sonhando, escrevendo e imaginando

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Se a noite não viesse...

Se a noite não viesse…
Quando eu era pequenita, uma senhora que tinha uma papelaria, bem perto da nossa casa, e aonde o meu pai costumava ir todos os dias, comprar os cigarros e o jornal, foi encontrada morta em casa. Eu gostava muito dela. Costumava oferecer-me rebuçados e caramelos. Era simpática, sorridente, usava uns óculos engraçados grossos, de armação cor-de-rosa, um carrapito bem enrolado no alto da cabeça e tinha sempre alguma história engraçada para contar. Os mabandidos entraram-lhe em casa de noite, roubaram o que puderam e, não contentes, mataram-na com requintes de malvadez. Foi nos nossos últimos tempos de Moçambique. Uns meses antes de virmos para cá.
Lembro-me que durante uns tempos, não fui capaz de adormecer na minha cama, nem queria ficar no meu quarto de noite, apesar da minha irmã dormir logo ali, na cama ao lado da minha. A minha mãe levava-me para a cama dela de casal, enorme, protectora e larga, e depois de eu adormecer, o meu pai trazia-me para o meu quarto. Na minha ideia de criança, os “mabandidos”, como nós lá chamávamos aos bandidos, podiam dar com a nossa casa, entrarem-nos pela varanda, partirem os vidros e matarem-nos a todos enquanto dormíamos. Foram dias complicados! Tive muito medo! E os meus pais tiveram muita paciência comigo, verdade seja dita…
Depois, outras preocupações mais urgentes e mais graves, muito mais reais, relacionadas com a nossa vinda para cá, reclamaram toda a minha atenção, centraram todos os meus receios e fui-me esquecendo da senhora dos cigarros e dos jornais. Aos poucos voltei ao meu quarto e á minha cama.
Desde essa altura, e já lá vão tantos anos, nunca mais tive medo do escuro, nem de dormir sozinha, nem dos mistérios escondidos por detrás das sombras. Não tenho receio algum de ladrões, nem de criminosos nocturnos que entram pelas janelas durante a calada da noite. Talvez devido às minhas amizades especiais da juventude, não tenho medo de jovens delinquentes, nem de ladrões ou malfeitores. Também nunca nenhum me fez mal. Tenho um pouco de Padre Américo, acredito que não há maus rapazes. E nunca tive prova em contrário. Além disso, confio na minha boa estrela que até agora, tem sempre desviado os perigos mais sérios do meu caminho. Tenho um amigo que costuma dizer: “ninguém nunca vai ter coragem de te fazer mal algum. Era o mesmo que fazer mal a um passarinho, ou a um gatinho pequeno. Quem é que consegue?” Talvez… A verdade é que a vida me ensinou que, muitas vezes, se olharmos o perigo nos olhos, ele apercebe-se de que existimos, e deixa-nos em paz. Acho que a maioria das pessoas não tem coragem de fazer mal a alguém quando se dá conta que o “alguém” é afinal uma pessoa, e não uma entidade abstracta. Sei que parece uma teoria maluca, se não parecesse uma teoria maluca, também não seria uma teoria minha, mas costuma funcionar bem. Isso fez-me lembrar de uma altura, no Carnaval, em que uns rapazes queriam atirar ovos e farinha a mim, á minha irmã e a uma amiga nossa. Era uma brincadeira parva que se fazia nos Carnavais da minha juventude, acho que agora caiu em desuso… Elas as duas fugiram logo para trás, espavoridas, á espera da chuva de farinha, mas eu fui ter com os rapazes e expliquei-lhes que os ovos e a farinha nos iam estragar a roupa e sujar o cabelo. Sorri-lhes e pedi-lhes que nos deixassem em paz. Foi isso mesmo que eles fizeram, no fim de se apresentarem, darem dois beijinhos e seguirem o seu caminho em busca de outras vítimas. Fácil, simples, limpo e muito mais bonito! A vida consegue ser muito bonita, quando lhe damos uma oportunidade, e normalmente as pessoas que encontramos na vida, também!
De há um tempo para cá, voltei a ter medo sempre que cai a noite, sempre que a luz do sol deixa de me proteger com a sua claridade abençoada. Voltei a ficar acordada no escuro, atenta ao ranger do soalho de madeira na sala, com os olhos presos na réstia de claridade que entra por debaixo da porta, a escutar ansiosamente os minutos do relógio a passarem devagarinho, tão devagarinho… as noites são compridas demais! Têm muitas horas, muitos minutos, demoram uma eternidade a passar! Voltei a escutar passos no corredor, a adivinhar sombras na parede, a calcular distâncias, a planear por onde fugir, a imaginar como barricar a porta. Só que desta vez, já não há mãe nenhuma que me deixe enfiar na sua cama larga, nem pai nenhum para me trazer de volta no colo, quando eu adormecer. Também na cama ao lado da minha, já não está nenhuma irmã mais nova, a dormir calmamente, de dedo enfiado na boca, com uma boneca deitada ao lado. Já nem sequer há cama alguma ao lado da minha. Desta vez estou sozinha. Muito sozinha. E a escuridão é infinitamente maior. E a vida inteira continua sossegada lá fora, na ignorância de todos os meus males e no sossego que o escuro traz a tudo aquilo em que toca.
