sonhando, escrevendo e imaginando

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Fui apanhada desprevenida

Fiquei admirada, fiquei surpreendida.
Porque há emoções que nos apanham assim,
sem estarmos preparados.
Quando estamos por aí,
demasiados ocupados,
demasiado preocupados com a vida.

Somos sempre mais amigos daqueles com quem choramos
Do que daqueles com quem rimos.

Comigo sempre aconteceu desta maneira.
Quem tem paciência para me aturar,
quem fica comigo sem pedir nada quando preciso de colo,
quem me dá carinho quando choro,
tem direito á minha gratidão eterna.

Tenho a felicidade enorme de ter alguns amigos queridos assim.
Alguns devem estar a ler o que estou a escrever,
e sabem quem são.
E sabem que os amo de todo o coração,
porque fazem parte da minha vida.
E dia que não fale com cada um deles,
é um dia mais triste para mim.

Um deles mora dentro da minha alma desde que desembarquei em Portugal.
Alguns estão comigo quase desde a infância.
Outros fui-os conquistando ao longo do meu caminho.
E tenho os que vivem no meu coração há menos tempo,
e ocupam um lugar tão importante como todos os outros.
Tenho-os procurado a cada vez que estou mais triste,
porque não sou capaz de chorar sozinha.
Não consigo sofrer escondida no quarto,
nem tenho a capacidade de fingir que estou muito bem,
se por dentro me sinto a estalar de dor.
Eles têm-me apoiado mesmo quando eu erro,
têm ficado comigo mesmo quando insisto nos meus erros,
e têm sido a minha melhor terapia, grátis e sem hora para acabar,
o meu mais eficaz antidepressivo, sem efeitos secundários, nem danos colaterais.

Alguma coisa boa devo ter feito na vida,
mesmo sem ter dado conta disso…
Mesmo enquanto vou ao fundo e venho ao de cima,
e estou por demais ocupada em não me afogar.
Porque ninguém tem a felicidade de ter amigos
queridos e preciosos como eu tenho,
se não tiver algum pequenino préstimo
que seja.
Obrigada a todos vocês,
Homens e mulheres da minha vida!
Com rostos lindos que sei de cor,
ou sem rosto mas com coração de ouro.
Não vão embora,
não se cansem e não me deixem,
não sei o que seria de mim se ficasse sem vocês!

Fiquei admirada, fiquei surpreendida.
Porque há emoções que nos apanham assim,
sem estarmos preparados.
Quando estamos por aí,
demasiados ocupados,
demasiado preocupados com a vida.

Nunca namorei um amigo.
Mas já me aconteceu ficar amiga de antigos namorados.
Nunca comecei devagar, com tempo.
Apaixonei-me sempre depressa demais,
Sem reflectir, sem ponderar.
Nunca senti que pudesse gostar de forma diferente de um amigo meu.
Mas há emoções que nos apanham desprevenidos,
Sem estarmos preparados.

Não sei como lhe chamar,
Não sei que titulo lhe dar.
Sei que ele não é meu irmão, nem meu primo, nem meu filho…
Se faz parte da minha família?
Faz parte das pessoas que moram no meu coração.

Se não quer ser apenas meu amigo…
Não sei como lhe deva chamar.

Talvez se ele tiver calma comigo,
Se me der tempo,
Se souber esperar.

Sei que fui apanhada desprevenida,
Enquanto andava ocupada demais a pensar na vida.

Há emoções que nos apanham assim,
e que vão somando pontos com os pequenos detalhes…
Eu gosto de ser conquistada, protegida, acarinhada.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Não é assim que vou desistir...

Existem lugares aonde passamos
e nos quais nunca nos imaginaríamos a viver…
Casas aonde até moramos
mas nunca chegam a ser o nosso lar…
Pessoas que parecem não nos estar destinadas
mas que não nunca deixamos sair das nossas vidas…

Eu não acredito muito,
nunca acreditei muito no destino.
Mas para quem acredita,
existem certas coisas a que se chamam sinais.
E certos desses sinais
são fortes demais
para serem simplesmente ignorados.

Quando tudo está combinado,
acertado,
encaminhado para acontecer de uma certa maneira,
num certo lugar
 a uma certa hora,
e de repente tudo fica sem efeito,
não apenas uma,
mas várias vezes com a mesma pessoa,
somos decerto levados a pensar
que estamos defronte de um desses tais sinais.

