ver, de ouvir. Vai ser uma recordação muito dolorosa e muito amarga. Daquelas que eu não quero guardar no coração.
Aconteça o que acontecer daqui para a frente, não estou arrependida de nada. Fiquei por aqui durante mais de vinte anos. Fiz tudo o que podia, da melhor maneira que podia. Não desisti, não me desviei do meu caminho. Teimei e insisti vezes sem conta. A culpa não foi minha.
Nem me arrependo de me ter apaixonado outra vez! Muito menos disso. Este meu novo amor tem sido a minha força e a minha coragem para continuar em frente, para lutar, para não desistir. Bem sei que não é um amor convencional, não é um amor simples e desimpedido. É cheio de complicações, de obstáculos, de entraves e travões. Mas é tudo o que quero para mim, não importa como, não importa por quanto tempo.
Assim sendo, e tendo chegado a esta encruzilhada do meu caminho, hoje ainda estou por aqui. Amanhã não faço ideia de por onde andarei. Sem me esquecer nunca de que tenho todo o direito a ser feliz!
E quem não quiser nem aceitar, nem perceber, que se dane! Como eu sempre me danei, sozinha e abandonada, durante estes últimos vinte anos.

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