Sempre que vem a noite, começa a outra parte da minha vida. A minha faceta risonha, bem-disposta, animada e brincalhona fica posta de lado. O sorriso que me baila sempre pronto nos lábios fica congelado, o coração que eu gosto de deixar bater ao ritmo desenfreado que ele tanto aprecia, começa a trabalhar em modo de sobrevivência e só dá as batidas estritamente necessárias para não parar. Esqueço as palavras felizes, os comentários atrevidos, esqueço o meu mundo bonito dos dias, e esqueço-me de quase todas as pessoas que fazem dos meus dias uma coisa muito mais linda de ser vivida. Nenhuma das pessoas dos meus dias, nenhuma das coisas que gosto nos meus dias, pode vir ter comigo para me ajudar. Nada nem ninguém consegue empurrar o portão do quintal, saltar a janela do meu quarto, vir ter comigo à cama e fechar-me dentro de um abraço protector. Nada nem ninguém pode sentar-se ao meu lado, enxugar-me as lágrimas, dizer que tudo vai passar. Nem me passaria pela cabeça pedir isso a ninguém. Os problemas são meus, eu é que os criei, eu é que os deixei crescer, logo, sou eu quem tem que os resolver. Não tenho nada que arrastar outras pessoas para as minhas trapalhadas, nem para as minhas confusões, embora continue a esperar, mesmo assim, que alguém apareça para me salvar, sempre e todas as noites. Enfim… quando se tem uma cabeça sem muito juízo, é o que acontece! Se existissem mesmo espíritos, ou se eles se pudessem materializar realmente na nossa dimensão, imagino que talvez o espírito do meu pai aparecesse no meu quarto, quase sempre que o chamo. Mesmo sem acreditar muito em espíritos e almas de outro mundo, costumo chamá-lo mesmo assim. Lembranças que ficaram do tempo bonito e feliz, quando ele era o meu herói… de quando nada era mais importante no mundo do que passear de mão dada com ele pelas ruas bonitas cheias de acácias vermelhas, de quando ele era enorme, grande, invencível e poderoso. Mas, o mais certo é que se o meu pai realmente me aparecesse, em vez de me proteger, viesse antes ralhar-me pelo estado a que me deixei chegar. “- Não foi por falta de aviso! Não foi por falta de conselhos! Fiz o possível para dar a vocês duas ferramentas para conseguirem dar um bom rumo às vossas vidas. Olhe o que fizeram!” E teria razão, como sempre, estaria coberto de razão. Não foi por falta de aviso, foi mesmo por falta de juízo! Alguém devia fazer uma lei muito dura, que impedisse jovens adolescentes de poderem dar rumo às suas vidas, numa altura em que ainda só sabem sonhar e dizer disparates. Se bem que se essa lei existisse mesmo, ainda hoje eu estaria coberta por ela, pelo menos na parte que diz respeito aos sonhos e aos disparates. E talvez continuasse mesmo a precisar de estar coberta por ela… ou talvez não, não sei.
Mas como não acredito em almas de outro mundo, e como não acredito também que ninguém deste mundo entre pela minha janela, fico sozinha no meio do escuro, à espera, a contar os minutos. A espreitar as sombras na réstia de luz, a antecipar os passos, a escutar o barulho seco que a porta do quarto faz a abrir devagarinho. Fico sozinha e aguento sozinha. Aguento heroicamente, sem fazer barulho, sem protestar, sem reclamar, sem acordar quem não tem nada que ver com os meus problemas, com as minhas confusões. A única coisa que posso fazer, é chorar. Mas até chorar tem que ser baixinho, sem se notar. Os cães, quando sentem que as suas vítimas têm medo, atacam mais depressa e mais ferozmente, dizem. Os cães sempre me pareceram animais bondosos e amigos, não me parece que no seu estado normal sejam capazes de atacar quem quer que seja que não lhes faça mal, ou constitua uma ameaça para o seu território. Mas isso são os cães, os homens são criaturas muito diferentes. Afinal têm a faculdade do raciocínio, e o poder do pensamento. Sendo assim, choro baixinho, sem se notar. As lágrimas também não fazem barulho a escorrer, são amigas leais, não me faltam quando as chamo, não me atraiçoam quando preciso que estejam caladas, somos conhecidas antigas, eu e elas. Fazemos companhia uma à outra há mais tempo do que aquele que me consigo lembrar. Devemos ter alguma espécie de pacto ou aliança que não se quebra, que não se dissolve. Choro e fujo em pensamento. Vou para longe, para muito longe, nas asas da imaginação. Atravesso continentes, oceanos, florestas. Visito praias distantes, passeio em ruas bonitas e cheias de movimento, fico sentada a ver o pôr-do-sol, a contar as pétalas de um malmequer, malmequer, bem-me-quer, muito, pouco, tudo ou nada, sigo as aves migratórias em bandos selvagens pelos céus, tomo banhos em todos os mares e descanso em todos os campos floridos do mundo. Não imagino mais ninguém comigo, não penso em mais ninguém. Ninguém precisa de ser trazido para dentro dos meus sonhos quando eu estou triste. Só costumo sonhar com as pessoas a quem amo, quando estou feliz e alegre.