Ou um sinal,
ou alguma coisa desconhecida
que por alguma razão misteriosa
nos afaste daquela pessoa.

Exactamente o género de situação que nunca resulta comigo!
Apesar dos anos se terem passado,
e de eu ter crescido e me ter tornado responsável
nas coisas obrigatórias da vida,
a minha reacção ás contrariedades
nunca vai deixar de ser a mesma.
Chorar, espernear, e fazer finca pé.
Tentar, rondar, ficar por perto.

Apresentar-me dificuldades,
barrar-me o caminho com árvores caídas
e buracos de obras na estrada,
não é a melhor forma de me demover de algo que eu queira fazer.

A Providência, o Destino,
seja lá o que for
que confortavelmente escondido num lugar secreto qualquer
rege as nossas vidas,
devia já de me conhecer melhor do que isso…
Se é para me afastar de alguém,
não é dessa maneira…
Não é pondo entraves,
porque eu consigo removê-los,
ou cavando fossos,
porque eu atravesso-os em duas braçadas,
ou destruindo pontes,
porque sei construir jangadas…
A única forma de me afastar de uma pessoa,
é a falta de carinho,
de amor,
de desejo por mim.

Só quando sinto,
sem sombra de dúvida
que aquela pessoa,
não me gosta,
não me quer e não me deseja…
Só aí fico sem razões para continuar a lutar.
Porque posso ser capaz de derrotar o mundo,
mas não sei, nem quero violar o coração de ninguém.

Se deixar de lutar não quer dizer que deixei de amar.

Então fica esclarecido,
Senhor lá de cima,
Anjo, Querubim, Entidade,
Luz, Força,
não sei bem o quê:
Pode parar de inventar entraves.
Não vai conseguir nada assim!
Quanto mais dificuldades levantar,
Mais vontade eu vou ter de avançar…

Já nos conhecemos há tantos anos!...
Tinha obrigação de saber mais de mim…

Eu sou selvagem, indomada, impossível pôr-me cabresto!

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Queria viver dentro de uma fotografia

Queria viver dentro de uma fotografia…
Esconder-me num recanto qualquer.
Deixar que todos passassem.
E quando fechassem o álbum,
finalmente sair a passear.

Podia ser numa fotografia de uma praia bonita,
daquelas que têm palmeiras quase até pertinho do mar.
Ou então num campo verdejante,
enfeitado de mil papoilas vermelhas garridas e malmequeres amarelos e brancos.
Num jardim luxuriante com avenidas largas de verde,
orladas de canteiros misturados de várias cores e aromas espalhados ao vento.
Ou num deserto escaldante, bem pertinho de um oásis eterno,
sentindo o gostoso da areia quente por baixo dos pés,
e com a certeza consoladora de não mais ter frio.

Podia ser numa fotografia qualquer de qualquer lugar bonito.
Bastava que me sentisse feliz,
por lá ficar.

Podia ser numa fotografia da tua cama,
juntinho de ti,
por debaixo dos teus lençóis.
Podias acordar e em vez de me mandar embora,
perguntar porque é que eu tinha demorado tanto para chegar.
E aí eu lembrava-te de que quem tinha fechado a porta
tinhas sido tu.
E tu rias-te e querias saber se eu já me tinha esquecido
de que não precisava de chave para entrar.

E quando eu te contasse
como tinhas estado tão perto de me perder,
Tu calavas-me com um beijo,
e perguntavas-me se mais alguém me tinha beijado assim.

E quando eu te dissesse que tinha faltado tão pouco
Para ser doutro,
Respondias que sou muito mais do que um corpo,
Que se pode lavar e que se pode esquecer.

Se eu te acusasse de, como sempre, não teres ciúmes,
e não quereres saber de mim,
simplesmente me recordavas que não precisas de sentir ciúmes,
porque tens a certeza de que ninguém além de ti
chegará ao meu coração.

E quando eu me quisesse levantar para ir embora,
Porque ainda estou magoada contigo,
Tu prendias-me nos teus braços e abraçavas-me com ternura,
E fazias.me aquelas coisas que só tu me consegues fazer,
E enfiavas a tua mão por entre os meus cabelos,
por baixo da minha camisola,
por todo o meu corpo,
devagarinho e com tempo,
até me sentires enlouquecer,
até me ouvires gemer de prazer.

Quando eu te dissesse que nada daquilo era real,
que eras só uma fotografia aonde eu escolhi ficar,
Tu paravas um bocadinho,
deixavas-me respirar.
E com aquele jeito que é só teu
e que não consigo deixar de adorar,
olhavas-me sorrindo nos olhos,
pedias-me licença para entrar.

Queria viver dentro de uma fotografia…
Esconder-me num recanto qualquer.
Deixar que todos passassem.
E quando fechassem o álbum,
finalmente sair a passear.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Soube tão bem ter quem me quisesse ouvir

Como se fosse hoje…
As escadas do avião,
tão íngremes,
tão a descer sem fim…
a lembrar o escorrega grande do Dragão de Ouro,
mas sem nos podermos deixar escorregar.
A minha mãe que levava a minha maninha pela mão…
Eu que ia como sempre,
a espreitar o mundo por detrás das calças bem engomadas do meu pai.

Estava escuro.
Pensei que era noite…
Mas não.
Era só falta de sol.
Falta de luz.
Estava frio…
Muito frio!
E as nossas coloridas roupas tropicais
abanavam pobremente como bandeiras desfraldadas,
assinalando o desembarque desconsolado,
de mais um grupo de abandonados,
repatriados,
exilados,
refugiados,
tristemente retornados.

As minhas célebres tias de Lisboa
estavam á nossa espera.
Todas elas.
Temíveis nas suas roupas escuras,
nos seus cabelos estranhamente enrolados á volta da cabeça…
Numa pressa urgente
de resgatar a irmã mais nova,
que finalmente regressava do degredo de África.

O meu pai
mantinha a sua atitude digna e reservada,
Sempre composto, sempre cavalheiro.
Sempre olhado de lado e com desconfiança
pelo bando de senhora idosas que já arrastavam
a minha mãe pelos corredores,
com a minha irmã atónita,
ainda pendurada pela mão.
Numa corrida para o táxi mais próximo,
para a saída mais próxima…
Num sobressalto de que ainda fosse possível
que o avião descolasse de novo,
e lhes levasse a preciosa irmã de volta para
“aquele sítio maldito de onde vieste, e que agora é para esqueceres”

Eu fiquei com o meu pai.
Tantas coisas para fazer ainda…
Malas e sacos para recolher no tapete rolante,
Filas e mais filas intermináveis para obter carimbos,
autorizações,
guias.
Papéis e mais papeis!
Tantos papéis!

“- E agora, papá?”
Ele estava cansado, triste, deslocado.
A sua linda cor morena que sempre fora tão igual á de todos,
parecia ali tão mais escura,
tão mais notória, naquele mundo de gente clarinha e cabelos lisos!
Os nossos,
os que eram iguais a nós,
e falavam com a nossa música na voz,
tinham a nossa cor deliciosa
e os nossos cabelos frisados,
e tinham ainda cheiro a acácias e a mar na pele e na roupa,
estavam já espalhados no imenso oceano que era o aeroporto.

Que saudades deles!
O último agrupamento de gente de África que vi!...

“- Agora Glórinha, é esperar e ter fé em Deus”.
E quando o meu pai falava em Deus,
era mesmo sinal de que a coisa era séria.
Ele e Deus viviam um pouco de costas viradas.
Assim parecido com o que acontece comigo ainda hoje.
Por alguma razão desconhecida,
o grande Pai do Céu,
não tem sido muito carinhoso comigo,
e também não foi nada bondoso com ele.

“- Esperar? Vamos voltar para casa?”
Eu sabia que não.
Mas não custava perguntar.
Ele sabia que não.
E sabia que eu também sabia.
Mas não custava responder.
“- Um dia vamos voltar sim, minha filha.
Nem que tenhamos que ir pendurados na asa de um avião.”

Ficámos de mão dada.
Parados,
Num choro sem lágrimas,
Perdidos, desamparados,
Sem mais ninguém.
Num país estranho que não nos queria,
No meio de pessoas desconhecidas que nos evitavam.
Eu e ele, o meu papá do coração.
Eternos estrangeiros.
Tão familiarmente diferentes do resto do mundo todo.