No fim, a noite acaba sempre por passar. Depois da noite, vem outra vez o dia. O dia redentor, libertador, claro, cheio de luz, cheio de vida. E quando o dia volta, é só sair da cama, pôr um sorriso no rosto, fingir que nada aconteceu, e seguir em frente. E é como se nada tivesse acontecido. Se calhar nem nada aconteceu mesmo. Pelo menos nada de tão mau, como eu sinto que tenha sido. Muito possivelmente continuo a mesma exagerada de sempre, a mesma que valoriza demais os sentimentos, que espera demais das pessoas, que exagera as situações, e que dramatiza tudo aquilo que às vezes são coisas naturais da vida. Mas não é assim que eu quero a minha vida. Não desta maneira feia, escura, sem emoção, sem prazer. Não por obrigação, por dever. Queria que fosse só por amor, por vontade, por desejo. Só com quem eu quisesse e com mais ninguém. Não queria outras mãos em cima de mim, nem outra boca a lambuzar-me o rosto, nem outro peso a esmagar-me o peito. Não queria chorar, não queria sofrer, não queria que fizesse doer. Não me queria sentir suja, nem usada, nem parecida com uma infeliz prostituta da rua, que vende o corpo em troca de um prato de comida e um tecto para se abrigar.
Queria muito mais! Queria tudo! Queria o mundo inteiro de felicidade! Queria o romance! Queria poder pegar na minha mochila velhinha de lona e sair pela porta fora, deixar a maldita chave em cima da mesa, e desaparecer lá em cima, na esquina da minha rua com a avenida mais larga. Queria fugir de casa outra vez, igual como fiz aos dezoito anos. Com os mesmos sonhos de liberdade, com as mesmas esperanças de ser feliz. Daquela vez deu tudo errado. Acabou tudo mal. O caminho que escolhi veio dar ao sítio triste aonde me encontro agora. Passaram mais de vinte anos. Já não tenho outros vinte anos para gastar a bater caminhos alternativos, a experimentar planos B e C. O meu tempo está-se a esgotar depressa demais. O que quer que vá fazer tem que ser rápido, eficiente e acertado. Não me posso dar ao luxo de errar de novo. Talvez devesse esquecer amores, desejos e prazeres e fazer-me à estrada sozinha, sem companhia, sem esperança de parcerias com ninguém. Talvez devesse colocar a minha felicidade apenas na minha dependência. E talvez devesse depositar todas as minhas esperanças apenas em mim própria e na minha capacidade de dar a volta por cima e sobreviver sozinha.
Talvez fizesse isso mesmo, se fosse outra pessoa. Mais fria, mais prática, mais racional. Mas sou apenas eu. A mesma de sempre. A que gosta, quer e deseja, tudo com a mesma intensidade, tudo com a mesma paixão. A que é capaz de revolver céus e mares para ficar um bocadinho ao lado de quem ama. A mesma que sonha com histórias de amor sem fim, com finais felizes, com lindos “para sempre”.
De qualquer maneira, conheço-me muito bem. Mesmo que conseguisse realmente alcançar a liberdade total, mesmo que conseguisse dormir todas as minhas noites sem ter medo do que possa entrar pela minha porta, nunca seria feliz, se não tivesse no coração a pessoa a quem amo.
Vou tentando conciliar os meus dois mundos. Vou tentando não ter que fugir para muito longe dos meus amores, dos meus sonhos. Assim que me aparecer uma oportunidade de apanhar boleia no comboio da vida, dou uma corrida, penduro-me na porta da carruagem e vou escondida do revisor. Saio no apeadeiro mais próximo possível da estação chamada Felicidade. Mas não vou para muito longe, nem vou por caminhos onde não consiga ser encontrada por quem me quiser procurar.
Para mim, a felicidade é impensável se estiver sozinha. Eu quero tudo, quero o pacote completo. E no meu pacote completo tem que vir o romance. “Amor” é o nome da estação de comboio da linha da vida, aonde quero ficar e terminar a minha viagem.
E eu sou muito teimosa, hei-de lá chegar!

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