Não voltámos mais á nossa terra linda das acácias em flor.
O meu pai morreu anos depois.
Não esqueceu, não perdoou, não voltou a ser quem tinha sido.
Eu…
Eu continuei a procurar o mar
ao fundo de cada rua.
Ás vezes parece que ainda o vejo,
Brilhante,
A reflectir a luz do sol.

Quem sabe… um dia?
Ontem lembrei-me muito da minha terra.~
Soube-me tão bem falar dela!
Soube-me tão bom ter quem quisesse ouvir-me falar dela…

Há novidades boas que acontecem a cada dia na nossa vida

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Devia cuidar melhor de mim

Devia…
Preservar-me do sofrimento.
Proteger-me de tudo o que me possa deixar triste.
Fugir de tudo o que me possa fazer chorar.

Mas assim não sou eu.
Deixo de ser quem sou.
Se não arriscar,
perco a liberdade de sonhar.

Bem sei que a história da minha vida
tem sido um risco constante.
E sei que a maior parte das vezes,
tenho saído muito maltratada das minhas lutas
e das minhas batalhas.
Têm-me encostado contra a parede,
Têm-me empurrado,
Têm-me feito chorar,
Têm-me levantado a saia da alma
E têm-me violado o coração.
Têm-me deixado sozinha,
Têm-me desfeito as ilusões,
Têm-me feito perder as esperanças,
e têm reduzido o meu amor a mera distracção passageira.

Mas também tenho tido momentos muito bons.
Ainda que por meros instantes, tenho sido muito feliz!
Mesmo que essa felicidade não costume durar mais
do que o tempo que se leva
para despertar de um sonho.
Mesmo assim,
tem valido a pena!

Cada suspiro,
Cada gemido,
Cada carícia, cada afago, cada beijo…
Tudo tem valido a pena…
Cada palpitar do coração,
As boas novidades,
As conversas apaixonadas,
As noticias espaçadas,
As mensagens, os telefonemas,
Tudo,
Tudo tem valido tanto a pena!

Ensinaram-me a ter cuidado,
A não sair com estranhos,
A ser difícil,
A dizer não, mesmo quando quero dizer sim,
A testar, a pôr á prova antes de aceitar,
A fugir, a rodear, a farejar…
Mas nunca soube ser assim.
Nunca me soube proteger,
Nunca me soube escudar.

Continuo a mesma adolescente pateta
que pode esperar horas pelo namorado,
e acreditar que ele simplesmente teve um contratempo,
ou que não teve como avisar.
Continuo a aceitar desculpas, pretextos, evasivas.
A achar tudo normal, possível, realizável…

Continuo a dar-me toda,
Por inteiro,
Sem reservas,
A abrir o coração de cada vez que abro os braços,
A acreditar, a ter esperança, a confiar…

Devia ter mais cuidado comigo.
Preservar-me do sofrimento.
Proteger-me de tudo o que me possa deixar triste.
Fugir de tudo o que me possa fazer chorar.

E se assim deixasse de ser eu,
quem sabe não começaria a ser
outro alguém muito melhor?

É que quando me olho no espelho
tenho tanta pena da dona do sorriso bonito…
Tanta vontade de lhe dar um beijinho
e dizer que tudo vai passar…


domingo, 25 de setembro de 2011

Um telegrama para ti

Telegramas, lá em casa, eram sinónimos de más notícias.
Nas duas casas,
na nossa,
a verdadeira de lá longe,
e na outra, na caverna, de cá perto.

Sempre que recebíamos um telegrama,
vinha nele uma noticia de que alguém tinha falecido.
Uma tia,
um tio,
um primo afastado, próximo, direito ou em qualquer outro grau.
Numa família numerosa e cheia de pessoas idosas, como a minha,
aconteciam mortes muito mais vezes do que aquelas de que me quero lembrar.

A maioria dos falecidos era-me completamente estranha.
Não visitávamos muitos parentes,
nem eles queriam muito saber de nós.
Tradição, aliás, que ainda hoje mantemos em família para espanto meu,
que se pudesse vivia grudada em todos,
numa alegria simples de ter pessoas a quem amar.
O meu pai sempre valorizou muito mais os amigos
do que os do próprio sangue.
A minha mãe, essa,
sempre valorizou aquilo que o meu pai mandava valorizar.

De maneira que, pelo menos para mim,
o sofrimento era menos do que pouco.
Lá acontecia que nos vestíamos de preto,
(coisa que abomino
e que agora que posso vestir o que quero,
e,o que consigo comprar,
nunca mais me aconteceu,)
e íamos de flores na mão,
prestar a última homenagem ao desconhecido que se fora.
E passar uns momentos embaraçosos
no meio dos sobreviventes que iam ficando do nosso clã tresmalhado e desavindo.

Hoje lembrei-me dos telegramas...
Lembrei-me do ar solene do meu pai quando os recebia.
Do seu rosto impassível perante a má notícia.
Da minha mãe apressada em murmurar alguma das rezas dela,
encomendando a alma do defunto,
como se a alma estivesse ali á espera do empurrãozinho da oração
para poder seguir o seu caminho.

E lembrei-me também de como eu queria
que num desses telegramas viesse uma novidade alegre!

Alegria para mim,
naquela idade de menina
eram passeios pela mão do meu pai, pelas ruas lindas a ver montras maravilhosas,
subir e descer a marginal, ver o mar turquesa unido num abraço sem fim ao céu azul,
almoçar no Dragão de Ouro e ter a praia aos pés, cheia de areia quente e dourada,
comer um gelado de bola de chocolate no Scala, e ficar com a boca lambuzada,
beber uma Coca-Cola gelada no Continental, e ter direito a escolher um bolo da vitrina,
correr e saltar nas avenidas floridas do Vasco da Gama,
jantar na Costa do Sol, ver o prateado do luar a cintilar como estrelas no mar de breu.

Alegria para mim,
naquela idade de menina,
era não precisar de ter medo.
Olhar em volta e sentir-me em segurança,
saber que tinha um lugar que era meu,
e que ia ficar comigo e em mim para sempre.
Era algo parecido com essa alegria,
que eu esperava sempre que viesse
em cada telegrama que o meu pai abria.

Nunca aconteceu!
“Mas isso agora também não interessa nada.”
Agora sou muito crescida.
Posso muito bem ir aos correios e fazer o meu próprio telegrama!
E enviar boas noticias a quem me apetecer,
até a mim própria para variar..
De repente assaltou-me a dúvida sobre
se ainda existem telegramas…
Se calhar não…
Agora há a internet…
Talvez por isso os tios e os primos velhinhos
pararam finalmente de morrer!
Não os imagino sentados em frente ao computador,
A mandar emais aos contactos de familiares…
Nem os vejo a publicar nos murais de cada um
a noticia triste de quem se foi…
Pois…

Mas seja lá como for,
Por telegrama,
Email,
no mural,
aqui mesmo no blogue,
apeteceu-me mandar uma noticia bonita e alegre a alguém.

Não me lembro assim especialmente de ninguém.
Todos de quem eu gosto e a quem eu amo,
sabem sempre que os guardo no coração.
sabem que não há dia que me não lembre deles,
até dos que estão mais distantes.
Os que me conhecem bem, têm a certeza de que os adoro.

Mas tenho um amigo novo,
muito querido e muito especial para mim,
que nos últimos dias tem enchido o meu coração de alegria,
e que talvez gostasse de receber um telegrama meu...
Assim qualquer coisa como:

Gosto muito de ti- stop
Ainda bem que apareceste na minha vida- stop
Não te vás também embora- stop
Fica por perto- stop
Tem paciência comigo- stop

Não é muito,
Nem é muito comprido,
Mas os telegramas têm que ser com poucas palavras.
Uma vez perguntei ao meu pai porquê.
Ele disse-me qualquer coisa como
“naquelas alturas as pessoas não se lembram de mais nada”,
Mas desconfio bem que fosse porque cada palavra devia ser bem cara,
e daí a necessidade de resumir.
O meu pai, coitadinho dele, sempre achou
que me protegia do mundo não me contando as verdades…
Eu sempre descobri o que queria, sozinha!
… Surpresa, papá?

Assim mando um telegrama ao meu amigo novo,
só para ele ter a certeza de que gosto muito dele,
porque ele ainda não está habituado comigo
e quero que se sinta á vontade.
Não são muitas palavras,
mas ele percebe, é um telegrama…
E é para começar…
Talvez não seja um mau começo…

Talvez um dia eu tenha mais palavras para lhe mandar.

Porque todas as histórias têm que ter um começo.
Fica muito mais bonito do que abrir o livro já a meio…
E demora mais tempo até acabar.

Never ending story?
…não sei, mas costumava acreditar…